sexta-feira, 22 de abril de 2022

Resenha – O guia do mochileiro das galáxias

ADAMS, Douglas. O guia do mochileiro das galáxias. São Paulo: Arqueiro, 2010.


Já deve fazer uns dez anos desde que eu li essa série. Depois de várias leituras realistas, meio sérias até, eu olhei pra minha estante, vi estes cinco livros dando sopa. Ah, quer saber? Acho que já está na hora de revisitar. Lembro que na primeira vez que li achei fantástico, genial, e que, com certeza, valeria a pena ler de novo. E aqui estou.

Este é o primeiro livro da série "O Guia do Mochileiro das Galáxias". Um absoluto clássico. É ficção científica, comédia, um pouquinho de mistério e muita, muita viagem. Em todos os sentidos possíveis da palavra. Olha só do que estou falando:
"[...] e entrarão no computador para operar seu programa, durante dez milhões de anos! Sim! Eu projetarei este computador para vocês. E eu também lhe darei um nome. E ele se chamará... Terra.
Phouchg olhou para Pensador Profundo, atônito.
– Que nome mais besta – disse ele, [...]" (p. 134)
Olha que eu já conhecia a história, mas estou convencido de que é impossível ler esse livro sem em determinado momento ler uma frase, franzir o cenho, ler de novo enquanto se pergunta "Quê?!". É assim a torto e à direita. Como, por exemplo, quando, ao apertar um botão por acaso, um ser de Betelgeuse ativou o Gerador de Probabilidade Infinita, que gerou um pequenino rompimento no fluxo do espaço-tempo, uma mera agitação de moléculas no passado, que, por acaso, levou à geração de toda a vida existente no universo. Cada página é um exagero de criatividade, cada parágrafo tem repercussões demais!

O livro é cheio de diálogos, o que torna ele dinâmico e ágil. Some-se a isso a narrativa afiada do autor, cheia de descrições enciclopédicas totalmente supérfluas mas das quais nenhum leitor abriria mão. A receita gera uma leitura fascinante. Toda vez que lemos um trecho do Guia (refiro-me ao livro dentro da história), ficamos fascinados com toda a informação inútil que ele nos dá e tristes quando ele se cala e não fala mais.

Acho que o único problema que encontrei nesse livro foi que, conforme vamos chegando no final, o excesso de coisas improváveis acontecendo cansa. Em determinado momento as coincidências são tantas que já parecem fatos soltos, aleatórios, que o autor colocou lá pra fazer a história caminhar do jeito que ele quisesse, só porque... porque sim. 

Isso não torna o final menos interessante, ele até tem um bom gancho para o próximo livro, mas talvez maneirar nas coincidências tivesse gerado uma história mais coesa. Podia aloprar no non-sense, isso com certeza, mas pelo menos encadear os fatos de um modo um pouquinho mais verossímil.

Esta será uma série de pequenas resenhas, porque os livros são curtos e porque se eu tentasse explorar todo o conteúdo que a trama proporciona, teria que fazer faculdade de Letras, apresentar isso no meu TCC, depois entrar pro Mestrado, fazer uma dissertação, bater no liquidificador, pra no Doutorado, enfim, enfiar ela goela abaixo da banca e dizer: "Me engula!".

E um Douglas Adams de outra dimensão verá isso pela tela de um celular, vai olhar para os lados desconfiado e dizer em voz alta pra quem quisesse ouvir: "Tenho nada a ver com isso".

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Resenha – A dama de espadas

PUSHKIN, Alexandre. A dama de espadas. Jandira: Ciranda Cultural, 2019.


Ao mesmo tempo em que sinto que aproveitei bem meu tempo lendo esse livro, sinto que fui enganado. O jeito mais fácil de explicar isso é indo direto à resenha.

Falando de edição. Um livro? Não, um livreto. Pra ser bem honesto, se não eu não tivesse pago uma pechincha por ele, teria me sentido enganado. Acontece é que a história é na verdade apenas um conto, não um romance. Por isso, o editor criou uma capa bem bonita, ilustrações chamativas e letras bem grandes, com margens bem amplas, tudo pra preencher as poucas oitenta páginas que o livro tem. Dá pra perceber que é pra fazer volume. 
"O jogo me ocupa intensamente – disse Hermann –, mas não estou em condições de sacrificar o indispensável na esperança de obter o supérfluo." (p. 14)
Totalmente inegável que a trama é muito interessante e não sem presença de excelentes reviravoltas! Acompanhamos a história de Hermann e o estranho caso da Condessa de *** que certa feita ganhou uma fortuna apostando num jogo de cartas. Há outros breves personagens, mas a história é mesmo sobre esses dois.

O autor em alguns momentos é muito gentil em nos situar na história e eu sou grato a ele por isso. Às vezes talvez nem seria necessário, mas quando ele o faz isso deixa a leitura tão mais fácil! Me pergunto se às vezes não custa dar um ou outro trocado ao leitor pra facilitar um pouco a vida dele. Nem todo mundo gosta de ler pra se complicar, às vezes é só pra relaxar.

Vê-se a influência do francês. Estamos na época da belle époque afinal de contas. No começo de cada capítulo há epígrafes e várias delas estão em francês. Neste ponto me pergunto se não teria sido melhor que o tradutor colocasse todo o livro em português e deixasse para as notas de rodapé as expressões originais em francês – e não o contrário, como acabou ficando.

Bom, no fim das contas, o livro é muito curtinho pra causar impacto suficiente. O final conquanto não seja totalmente previsível, ao mesmo tempo não surpreende em quase nada. Cria-se muita expectativa em um espaço muito curto pra o autor se relacionar com os personagens ou se importar com o destino deles. 

Tendo dito isto, se o livro estiver bem bem baratinho, acho que vale a pena. Caso contrário, talvez uma coletânea com obras de Pushkin possam valer mais a pena. Comprei a obra pra conhecer melhor esse autor russo, mas findou que ainda não o conheço. Uma coisa é certa: ele promete.

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Resenha – 1984

ORWELL, George. 1984. Jandira: Tricaju, 2021.

"Liberdade é ser livre para dizer que dois mais dois são quatro. Se isso estiver garantido, todo o resto é consequência." (p. 90)
Então, né. Como é que eu faço pra resenhar esse livro. É praticamente impossível escrever um texto que contenha tudo que esse livro tem pra dizer. É mais do que uma distopia onde o personagem Winston começa a discordar do Partido e questionar a própria realidade. É mais do que um livro de ficção, é quase um manifesto sobre o futuro, um guia para a distopia do presente.

Pra seguir um padrão, começo falando que a edição (outro paperback) é dessas mais recentes que tem assumido o bom padrão BBB que citei na última. Aliás, "BBB" vem a calhar para essa resenha, uma vez que estou falando do livro que deu origem ao termo "Big Brother" (o Grande Irmão). Eventualmente explico o quero dizer por paperback.

Sobre a narrativa como um todo, confesso que achei a primeira parte um pouco devagar demais, ainda que boa pra construir o cenário e tudo mais. A parte do livro de doutrinação foi longa demais, boa parte daquilo podia ser traduzido direto na trama, sem necessidade de uma descrição longa. O livro é tão interessante que a sensação que tive é que o autor perdeu tempo com aquilo, quando haveria coisa melhor para se falar (e que eu estaria doido pra ouvir).

Em mais de um momento, senti que houve uma forçada do autor, especialmente na terceira parte. Mais de uma vez o diálogo de Winston e O'Brien foi meio engatilhado demais. Cheio de respostas e deduções "óbvias" mas que, na verdade, são mera construção e não carregam em si a verdade, se não o discurso e aparência de verdade.

Ainda na trama, penso que há um erro na teoria geopolítica de 1984: a guerra não é sustentável por tanto tempo. Eventualmente se percebe que a guerra traz mais prejuízo do que lucro (vide a própria Guerra Fria, que pautava a existência de Orwell e por muito tempo foi o guia definitivo das Relações Internacionais – sim, estou falando de Kenneth Waltz). Mas entendo que foi o jeito que o autor encontrou pra justificar seu cenário.

E já que comecei a falar bonito, vamos abordar o que esse livro tem de mais precioso, que são as coisas que nos fazem pensar (por falta de expressão melhor). Orwell teve um insight fenomenal sobre como a sociedade caminharia no futuro. Um absurdo a capacidade do autor em pré-ver muitas nuances da sociedade contemporânea, onde a privacidade é bem distinta de séculos passados e a massificação quase um processo natural.
"E se todos os demais aceitavam a mentira que o Partido impunha, se todos os registros contavam a mesma história, então a farsa era incorporada à História e se tornava verdade." (p. 42)
Em mais de um momento, me pareceu que ele estava descrevendo regimes que hoje mesmo existem, com direito a manipulação da História, mentiras oficializadas, só falta mesmo a criação de um novo idioma que possa ser usado para fins ideológicos. 

Preciso falar da ideia do novidioma ou novafala (dependendo da tradução). Mas antes quero destacar que não creio e não concordo com essa objetificação do idioma e da História. Pra mim, você pode até instrumentalizar essas coisas; mas sempre haverá a Verdade, sempre haverá o Passado. Você pode não lembrar dele, você pode nem saber dele. Mas isso não significa que ele não existiu. 

No momento que tornamos a realidade externa como parte da nossa construção interna, na verdade distorcemo-na para encaixar na construção do nosso raciocínio. Eu acredito que mesmo que o mundo inteiro não acredite na Verdade, ela ainda existe. Porque (ainda bem!) ela não depende de mim ou de você.
"Existiam a verdade a mentira, e, se você se agarrasse à verdade, mesmo que contra o mundo inteiro, você não seria louco." (p. 233)
Quem primeiro traduziu fez um trabalho excepcional com a adaptação do Novidioma ao português. As palavras fazem sentido e algumas ganham sentido próprio fenomenal. Sim, estou falando de duplopensar.

De tudo que tenho pra falar da ideia de um idioma que fosse capaz de tolir o pensamento das pessoas, "duplipensar" ou "duplopensar" vale a pena ser comentado. Não só porque gostei da ideia, mas especialmente porque tenho visto esse conceito acontecer no mundo real, no aqui e no agora (novamente tirando o chapéu pra capacidade de Orwell em prever o futuro).
"Duplopensar significa a capacidade de manter simultaneamente duas crenças contraditórias e aceitar ambas." (p. 229)
Matar é errado. Mas eu posso se não gosto daquela vida. O que o meu oponente faz é crime. Quando aquele que eu apoio faz, é um ato de bravura e heroísmo. Sou capaz de negar a realidade objetiva ao mesmo tempo em que creio nas mentiras que o meu grupo criou para sustentar sua narrativa. Tudo isso não soa familiar?
"Sua mente imergiu no mundo labiríntico do duplopensar. Saber e não saber, ter consciência da veracidade completa e ao mesmo tempo contar com cuidado mentiras inventadas, manter simultaneamente duas opiniões que se anulavam, sabendo que eram contraditórias e acreditando em ambas [...]" (p. 43)
Essa ideia é tão presente hoje que (e eu sei que me repito) me assusta a capacidade de Orwell. E olha que nem estou falando da "teletela", um aparelho que fica dentro da casa das pessoas, monitorando cada pequeno aspecto de sua vida, vendo e ouvindo tudo que ela faz e fala para, se possível, prever até mesmo seus pensamentos, vontades e gostos. (Celular, anyone?)

É por essas e outras que este livro definitivamente vai ficar na minha estante. Eu mesmo não sabia que gosto tanto de distopias. Sei lá. A sensação constante de perigo, talvez o medo de que aquela realidade possa um dia ser verdade (!), o fato de torcer pro personagem ser capaz de quebrar com o sistema. São só algumas das características que com certeza me farão revisitar essa obra no futuro. Mais do que recomendado.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Resenha — Madame Bovary

FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Jandira: Principis, 2020.


Inegável grata surpresa quando a gente pega um livro pra ler e se deixa levar por ele. Por outro lado, é certo que Madame Bovary não é um livro desconhecido do mundo; mas, para mim, era. Só tinha ouvido falar do título, sequer conhecia o autor. Por isso, foi realmente uma boa surpresa ter este livro em mãos.

A edição é o que tem se convencionado ser o estilo "paperback brasileiro", com as dimensões tradicionais de 21x14,5 e com acabamento interno bem simples. A gente percebe que a gramatura das páginas não é das melhores, mas isso não impede uma boa leitura, uma vez que a editoração foi bem feita. É aquela história: não precisa ser chique, só precisa ser bem feito. E acho que a editora Principis acertou em cheio com essa edição. O BBB que o Brasil ama de verdade: bom, bonito e barato.

Quanto à tradução, em mais de um momento me peguei numa relação de amor e ódio com o tradutor. Se por um lado achei fantástico que ele traduzisse maneirismos e coloquialismos de modo bem escrachado, por outro acho um saco ter que procurar um dicionário pra encontrar o significado de uma palavra que poderia muito bem ter sido traduzida por um termo contemporâneo sem que nada do significado fosse perdido. Talvez encontrar o meio termo seja a solução afinal.

Achei a construção do texto interessante. A narrativa tem algo curioso: está num equilíbrio interessante entre o descrever e narrar demais. Vale notar, mais uma vez, a quebra da máxima de show, don't tell. Não é nem o primeiro nem o segundo clássico em que vejo autores quebrando descaradamente essa regra e... tudo dando certo! Talvez não seja uma máxima tão máxima assim.

Em mais de um momento, porém, senti que havia descrições demais e uma narração sem fim. Mas, por outro lado, depois de ler alguns trechos que julgava totalmente supérfluos, pairava sobre mim aquela sensação de que havia algo ali, embaixo da superfície, que talvez eu apenas não estivesse vendo a princípio. Quase, apenas quase, cedi ao impulso de analisar melhor e descobrir intenções e símbolos do autor. Porém, considerando o trabalho próprio à análise, pensei: "meh".

Porém, devo tirar o chapéu pra alguns destes momentos que serviram para criar simbolismos sensacionais (estes foram os que eu consegui ver). Cito apenas esse, que ocorre logo após o encontro de Emma com um dos seus aspirantes: 
"Ela não sabia que, no terraço das casas, a chuva forma lagos quando as calhas estão entupidas, e se manteve assim segurança, quando de repente descobriu uma rachadura na parede." (p. 112)
O simbolismo acima está diretamente ligado com a trama. Encontramos um jovem chamado Charles Bovary, um médico sem ambição, sem espinhaço, um autêntico bunda mole. Ele se casa com a sonhadora Emma (que se torna, então, a Madame Bovary). Uma jovem realmente tenra, amante da leitura, dos romances, dos versos e das artes. O que nós vemos na história, é a sua contínua decadência em casos amorosos e perversão moral. 

No começo temos a visão de um casamento feliz, que mostra felicidade das coisas pequenas do dia a dia. Mas não tarda até que ela se entedie e busque outras aventuras. O verdadeiro problema de Emma é que ela se viciou no thrill da novidade, da descoberta. E tudo isso sempre dura muito pouco, até que chega o ponto em que ela precisa de algo novo, de algo que desperte nela aquelas sensações de novo. E, conforme ela avança, o mesmo já não é suficiente, ela acaba precisando de algo mais – e esse "mais", ela só encontra conforme se afunda, afunda, afunda.

Ela foi egoísta do começo ao fim. Prezava pelo seu próprio bem-estar, não se preocupando com as consequências que seus atos trariam a outros. E o que vemos, de modo muito bem trabalhado pelo realismo do autor, é justamente as consequências que sobrevêm sobre aqueles que estão tão perto do conflito e, ao mesmo tempo, tão ignorados (refiro-me aqui à sua filha).

Madame Bovary findou controladora, tornou-se ela própria a condutora de um relacionamento abusivo (coisa que, infelizmente, aprendera com outro). E conforme a loucura se instalava, restou-lhe apenas descer a níveis cada vez mais absurdos. No fundo, ela nunca aprendeu que o amor não apenas nasce, se constrói.

Emma criou um ideal inalcançável (e assim não são todos os ideias?). Como resultado, ela conseguia apenas alcançar o vislumbre deles. Quando o vislumbre findava e ela via que seu ideal não era o que ela realmente tinha em mãos, desgostava-se da vida. Meu Deus! Será que as vezes eu vivo descontente porque faço exatamente a mesma coisa? 

E é justamente por causa desse tipo de reflexão que posso concluir dizendo que o livro vale muito à pena. Já disse isso em mais de uma ocasião e vale repetir: clássicos não são clássicos à toa. Perto do final o livro ganha um ritmo alucinante e não realmente não dá pra desgrudar da leitura. Não tem como, livro super recomendado.

sexta-feira, 18 de março de 2022

Resenha – Flood

MCPHERSON, Brennan. Flood: The story of Noah and the family who raised him. Sparta: McPherson Publishing, 2017.


Ok, vamos por partes. Pra começo de conversa, este é o segundo livro da série "A queda do homem", de Brennan McPherson. Eu descobri essa vertente incrível da ficção cristã lá em 2019, quando li o agora já não mais publicado "Cain" (resenha disponível aqui); e depois continuei a curtir o gênero quando li a obra "Eden" (também fiz uma resenha). Dessa vez, porém, infelizmente a coisa não foi igual.

O livro de 354 páginas narra a história de Noé, começando com seu pai Lameque, passando pela história do em tese personagem principal, até finalizar com o Dilúvio. A edição é bem trabalhada, paperback, e segue o tema e estilo dos outros livros da série. 

O prólogo é bem trabalhado, de um jeito que até lembra o Silmarillion de Tolkien (resenhado também). O livro funciona muito bem como uma continuação de "Cain". Porém, conquanto eu tenha curtido o começo, não tardei a identificar algumas coisas que tornaram a leitura desse livro um verdadeiro suplício.

O que me pareceu é que o autor teve uma série de boas ideias e tentou juntar todas elas de uma única vez num só livro. No fim das contas, elas acabam mal trabalhadas e súbitas demais. Aliás, todos os temas iniciais são muito súbitos. Pá, invasão. Pá, escravidão. Pá, ainda penso na sua mãe que morreu. Nem dá tempo da gente se conectar direito com as histórias e os personagens.

Isso se traduz também nos diálogos entre alguns personagens, que soam bem "preachy". Enquanto há vários trechos que são naturais, os diálogos entre Lameque o pai Matusalém, por exemplo, soam como falas de teatro, não pai e filho conversando. Mais tarde, a mesma coisa se repete nas falas do Noé adolescente com Enoque. Pra mim, na parte que Noé finalmente aparece, as coisas soam desajeitadas. O jeito como a personalidade do rapaz é contada, parece muito tell e pouco show.

Enquanto eu elogiei tanto a construção psicológica dos personagens em Cain e Eden (vide as resenhas), aqui eu tive um banho de água fria. A tensão pai-filho de Matusalém e Lameque não funciona, não teve espaço suficiente pra construir, soa forçado (o mesmo para as relações Noé-Matusalém e até Noé-Enoque). 

A construção do próprio Noé é muito súbita, quase forçada. Logo dele que deveria ser o personagem principal (deveria?) está cheio de mudanças de personalidade muito rápidas. O livro tem até adolescentes com inteligência emocional absurda, sabendo exatamente o que e por que estão sentindo o que sentem.

Teve mais de um momento que deu o famoso "cringe". Só em filme e livro mesmo pra pessoa estar toda lascada, fugindo da morte e tentando sobreviver, e ainda achar tempo pra se apaixonar. Basta assistir qualquer seriado de sobrevivência na selva pra mostrar como essa romantização está longe da realidade. Outra parte que me deixou agoniado foi quando Enoque praticamente força um "treinamento Jedi" em um Noé adolescente.

[Pausa para notar o drama do autor em vários momentos (aliás, várias vezes ele tenta criar esse drama por meio de capítulos curtos e eu não estou bem certo até que ponto eles funcionam):
"In all those long years, no dreams came to Lamech, but every so often, as he hovered between sleep and wakefulness, he would think he saw eyes glinting in the night, and feel a stab of fear Each time he opened his eyes, he found his fears unfounded.
Each time but one" (p. 155)
Pam, pam, pam! (...) Ok, continuando.]

Novamente, o que me parece é que há uma série de boas ideias, mas em vez de escolher as melhores, colocou-se todas no livro. Por exemplo, no começo, o autor desenvolve a história de Lameque e Adah. Ele faz isso tão bem, que Adah se torna a personagem principal do livro e tudo converge muito bem na história dos dois... Aí ele mata Adah (spoiler alert).

Depois desse ponto, o autor tem que reconstruir todas as regras do jogo com o leitor, fazendo de Lameque o personagem principal – e mais à frente ele ainda vai quebrar isso mais uma vez, dando a Noé o papel de protagonista. São muitas mudanças num espaço muito curto. A premissa é válida, mas não no pouco espaço que se tinha para trabalhar. 

Se parar pra pensar, o único personagem sempre presente na narrativa é o vilão. E falando nele, engraçado como as coisas ruins parecem estar acontecendo só porque o vilão falou seu plano maligno e, por coincidência, está tudo se encaixando pra que o plano aconteça com sucesso. 

Pra mim o ápice da ruindade foi a parte de Noé "escolhendo" o caminho que queria seguir. Ali foi o fundo do poço. Não só foi teologicamente complicado demais pra mim, como também o autor perdeu a oportunidade de falar da conversão de Noé de um jeito que o leitor pudesse se relacionar. (E pra completar, não muito depois disso, tem o vegetarianismo. Sem comentários).

A verdade é que quando li Cain, tudo era novidade. Quando li Eden, o patamar subiu. Agora tornou-se inevitável: meu padrão aumentou e, por consequência, o nível de exigência também. 

Mas, afinal, quem sou eu, né? Acho que o que mais me assusta no livro é que eu acho que se eu escrever um romance ele vai sair exatamente do jeito que Flood saiu: cheio de boas ideias, porém mal trabalhadas. Eu me vejo escrevendo várias das cenas. Pior, cenas ruins. Pior ainda, cenas que eu saberia que são ruins, mas que eu não saberia como consertar.

No fim das contas, acho que o se o autor tivesse optado por contar a história de Lameque e Adah, finalizando com a chegada de Noé (ou até se tivesse optado por falar de Noé e Jade, finalizando com o dilúvio) ele teria sido mais feliz nas escolhas. Simplesmente não há espaço pra fazer tudo de uma vez. 

Se esse fosse o primeiro livro que eu tivesse lido do autor, nem teria pego outros dele para ler. Mas porque sei que ele é bom, creio que ainda merece o benefício da dúvida. Tem ainda mais dois livros dele que preciso ler: Babel e Abram. Vamos ver o que ainda temos pela frente.

sábado, 12 de março de 2022

Resenha – Ben Carson

CARSON, Ben S.; MURPHEY, Cecil. Ben Carson. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2002.


Conversava eu com meu bom amigo Craig Chapman, quando, no meio da conversa, ele citou o nome Ben Carson. Eu parei no meio da video-chamada e disse "Ei! Eu conheço esse cara! Olha só, tenho a biografia dele!". Dito e feito, lá estava o livro na estante. 

Eu o lera a primeira vez na época da adolescência, quiçá fim da infância. Eu não lembrava de detalhes da história, mas lembro que gostei do livro, porque achei a história bem interessante. Ora, uma vez que o livro tinha bons antecedentes, por que não lhe dar outra chance? Lá fui eu.

Antes de falar do livro, vamos falar sobre o livro. A começar pela edição. Confesso que nem sei quem é essa tal de Casa Publicadora Brasileira. Só sei que o livro é velho. A cópia que tenho em mãos tem as páginas todas amareladas e é uma brochura normal. Não obstante, a leitura é bem agradável e, pra ser honesto, as páginas amareladas até me ajudam na leitura.

Agora se for pra falar da tradução, devo dizer que infelizmente o tradutor caiu no erro de traduzir. Eu consigo ver as expressões que fazem sentido em inglês, mas que quando traduzidas diretamente quase não têm nexo. Disso resultam, por exemplo, diálogos sôfregos, exatamente aquele tipo de diálogos que eu condeno veementemente na literatura (perdão pelos advérbios).
"– Continuarei fazendo tudo corretamente – respondi bruscamente. – Estarei bem. Não tenho trazido boas notas para casa?" (p. 58)
Na moral, quem fala assim? Ainda mais um adolescente conversando com a mãe. Não, não dá. Claro que depois de um tempo a gente se acostuma; mas, poxa, custava adaptar só um pouquinho pra leitura ficar mais verossímil?

Findados o pré-texto, podemos falar do conteúdo do livro, que nada mais é do que uma biografia do médico neurocirurgião norte-americano Ben Carson. O livro é dividido mais ou menos em três partes: infância e adolescência, faculdade e cirurgias (ou carreira profissional) até 1990, data da publicação do livro nos EUA.

Pegando o gancho da mãe, que citei ainda há pouco, se no começo o autor falou bastante da sua mãe (de modo bem emocionante até), fiquei surpreso em notar que ela não é mencionada quando de sua partida para universidade, já que esse evento é um marco para muitos pais (e talvez eu tenha aí minha resposta).

Não sei se Ben Carson escreveu esse livro ou foi um ghost writer. Seja lá quem for, é muito bom em narração. O encadeamento dos fatos é muito bem trabalhado, ao ponto de eu começar a ler num dia e no outro perceber que faltavam poucas páginas pro livro acabar. Pra ser exato, li o livro em três dias.

Tendo essa questão da autoria em mente, achei interessante que o autor várias vezes diz que não ligava pra posições de destaque, etc, mas o que eu via era ele no parágrafo seguinte se gabando de como tinha posição de destaque e quase um destino manifesto para sua posição de destaque. Ok, ok. É vero que há um limiar difícil entre se gabar e enumerar seus feitos, mas às vezes me parece que ele erra a mão.

Não obstante esses incômodos, é inegável que o livro traz algumas lições bem interessantes. Não sei se conscientemente, mas ter lido esse livro na adolescência moldou muito do que penso. Hoje ao reler me deparo com vários princípios que eu pensei ter adotado por mim mesmo mas agora me questiono se não foram influências desse livro (que nem a premissa "a inteligência supera a força" que vi, surpreso, o Merlin repetindo no filme "A espada era a lei".)

Pra citar apenas uma, lembro da ideia da mãe de Carson de que "se alguém consegue fazer, então você também consegue." Creio que findei adotando isso de maneira inversa e falava pras pessoas: "Se eu consigo fazer, então você também consegue."
"Outro capítulo da minha vida estava prestes a abrir-se e, como acontece frequentemente antes dos eventos transformadores da vida, eu não estava ciente disso." (p. 151)
Hoje lendo com outros olhos consigo ver algumas coisas na vida de Ben Carson que são na verdade coisas que acontecem com todo mundo, como a citação acima (talvez exatamente nesta época que vivo agora ela seja mais verdade na minha vida). 

Além dela, lembro que em determinado momento ele sentiu o baque que foi sair do Ensino Médio e ir pro Superior, quando percebe que na verdade ele não sabia estudar. Foi exatamente o que aconteceu comigo também na época da universidade.
"Jamais descobrimos porque Jennifer morreu. A operação foi bem-sucedida. Nada na autópsia mostrava que algo havia dado errado. Como às vezes acontece, a causa da sua morte permanece um mistério." (p. 189)
E eis a sina do médico. Apesar da nossa inteligência e criatividade (dois traços bem marcantes da história de Ben Carson), ainda temos que lidar com o que há de mais essencial na vida. Até mesmo o adventista de sétimo dia neurocirurgião. 

No fim das contas não é um livro que eu pretendo doar (atual destino de todos que não gosto muito), porque a leitura é interessante e, bem, creio que daqui a uns 10 anos minha memória não estará melhor do que agora, então talvez será uma boa surpresa encontrar o livro na estante e desprender algumas horas numa leitura agradável.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Resenha – A morte de Ivan Ilitch

TOLSTÓI, Leon. A morte de Ivan Ilitch. Porto Alegre: LP&M, 2020.


Considerando a situação atual do mundo (estamos há quase um mês do início do conflito Rússia - Ucrânia), talvez eu deva conceder que os russos não produzam os melhores políticos; mas, diabos, como sabem fazer bons escritores. Não é meu primeiro livro de Tolstói e devo admitir que foi justamente essa experiência prévia que me levou a comprar esse livro (fiz uma resenha de Anna Karenina quando o li). Fiquei encantado com a capacidade da narrativa do autor que resolvi explorar outras obras. E, nossa, como valeu a pena. 

Pra variar começo elogiando a edição da LP&M. Não é segredo algum que amo literatura de bolso, especialmente quando esses livrinhos empacotam boa literatura russa. Na verdade, creio que já percebo os primeiros sintomas da velhice: quando abri o livro, uma das primeiras coisas que notei foram as letras grandes (não enormes, mas apropriadas) e o excelente trabalho de diagramação. 

Não há muito o que falar da narrativa do livro senão aquilo que já comentei em Anna Karenina: extremamente fluida, dá gosto de continuar lendo. Aliás, o autor imprime uma verossimilhança tal no comportamento dos personagens que o modo como narra e descreve o definhamento de Ivan Ilitch, me fez pensar que Tolstói realmente viveu aquilo, pra falar com tanta propriedade.

O grande tema do livro não é Ivan Ilitch, mas a morte. O autor faz um contraste entre a vida de Ivan, seu florescimento e ápice, pra depois mostrar sua decadência até chegar, enfim, na morte. Em poucas palavras, Ivan enfrenta o que há de mais básico na existência humana, talvez até mais comum do que a própria vida: o fato de que todos vão morrer. 
"Ivan Ilitch via que estava morrendo e desesperava-se. No fundo do coração sabia que estava indo embora e, longe de acostumar-se com a ideia, simplesmente não conseguia entendê-la." (p. 69)
Conforme lia a narrativa, fiquei pensando como deve ser horrível viver com esse medo – ou pior, morrer com esse medo. Confesso que me peguei triste por saber que esta é uma realidade não de poucos, para quem o futuro nada mais é do que a escuridão do desconhecimento do que há depois da vida.

Aliás, a reflexão que o autor faz no capítulo 9 sobre vida e morte é absolutamente genial. Penso até que aquele capítulo, por si, já justifica a honra que todo o livro leva (críticos consideram este livro como uma das novelas mais perfeitas da literatura mundial).

Não havendo mais o que ser dito, basta dizer que é realmente um livro incrível. E agora que parei pra verificar o blog, tenho lido bastantes autores russos nestes últimos tempos. É como falei. Não sei se produzem bons políticos; mas, meu Deus, como souberam fazer bons escritores.