quarta-feira, 26 de junho de 2019

Resenha - Brave New World

HUXLEY, Aldous. Brave New World. New York: Perennial Classics, 2006.


Antes de tudo, preciso confessar: foi a primeira vez que li esse livro. Logo eu, que me considero um grande fã de ficção científica e fantasia. Mas antes tarde do que nunca, né? E, olha, que livro absurdamente fantástico. Talvez não pela história em si, apenas; mas também pelo contexto no qual ela está inserida e as reflexões que ela traz à tona.

Num mundo onde tudo é industrializado e condicionado (até mesmo a produção de novos seres humanos), onde tudo é voltado para a Sociedade e o Bem Comum, Bernard Marx e Helmholtz percebem, estranhamente, que há algo diferente neles, uma certa... individualidade. Mas isso é um ultraje! A história se desenvolve nesta dicotomia entre o pertencer ao todo e a unidade.

Chega ao extremo quando eles conhecem John, o Selvagem (tem esse nome porque morava numa Reserva Indígena, fora dos confins da "civilização"), que, por sua vez, também não está nem perto de se conformar aos moldes da Sociedade. Quando percebi que o contexto era um sistema, logo desconfiei que a história seria sobre desvirtuar o sistema de alguma forma. Em algum lugar teria surgido uma engrenagem que não se encaixava direito e questionaria o sistema. Acertei na mosca.

Ainda sobre o sistema: enquanto é uma crítica direta à homogeneização da sociedade (falarei disso mais à frente), os condicionamentos sociais das classes, tal como descrito no livro, traz uma reflexão interessante: contentar-se com quem você é. Lenina estava grata por ser uma Alfa e não ter que lidar com um Épsilon. Mas, ao mesmo tempo, um Épsilon era grato por ser um Épsilon e não ser um Alfa. O problema aqui é o mesmo de sempre: extremos. Não é ruim ser feliz com quem você é. O problema é mover-se para o extremo desse espectro e se acomodar.

Sobre a homogeneização da sociedade: o livro é de 1932 e precisa ser inserido no seu contexto. Comunismo bombando na Rússia e sendo considerado (até mesmo por muitos americanos) o próximo passo na evolução da humanidade. Ainda sobre a contextualização do livro, o autor escreveu isso antes da maquinização em massa da indústria, logo, a produção industrial em larga escala na história ainda ocorria com o trabalho humano. 

Algo que é importante ressaltar: o temor da homogeneização sempre foi presente. Se lembrarmos da resenha que fiz sobre "Os Irmãos Karamázovi", podemos lembrar que ali identificamos temas contemporâneos ao final do século XIX mas que ainda são marcas da sociedade hoje! Coisas que não são fruto de uma tecnologização da vida, mas fruto da própria condição humana.

Na antiutopia de Huxley, há a figura de um Estado Mundial, que controla e coordena todos os processos internos ("controle" é uma palavra chave). A liberdade do indivíduo é reduzida a quase nada dentro do poder dos órgãos reguladores. Presumo eu que, há quem leia isso, e diga que a globalização está fazendo o mundo caminhar nesta direção. Eu não poderia discordar mais.

Conquanto haja algumas tendências homogeneizantes na sociedade a nível internacional, ao mesmo tempo este movimento tende a heterogeneidade como mecanismo de autopreservação de muitas culturas. Daí estarmos em tempos de exacerbados xenofobismos, constantes autoafirmações patrióticas e defesa de interesses nacionais em contraste com tendências internacionais. Se por um lado caminhamos para um processo homogeneizante, tanto mais vemos movimento heterogêneos despontado a torto e à direita.

Saindo um pouco do analista de Relações Internacionais (kkkkk, desculpa o arroubo, gente), voltamos pro livro e digo que achei bem interessante o estilo dele. O trocar de cenas abruptamente me deixou meio perdido no começo, mas depois ficou perfeito com o ritmo do livro. Pelo que percebi, foi uma técnica pra apresentar bastante conteúdo e situar o leitor no contexto sem fazer tanto infodumping.

Como falei, essas frases curtas, trocas abruptas de cenários e personagens dão uma dinâmica interessante pro livro. Na minha ignorância literária, penso eu que o livro tem claras marcas de um movimento modernista. Com estruturas diferentes e abordagens ousadas. Um "porém", porém: acho às vezes a descrição um pouco supérflua. Vejo listagem de objetos que, a meu ver, não contribuem, apenas ocupam espaço.

Por outro lado, em alguns momentos, essas descrições longas são perfeitas para a cena (falo aqui especificamente do último parágrafo do livro). E falando em cenas, achei muito boa a quebra de expectativas em vários momentos da narrativa, assim como acontece no mundo real. Não existe cena perfeita no mundo real, sempre tem outras coisas acontecendo. E isso penso que Huxley abordou com maestria na cena do Hospital.

Houve várias cenas que achei bem impactantes e muito bem escritas. Poderia destacar vários aspectos em todas elas, mas optei por citar uma em que Bernard Marx conversava com Helmholtz sobre as coisas que eles têm percebido em relação à individualidade. Helmholtz (que é colunista em um jornal e professor numa universidade) reclama sobre o que escreve, porque tudo é regulado. Eis o diálogo: 
"But your things are good, Helmholtz."
"Oh, as far as they go." Helmholtz shrugged his shoulders. "But they go such a little way. They aren't important enough, somehow. I feel I could do something much more important." (69-70)
Isso me marcou bastante porque é exatamente assim que eu me sinto em relação à música. O que eu escrevo pode até ser bom, mas até onde vai? O que vale é a obra em si ou até onde ela alcança? São perguntas interessantes pra se discutir. Creio que uma não invalida a outra (uma vez que há extremos de obras muito boas que nunca se tornam conhecidas e obras que são extremamente conhecidas mas são péssimas), mas que é ainda muito frustrante quando uma se sobrepõe à outra.

Reservo aqui só este pequeno parágrafo pra falar do que já comentei no vídeo. Os personagens querem ter o direito de fazer aquilo que não é socialmente aceito: querem ficar a sós, querem ter o direito de contemplar a beleza da natureza, querem ter o direito de resistir a seus impulsos. O que eles querem, no fundo, é ter o direito de ser como Cristo. É ter a liberdade de não fazer as coisas que o pecado nos escraviza a fazer. Essa é a verdadeira liberdade.

Ao final se revela o autor. Um filósofo com grandes questões sobre a humanidade (falo do diálogo final entre o Selvagem e o Controlador). E, pelo menos neste ponto, acho-o muito parecido com Dostoiévski; especialmente pelos personagens doentes com a condição humana e as mazelas e os traumas pelos quais eles passam. Huxley navega entre filosofia, misticismo, Deus e grandes temas (felicidade). Como falei, parece um Dostoiévski, porém ainda mais perdido.

Huxley erudição de alto calibre. Shakespeare e Mozart estão presentes, o primeiro, é claro, com mais ênfase (está até no título!). No fundo, porém, Huxley era apenas mais um ser humano tentando desesperadamente agarrar aquilo que não conseguia compreender. Ele disse:
"Anything for a quiet life. We've gone on controlling ever since. It hasn't been very good for truth, of course. But it's been very good for happyness." (228)
Pobre Huxley. Não há dicotomia entre verdade e felicidade. Ambas podem coexistir e se complementar. Na verdade, uma depende da outra. Talvez muitos discordem dessa afirmativa, mas o que penso é que, na verdade, só precisamos deixar mais claro o que queremos dizer com "verdade" ou "felicidade". Mas isto já é assunto para outra discussão.

Recomendo demais a leitura deste livro. Depois de lido, me procurem, vamos conversar mais.

2 comentários:

Vitor de Araújo disse...

Um dos meus livros favoritos. Volto aqui quando reler, mas já saio com a percepção de que nossos pontos de vista sobre a obra são opostos. Pode ser uma conversa interessante!

Gabriel Alencar disse...

@Vitor de Araújo, obrigado pelo comentário! Tenho certeza que renderá uma boa conversa deveras! Fico no aguardo.

Postar um comentário