quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Definha, o pobre

Dia 2.
Eu olho pra ele com carinho. Meu sorriso não está apenas nos meus lábios, está nos meus olhos. Oh! Como eu deveria ter apreciado melhor cada momento em que estive perto dele. Momentos preciosos que não voltam mais…

Dia 4. 
Infelizmente vejo o começo do fim, eu já sei o que vai acontecer, eles já me disseram. Limito-me a tentar aproveitar o pouco tempo que nos resta da melhor forma possível.

Dia 5.
Hoje foi um dia difícil pra ele, percebo que foi muito afetado, não está mais o mesmo de apenas há três dias. Eu tento descontrair, mas ele não tem mais condições de ficar saindo. Prefere ficar em casa, aproveitar a tranquilidade, as coisas simples da vida.

Dia 7.
Definha, o pobre. Mas eu olho pra trás e vejo que ele fez tudo que deveria ter feito. É, pra isso eu tenho que tirar o chapéu: ele deu conta do recado. Propunha-se a fazer algo? Cumpria. Fazia planos? Executava-os (na medida do possível, claro). Ele deveria se orgulhar do tanto que conseguiu fazer (e quanta coisa foi!), mesmo em sua condição.

Dia 10.
Hoje é o dia derradeiro. Oh! Mas foi tão rápido! Que triste agonia! A partir de hoje ele terá apenas uma sobrevida… Eu o contemplo num misto de orgulhosa e pesarosa. Eu queria muito, muito (ah! Como eu queria!) passar mais tempo com ele. Mas este é o grande destino da vida: o fim. Quem sou eu para alterar a fatalidade? Como poderia eu alterar o curso natural de tudo o que existe nesta terra? Agora as lágrimas querem me visitar, mas não quero chorar…. Devo contentar-me com o fato acontecido, devo aprender com o que passou para construir algo melhor no meu futuro. No fundo, eu sei que depende de mim. Mas… as vezes é tão difícil. Tão complicado, tão… tão… Ai… não sei direito, será que no fundo depende mesmo de mim? Será que sou capaz de (nem que seja) influenciar (pelo menos um pouco) este curso de eventos para que este fim não seja tão cruel, tão fatal… Ah! Algo me diz que é possível sim… Mas agora não há mais o que ser feito, terei que esperar uma nova oportunidade… Sim, porque sei que novas oportunidades virão, sei que, quando elas então chegarem, eu estarei pronta para mudar o que for possível e mudar o rumo das coisas (será?). Sim… Mas… Por hoje, só me resta entristecer-me, em vê-lo quase acabado, quase destituído de tudo o que era, sim, a terrível sobrevida que ele terá que viver daqui pra frente. Não quero soar pesarosa demais, nem tão melodramática, então, digo-te as simples palavras que me vêm ao coração:

Adeus, salário.


Conto publicado na 13ª edição da Revista Literalivre, disponível aqui.

2 comentários:

Iris disse...

Vi na Revista Literalivre...um dos melhores que li, ri demais! FODA!

Gabriel Alencar disse...

Uau! Muitíssimo obrigado! Suas palavras são o melhor incentivo de todos!

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