terça-feira, 30 de julho de 2019

Resenha - Writing fiction (II): Choosing a subject

CASSILL, R.V. Writing fiction. 2nd edition. New York: Prentice Hall Press, 1986.


Passamos, então, para as partes seguintes deste livro sensacional. Hoje trataremos sobre a questão do ASSUNTO ou TEMA (sobre o que vamos falar quando escrevemos ficção). E, sim, haverá mais resenhas sobre isto. Este livro é fantástico, maravilhoso, excelente. Aos escritores ao acaso, como eu, é leitura mais do que recomendada!


PARTE 2: ESCOLHENDO O ASSUNTO

Cassill relata que uma grande frustração sua como professor é ver alunos que têm excelentes cargas de leitura escreverem sobre assuntos tão estapafúrdios quando chega sua vez. O escritor parece colocar uma barreira entre ele mesmo e aquilo que ele conhece, optando por falar de assuntos fantásticos em vez de abordar algo com o qual ele já tenha familiaridade.

Há várias razões para isto. Uma delas é o medo de se expor. Ou pior: o medo de descobrir que, na verdade, o escritor sequer consegue falar sobre aquilo que está perto dele. Mas Cassill é veemente quanto a isso: "[...] face the fear of hidden embarassments forthrightly and take the subjects for your first stories from your own life." (p. 12)

Utilizando da própria experiência, o escritor pode coletar trechos de memórias ou ocasiões e compor uma ficção a partir disso. Isto não significa fazer uma autobiografia, mas criar uma ficção a partir daquilo com o qual você tenha mais familiaridade -- de preferência abordando ocasiões onde você era mais você mesmo: provavelmente em momentos de vulnerabilidade.

Você não precisa ter todo o assunto diante de você antes de começar a escrever. Basta ter um vislumbre dele: coloque no papel e deixe-o ser construído conforme você avança sobre ele. Esta construção se torna um processo natural em que você escolhe dentre as diversas possibilidades as que melhor se encaixam com o que você está escrevendo. No fim das contas, como diz Cassill: "[...] the act of writing is a way to possess your own life." (p. 13)

E, no fim das contas, é escrever o exercício mais necessário ao escritor. Parece óbvio, mas, também não raro, acontece da gente querer primeiro absorver um mundo de informações antes de mergulhar em alguma empreitada. Não é que devamos seguir em frente no escuro, mas é só que absorvemos muito melhor a teoria quando ela é aliada à prática: "The imagination will -- and should -- make a hundred starts for every story that is carried to completion" (p. 14)

Escolher um assunto ou tema é, claro, um ato da imaginação. Porém: "Legwork is a part of imagination. You've got to go take a look at life." (p. 15). Além disso, como Cassill já disse, a escolha em si não pode impedir a história de começar ou seguir em frente. Certamente haverá muitas dificuldades para um escritor iniciante, ainda mais se for escrever sobre um tema que lhe estiver próximo (pelas consequências dessa escrita, digo); mas vale lembrar que: "[...] the subject of your first story need not be the subject of your final masterpiece." (p. 15). Aliás, isto é verdade com praticamente todos os grandes escritores: seus primeiros livros dificilmente foram suas melhores obras.

E algo bem interessante sobre a escolha do assunto ou tema: este é apenas o começo! O escritor deve ter em mente que, depois que há tal escolha ou pelo menos direcionamento, agora é que começa o verdadeiro trabalho! Mas Cassill traz uma coisa que já vi antes em outro ramo da Arte.

Quando eu morei nos EUA, nosso regente do coral, Mr. Joseph Johnson -- ou apenas Mr. J, para íntimos --, costumava nos ensinar que: "Durante os ensaios, o coração fica morno e a mente em chamas; já durante a apresentação, a mente fica morna e o coração fica em chamas." O que ele queria dizer é: durante os ensaios, se esforcem para criar e aprender racionalmente a música para que, quando forem apresentar, isto venha de forma tão natural que vocês possam se entregar totalmente a ela.

Na literatura, que coisa interessante, a performance vem antes do ensaio. Explico: Cassill traz à tona que escrever deve ser um ato "do coração" (pra usar a analogia do Mr. J), enquanto o processo de revisão deve ser um aspecto "da mente". O escritor primeiro se entrega sobre o texto sem se preocupar com nada e apenas depois se debruça sobre ele para fazer as análises e críticas.


A escolha do tema ou assunto, afinal, é uma jornada contínua. Sempre haverá algo mais para procurar ou aprender antes de "chegar lá". Se, como escritores iniciantes (ao acaso!), somos incentivados a começar com aquilo que temos mais proximidade, quanto mais escrevemos, mais somos encorajados (ou pelo menos deveríamos ser) a nos afastarmos cada vez mais em direção ao desconhecido.
"In the long run the reward for this may only be that the writer will discover who he really is. His own identity will be clarified as his ability to write of his own experience increases. And that, I think, is a benefit none of us should scorn." (p. 18)

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