quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Crônicas do cotidiano - IV

O que falta, em grande parte, é sempre o componente humano. Falta em nossas análises, falta em nossos pensamentos, falta nas nossas atitudes, falta em ateus e cristãos, falta em direita e esquerda, falta em nós mesmos.

A gente olha as situações e pensa que elas formam tudo que somos porque, em grande parte, nos deixamos levar apenas por elas e não olhamos além. Foi exatamente o que percebi no texto anterior.

Um lugar é muito mais do que seus pontos turísticos ou o espaço físico. Quando morei nos EUA, havia uma máxima que me era verdade: "Home is wherever I make music", ou em tradução livre, "Onde quer que eu faça música: este é meu lar".

Já faz alguns anos que o espaço físico é diferente para a nossa geração como era pros nossos pais ou avós. Hoje me comunico além das fronteiras físicas diariamente: leio notícias escritas em Brasília, vejo filmes feitos nos EUA, leio livros escritos na Europa, visto roupas das mais diferentes nacionalidades. Não prego um globalismo utópico, mas sim que o espaço físico não pode mais ser encarado da mesma forma que antes.

Dito isto, reforço: uma cidade é muito mais que seu espaço físico. Espero que essa crônica não soe como um pedido de desculpas, porque, infelizmente, não me retrato do que disse anteriormente e creio ser verdade. Preciso defender a verdade. Mas o que quero destacar é que ainda que a Manaus física me tenha causado ojeriza, a Manaus humana é bem diferente.

Minha mãe é de Manaus e boa parte da família ainda está por lá. A história da minha infância era entrar num carro com minha irmã e sermos levados pelos meus pais para as festas de fim de ano em Manaus. Tradição esta que cultivo até hoje, na medida do possível.

O problema é que quando a gente é criança, tudo é entediante. Visitar os tios, os avós, os parentes indiretos que nem sabem seu nome, passar o dia num ambiente sem nenhuma outra criança. Argh, a epítome do tédio. Foi só depois de adulto (eita, sou adulto?) que passei a realmente apreciar o contato com meus avós.

Mas antes de entrar nisso, explico que foi só quando passei a ter amigos em Manaus que a cidade mudou um pouco. Em 2013 ganhei uma bolsa de estudos pra Espanha (Top Espanha) e conheci gente de todo o Brasil, inclusive alguns de Manaus. Terminado o intercâmbio, muitos de nós ainda mantivemos contato e nos encontramos em Manaus quando eu ia visitar.

Como disse, foi a primeira vez que passei a enxergar a cidade com outros olhos. Havia algo de diferente, havia risadas, compartilhar de histórias, lembranças cômicas e tristes, projetos e sonhos. Nem parecia mais uma cidade distante ou passeio, era algo quase... familiar. Era diferente, mas só era diferente por causa deles. Eram as pessoas que faziam a diferença.

O povo de Manaus é acolhedor, não nego. Parece impossível visitar alguém rapidinho. Tem que entrar, sentar, jogar conversa fora, rir, falar besteira. E isso é muito bom! É bom fugir da lógica eletrizante do dia a dia e lembrar do acolhimento intimista que hoje faz tanta falta ao ser humano.

Mas voltando aos meus avós. Eles moram num lugar que, por falta de palavra melhor, denominamos Curral (risos). Ali há toda uma parentada morando junta numa espécie de vila amorfa, com casas espalhadas e amontoadas, que englobam desde a geração da década de 1930 (meus avós) até crianças dos anos 2010.

O lugar me pareceu, desde sempre, um foco de dramas familiares. Como todo mundo sabe, o contato prolongado entre pessoas gera vínculos muito fortes, mas também gera possibilidade para muitos atritos. Sempre foi confusão, parente falando mal de parente, parente fazendo inveja pra parente, uma fofocaiada doida de tudo e de todos. (Deus me ajude com o excesso de verdades!).

Não digo que não há espaço pra termos um contato interessante ali. Quando eu era criança, havia oportunidade de encontramos uns primos sem nome ali e brincarmos. Mas como esse contato se resumia a uns poucos dias no final de cada ano, quando eu voltava eles já não estavam lá, ou tinham outros planos, ou então fazia tanto tempo desde que nos falamos que já éramos desconhecidos de novo. O contato com tios e tios-avós era tão raro que lembro o nome de bem poucos. Aliás, qual a minha surpresa ao saber (isso já anos depois) que ali morava meu bisavô, um velhinho que vi quando criança, cego e sentado numa cadeira de balanço, cujo nome não lembro e a fisionomia me parece ser mais uma caricatura do que uma lembrança real.

Um espaço como esse era pra ser recheado de histórias e tradição. Mas esses valores não são cultivados ali. Não estou denegrindo, apenas falando a verdade. As pessoas ali vivem olhando para o presente e o futuro, e eu posso respeitar isso. Ali, o passado é rememorado na forma de anedotas, causos ou dramas. Até hoje não conheço direito a história daquele lugar, a não ser que foi uma fazenda em tempos remotos (início do século XX ou antes?) e que depois se transformou em lotes que abriga boa parte da família até hoje. Mas é aqui que entra o componente humano, somado a algo que disse na crônica anterior: a nossa própria iniciativa.

Anos e anos atrás, sei lá, há uns 10 anos, eu fui tomado por um ímpeto histórico de registrar a história da minha família por parte de mãe, a família Araújo de Souza. Por parte de pai, a família Alencar, já há extensos registros e até hoje tenho contato com primos Alencares que são historiadores ou, no mínimo, curiosos pela nossa história.

Nessa crônica não falarei da história dos Araújo de Souza. Pra isso, quem sabe, escreverei um livro ao melhor estilo "O tempo e o vento" um dia (já pensou? Seria chegar ao nível do meu absoluto favorito Érico Veríssimo!). Só o que quero falar aqui, novamente, é do componente humano.

Como mencionei, anos passados tentei iniciar esse registro daquela área e daquelas pessoas. "Tentei" porque não sou daquele local, moro em outra cidade e o tempo é muito escasso pra conseguir fazer um registro decente. Na época só consegui arrancar algumas poucas histórias do meu avô. Eu precisaria de algum parceiro corajoso e da localidade pra gente conseguir fazer um bom registro dali. Mas digresso.

Nesta minha última ida a Manaus (essa que rendeu todas essas crônicas), estava eu novamente preso nas tediosas obrigações familiares de fim de ano quando decidi tomar a iniciativa e fazer algo diferente. Ali naquela casa, no alto do Curral, eu novamente passei a conversar com meu avô sobre as histórias do passado. E que velho filho d'uma égua, viu? (Risos, vários risos)

Em meio a todas as histórias que aquele senhor idoso me contava, com dificuldade de falar, devido ao derrame que lhe ceifou parte das habilidades básicas, caminhando trêmulo pra sua cadeira de balanço, permeando seu português com o caboquês, eu reconheci algo na sagacidade das suas histórias. Eu reconheci algo no seu jeito de falar, eu reconheci algo até no modo como ele se comportou nas ocasiões que me relatou. Mas que droga. Eu reconheci a mim mesmo.

E de repente eu percebi que o sangue daquele homem, a assinatura genética dele, estava em mim também. De repente ele não era um estranho, uma convenção social obrigatória, uma pessoa qualquer. Não. Ele era eu.

Foi então que eu percebi. Enquanto minha mãe conversava com minha avó, enquanto minha sogra trocava risadas com uma das minhas tias, enquanto minha esposa conversava com uma prima, enquanto na casa ao lado explodiam risadas em meio às músicas e festejos do Ano Bom, enquanto eu ouvia aquele senhor na cadeira de balanço contando histórias antigas: tudo que faltava era o componente humano.

O que falta, em grande parte, é o componente humano e, não raro, falta não nos outros, mas em nós mesmos. Esse componente só veio à tona quando venci meus pré-conceitos e tomei a iniciativa.

No fundo, a vida é mesmo uma grande viagem. Não podemos controlar as coisas que virão pelo caminho, céus, não conseguimos nem saber direito que caminho vamos tomar! Mas o que tenho visto, e percebi nessa viagem, é que o modo como a gente faz essa viagem da vida depende muito mais de nós mesmos do que das circunstâncias ao nosso redor. E quando nós tomamos a iniciativa e buscamos realmente ver as coisas de outra forma, ah!, meus amigos, que maravilha que é!


Crônicas do cotidiano. Gabriel Alencar. Publicado originalmente no Facebook em 03/01/2019.

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