segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Resenha – O falecido Mattia Pascal

PIRANDELLO, Luigi. O falecido Mattia Pascal. São Paulo: Abril, 2010.


Esta é mais uma das gratas surpresas que só leitores-compradores-compulsivos conseguem ter: encontrei este livro na estante e sequer lembro de quando o obtive. Por certo ocorreu por conta da edição de colecionador da Abril para clássicos.

Já começando por este tópico, a edição, devo dizer que, na verdade, comprei alguns livros dessa edição no passado só pelo ímpeto de comprar. Olhando hoje, nem me agrada muito essa capa de toque áspero. É capa dura? É. Mas pra mim é desagradável segurar o livro por um longo tempo com esse toque estranho. Além disso, também me desagrada que a capa é difícil de ver, a tinta se desgasta rápido e o título some. 

Ainda sobre a edição, achei ridícula a escolha do editor em colocar notas de rodapé dentro do texto corrido. Meu amigo, você quer se amostrar e ensinar o leitor? Primeiro pergunte se ele quer aprender. Segundo, se você realmente acha necessária colocar essas notas informativas, pelo menos o faça inserindo-as como notas de fim. Aí quem realmente quiser vai lá e procura. Quem quiser só ler não precisa ser incomodado por elas.

Penso que o único ponto positivo foi o marca-página em forma de fita já costurado com o livro, hoje reconheço que é uma vantagem tê-lo sempre à mão.

Bom, mas partindo para o deleite que foi encontrar esse livro na estante. Primeiro que eu nem sabia quem era Pirandello, nunca vi mais gordo. Mas o estilo despojado do narrador Mattia Pascal me conquistou logo cedo. Ele é irônico, direto e cheio de comédia. Como não gostar? Não fica enrolando, fala o que tem que falar. Esse é dos meus. Bem-humorado e genuíno, parece que é uma pessoa de verdade, não uma construção.

A história também é fascinante. Mattia Pascal é um zé mané que se vê preso num casamento difícil, sem grana e num trabalho bosta. Até o dia que a sorte bate à porta. Dão-no como morto quase no mesmo dia em que ele ganha uma fortuna. De repente está livre da mulher, da sogra, dos credores, do trabalho e da vida de mesmice. Ele poderia ser quem quisesse, onde quisesse.

Deveras Mattia Pascal se vê livre. O problema é que depois ele se vê preso em outro tipo de liberdade. Sem documentos, sem possibilidade de criar novas amizades (uma vez que, como ele mesmo disse, amizade implica em intimidade – e ele não pode revelar demais quem ele de fato é), criou uma persona, Adriano Meis, e com ele tentar viver uma nova vida.

São muitos os dilemas que Mattia Pascal tem que enfrentar vivendo essa nova vida. Até o próprio ato de criar uma nova persona, que tivesse novos trejeitos, uma nova pessoa de fato, é um grande suplício. Na ânsia pela liberdade, ele se vê afogado pelas possibilidades e a limitação que elas podem trazer:
Nada se cria, é verdade, que não possua uma raiz qualquer, mais ou menos profunda, na realidade; mesmo as coisas mais estranhas podem ser verdade, aliás, nenhuma imaginação consegue conceber certas loucuras, certo os acontecimentos inacreditáveis desencadeiam-se e saltam do seio tumultuoso da vida; como e quanto a realidade pulsante mostra-se diferente das invenções que dela podemos extrair! De quantas coisas substanciais, pequeninas e inimagináveis, nossas invenções necessitam para se tornarem a própria realidade de onde foram extraídas, de quantos fios que aprendam na complicadíssima teia da existência, fios que nós rompemos para que ela possa se tornar a coisa em si! (p. 112)
Peço desculpas pela citação longa. É que achei ela tão bonita e ela falou de modo tão direto ao meu coração de escritor, que não pude evitar o registro completo dela. 

A própria questão da inverossimilhança foi alvo de discussões após o livro ser lançado. Muitos críticos rechaçaram Pirandello por conta dos exageros e absurdos pelos quais Mattia Pascal passou. Porém o próprio autor destacou que a vida, não raro, é mais inverossímil do que a ficção. 

Num apêndice do livro, Pirandello relata a história de um homem casado e adúltero que, vendo a insustentabilidade da relação à três, reúne mulher e amante no mesmo lugar para decidirem o que fazer quanto àquela situação. Após conversar, os três decidem que devem tirar as próprias vidas. Cada um vai para sua casa com este fim. 

A esposa pega uma arma e atira contra si mesma. O marido e a amante, porém, chegam à conclusão lógica de que o motivo que os impedia de ficarem juntos sumiu e, portanto, não faz mais sentido se matar. Esta não foi uma história que ele criou, mas uma notícia publicada nos jornais de Nova York em 1921.
[...] fora da lei e fora daquela singularidades, alegres ou tristes, com as quais nós somos o que somos, meu caro senhor Pascal não é possível viver. (p. 286)
No fim das contas o livro é fascinante. Amei cada etapa de sua leitura. As reviravoltas são bem trabalhadas, a narração é bem cadenciada e a estrutura toda é bem feita. Dá gosto de acompanhar Mattia Pascal e cada virada de página renova a vontade de continuar. Fico muito contente que minha estante tenha me surpreendido de novo. Leitura totalmente recomendada.

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Resenha – A vida, o universo e tudo mais

ADAMS, Douglas. A vida, o universo e tudo mais. São Paulo: Arqueiro, 2010.


Qual o limite do improvável? Quando uma série de acontecimentos tão, mas tão difíceis de acontecer deixa de ser um conjunto de improbabilidades e tornam-se uma impossibilidade? Esta foi apenas uma das muitas indagações que surgiram ao ler essa obra de absurda criatividade.

Depois de duas resenhas desta série de livros do Guia do Mochileiro das Galáxias (O guia do mochileiro das galáxias, e O restaurante do fim do universo), finalmente aprendi a ler Douglas Adams. O cara é tão absurdamente criativo, que não é palatável, não faz bem aos nervos ler mais do que quatro ou cinco páginas de uma vez, quiçá um capítulo, quando muito dois. Mais que isso o único resultado é a indigestão confusa de dois elevado à potência delta.

Foi assim que degustei essa obra. Quando minha mente não aguentava mais absorver tanta informação interessante e instigante (eita aliteração!), dei-a o benefício do descanso e revisitava o livro horas depois ou mesmo apenas no dia seguinte, quando meu cérebro teve a chance de processar (ou esquecer) as coisas que leu. Tem livros que a gente leva pra cabeceira da cama e lê um pouquinho antes de dormir. Não é esse caso. Se esse livro já é trabalhoso de ler acordado, imagine com sono.

Via de regra, sempre comento algo sobre a tradução quando esta me chama a atenção por algum motivo. Mas no caso deste livro (desta série na verdade), eu preciso citar por nome o tradutor Carlos Irineu da Costa, porque esse cara não está de pá, nem de para, ele está de PARABÉNS. Meu amigo, que sacadas geniais!

Não bastassem as traduções dos termos comuns, do estilo despojado do autor e sua sagacidade, Carlinhos ainda nos traz termos fenomenais como "Bistromática", a ciência de condução de naves espaciais por meio de robôs em um bistrô italiano; ou ainda o meu tão querido POP: "Problema de Outra Pessoa".
Um POP é alguma coisa que não podemos ver, ou não vemos, ou nosso cérebro não nos deixa ver porque pensamos que é um problema de outra pessoa. É isso que POP quer dizer: Problema de Outra Pessoa. O cérebro simplesmente o apaga, como um ponto cego. Se você olhar diretamente para ele, não verá nada, a menos que saiba exatamente o que é. A única chance é conseguir ver algo olhando de soslaio. (p. 23)
No caso do livro, o POP em questão era uma nave espacial pousada ao lado dum campo futebol lotado (críquete, pra ser mais exato, só usei o futebol pra ficar mais claro). Em outro momento do livro, coisas tão absurdas acontecem que até mesmo respirar se torna um Problema de Outra Pessoa. E este é apenas um exemplo das maluquices geniais que esse livro traz.

Não bastasse o POP, é neste livro que ele ensina a voar (muito simples, é só errar o chão), e também é aqui que Arthur Dent encontra-se com seu arqui-inimigo que ele nem sabia que tinha. Acontece que todas as vezes que aquele cara era trazido à existência (num esquema de constantes reencarnações), por algum motivo ele morria por causa de Arthur Dent. Num caso, ele era uma formiga que foi pisada por Arhtur; em outro ele era um coelho que foi atropelado pelo carro que Arthur dirigia; e naquela vez que Arthur se abaixou pra escapar de um tiro, em quem vocês acham que o tiro acertou?

É tanta coisa legal acontecendo ao mesmo tempo que a história principal, a vingança do mundo de Krikkit, acaba ficando em segundo plano. Nem por isso ela deixa de ser interessante e tampouco o livro perde sua capacidade de nos manter fixos em cada pequeno detalhe que acontece.
Há um momento em cada amanhecer no qual a luz parece flutuar e tudo parece mágico. A criação prende a respiração. (p. 38)
Como expliquei nas resenhas anteriores, seria necessária uma tese de doutorado pra abordar tudo que o livro tem. Infelizmente, mesmo tendo esta tese em mãos, a banca conseguiu cagar um argumento melhor. Desta vez, porém, consegui convencer os editores do Guia a me publicar no seu blog, com um artigo cujo título lia-se: "Mentecaptos do Universo, como eles não cansam de aparecer". Alguns dizem que foi uma crítica e que era pra eu me sentir ofendido. Na verdade, estou é lisonjeado.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Resenha – Os testamentos

ATWOOD, Margaret. Os testamentos. Rio de Janeiro: Rocco, 2019.


Então, olha só. O conto da aia, livro que antecede este (fiz uma resenha aqui), foi escrito em 1985. E esta sequência, Os testamentos, foi escrita em 2019. Sim, você não leu errado. Confesso que ao ver isso fiquei com medo. O que leva alguém a voltar depois de 30 anos? "Hype" era a única resposta que tive, e isso me preocupou, considerando o clima atual. Mas, devo confessar, não foi o caso de apenas "hype". Se é que houve hype (imagino que, especialmente, por conta da série televisiva d'O conto da aia), não ficou só na expectativa, fez-se cumprir. Vamos à resenha.

Começo pela belíssima edição da Rocco. Páginas bem diagramadas, leitura agradável de se fazer com uma fonte adequada, páginas daquele amarelado que não reflete muito, até mesmo detalhes como as figuras entre os capítulos, tudo muito bem trabalhado e, reconheço, digno da Rocco.

A história aqui se passa 15 anos depois dos fatos do primeiro livro. Se n'O conto da aia fomos apresentados à República de Gilead (ex-EUA) e sua sociedade funcionalista onde homens e mulheres são estratificados conforme sua "utilidade" social, em Os testamentos temos o início do fim. Como foi que um império tão poderoso como Gilead caiu? A semente de tudo, pelo que vemos, está na história das três personagens principais que compõe este livro.

E justamente por conta dessa tripla linha narrativa, a estrutura do livro se divide com alternância entre as linhas narrativas das três, até o ponto em que elas finalmente culminam. Se por um lado isso é bem útil pra não fazer o leitor se perder, por outro pesa um pouco porque essa dinâmica pode ser frustrante. Você se envolve com uma personagem, acompanha todo o drama dela, se aproxima e talz... pra ter que abandonar e ir pra outra. E aí com essa outra o ciclo se repete... e aí você muda de novo. Fazer o que, né? Talvez sejam ossos do ofício de três linhas narrativas concomitantes.

Sobre a tradução, não foi a mesma tradutora do primeiro (pelo menos não na edição que tenho, e ambas são da Rocco) e por isso não posso dizer se ela deu continuidade ao que a primeira fez. Mas percebi aqui algumas escolhas na tradução que me deixaram com um pé atrás. Por exemplo, em alguns momentos ela opta por não traduzir palavras, em outras ela claramente aportuguesa os termos. Qual o critério? Por que uma e não outra? Isso não fica claro. Senti falta de constância em alguns momentos.

Sobre o enredo, estou começando a ter a impressão de que a autora não sabe lidar com finais. Os desenvolvimentos que deveriam ser os mais cruciais me soam forçados ou, no mínimo, desajeitados. Na minha primeira resenha falei abertamente sobre um problema similar. Por exemplo, mandar a menina pro centro do perigo não me convenceu nadinha. Tentaram justificar, como se estivesse numa situação sem saída. Mas me soou forçado.

E aí novamente, conquanto aquela parte final seja interessante, pois analisa os eventos a partir do ponto de vista de historiadores do futuro, a autora, na ânsia de se explicar, acaba apenas se dando mais corda para se enforcar. Porque algumas das explicações não fazem sentido e servem apenas como justificativa para eventos meio forçados que ocorrem na história.

Mas, diferente do primeiro livro, tudo isso fica eclipsado pela magnífica capacidade narrativa da autora. Ela realmente tem domínio de seu ofício, fazendo a gente ficar grudado na história, querendo saber o que vai acontecer e sempre apreensivo em saber o que o futuro revela. Aquele pânico silencioso de quando vemos a  liberdade ser lenta e constantemente tirada de alguém. Novamente (coisa que disse na outra resenha), o mais assustador: já aconteceu no mundo real. 

Os temas são vários, mas fica mais uma vez evidente a guerra de sexos, sem que isso seja feminismo, uma vez que há domínio de mulheres por mulheres (isso eu também expliquei na primeira resenha, e foi a própria autora que falou); também achei muito bem trabalhado que o problema não é a religião em si, mas o fanatismo. Pra mim, sinceramente, não se excedeu e soube ser honesta com a temática.
Ela disse que ou você acreditava em Gilead, ou acreditava em Deus, nos dois não dava. (p. 324)
Em suma, o livro é fantástico. Fantástico. Vale a pena cada segundo da leitura. Um ou outro pequeno deslize, mas nada que nos impeça de desfrutar dessa maravilha de história! Fico até me perguntando se não tem outros livros da autora que eu me interesse, tamanho o peso que este teve em me convencer da sua capacidade. 

Livro totalmente recomendado.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Resenha – Olhai os lírios do campo

VERÍSSIMO, Érico. Olhai os lírios do campo. São Paulo: Globo, 1995.


Já comentei aqui mais de uma vez que não só possuo, como também já li toda a obra de Érico Veríssimo, quem eu considero o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Ele, melhor do que ninguém, retrata a realidade do Brasil, da sua gente, da sua terra, traduzindo como ninguém o que há de mais fascinante em toda a existência: a vida.

Eu tenho péssima memória, preciso anotar tudo. Se por um lado isso me traz limitações, por outro tenho o prazer de pegar esse livro na minha estante, saber que já o li, mas não ter a menor ideia de qual é a história. Eu não lembrava de NADA. Sinceramente, só soube que o personagem principal era um médico porque não faz muito tempo li o próprio Érico Veríssimo comentando algo sobre este livro em sua autobiografia. 

O livro portanto retrata história de Eugênio, um rapaz da classe média baixa que odeia a pobreza e quer "ser alguém na vida". Pra isso, entra num casamento por interesse (com Eunice), ignorando o amor da sua vida (Olívia), se deixando levar pra uma sociedade "elevada" onde ele nunca se sente à vontade. Isso se dá durante um período, até que acontecimentos o fazem ver como estava cego e que seu lugar era no meio do povão, sendo um médico dos pobres.
e quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu." (p. 154)
Esta é uma edição maravilhosa, toda em capa dura com uma pintura na frente. Esta é a edição que tenho completa, toda da década de 90, com direito a folhas amareladas e um bom trabalho da editora Globo. Não é à toa que o exemplar que possuo faz parte da 71ª edição do livro.

O estilo de Érico Veríssimo, a capacidade que ele tem de narrar e descrever sempre me encheram de fascínio. Em determinado capítulo, quando ele descreve a infância de Eugênio, o autor o faz narrando com as perspectivas de uma criança. Imagens que se misturam, noções que se constroem a partir de vários elementos desconexos. A mãe de Eugênio dizia que era o "Destino" e o menino achava que isso era uma pessoa. Não soa exatamente como uma criança pensaria?

E, claro, a essa altura Érico já estava no seu sexto livro e tinha amadurecido um bocado várias abordagens que seriam patentes em toda a sua obra. A começar pela dor das escolhas morais, as relações familiares, a dor e as construções que acontecem na nossa vida sem a gente perceber. Detalhes estes que encheriam as páginas de O tempo e o vento

O livro contém ainda uma forte discussão religiosa. A todo momento com Eugênio se questionando sobre a existência de Deus, enquanto Olívia vive na tranquilidade da certeza da Sua existência. Engraçado que se fosse eu quem tivesse escrito um livro com esse tipo de temática, diriam que eu estava forçando um discurso religioso. 

Érico Veríssimo sempre caminha no limiar entre a esperança e o pessimismo (este último personificado no Dr. Seixas, médico mais experimentado na vida). Mas neste livro Érico deixa voar seus ideais da esperança sem medo, especialmente com o fim do livro, apontando para um bom futuro apesar de todas as coisas ruins encaradas no meio do caminho. Várias das reminiscências dos personagens geram trechos que nos fazem pensar e algo me diz que isso aqui um dia vai ser epígrafe num livro meu:
Pode ser que tudo isso seja apenas um grande sonho. Mas sonhar também é humano. (p. 189)
Algo que me chamou a atenção foi como a estrutura FOGE totalmente aos padrões. O heroi tem sua transformação no meio do livro. Na verdade, talvez esse tenha sido até um problema. Enquanto na primeira parte temos um objetivo claro e uma ansiedade em descobrir como aquele fato específico vai se desenrolar; na segunda parte vemos muitos trechos anedóticos e um desaceleramento da trama.

Para mim, honestamente, funciona. Primeiro porque quebra com os padrões, o que já considero uma vitória. Segundo, porque a vida é um pouco assim: ela não é cheia sempre de grandes objetivos e grandes acontecimentos. Às vezes a gente só vai levando a vida e aprendendo com as coisas que acontecem. Pra mim a estrutura refletiu bem a transformação de Eugênio. Mas, confesso, foi meio no limite.

Por outro lado, não posso negar que todos os eventos são encadeados perfeitamente. Nada soa forçado. Até mesmo os acontecimentos mais importantes são bem concatenados e toda a história caminha com naturalidade. Talvez por isso mesmo os ensinamentos que livro passa soem tão naturais e tão fáceis de concordar em alguns momentos. O trecho abaixo traduz tão claramente algo que penso, que até me questiono se eu pensei isso sozinho, ou aprendi neste livro quando o li a primeira vez na adolescência:
Havia muita coisa a fazer no mundo: proporcionar uma vida melhor àquela gente, por exemplo. Não se devia fazer isso com revoluções, porque a violência gera a violência e seus frutos sempre são perigosos. Os homens viviam demasiadamente preocupados com palavras, pulavam ao redor delas e se esqueciam dos fatos. E os fatos continuavam a bater-lhes na cara. (p. 250)
Por fim, cumpre dizer que este foi o livro que deu o estrelato a Érico Veríssimo. Antes de Olhai os lírios do campo, seus livros penavam pra vender. O próprio autor declara que foi só a partir desta obra que ele pôde realmente se dedicar ao ofício de escritor. 

A minha opinião de conhecedor da obra dele é que, talvez, Música ao longe e, claro, Um lugar ao sol, tenham captado com mais perfeição a essência e também conduzido uma narrativa envolvente. Claro, Olhai os lírios do campo não é para ser descartado, só não entendi por que foi que só neste livro ele estourou. Pra mim ele já era bom desde Clarissa

Ah, Érico. Como eu queria poder ler mais coisas suas. 

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Resenha – The Old Man and the Sea

HEMINGWAY, Ernest. The Old Man and the Sea. New York: Scribner, 2003.


Esse eu li quando estava nos Estados Unidos, foi leitura da matéria de "Literatura Americana". Parando pra pensar agora foi uma das melhores matérias que tive lá. Não só porque a professora era boa, mas também porque a matéria era literalmente ler e conversar sobre a leitura. Quer coisa melhor? 

Eu já sabia que o que eu leria era bom, mesmo que eu não lembrasse de detalhes da história. Aqui acompanhamos um breve relato da vida de Santiago, um velho pescador cubano, que sai um dia em busca de um grande peixe, depois de várias semanas sem conseguir pescar nada. Aqui acompanhamos sua pobreza, sua sina, mas, principalmente, sua coragem.

Neste livro aprendi que tudo que aprendi pode ser desconsiderado se for bem feito. Pra dar dois exemplos, o primeiro é que às vezes na hora de escrever ficamos cheios de dedos pra fazer transições de cenas que sejam bem construídas e esquecemos que o mais importante, todas as vezes, é a história em si e não a cena. Digo isso porque olha o que Hemingway faz aqui de maneira sensacional:
This will kill him, the old man thought. He can't do this forever. But four hours later the fish was still swimming steadily out to sea, towing the skiff, and the old man was still braced solidly with the line across his back. (p. 45)
Pam. Simples assim. Quatro horas se passaram. E a gente sente de uma vez só o peso delas caindo nas nossas costas, tal como a linha de pesca que o Velho segurava com persistência por todo esse tempo. Não tem por que enrolar, basta contar bem feito. 

O outro é que aprendemos como devemos tecer uma boa rede de personagens, como eles devem dialogar entre si de modo a construir uma boa tônica pra história, etc. Bom, Hemingway adota UM personagem. Claro, além do Velho aparece o menino, que é bem relevante. Mas os personagens secundários, quase todos, são os animais: o pássaro, os peixes pequenos, o peixe grande, etc. Não há diálogo, só monólogo do velho conversando sozinho ou com os animais que nunca respondem.

Merece destaque a verossimilhança de tudo. Stephen King bem disse que a gente gosta, por algum motivo misterioso, de ler sobre o trabalho. E é fascinante ver como se dá o trabalho do pescador, como ele lida com as intempéries, e como anos de experiência o preparam para as mais diversas situações. Deixo ainda o registro deste trecho:
He sailed lightly now and he has no thoughts nor any feelings of any kind. (p. 119)
Parece besteira, mas é impressionante quantos autores ignoram que esta sim é a verdadeira emoção pós-batalha! Há pouco ou quase nenhum espaço para romantizar momentos como esse. O torpor do choque é o que realmente nos preenche diante do inesperado e do absurdo.

A condução do livro é magistral. Não há capítulos. Ou pelo menos não divisão de capítulos. É tudo contado de uma vez só, embora a história aconteça ao longo de uns três dias. A habilidade do escritor em transitar entre as diversas formas é de uma sagacidade sem comparação. Como pode o autor em apenas três páginas nos apresentar um velho e um menino e não somente informar, mas nos convencer que eles se amam como avô e neto e nos fazer sentir o carinho que há entre eles?

Além disso, temos condução de longas cenas só com diálogo e seu contraponto: páginas e páginas apenas com narração e um pouco de descrição, pinceladas com uma única linha de diálogo aqui e ali. Também é bonito de ver como o autor, mesmo tendo tão poucos personagens, ainda é capaz de fazer inversões. Neste caso, cito a inversão da caça e do caçador:
You are killing me, fish, the old man thought. But you have a right to. Never have I seen a greater, or more beautiful, or a calmer or more noble thing than you, brother. Come on and kill me. I do not care who kills who. (p. 92)
É impressionante como um livro tão pequeno (meras 127 páginas na edição que tenho) pode ser tão denso e tão cheio de significados. A persistência do herói bem como seu quase-otimismo são louváveis e fazem dele um herói na sua essência. Além disso, interessante notar como nossas expectativas vão caindo quanto mais a gente se aproxima das agruras de Santiago. No começo esperávamos por uma grande vitória, no final torcemos para que não haja uma derrota total.

E aí a grande sacada: o herói volta pra casa derrotado, mas ainda assim é considerado vitorioso pelos seus. É que eles entendem a tragédia e veem nele um pouco do que poderia ter acontecido com eles. É a tal empatia. Oloco, que sacada. 

Já li outros livros de Hemingway e não curti, fiquei sem entender o que tanta gente vê nele. Mas não dá pra negar a genialidade do cara. Esse é um autor obrigatório feito Dostoiévski. O cara é realmente muito bom. Espero que no futuro consiga visitar outras obras dele e degustar um pouco mais.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Resenha – Babel

McPHERSON, Brennan. Babel: The Story of the Tower and the Rebellion of Man. Sparta: McPherson Publishing, 2019.


Ai ai. O que aconteceu foi o seguinte. O autor, no seu primeiro livro, foi ele mesmo. Quando ele escreveu Cain (resenha aqui), ele foi honesto consigo mesmo, ele escreveu a história que ele queria escrever: fantasia aplicada à ficção bíblica. A ideia foi genial, eu amei. Tanto que achei que valia a pena continuar lendo as outras obras do autor.

Porém, houve um problema de opinião pública. Embora muitas pessoas tenham gostado do livro, várias outras fizeram críticas e não quiseram aceitar a abordagem que ele fez (mesmo que a abordagem não tivesse NADA de heresia ou coisa do tipo, era puro preconceito). 

Verdade ou não, o autor se deixou abater pelas críticas. Quando chegamos no seu segundo livro, Flood (a história do Dilúvio, resenha aqui), nos deparamos com um autor tímido, um livro cheio de falhas e sinceramente bem cansativo de ler. O autor praticamente abandonou a fantasia. 

Aqui em Babel, terceiro livro do autor, ele começa, ainda timidamente a voltar à fantasia. Mas é realmente uma pena que ele não abra seu coração novamente e se deixe levar pelo seu próprio instinto. Também neste livro não consigo dizer que tive um tempo proveitoso. O trauma dele foi tão grande que, depois de um tempo, ele tirou Cain de circulação e o trocou por Eden (resenha aqui), onde ele parece ter aperfeiçoado o equilíbrio desejado entre fantasia e ficção bíblica (embora, do meu ponto de vista, em Cain isso já estava bem estabelecido).

Bom, falemos então dessa história. Aqui temos novamente Noé como protagonista, uma vez que ele ainda estaria vivo nos tempos da famosa Torre de Babel. A história navega entre a família de Noé (Sem, Cam e Jafé) e outras pessoas que ele encontra no meio do caminho. É difícil dizer qual é o problema principal da história, uma vez que nem o autor parece ter isso muito claro. Basta dizer que há um racha entre Noé (profeta do Altíssimo) e Cam, que se proclama profeta do Satanás (no livro o nome é outro), sendo que este último resolve construir uma Torre como templo a este último.

A história já começa um pouco conturbada, um problema semelhante ao que vi na segunda parte de Cain, quando o autor joga muitos personagens na nossa cara de uma vez e não nos dá tempo pra nos familiarizarmos com eles. Ainda no começo, a ação de Cam no meio de tanta coisa importante acontecendo ao mesmo tempo tenta trazer algo de épico, mas não tem espaço pra isso e só resulta em uma sensação de bagunça. Tem horas que acho que tem personagens demais e isso atrapalha o leitor.

Em vários lugares o livro é preachy. Por mais que seja ficção cristã, não significa que é necessário fazer um sermão cristão na fala dos personagens. As verdades sempre são mais profundas (sejam elas religiosas ou não) quando são demonstradas, e não somente ditas. Entendo o esforço do autor em mostrar o lado espiritual dos personagens observando o que acontece em suas vidas e interpretando de acordo com a vontade de Deus. Muito legal, mas simplesmente não funciona assim e, por isso, soa novamente preachy e pouco verossímil. 

Assim como aconteceu em Flood, a tentativa romântica no meio do turbilhão não me convenceu nadinha. Não que não possa haver amor em meio a tribulações. Mas eu, como leitor, preciso ser convencido de que isso é possível! Pequenos gestos e algumas insinuações não são suficientes.

Alguns personagens secundários me soam meio rasos, sendo maus só porque são maus (tipo capangas de vilão em filme). Além disso, uma coisa que me incomodou foi a total desconsideração pela jornada do herói que Noé passou no livro anterior. Flood. Aqui em Babel várias características que ele ganhou simplesmente somem, sem explicação convincente pro retrocesso dele. 

Ainda nessa questão do protagonista, sinto que em alguns momentos a trama sofre da síndrome do duplo-personagem-principal. Tem horas que parece ser Noé, tem horas que parece ser Arã. Não há problema em haver mais de um, mas os arcos precisam ficar claros porque senão o leitor não sabe em quem prestar atenção e qual história realmente importa. 

Conforme o livro caminha pro fim, vai perdendo qualidade. A sequência final de eventos me soa mecânica e quase infantil. Noé se torna insuportável de ler. Tudo que ele fala é preachy e ele tem um complexo de messias que é de dar nos nervos. Se algo da errado, é porque ele não fez algo que deveria ter feito e por isso, oh, toda a humanidade está condenada. Então, agora, é seu dever restaurar a todos e salvar o mundo... Mano, não é tudo sobre você meu camarada.

Mas se nem tudo na vida são flores, nem tudo na vida são espinhos também. Embora eu tenha severas críticas, isso não quer dizer que acho o livro totalmente descartável e vejo sim alguns bons aspectos. Pra começar, não dá pra negar que mais de uma vez fui envolvido pela narrativa e me senti imerso naquele mundo (o que, pra mim, deve ser o propósito maior de qualquer livro). Além disso, o autor tem sacadas bonitas que valem a pena registrar, como essa:
But all men have a heart that beats to the rhythm of pride. (p. 68)
Some-se a isso os momentos em que o autor abraça novamente a fantasia na história. Creio que estes são os melhores momentos do livro. Só acho sinceramente uma pena que ele não tenha feito isso em toda a história. Ainda tenho mais um livro pra ler dele, Abram, e espero que, pelo menos nesta última, eu consiga ver alguma redenção. Dá pena, porque sei que o cara é bom, só precisava... 

sábado, 18 de junho de 2022

Resenha – O retrato de Dorian Gray

WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. São Paulo: Abril, 2010.


Da série "livros que li na adolescência e resolvi ler de novo pra ver se agora consigo entender um pouco melhor o que está realmente acontecendo e se esse livro tem alguma coisa mais profunda pra ensinar ou mostrar que eu não conseguia ver na época que era mais jovem." (Título provisório).

Na verdade não sei dizer. Se por um lado compreendi a história, por outro creio que hoje minha noção do esteticismo e da própria arte talvez realmente tenha me dado a oportunidade de entender melhor essa obra. Não, "entender" não é a palavra certa, acho que está mais para "desfrutar".

O prefácio já chega pra arrebatar a gente. É um lirismo em prosa de uma qualidade fenomenal (na verdade, boa parte do livro é). Mas vejam só como o safado ainda me pega com a boca na botija, logo no começo
Tanto a forma mais elevada, como a forma mais baixa de crítica, é um modo de autobiografia. (p. 7)
Eita, e aqui estou eu fazendo uma resenha (crítica) sobre a obra. Esta citação fala mais sobre este blog do que sobre o próprio livro. Que coisa, não? 

Estamos diante de um clássico da literatura inglesa, o único (!) romance de Oscar Wilde, onde ele conta a vida do jovem Dorian Gray, que tem um quadro seu pintado e que, por obra misteriosa, traz uma maldição-bênção sobre a vida do jovem: os anos se passariam, mas Dorian Gray manteria consigo a beleza e a juventude, enquanto a pintura é que envelheceria.
A juventude eterna, a paixão infinita, o prazer sutil e secreto, as alegrias espontâneas e os pecados ainda mais espontâneos... ele possuiria todas essa coisas. O retrato carregaria o peso de sua vergonha. Eis tudo. (p. 140)
Haveria muitos temas pra se expor aqui, o livro é realmente bem denso e, mais uma vez, um daqueles casos de livros em que "não acontece nada", mas ainda assim não conseguimos desgrudar, porque é muito gostoso de ler. Sério, a sensação física que temos é parecido com quando comemos algo saboroso, que dá gosto de desfrutar. 

Creio que poucos vão discordar que é bem latente a questão do hedonismo na obra. Pouco depois da metade do livro o autor dedica um capítulo a exemplificar o hedonismo de Dorian. Um hedonismo incompleto, mesmo com a eternidade nas mãos, uma vez que seu segredo oculto permanecia vivo e Dorian tinha medo que ele fosse descoberto.

Mas não é isso q me chamou atenção. Creio que foi por conta deste capítulo, na leitura nos tempos da adolescência, que não consegui gostar o suficiente do livro. Talvez isso seja verdade ainda agora. Acontece é que o autor passa muuuuito tempo descrevendo e contando como Dorian esbanjava seu dinheiro e sua juventude em diferentes hobbies. 

Se por um lado entendo que o autor usou isso para suas próprias digressões (e não nego que é saboroso de ler, porque Wilde sabia o que estava fazendo), por outro é cansativo para o leitor. Talvez o seja para um leitor do século XXI, porém perfeito para um do século XIX, vai saber né? 

Gosto de ler estes clássicos, em boa parte, porque eles trazem retratos de suas épocas e é fascinante ver como, em algumas coisas, o mundo realmente não muda. Por exemplo, interessante como em uma sociedade tão cheia de dinheiro, ao ponto de que alguns personagens nem precisem se preocupar com ele, ainda é exatamente a situação financeira que decide de modo derradeiro as dúvidas sobre o caráter das pessoas. É pobre? Não presta. É rico? Pode casar, ele é bom.

O autor também aborda de maneira muito verdadeira o pecado que habita dentro de todos. Dorian, tendo todos os melhores atributos do mundo, não conseguia escapar ao que estava dentro dele e que o levava a fazer atos cada vez piores:
Há momentos, dizem-nos os psicólogos, quando a paixão pelo pecado [...] domina de tal maneira uma personalidade que toda fibra do corpo, e toda célula do cérebro, parece ser instinto com impulsos receosos. Nesses momentos, homens e mulheres perdem a liberdade da vontade. Como autômatos, dirigem-se ao fato terrível. A escolha é-lhes subtraída e a consciência, morta, ou então, se conseguir viver, vive apenas para dar fascínio à revolta, e encanto à desobediência. (p. 242)
No final, é justamente o desejo por redenção que leva-o ao seu destino final. 

O livro é cheio de várias citações e trechos dos quais haveria muito a se falar. Essa é daquelas obras que dá vontade de montar um clube do livro e passar horas discutindo sobre os personagens (se perguntando: "Será que isso é fala do autor ou da criatura?"), sobre os temas (incluindo aí até um homossexualismo velado), sobre a edição bonita da Abril, com aquelas fitinhas internas que servem de marca-página e embora eu não tenha gostado no começo hoje reconheço que facilitam a vida que é uma beleza.

Bom, muito a se falar. Leitura que eu espero revisitar daqui a umas décadas e, tenho certeza, degustar ainda mais.