sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Resenha — A wizard of Earthsea

LE GUIN, Ursula K. A Wizard of Earthsea. New York: Bantam Books, 2004.


Esse não comprei. Meu amigo Brennan McPherson teve a bondade de me emprestar esse livro porque eu tinha acabado de terminar The catcher in the rye e não tinha nada para ler na viagem de volta. É o primeiro livro emprestado que pego em muitos anos. 

É uma história que chamaríamos de "alta fantasia". Eu não gosto muito desses termos, uso este aqui só para fins didáticos e porque me dá menos trabalho pra explicar. É um mundo onde a magia é comum, num período pré-industrial, onde magos, feiticeiros e bruxas fazem parte da dinâmica. 

Aqui acompanhamos a vida de Sparrowhawk, ou Ged (que é seu Nome Verdadeiro), na sua jornada a´te se tornar um mago. Começa como um pobre menino de um vilarejo, passa pelo ensino do seu primeiro mestre, depois abandona o primeiro mestre e decide ir para a Escola de Magia, onde seu orgulho e arrogância provam-se seus piores inimigos. O resto do livro inteiro é Ged lidando com os problemas que ele mesmo criou por causa dessa falha de caráter.

Neste ponto, a história é extremamente profunda. É uma história sobre as consequências dos nossos atos impensados, como um único deslize é capaz de mudar o curso da nossa vida inteira e nem damos atenção a isso, não raro pensando que algo assim jamais aconteceria conosco.
But need alone is not enough to set power free: there must be knowledge. (p. 9)
A história de fato tem muitos elementos que tornam o livro como um clássico do gênero. Porém, devo dizer que não foi um livro que transformou minha vida, achei-o, quando muito, "ok".

Acontece que o estilo como a história é contada foi muito cansativo pra mim. Vejo que a autora usa abordagem que muitas vezes se aproxima do mito ou do épico (tal como Tolkien faz em O Silmarillion). 

Meu problema com essa abordagem é que a leitura fica muito complicada, truncada, o ritmo não é agradável. Aliás, Várias vezes tive que voltar a frase ou o parágrafo do começo pra entender o que de fato estava sendo dito. 

Somado a isso senti falta de diálogos, ou cenas. Às vezes (digo, muitas vezes) é só narração atrás de narração. Embora os fatos narrados sejam de fato interessantes, esse "mais do mesmo" cansa. Eu não quero só que me contem uma história, eu leio livro para que me mostrem uma história. Eu não quero saber de fatos, eu quero viver as vidas dos personagens que estão no livro. E, para mim, A wizard of Earthsea peca nisso.

No fim, permaneço assim. Achei o livro bonzinho, devolverei-o com votos de agradecimento, mas sempre na consciência de que ele não ficará na minha estante. 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Resenha — The catcher in the rye

SALINGER, J. D. The catcher in the rye. Boston: Little Brown and Company, 1991.


Livro que adquiri ano passado por míseros 2 dólares. Honestamente, esse é o tipo de investimento que gosto de fazer. Uma besteirinha por algo tão grande. É até difícil explicar por que eu gostei de Catcher in the rye (O apanhador no campo de centeio, em português). Mas vamos ver o que eu consigo falar aqui.

Vamos começar falando logo do que me causou um efeito "tapa na cara" já na primeira página do livro: o estilo da narração.

Se vocês acham que meu estilo é casual ou coloquial, vocês não viram nada. Sou um iniciante, amador, uma criança perto do estilo despojado de Salinger. Tá certo que a narração é em primeira pessoa, o que justifica bastante, mas, ainda assim. O uso de maneirismos e a constante repetição de palavras, fazem a gente sentir como se o narrador-personagem estivesse conversando com a gente no muro de casa.
Girls. Jesus Christ. They can drive you crazy. They really can. (p. 73)
Além do estilo em si, vi o uso de alguns efeitos de escrita sensacionais, como o uso brilhante do itálico como nunca tinha visto antes. 

Usamos o itálico para enfatizar uma palavra de maneira discreta, mas dando peso a ela na narração: "Ela disse isso" é diferente de "Ela disse isso". O que Salinger fez aqui foi usar o itálico não na palavra, mas na sílaba que ele quer enfatizar. Em vez de dizer "anything", ele diz "anything", desse jeito mesmo, com metade da palavra sem itálico. É louco e brilhante, porque traduz exatamente como o narrador pronuncia a palavra.   

Agora, quanto à história em si, é interessante dizer que, conforme eu estava lendo, me dei conta que não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. Na verdade, a impressão que tive é que não estava acontecendo nada. Só no capítulo 5 e 6 é que parece haver alguns eventos que desdobram a trama. O estranho é que eu já havia sido fisgado antes disso. O que foi que me prendeu?

Chego no final e entendo melhor o que está me prendendo. É que Salinger é um tipo de Dostoiévski norteamericano. Ele fala, em suma, de um personagem doente, instável que ironicamente está enojado pela natureza humana. Um personagem problemático que, ao mesmo tempo, parece muito consciente de si mesmo e cego.

Este é o grande tema do livro, penso eu. Nós acompanhamos Holden Caulfield, um adolescente de 17 anos que foi expulso da escola. Holden, de uma família abastada, não quer voltar pra casa, então acompanhamos ele num fim de semana em Nova York dos anos 1940, com direito a bebidas, cigarro e prostituição. Tudo de pior que aquele mundo tinha para oferecer. 

Essa desilusão com a condição humana é algo que passa pela narrativa perturbada de Holden o tempo todo. E vemos o constante embate das duras realidades que ele aponta com as ironias do seu próprio comportamento e forma de pensar.
The best thing, though, in that museum was that everything always stayed right where it was. Nobody'd move [...]. Nobody'd be different. The only thing that would be different would be you. (p. 121)
Consigo ver como esse livro pode ser bem desagradável para algumas pessoas, especialmente aquelas que não curtam um estilo mais despojado de narração. O narrador constantemente faz digressões, mas nelas traz outros temas à tona que depois passa a aplicar na situação em que se encontra. 

Honestamente, o livro permanecerá na minha estante não só porque é bom e eu gostei, mas também porque consigo sentir que há ainda mais camadas, mais significados que Salinger colocou ali e eu talvez não tenha conseguido captar. 

Em suma, que livro sensacional.

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Resenha — Bag of bones

KING, Stephen. Bag of bones. New York: Scribner, 1998.


E começamos 2024. 
Bag of bones ("Saco de ossos" em Português) é uma obra de Stephen King. Pronto, só de falar o autor já dei pistas o suficiente. Nela acompanhamos a história do escritor Michael Noonan, que logo no começo do livro perde sua esposa Jo, e acaba se mudando pra sua casa de campo, tentando entender a causa dos seus pesadelos constantes e mistérios envolvendo sua esposa.

Sobre a narrativa do livro, tenho duas observações, uma boa e uma ruim. A boa é que Stephen King não é um grande escritor à toa, ele realmente sabe o que está fazendo. A história é bem narrada porque consegue engajar a gente na leitura e ficamos sempre querendo continuar, querendo saber o que vem depois.

Por outro lado, não gosto de quanto King demora entre uma fala e outra. Várias vezes dá vontade de pular e só seguir com o diálogo. É como assitir um filme com alguém comentando cada cena que acontece, fica um saco. Isso sem falar das várias referências que ele faz; são tantas que me pergunto se 20 anos depois (considerando que a obra foi escrita em 1998) elas mais ajudam ou atrapalham a leitura.
Not every thirst should be slaked. Some things are just wrong [...] (p. 340)
Stephen King é conhecido por ser um escritor do gênero terror e, de fato, no começo do livro tem alguns elementos que dão medo. Os pesadelos do personagem principal, fatos estranhos que acontecem ao redor dele, menções a coisas que parecem não fazer sentido mas que prendem nossa atenção... Porém, isso infelizmente logo passa.

Na metade do livro parei de me assustar, porque o herói parou de se assustar também. Se ninguém corre perigo, não há necessidade de ter medo. Como o personagem simplesmente se acostumou com as "manifestações" que ocorrem na sua casa de campo, não dá nem nervoso, fica quase chato. Ou seja, é um livro de terror... que não dá medo.

E confesso que me irritei em alguns momentos com problemas de verossimilhança. Vou citar só dois. O primeiro é que acho meio absurdo como King traz alguns fatos aterrorizantes (o cara acordar e ver no gravador que ficou ligado a noite que uma mulher falou o nome dele — sendo que ele tava sozinho numa casa) e depois simplesmente ignora. Ah aconteceu isso foi? Então, aí no dia seguinte ele foi passear à beira do lago ......ôsh?!

Além disso, tem coisa que só acontece em livro mesmo. Olha só. A mulher do cara morre. Ele começa a ter pesadelos com a casa de campo deles. Em um desses pesadelos ele sonha que tem um corte na mão, quando acorda o corte está lá. Ele sonha que tem três girassois bem na frente da casa, aí quando mostram uma foto dele, lá estão três girassois aleatórios. Ou seja, vários sinais de coisa ruim. 

Aí o que ele decide fazer? "Sabe de uma coisa, vou lá pra minha casa de campo!". AFF! É igualzinho aqueles filmes de terror que claramente tem alguma coisa assustadora e perigosa do lado de fora e o personagem sai com uma lanterninha dizendo "Tem alguém aí?". Faça-me o favor. Nessas horas eu fico é torcendo pro personagem morrer, pra largar de ser burro.
[...] any good marriage is a secret territory, a necessary white space on society's map. (p. 90)
Apesar dessa ruptura (livro de terror que não dá medo), a história tem um elemento redentor que pra mim a torna muito relevante: família

O livro conta a história de um homem que perdeu sua família, que procura uma nova família, que faz de tudo para salvar sua família. É por isso que — vejam só — em determinado momento minha esposa me pegou chorando ao ler o livro. Pois é, me emocionei lendo um livro de terror. 

Apesar de todos os poréns, há beleza na história. King realmente sabe nos cativar e ele faz isso de dois ângulos: curiosidade e esperança. Nós ficamos curiosos: "O que será que tem na casa?", "Quem será que fez/falou aquilo?", "Por que personagem X está se comportando assim?". E também esperançosos: "Espero que ele consiga falar com ela", "Olha como ele está feliz, espero que ele consiga alcançar esse objetivo." 

Em suma, como já disse, King não é um grande autor à toa. Ele sabe o que está fazendo. Embora Bag of bones não seja pra mim o suprassumo da sua literatura, ainda é um livro que me divertiu e até fez eu me emocionar. Por enquanto, permanece na minha estante. Curti.

domingo, 31 de dezembro de 2023

2023: o resumo da ópera

Desde que comecei esse blog, é padrão que no dia 31 de Dezembro eu faça uma retrospectiva do ano. O que li? O que escrevi? Como foi a literatura na minha vida nesse ano? Em suma, olhamos para trás e fazemos o resumo da ópera.

Não encontrei nenhuma foto boa, então fiquem com essa gerada por I.A.


1. Livros resenhados

2023 não foi um ano forte para a literatura, pelo menos não em comparação com os anos anteriores. Na verdade isso é difícil de avaliar, por que esse ano fiz um cirurgia que me tirou da jogada por umas semanas (embora verdade seja dita eu poderia ter lido mais); e estive viajando bastante por conta de um tratamento da minha esposa. É claro, porém, que isto não passa de desculpas. 
Nesse ponto da retrospectiva, eu tento eleger a melhor leitura do ano. Olhando para a tabela, certamente Julho foi o mês com maior aproveitamento, absolutamente todos os livros daquele mês foram sensacionais. Pra mim é muito difícil escolher o melhor. Vou fazer um esforço hercúleo e destacar três (sem ordem específica): 2) Drácula, 14) Daniel; e 18) Elantris — com uma menção honrosa para 16) Ponte para Terabítia, que só de ler o título me deu uma facada no coração.

Avaliando a quantidade de livros lidos, foi o meu pior ano em meia década. Os números falam por si, mas destaco novamente as cirurgias e tratamentos médicos, além de algumas mudanças drásticas em questão de emprego e planos para o futuro.

2018: 27 livros
2019: 37 livros
2020: 40 livros
2021: 21 livros
2022: 35 livros
2023: 20 livros

Em suma, foi meio bosta, mas gostei de muito do que li. Pelo menos esse ano coloquei os links na tabela de restrospectiva caso alguém (ninguém) queira clicar e ver o que achei do livro. Acho também que foi uma boa pedida eu me dar o direito de não ler. Muita gente acha que "liberdade" é a capacidade de fazer tudo o que se quer; mas "liberdade" só pode existir se eu for capaz do não-fazer também.


2. Concursos literários e produções

Dessa vez tive uma abordagem totalmente diferente e comecei o ano com a decisão de não mandar mais nada pra concursos literários. Mantive-me firme até Junho, quando a revista Égua Literária me convidou para escrever um conto em homenagem ao aniversário de Boa Vista. 

Apesar do convite, continuei parcimonioso e enviei poucos textos esse ano, bem menos do que anos anteriores. A pergunta que surge é: por quê? Honestamente, acho que foi o cansaço. Eu quero descansar. Quero ter o direito do não-fazer. Quero deitar na minha rede e olhar para o teto, ouvir o som do ipê farfalhando, dos passarinhos cantando, ligar o ar-condicionado e me embalar de leve. A vida não precisa ser tão pesada, precisa?

Clique em cima para ver melhor
Aqui a coisa é muito fácil de ver: foram 10 envios e 4 aceites. Isso torna os cálculos bem mais fáceis: 40% de aproveitamento, o que é, descaradamente, o melhor aproveitamento de toda minha história liteária (que não é grande coisa):

2018: 18 textos enviados, 4 aprovados → 22% de aproveitamento
2019: 17 textos enviados, 4 aprovados → 23% de aproveitamento
2020: 18 textos enviados, 6 aprovados → 33% de aproveitamento
2021: 35 textos enviados, 6 aprovados → 17% de aproveitamento
2022: 46 textos enviados, 7 aprovados → 15% de aproveitamento
2023: 10 textos enviados, 4 aprovados → 40% de aproveitamento

Retomo aqui um argumento que usei no ano passado: o que esses número significam? A resposta é muito simples: porcaria nenhuma. São números. Em termos de currículo literário, é legal ter publicações para listar; em termos da vida real, ninguém liga pro quanto você publicou, o que importa é que sua obra seja boa e — o mais difícil — que você venda.

Por outro lado, esses números deram origem ao gráfico mais fácil de entender de toda a minha vida:

Cor "tijolo claro": não's
Cor "verde limão": sim's
(essas são as cores do office, não me julguem)

Agora, tem algo digno de nota em toda essa história de publicações. Desde que comecei a escrever em 2016, tudo que fiz foram contos e alguns poemas. Todos os meus livros publicados até hoje são de contos: tanto Personagens não bíblicos e suas histórias como Outros personagens... são antologias de ficção cristã, e ambos É a vida e Pois é são antologias de microcontos variados. 

A significância disso se dá porque em 2023 escrevi meu primeiro romance: Coisas da vida. Uma obra que conta a história de Luan, um jovem roraimense que sonha em passar no vestibular da UFRR, mas, para isso, tem que lidar com as coisas da vida: trabalho, relacionamentos, dificuldades financeiras, ilusões e sonhos. 

Escrevi Coisas da vida em 24 dias (um dia para cada capítulo), submeti-o para publicação num concurso da Editora da UFRR e, ora ora vejam só, ele foi aceito! Significa que já temos aí escrito e no prelo meu próximo livro. Não qualquer livro, meu primeiro romance. 

(P.S.: em Dezembro de 2023 lancei meu livrinho Pois é e outros microcontos. Não é nada do outro mundo, mas fica aqui o registro).


#O resumo da ópera
  • Livros lidos: 20
  • Textos escritos: sabe Deus, mas acho que não foi nem 10, porque vários desses que enviei já estavam guardados na gaveta, foi só questão de enviar
  • Textos enviados pra concursos literários: 10
  • Textos aprovados: 4
É digno de nota que na minha retrospectiva do ano passado (disponível AQUI), eu falei que em 2023 escreveria meu primeiro romance. Honestamente fiz essa resolução ano passado como quem faz resolução de fim de ano: no ímpeto, sem planejamento ou certeza nenhuma de que vai dar certo. 

Mas cá estou eu surpreso com meu primeiro romance. Dei uma lida nele recentemente ao fazer a revisão e, olha, diria que é um livro bonzinho para um escritor iniciante. O livro tem seus momentos. Tenho boas esperanças para ele como ficção regionalista, acho que não houve ainda nada igual a ele em termos de ficção escrita para boavistenses. Mas, sejamos honestos, o escritor que nunca achou que escreveu algo "único" que atire a primeira pedra.

Ainda não me sinto descansado o suficiente para dizer o que farei em 2024. Algo em mim quer dizer que vou escrever outro romance; mas, sinceramente, não sei se tenho pique para isso. Hoje o plano que me anima é, quem sabe, conseguir um agente literário. Isso me deixaria mais livre para de fato escrever e não ficar me tolindo porque não sei qual será o futuro dos meus livros. Aliás, a ideia de agente literário fica mais sólida na minha cabeça quando penso em traduzir meus dois primeiros livros e publicá-los em inglês, onde há um mercado bem maior para ficção cristã.

Em suma: planos, meus caros, planos. 
Amanhã 2024 já chegou. 
Então tá bom.

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Resenha — I, Robot

ASIMOV, Isaac. I, Robot. New York: Bantam Books, 1991.


Esse é da categoria de livros que eu encontrei por aí a um valor tão acessível que não tive escolha se não levar, ainda mais sendo Asimov. O mestre da ficção científica não tem esse título à toa e eu já sabia que seria bom. O lance é que (desculpem-me a ignorância) eu achei que o livro era igual o filme. Então foi uma quebra de expectativa ver que não é nadinha igual. 

Enquanto no filme acompanhamos Will Smith como um detetive que investiga um robô, no livro nós temos um repórter entrevistando a Drª. Susan Calvin, autoridade mundial em robopsicologia. Ela está no fim da carreira e o repórter está fazendo um documentário sobre sua vida. Isso serve como pano de fundo para ela contar histórias da robótica.

O livro então funciona como uma série de contos, conectados pela experiência da Drª. Calvin. O autor usa isso pra contar a história da robótica naquele mundo, começando com robôs bem mecânicos que executavam apenas funções simples, até terminar nas Máquinas, capazes de direcionar a história da humanidade.

O ponto chave de todas as histórias são as leis da robótica:
1. Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2. Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que entrem em conflito com a Primeira Lei.
3. Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.
Em certa medida, todos os contos exploram essas leis e os limites ético-racionais delas na atividade dos robôs e dos seus relacionamentos com seres humanos. O autor propõe não somente histórias interessantes, mas reflexões bem profundas sobre os limites da própria robótica. Interessante notar que ele não soa fatalista quanto ao tema, ressaltando bem a necessidade do ser humano:
These reactionaries of the Society claim the Machine robs man of his soul. I notice that capable men are still at a premium in our society; we still need the man who is intelligent enough to think of the proper questions to ask. (p. 265)
Das histórias, fiquei bem impressionado com uma em que o robô desenvolve uma personalidade quase religiosa, enquanto dois homens estão presos com ele numa estação em Marte. Também achei  interessantes as aplicações da história onde, por acidente, um robô é construído com capacidade de ler pensamentos.

No fim, se pensarmos no contexto em que o livro foi escrito, há 70 anos passados, Asimov se mostra absolutamente revolucionário e até hoje suas histórias tem ecos interessantes, mesmo para uma sociedade já informatizada como a nossa.

Certamente o famoso "Eu, Robô" não é um livro que vai mudar minha vida, mas com certeza faz pensar. Não vejo motivo para me desfazer dele. Quem sabe o que eu ainda vou aprender com Asimov daqui a uns 20 anos, quando o futuro for tão diferente?

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Resenha — Lá onde o coração faz a curva

GAROFALO, Emílio. Lá onde o vento faz a curva. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil; São Paulo: The Pilgrim, 2021.

Esse é um livro que me traz sentimentos bem conflitantes. O autor é cristão e incentiva a ficção cristã no Brasil. A obra dele veio depois da minha, mas como ele já é um pastor bem conhecido no meio, os livros dele decolaram e os meus ficaram pra sempre engavetados. É difícil se ver nessa situação.

O livro conta a história de uma viagem de carro feita entre pai e filho. Trata-se de um conto divido em capítulos. A história está mais próxima de ser um relato de viagem do que um conto em si. Isso não significa que não haja alguns momentos que emocionam, só quero dizer que tudo é muito resumido, havia espaço para que a coisa fosse melhor trabalhada.

Pra mim esse é o grande defeito do livro: tinha muito mais potencial. Em vez de simplesmente informar o leitor dos fatos, o autor poderia ter gastado mais algumas linhas ou parágrafos desenrolando cenas. Em vez de dizer que o pai estava triste com alguma coisa que o filho fez, ele poderia ter desenvolvido a cena e deixado o próprio leitor chegar nessa conclusão. Trata-se de um livreto com bastante potencial, mas que foi mal explorado.

É chato falar isso, porque fica parecendo que é má vontade minha; mas trago apenas a verdade. E, admito, sinto um pouco de inveja de esse livro ter sido publicado e estar rodando o Brasil e o meu não.

domingo, 29 de outubro de 2023

Resenha — Elantris

SANDERSON, Brandon. Elantris. New York: Tor, 2005.


Faz muito, MUITO tempo que eu não lia uma obra de fantasia tão bom. Meu Deus, acho que mal consigo lembrar qual foi a última que me fez ficar vidrado assim. Talvez o "Trílio Dourado"? Olha, difícil. Mas vamos à resenha.

Deixa eu começar falando o que achei de ruim nesse livro: ali perto do final, o enredo dá duas ou três forçadas de barra que ficaram bem aparentes. O livro tem algumas forçadas de roteiro, talvez em alguns momentos a narração seja explicativa demais. Porém esse é um dos pontos comuns aos livros de fantasia que a gente deixa passar porque a descrição várias vezes é necessária pra gente se ambientar adequadamente ao mundo proposto. Pronto. São essas as coisas ruins.
Truth can never be defeated, Sarene. Even if people do forget about it occasionally. (p. 246)
Falando em mundo, se um dia eu escrever um livro de fantasia, quero fazer igual Sanderson fez: não-enciclopédico. Acontece que muitos autores são tão fascinados com a criação de mundos que esquecem de contar uma boa história. Vários autores de fantasia imaginam que seu mundo tão bem criado, tão bem estruturado, será suficiente para prender o leitor e fazê-lo querer ir até o fim. 

Mas, a verdade, é que não são mundos que nos encantam, são histórias. E é isso que o autor faz. Ele tem um mundo de fato muito fascinante, mas ele não fala do mundo, ele fala da sua história e, por meio dela, vai revelando seu mundo. 

Faz muito, muito tempo que não vejo alguém escrever uma fantasia tão bem assim até os nomes estranhos que ele cria se tornam naturais, porque estão inseridos na história, e não numa enciclopédia sobre o mundo. Até os nomes estranhos que ele cria se tornam naturais, porque estão inseridos na história, e não numa enciclopédia sobre o mundo de Opelon.

Como já falei, o livro se propõe a contar uma história. É uma clássica jornada do herói, com três núcleos diferentes: Raoden (o príncipe tomado pelo Shaod), Sarene (a princesa audaz), e Hrathen (o sacerdote ambíguo). Todos esses núcleos são complementares e não há nada no livro que não tenha sido utilizado, o autor usou a regra da espingarda de Tchekhov à risca.

Elantris é o nome da cidade onde habitavam seres poderosos, os Elantrianos, até o dia em que a cidade misteriosamente foi tomada por uma maldição, o Shaod, e os elantrianos passaram de semideuses a seres amaldiçoados a viver quase como mortos-vivos, sem entender o porquê de terem perdido sua magia e sua aparência formosa.

O autor me surpreendeu em envolver muito bem a religião na sua narrativa. Não se trata de nenhuma religião do nosso mundo, mas algo que ele criou e soma-se muito bem não só à teia de acontecimentos como também ao próprio folclore do mundo, integrando religião e política de uma maneira até bem natural.

Vale também um salve para o sistema de magia criado pelo autor. Eu sou fã inveterado de sistemas rígidos de magia, que obedecem a uma ordem lógica e que não são apenas efeitos especiais ou resoluções automáticas de problemas.
Raoden nodded, and Kahar left. The man had come looking for a magical solution to his woes, but he had found an answer much more simple. Pain lost its power when other things became more important. Kahar didn't need a potion or an Aon to save him — he just needed something to do. (p. 217)
Fiquei muito surpreso ao descobrir que este fora o primeiro livro publicado pelo autor. Demonstra uma maturidade que eu mesmo sei que não tenho ainda. O livro é sólido, é aquilo que todo leitor quer e pede toda vez que abre as páginas de um livro: uma boa história.

Não que isso valha alguma coisa, mas Brandon Sanderson conquistou seu lugar na minha estante.