sábado, 10 de março de 2018

Resenha - Fantoches e outros contos

VERÍSSIMO, Érico. Fantoches e outros contos. São Paulo: Globo, 1996.


Eu sou um grande, grande fã de Érico Veríssimo. Ele é meu escritor brasileiro favorito, de longe. Tenho e busco completar uma extensa coleção de seus trabalhos, especificamente pela coleção da Editora Globo da década de 1990, todos de capa dura e uma foto abstrata na capa, tal como a foto do livro, acima. São livros de excelente qualidade, tanto pela edição quanto pelo conteúdo.

Érico Veríssimo tem uma característica que eu amo: ele é simples e profundo. Ele tem um vocabulário extenso, com palavras que muitas vezes nem conhecemos, mas é capaz de transmitir, de gerar efeitos de sentido no âmago dos leitores, seja com seus personagens, seja com suas maravilhosas descrições - tanto de cenários quanto de pessoas.

"Fantoches e outros contos" é um livro divido em duas partes. A primeira é o que ele chama de "Fantoches". Esses são uma série de pequenos contos no estilo tragédia, como se fossem pequenas peças de teatro, mas que foram escritas não para serem interpretadas em um palco, mas para serem lidas mesmo (ele usa os efeitos de "cena" pra complementar a leitura).

Os temas variam muito, mas nunca deixam de lado uma das marcas de Érico: falar com a realidade do homem comum, falar de problemas que não estão distantes, mas são vistos pelas pessoas no seu dia a dia. Essa identificação que o leitor pode ter com ele torna seus textos muito profundos e abrangentes ao mesmo tempo. 

É por conta de escritos assim que, em vida, muitas mulheres e alguns cavalheiros procuravam o homem em seu escritório para contar suas agruras da vida, num misto de esperança em serem retratados em algum romance e prazer por ter alguém que os ouvisse (em certa ocasião, Veríssimo relata que após ouvir uma mulher falar por muito tempo sobre seus problemas, antes mesmo que pudesse agradecer, ela se retirou e ao sair disse: "Obrigado por me ouvir, eu ia me suicidar hoje.").

Esse é Érico Veríssimo. Mas esse era o autor do qual eu apenas ouvia falar. Alguém que eu realmente não conhecia. "Fantoches" me ajudou a diminuir essa distância. Esse conjunto de pequenas tragédias tem como grande diferencial os comentários do próprio autor e: em letra cursiva! Ele mesmo escrevendo e rabiscando o livro com suas impressões, algumas delas 20 anos após a redação original.

Achei absolutamente sensacional conhecer um pouco da impressão do autor, ele apontando suas dúvidas, seus arrependimentos, até mesmo corrigindo erros de grafia e acentuação (sim! Os grandes erram também!). Por outro lado, os comentários em si às vezes nem eram tão relevantes, porém mais conversas dele com ele mesmo, além de tirar um pouco o foco da leitura, visto que o leitor vê-se impelido a saber o que o autor pensa sobre o texto. Não obstante, ainda interessantes.

A segunda parte do livro, "e outros contos", não deixa por menos. Estão aí selecionados alguns dos melhores contos de Veríssimo. Ele é um escritor que vai além do drama social, flerta com o místico, o religioso, e até aventura-se a escrever contos de terror. Sua construção de cenários e personagens, porém, são inigualáveis. Em todos os contos ficamos até o último segundo querendo saber o que vai acontecer e torcendo para que não aconteça no final o que todos sabemos que vai acontecer: a marca de Érico Veríssimo, o trágico, a fatalidade, a inevitável dura e fria realidade.

Esse é o meu autor favorito da literatura brasileira. Posso nem sempre concordar com tudo que ele fala, mas o modo como ele fala apenas me anima a continuar lendo-o. Este autor é um must-read para qualquer bom leitor. Se não quiser encarar "O tempo e o vento", que tal "Fantoches e outros contos", para começar?

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