terça-feira, 2 de julho de 2019

Resenha - Blade runner

DICK, Philip. Do androids dream of electric sheep? filmed as Blade Runner. London: Gollancz, 2017.


Estou seguindo a lista de clássicos da ficção científica e mandando ver! O da vez foi "Do androids dream of electric sheep?" também conhecido como Blade Runner! Dispensa ambientar demais a história, uma vez que o filme já faz isso de maneira muito boa. Faz muito tempo desde que o assisti nas telas (muito mesmo), então foi como se tivesse visto a história pela primeira vez.

O que me chamou atenção de cara na história, foi um cenário pós-apocalíptico onde a criação de animais era compulsória. E não somente isso, mas o estigma social que era não ter um animal. A que ponto deve chegar uma sociedade para que a conservação da natureza deva ser mandatória não somente a um nível jurídico, mas mesmo como um fato social? (eita, Durkheim!)

O livro, por ser de 1968, tem alguns clichês de filmes policiais -- que pelo menos hoje são clichês, né? Falando sobre o contexto, há um fato interessante na história. Mesmo num mundo pós-apocalíptico, não há "Os russos" e sim "The Soviets". Interessante pensar numa época em que um mundo de equilíbrio bipolar parecia tão certo que até os principais teoristas de Relações Internacionais pensavam assim.

Voltando ao livro, achei interessante como ele trabalha os personagens. Além de traços como a psique, trejeitos, estilos, etc, até sotaques são utilizados (me refiro àquela apresentadora da TV com a fala bem estranha de ler). Ah, e os personagens são interessantes do começo ao fim. Havia na minha cabeça uma expectativa de que Deckard fosse se revelar um androide lá pro final, mas não sei de onde tirei isso; talvez só tenha achado que seria uma boa sacada.


Aliás, ainda sobre personagens, Deckard tinha um dilema: como conviver com o conflito moral de ser um caçador de recompensas que tira vidas pra ganhar seu sustento? Ele respondia a isso justificando que androides não eram seres vivos. Mas depois de ver a geração dos Nexus 6, ficou titubeante. Em vários momentos do livro os androides mostram emoções fortes (raiva e amor).

E há um contraste de Deckard com John Isidore, que é alguém geneticamente danificado pela radiação e, por isso, não considerado mais tecnicamente humano; porém, mesmo assim, tem um coração de ouro e empatia por todas as coisas -- sejam animais, humanos ou androides. O que Isidore aparenta de retardo cognitivo, parece ser o que falta em Deckard quanto à empatia.

O livro todo é muito bem escrito e ambientado. O autor é esperto: usa referências de uma cidade (São Francisco, na Califórnia) que já existe pra situar o leitor. É um bom uso da intertextualidade, que já localiza o leitor sem precisar gastar tempo com isso (hoje em dia basta uma internet pra conhecer o local e os pontos de referência).

Mesmo que no final não tenha acontecido o plot twist que eu esperava, o livro é cheio de reviravoltas. Há dúvida pairando a todo momento sobre a identidade das pessoas e nunca se sabe com certeza quais serão as consequências de determinadas ações. Mesmo tendo o livro um quê de policial, as cenas de ação são curtas e simples, porque esse não é realmente o foco do livro.

Na verdade, a abordagem psicológica e o foco na realidade dura/fria lembra traços de uma literatura noir (o que também está bem próximo de alguma literatura policial). O modo como a história se desencadeia é fantástico: a ação do livro acontece toda num único dia. Uma narrativa magnânima, capacidade de ordenar e coordenar os fatos com maestria.

Vejo mais uma vez o reflexo da realidade dos grandes acontecimentos em nossas vidas: eles não são grandiosos como nos filmes (me refiro especialmente à cena de Deckard e a secretária do inspetor). Isso é bom porque, ainda que seja ficção científica, consegue trazer uma proximidade com o leitor.

Por fim, enquanto em Huxley a reflexão estava à tona, em Dick ela está submersa no simbolismo. O que basicamente este traz é uma reflexão posmoderna: todas as religiões são uma fraude; mas, se ela funciona pra você, então ela é real. [Só pra constar: até mesmo os defensores do posmodernismo já não concordam com esse tipo de flutuação absoluta do conceito de verdade].

Há algo de místico no fim do livro, o que parece minar as próprias filosofias embutidas na narrativa. Apenas cito que a religião "Mercerismo" é uma tônica importante no livro. Ainda que não esteja relacionada diretamente à trama, ela compõe boa parte do contexto da história e tem muita relevância para algumas aplicações e atitudes dos personagens (especialmente os secundários).

Novamente, só me resta recomendar a leitura do livro. Só fico um pouco triste em ver que nomes como Dick e Huxley retratam tão bem o desespero humano pelo contato com o que está além. É o "sensus divinatis" de Calvino. Fica muito evidente nas duas narrativas esse dilema com o que perpassa a condição humana e os caminhos tortuosos que o homem passa pra tentar alcançar isso. Uma triste realidade que perdura ainda hoje.

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