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sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Buraco

Tem um buraco na minha sala que leva ao Inferno. O demônio sai de lá de vez em quando pra relaxar.

— Bom dia, Rosana.
— Oi, Naberus. Vou fazer café, tu quer?
— Só se for sem açúcar e bem forte, igual a gente toma lá no inferno. 

Passei o café e servi-lhe uma xícara. Ligamos a TV, era o jornal. Guerras, pandemia, corrupção. O demônio puxou uma prancheta e começou a anotar.

— Naberus, tu bem que podia falar com teu chefe pro Brasil ter uma folga, né?

Ele bebericou o café e balançou a cabeça:

— Rosana, tu acha que o diabo vai perder tempo lascando o Brasil?

Naberus levantou e foi lavar a xícara. Rosana espiou a prancheta: “Brasil, pesquisa de campo.” Da cozinha, ele disse:

— Eu venho aqui é pra aprender.


Conto publicado na coletânea "O vendedor de sofás", fiz uma resenha dele AQUI.

Remanso

— Doutor, fui picado por um carapanã no lavrado.
— Quem não foi, né? — ele sorriu. — Deixe eu ver.

Apresentei-lhe minha mão arroxeada e inchada, mostrei bem pra ele as veias onde os vermes passeavam.

— Que é isso?!
— Doutor o senhor já foi a um igarapé num fim de tarde?
— Sim, mas o que isso…
— O senhor sabe aquele horário em que os piuns e carapanãs saem? Bem perto do pôr do sol?
— S-sim.
— Então o senhor sabe que naquela hora, aquela mesma hora, em que Cruviana não sai, fica escondida com medo do silêncio, aquele momento entre a luz e a escuridão em que você tá mas não tá ali, sabe? Em que os buritizais ficam parados, esperando pra ver o que vai acontecer naquela hora específica.

Levantei da maca devagar e caminhei até ele. Minha mão roxa pesava e doía, eu comecei a suar. O médico deu dois passos pra trás, ele olhou pra porta, mas então já não tinha porta porque era o crepúsculo.

— O que tá acontecendo? — tinha medo na voz dele.
— Não tá acontecendo nada, nada mesmo. O senhor não entende que é exatamente isso? Não acontece nada. Não é mais dia, mas também não é mais noite. E só o que resta é o enxame de insetos que vem nos morder, tirar o sangue, a sanidade, porque eles entram no seu olho, no seu nariz, no seu ouvido, e não importa quanto você se debata eles não param de te atacar, porque você é só um e eles são centenas, milhares, centenas de milhares.

E no fundo dos olhos daquele médico eu vi que ele sabia também. Quem é de Roraima sabe. Sabe que quando o mormaço entorpecente vem, não tem rede que resolva, não tem ventilado que aguente, não tem ninguém que consiga suportar. Todo mundo acha que gosta do silêncio, até a hora que ele vem.

O médico continuou recuando até que os pés dele entraram na água do igarapé. A água também corria sem fazer som. Ele estava descalço e agora eu também. Na verdade, estava nu. Porque agora eu já não conseguia impedir o fluxo, e senti quando meus olhos começaram a inchar e o mundo começou a ficar arroxeado e tudo se espalhava. O médico ainda conseguiu gritar:

— O que é isso?! — e já o grito dele estava abafado, engolido pela infinitude do lavrado.
— Silêncio, doutor… — eu sussurrei.

Silêncio…


Conto publicado na Newsletter da revista Égua Literária, disponível AQUI.

E-mail

– Pode enviar.
– O quê?
– O e-mail.
– Ué, já enviei.
– Eita, já? Pera, deixa eu ver aqui. Ah, é. Chegou mesmo. Vish, mas veio sem anexo.
– Alô? Oi? A ligação está cortando.
– Eu disse que o e-mail chegou sem anexo.
– Sim eu mandei o e-mail, já disse.
– Já entendi isso, mas estou dizendo que veio sem anexo.
– Oi? O anexo? Sim, eu fiz a tabela, já te enviei.
– Marcos, eu tô dizendo que veio sem anexo. Sem. Anexo. Ouviu?
– Hum… acho que entendi agora. Foi sem anexo, é?
– Isso!
– Ah, tá. Desculpa. Fica aí na linha que vou enviar de novo. Enviando. Nossa, a ligação tá cortando demais, difícil te ouvir. Pronto, agora foi! Recebeu?
– Recebi sim.
– Pronto, tá aí o e-mail. Posso ir?
– Marcos.
– Que foi?
– Veio sem anexo.


Conto publicado na coletânea "A vida é uma piada", da editora Apparere. Disponível para compra AQUI.

Anfêmero

Há um deserto no fundo do mar. Lá os crustáceos andam sem ver o fim do mundo, apenas contemplando os pássaros-peixes que os sobrevoam com ar ameaçador. O crustáceo precisa ser esperto, as coisas não são mais como antigamente.

Antes, ainda se podia passear, levar a família para ver um pequeno gêiser, essas coisas que só quem vive no fundo do mar sabe apreciar. Mas hoje não tem mais condições. Cada esquina é uma moreia, um molusco bêbado perdido, um detrito que caiu do espaço.

O fundo do mar é um deserto, mas não significa que a gente não posso gostar do deserto.

Existe um lugar, porém, que a gente gosta de evitar. São as fossas oceânicas. Reza a lenda que lá embaixo existem seres horripilantes e é para lá que vão todos os peixes que boiam. Sim, é um paradoxo. Eles boiam, mas no final vão parar no mais profundo do mar.

O fundo do mar é cheio de histórias. Se olhar para baixo, tem as fossas; mas, se olhar para cima, tem o Grande Espaço. Não falo ali onde voam peixes, falo de onde caem os detritos. Há histórias até de gente que foi abduzida. Nunca conheci um desses, só ouvi falar. Há histórias.

Certo dia eu andava com minha esposa à procura de plânctons. Nossas patas vasculhavam a areia. Procurávamos e montávamos guarda ao mesmo tempo. Um peixe sobrevoou nossa cabeça e tentamos nos enterrar na areia, mas ele falou conosco:

– Esperem! Estou perdido.
– Como é?
– Vocês sabem o caminho para as fossas?

Eu e minha esposa nos entreolhamos. Era um robalo qualquer, não havia nada de especial nele, parecia inocente o suficiente.

– E o que diabos o senhor vai fazer lá? – minha esposa interpelou.
– Vou buscar meu pai.

Silêncio. Um vento de ondas levantou a poeira no fundo do mar e eu tossi.

– O senhor está falando sério? – dessa vez eu que falei.
– Já disse que sim. Vocês sabem o caminho ou não?

Novamente ficamos em silêncio, mas viramos a cabeça para o leste. O robalo entendeu tudo e pegou o rumo à toda velocidade.

– Moço, faça isso não – minha esposa disse, mas ele já não conseguia escutar.

O fundo do mar é um deserto e no deserto a gente vê miragens, coisas estranhas. Será que aquele peixe estava lá mesmo? E como o doido conseguiria resgatar alguém das fossas? Olhei para minha esposa e ela não disse nada, começou a cavucar a areia de novo. Imitei-a.

Mais tarde, já em casa, nenhum dos dois teve coragem de comentar o causo. Se falássemos aos vizinhos, seríamos motivo de chacota, como aqueles que dizem ter sido abduzidos. O deserto é um lugar com poucas novidades e, nós aprendemos naquele dia, era assim que preferíamos.

No dia seguinte, apenas eu saí para procurar comida.

– Estou indisposta, você se importa?
– Tranquilo, querida, sem problemas.

Eu saí de casa um pouco aliviado. Não queria sentir de novo o desconforto de pensar naquele peixe. Mas eu não conseguia evitar. No fundo eu sei que minha esposa também não e foi por isso que preferiu ficar em casa.

Eu andei pelo deserto infinito, mas estava distraído demais para conseguir o que precisava. Olhava para cima e ficava imaginando como seria ir além do Grande Espaço, lá onde só alguns peixes-pássaro conseguem ir. O meu devaneio me fez caminhar a esmo. Quando menos esperei, eu estava lá.

Eu olhei para a escuridão do profundo do mar e, como eu tanto temia, ela olhou de volta para mim. Fiquei procurando sinais do robalo, mas eu sabia que era impossível ver qualquer coisa ali. O chamado do abismo era cada vez mais forte. Precisei de muita força para olhar para trás e ver o que estava ali desde sempre.

Há um deserto no fundo do mar. Lá os crustáceos andam ignorando o fim do mundo, apenas contemplando os pássaros-peixes que os sobrevoam com ar sonhador. O crustáceo precisa ser esperto, as coisas ainda são como antigamente.


Conto publicado na 34ª edição da Revista LiteraLivre, disponível AQUI.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Dia

Dia 1
Vai dar tudo certo, tudo tranquilo. Na TV acabaram de dizer que coisa de três meses tudo acaba. Vou até aproveitar, vai ser um momento de relaxar, buscar novos projetos, vou me renovar. No fundo, acho até que vai ser bom.

Dia 15
Olha, as coisas não estão andando do jeito que eu imaginava. Acho que só estou cansado, sabe? Talvez o segredo seja deixar os dias passarem e ver o que acontece. Hoje lembrei que faz duas semanas que não rego as plantas. Esqueci que a quarentena não proíbe ir ao quintal. Nem lembro qual foi a última vez que peguei sol. A TV continua falando.

Dia 30
Bom, pelo menos agora serão apenas mais dois meses... Eita... mais dois meses disso? Pelo menos trabalhar online está sendo bom. Não tem que enfrentar trânsito, não tem colega de trabalho enchendo a paciência. Se bem que essas reuniões online são intermináveis! Ainda tem a dona Carminda que toda santa vez esquece de ligar a câmera, aí quando é pra ligar ela desliga. Um caos, um caos.

Dia 42
Fiz umas compras online só pra ver o carteiro me entregar a encomenda. Ele acabou de ir embora. Tentei papear mas ele nem me olhou direito. Na próxima vou montar uma mesinha lá fora com um café e convidar ele pra sentar. Ele lá na rua e eu na calçada, claro.

Dia 66
É... então... resolvi desligar a TV um pouco. Todo dia a mesma coisa. Se bobear já sei de cor todos os  números da pandemia e acho até que consigo adivinhar os do dia seguinte. Se pelo menos eu tivesse essa habilidade pra prever os números da Sena... Nossa! A lotérica! Nem lembrava mais que isso existe. Eita saudade daquela muvuca, as velhas mal-humoradas, os motoboy fedorento... hum...

Dia 90
Eu achava que a essa altura estaria livre. Mas não. Continua a mesma coisa. Comprei na internet um bicho de pelúcia pra me fazer companhia. Falo com ele todo dia, mas ele não me responde, o safado. Já cansei do trabalho online, especialmente quando tem prazo pra cumprir e não tem internet pra fazer nada. Hoje sentei no quintal, debaixo da árvore, e fiquei esperando a internet voltar. Um passarinho cagou em mim.

Dia 142
Hoje o urso de pelúcia falou comigo de novo, queria o relatório atualizado dos números da pandemia. Eu disse de cabeça e ele disse que estava errado, que era pra eu ligar a TV e conferir. Mas ele não manda em mim. Quem manda em mim é o passarinho, dou meu café da manhã todo dia pra ele, com medo de ele não pousar mais na árvore. Meu chefe disse que vamos ter outra reunião hoje a tarde. Meu Deus, a dona Carminda!

[...]


Para ler o conto na íntegra, acesse: https://thewolfbard.com/wp-content/uploads/2022/01/Revista-The-Bard-JANFEV-2022.pdf (p. 42-45)

Primeiro conto publicado em 2022! Uhul!

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Pé d'água

Era um verão daqueles bem escaldantes de Roraima. Na maloca, os jovens faziam troça dele:

– Bora! Não é o senhor que sabe a Dança da Chuva?
– Esses curumins não têm mais respeito pelos velhos!

Mas de tanto tirarem graça com ele, resolveu: se é dança que queriam, era o que iriam ter.

Posicionou-se no centro da maloca e começou a entoar os cânticos antigos. Os meninos achando graça, os adultos balançando a cabeça como quem diz: “Imagine se eu em pleno século XXI ainda vou acreditar nessas besteiras!”

Então aconteceu: caiu um toró. Mas não foi qualquer toró. É um daqueles que, se a gente está em casa, corre pra tirar as roupas do varal e torce pra não ter enchente; ou, se estamos no trabalho, coçamos a cabeça e tentamos decifrar como voltaremos pra casa.

– Pois tome!

O velho estava tão surpreso quanto os meninos. Décadas de dança da chuva nunca fizeram nenhuma diferença... mas agora não havia como negar a eficácia!

Choveu aquele dia todo. E no outro. E no outro.

– Sim, não dá pra fazer parar não? – os outros indígenas perguntavam.
– Não me amole – ele se limitava a dizer.

A verdade é que não tinha ideia de que a dança funcionaria e, agora que funcionou, tampouco tinha ideia de como reverter a situação. Ele não sabia nenhuma dança de não-chuva!

Os meses passaram e a maloca virou uma palafita. Trocaram a plantação de mandioca pela pescaria diária. Os jornais do mundo inteiro relatavam a chuva torrencial na Amazônia brasileira. Um noticiário internacional resumiu:

– Pense num toró!

A comunidade, que no começo exaltou os poderes do velho, agora já não aguentava mais.
– Faça alguma coisa!

[...]


Texto completo no e-book da 1ª Mostra Picuá de Cinema e Literatura, disponível aqui.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Cotidiano

Engraçado pensar como há 200 anos as pessoas achavam que 2221 seria “o Futuro”, né? Ah, porque a tecnologia vai revolucionar o mundo; ah, porque estamos numa nova era. Ah, porque isso e aquilo. Ai, ai. Eu só faço rir. Antigamente tudo era cheio de esperança. Não sei por quê.

Aqui estou eu no metrô empanturrado de gente. Brasília ainda é a mesma coisa, especialmente os governos. Entra gente, sai gente, e nada muda. É a história do Brasil desde sempre. Tem carros voadores? Não tem. Tem gente morando na Lua? Não tem. É sério que todo mundo achava que o Brasil ia alavancar assim do nada?

Do metrô consigo ver boa parte da cidade subterrânea e seus moradores. Todo dia preciso virar a cara, porque não tem quem aguente olhar para aquilo. Ah e não me venha com moralismos. Todo dia tem guerra na televisão e não vejo ninguém reclamando mais.

O vagão está lotado por causa do horário. Uma velha está sentada próximo à saída. Ela tirou um dos olhos pra ajustar alguma coisa. Eu hein. Onde é que esse mundo vai parar. Não se sabe mais quem é quem. E ninguém se satisfaz mais.

Saio do metrô e caminho pelos túneis intermináveis até chegar no meu elevador. Juro que um dia eu canso dessa mesmice. Olha lá, já estão trocando o letreiro de um dos Ministérios. Toda vez é isso. Governo novo, ministério novo, pessoas novas – e só isso, porque o resto é tudo igual.

Quando finalmente chego no trabalho, o festival de burocracia continua. Não tem mais papel, pelo menos isso. Agora a gente faz tudo pelos cytrons. Francisco me cumprimenta:

– Olá, Raul! – sorridente, ele caminha em direção a sua mesa.

Eu respondo apenas com um meneio da cabeça. Manhãs não são pra mim e não tem quem me faça tomar aquelas pílulas de humor. Mexem demais com nosso corpo sem a gente saber. Ah! E nem me fale sobre coisas que fazem com a gente sem sabermos. Eita, aí eu ficaria aqui pra sempre.

Engraçado isso. Às vezes eu tenho a impressão de que, na verdade, estive aqui desde sempre. Uma sensação estranha. Mas o ruim mesmo é o pensamento que vem depois: que eu vou ficar aqui pra sempre. Sento na mesa e tiro meu cytron do bolso. Conecto ele na tela à minha frente, que se ilumina e mostra as tarefas do dia. Eu suspiro e, resignado, começo a trabalhar.

O dia transcorre sem absolutamente nada interessante. Nada. Eu queria ter alguma coisa pra te contar, mas não tem. Talvez quem more lá na Cidade Alta, na “Nova Brasília” possa te contar as últimas fofocas; possa te contar como estava a bolsa de valores e o que eles ganharam; possa, quem sabe, até contar alguma coisa que te faça rir.

Na volta é o mesmo metrô, a mesma multidão, a mesma fuligem cobrindo a cidade, os mesmos canteiros com flores naturalizadas, outdoors com gente famosa e os moribundos pedindo esmolas. É tudo o mesmo que sempre foi.

De novo estou fora do metrô e caminho em direção ao meu apartamento. É meu único alento, porque no caminho dele está o último bosque do Centro-Oeste. Uma vez eu li que “bosque” era uma espécie de floresta pequena, não um conjunto de cinco árvores. Mas não sei se é verdade. 

Quando chego no meu prédio, lá está de novo um elevador. É o mesmo modelo que eu usei hoje de manhã. Tem vezes que quando estou dentro dele, não sei se estou indo pro trabalho ou pra casa. É tudo tão igual que eu me confundo.

Em poucos segundos estou em casa. Entro no apartamento, jogo o casaco e a pasta em cima do sofá, vou direto pro quarto. Aff. Chega disso, chega, chega. Preciso é descansar mesmo. Não sei como se vive assim. 

Tiro a roupa e deito na cama, hoje o dia foi daqueles. Que nem ontem, que nem amanhã. Puxo o cabo de trás do meu pescoço e ligo na tomada. Ah! Bem melhor. Digito no meu braço uns comandos e me deito tranquilo. Pronto. Por hoje é só e amanhã tem mais. Mais do mesmo que sempre foi.

Conto selecionado e publicado no Podcast "Literatura Já!", disponível aqui.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

O espírito do lavrado

[...]

— O que foi que eu fiz?

Realmente foi loucura. Ele andou até se sentir atordoado. Encontrou outros cajueiros e saciou a fome com os frutos, foi de igarapé em igarapé, buriti em buriti. E o lavrado parecia infinito. E o horizonte não chegava nunca. Em certo ponto olhou pra trás e não viu nem sinal de seu carro, nem sabia onde o tinha deixado. E o desconhecido que nunca chegava. Ele começou a perceber isso. Já entardecia e o sol se punha, magnífico. Agora não parecia mais dar uma bênção, e sim decretar um ultimato. Sim, o imponente sol laranja deitava-se e dava o veredicto: Raimundo, você não conseguiu desvendar o lavrado. Você falhou. As pernas já estavam cansadas, aquele mato rasteiro incomodava, e ainda tinha os piuns. Argh! Sim. Esses são verdadeiros arautos do inferno. Carapanãs, mosquitos, pernilongo, piuns, o nome importava pouco ali. E eles estavam às centenas, talvez milhares, rondando o corpo ensebado de Raimundo. O cheiro do suor lhe era desagradável, queria e precisava descansar. O sol parecia ter sugado as energias, sentia-se exaurido.

Mas e agora? O que fazer? Quanto tempo até alguém dar por sua falta? Será que já tinham percebido? Encontraram o carro? Mas quem ia saber? A família da Gabi pernoitaria no sítio, só veriam no dia seguinte. Raimundo do céu, o que foi que você fez?

Nunca foi um homem do campo, mas sempre se considerou alguém prático. Pensou no que fazer. O mais viável seria encontrar uma árvore e ficar debaixo dela. Não havia ali mata fechada e o céu estava límpido, algumas estrelas já despontavam na boca da noite, engolindo o mundo com sua escuridão até a única luz ser a lua e algumas estrelas. Caminhou, caminhou, caminhou procurando alguma árvore sob a qual pudesse se abrigar. Temia ficar perto d’água, não sabia que animais poderiam visitá-lo à noite. Avistou um buritizal e estancou o passo. Ali estaria um igarapé, com certeza. Olhou ao redor. A única árvore que poderia fornecer alguma espécie de abrigo era um caimbé, a poucos metros. Ele quase não protegia do sereno, mas o tronco retorcido oferecia um lugar onde pudesse recostar-se. Aproximou-se e sentou-se ao seu pé.

— O que foi que eu fiz?

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Café com pão de queijo

Tive muita vontade de ir embora depois que tudo aconteceu. A pandemia havia acabado e nós resolvemos fazer uma viagem juntos pra comemorar. Íamos à Manaus visitar minha avó. Nessa época meu avô já havia falecido e minha mãe queria ficar o máximo de tempo possível com ela. Não que estivesse solitária (outro neto morava com ela), mas não há nada como um carinho especial pra melhorar nosso dia.

Preparamos tudo. Tínhamos provisões e sabíamos que a viagem pela frente seria longa. É, meu povo, oito horas de carro não é pra qualquer um. Deus sabe que eu não queria ter feito a viagem de carro, é tempo demais perdido. Mas eles insistiram e eu fui. À frente, meu pai guiava o carro com minha mãe e irmã; eu vinha logo atrás no meu carro, com minha esposa. Saímos cedo, pra chegarmos cedo. 

Chegamos cedo demais pro meu gosto. Já havíamos passado do Jundiá e entramos na reserva indígena que fica na fronteira Roraima-Amazonas. Chovia muito e era tanto buraco na via que a dúvida era se havia mesmo estrada ali. Aquilo nos atrasou muito e acho que foi a impaciência que nos levou a fazer o que fizemos. Finalmente em estrada lisa, nos danamos a correr. Recuperar o tempo perdido.

Pff. “Recuperar o tempo perdido”.

Em resumo: aquaplanagem. Nos dois carros.

Eu vi a hora que o carro do meu pai desceu a encosta e rolou barranco abaixo. Não tive muito tempo pra processar aquilo, porque eu fui atrás logo em seguida. O mundo virou uma confusão de cores e sons. O air-bag do carro estourou, protegendo minha cabeça e fazendo um som que deixou meu ouvido zunindo. 

Não tenho ideia de como aconteceu, porque, quando abri os olhos, o mundo estava de cabeça para baixo. Foi horrível. Não sei quanto tempo fiquei daquele jeito, nem quem foi a pessoa a ver o acidente. 

Meu primeiro instinto foi ver se minha esposa estava bem. Hoje, olhando para trás, acho que eu preferia não ter visto. O seu pescoço estava num ângulo impossível para um ser humano e seus olhos estavam sem vida. Eu me desesperei e entrei em choque. É muito difícil pra mim processar e explicar o que aconteceu em seguida. 

Quando finalmente me tiraram do carro, lembrei que meus pais e minha irmã também haviam tombado. Olhei para o carro deles, em frangalhos. Minha mãe chorava, desesperada. E era o único som que eu ouvia de lá. 

Nos dias seguintes recebemos muitas condolências e o funeral estava lotado. Eu não tinha compreendido tudo. Não. Na verdade, me recusava a compreender. Foi só quando eles fecharam a tampa do caixão que eu percebi que nunca mais veria o rosto de nenhum deles. Entrei em choque de novo. Lembro de ter gritado, mas não lembro de muita coisa depois. 

Então estávamos em casa. Na casa dos meus pais, digo. Minha mãe não tinha escolha senão voltar pra lá e eu não tive coragem de voltar pra minha. Nós dois ficamos sentados no sofá sem falar nada. Na nossa frente a televisão estava muda e fria. Que nem o resto da casa. 

As semanas que se seguiram foram de muito choro. Acho que se eu e minha mãe não tivéssemos um ao outro naquela ocasião, teríamos os dois ficado loucos. Nossos corações eram confortados apenas pela presença do outro e pela certeza de que na Eternidade ainda encontraríamos de novo com eles. E embora a gente soubesse daquilo racionalmente, na prática, a eternidade estava muito longe. Quem já viu a morte de perto sabe muito bem como é.

Mas o tempo passa, a gente se regenera. Isto é, na medida do possível. 

Na época minha mãe já era aposentada, mas eu continuava trabalhando oito horas por dia. Morria de medo de deixar minha mãe sozinha em casa. Graças a Deus ela buscou outras ocupações, pra não ficar parada. Quando eu chegava, já quase noite, ela sempre tinha café pronto. Eu sabia e por isso já vinha da rua com pão de queijo quentinho. Nós sentávamos, agradecíamos a Deus pelo alimento e comíamos em silêncio. Eventualmente surgia alguma anedota de algum causo jornalístico ou algo referente ao meu trabalho. Mas até isso era difícil, porque meu pai trabalhava no mesmo órgão público que eu.

Por estes tempos eu já havia escrito meus dois primeiros livros e pensava num terceiro. Digo “pensava” porque, diante do que aconteceu, minha criatividade praticamente morreu. E não sem razão. 

Engraçado é que adquiri um hábito inusitado (pelo menos pra mim, dentro daquele contexto). Da minha herança literária, o que mantive, pela força do costume ou a necessidade do presente, foi a leitura de livros mais diversos. A possibilidade de encontrar uma boa história e mergulhar nela era um alento. O hábito inusitado a que me referi foi que eu passei a ler para minha mãe toda noite. 

Eu pegava um livro (de preferência algo baseado em “fatos reais” – expressão que ela adora) e sentava-me numa cadeira junto à sua cama. Ela ainda deitava apenas no seu lado, deixava o outro sempre arrumado e limpo, como se meu pai pudesse voltar a qualquer momento e dizer:

– Eita, comadre, que o calor lá fora tá tinindo – ocasião em que ele tomaria um bom banho frio e depois se deitaria na cama, ao lado dela. 

Eu pegava então o livro e não apenas lia, mas o interpretava. Eu era o narrador, os personagens, as onomatopeias, eu era o homem-livro. 

Minha mãe ouvia tudo quietinha, até que em certo momento eu percebia que ela havia dormido. Nunca sabia em que ponto ela tinha dormido. No dia seguinte eu precisava voltar algumas páginas pra que ela lembrasse da história. 

Fora de casa minha rotina não mudou muito. Trânsito, trabalho, almoço, trabalho, trânsito. E talvez essa mesmice me fosse até suportável, não fossem os olhares das pessoas. Enquanto eu tentava a todo custo deixar o passado pra trás, ainda com as feridas sangrando de memórias, as pessoas miravam-me com a pena e dor que eu tanto precisava esquecer. Talvez não “esquecer”, mas, pelo menos, não me fixar nelas. 

Atormentavam-me os abraços do meu pai, os comentários sarcásticos da minha irmã e os beijos da minha esposa. Ninguém me falou que as memórias seriam tão terríveis assim. 

Um dia cheguei em casa e o café não estava pronto. Chamei por minha mãe, mas não tive resposta. Larguei a mochila na sala e corri para o quarto dela. O lado do meu pai na cama estava feito, perfeito. No outro, ela dormia, com o livro que eu lia para ela toda noite sobre o ventre.

Eu estava assustado, mas aquela imagem se apresentou tão serena, tão cheia de paz que eu dei um suspiro de alívio. Sorri para mim mesmo e fechei a porta do quarto devagar. Deixe a velha descansar um pouco mais, sua vida já é muito sofrida.

Desci para fazer o café. O pão de queijo ainda estava quentinho. Coloquei água na chaleira e preparei o coador com o pó. A tarde ia se findando e eu via o sol pronto para seu repouso, também mais do que merecido. Enquanto a água fervia, eu me dei ao luxo de sair no quintal pra ver esse por do sol mais de perto e lembrar que ainda havia beleza na vida. 

Um som me tirou a concentração. Virei a cabeça e minha mãe saía do quarto, com o livro na mão. 

– Bibinho? – ela me chamou e me viu no quintal. – Acho que eu dormi demais, né?

Olhei para a cara de sono dela e sorri. Entrei em casa e abracei-a, dando-lhe um beijo carinhoso na testa. 

– Só um pouquinho – sorri pra ela. – Bora tomar café?

– Bora.

Na cozinha, a chaleira anunciava que a água estava pronta.


Texto publicado na 25ª edição da Revista Literalivre (p. 43-45), disponível aqui.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Murchar

Dona Raimunda foi até a área de serviço e colocou um pouco de água no regador. Fazia frio e as juntas doíam a cada passo que dava. Mas as plantinhas, coitadas, precisavam se hidratar.

Ela pegou a água e voltou para a janela. Dali as plantas viam as ruas solitárias abaixo e passavam o dia tomando sol, quando este se dignava a aparecer. Molhou-as com cuidado quando sentiu uma pontada.

— Ai — ela pôs as mãos nas costas —, mais dia menos dia esse frio acaba comigo.

Havia uma cadeira de balanço ali. Sentou-se a apoiou o regador no colo. As folhas das plantinhas balançavam com o vento frio. Que bonito… era como se estivessem aproveitando a brisa. Será que só ela não teria direito a um minuto de vida sem dor? 

Balançou-se devagar na cadeira e falou sozinha:

— Já que isso faz efeito. Só aguardar.

E sorriu para si mesma. Alguns minutos se passaram e a cadeira balançou cada vez mais devagar. Era o frio.



quinta-feira, 3 de setembro de 2020

O prisioneiro - VII (O grande cisma)

 
            — Cara, estou começando a achar que não tem jeito.
            — Sinceramente, eu também já estou perdendo a esperança.
            Nós passeamos pelo blog, por esse festival de resenhas que quase ninguém lê, contos perdidos e até alguns poemas soltos. Estávamos desalentados.
            — Talvez tenha coisas das quais simplesmente não dê pra escapar — ele falou.
            Então comecei a lembrar. Lembrei de quando eu era feliz dentro do meu conto, quando eu podia simplesmente escrever minhas histórias dentro das minhas histórias, quando a vida era simples e eu não tinha que me preocupar com essas maluquices literárias.
            — A culpa disso é toda sua! — eu sentenciei, irritado.
            — Minha? — meu eu do futuro estava atônito. — Você preferia viver preso pra sempre naquela ilusão? Viver perdido naquele microcontos inúteis? 
            — Ora! E o que me importa? Hein? Eu era feliz! Eu estava bem. Eu não pedi por tudo isso, você que me trouxe pra cá e me arrastou sem eu pedir!
            Ele olhou pra mim com olhos incrédulos, a boca entreaberta. 
            — Você só pode estar de brincadeira — ele balançou a cabeça e riu com ironia. — E aqui estava eu achando que você tinha maturidade pra lidar com a realidade, Gabriel. E aqui estava eu (feito um besta, diga-se de passagem) tentando te ajudar.
            — Que ridículo — eu respondi, a raiva me dominando. — Você queria se ajudar! Você que sempre quis escapar de tudo isso, você que nos levou até o Gamal, você que implorou pelos segredos da viagem interliterária. E para quê, hein? Ainda estamos presos, seu imbecil! Ainda estamos no texto! Saímos do Instagram e do Facebook, mas cá estamos! Preso nesse maldito blog esquecido no canto mais remoto da internet. Parabéns, Gabriel. Queria sair daqueles microcontos? Parabéns. Estamos agora num conto. 
            Silêncio. Nós dois imóveis, encarando um ao outro. O ar estava quieto, parecia que todas as resenhas, contos, poemas e crônicas se calaram pra ouvir a nossa conversa. Será que eles também começavam a criar consciência de onde estavam? Será que nosso diálogo podia inspirá-los? Ah... mas a troco do quê? Eles só se veriam perdidos no mesmo vórtice em que nos metemos.
                Depois de um tempo, meu eu do futuro começou a mexer num relógio que tinha no pulso. Foi a primeira vez que notei que ele usava esse objeto. O relógio era um daqueles smartwatches da Xiaomi, cheio de comandos diferentes na tela. Enquanto fazia isso, ele falou comigo:
                — O que eu nunca te contei, Gabriel — sua voz era calma, ele não olhava para mim —, é que eu não precisava de nada disso. O que você se engana, meu caro, é que eu vim aqui por outro motivo que não fosse ajudar você. Cara, eu fico abismado que você não entenda. Eu sou você. Tudo que eu queria era evitar que você (que sou eu também) ficasse perdido, preso, prostrado naquele mundo de mentiras. 
                Ele finalmente terminou de mexer no relógio. Tirou do bolso um pequeno retângulo metálico e jogou no chão. O objeto caiu com um tilintar e o Gabriel do futuro olhou para mim:
                — Mas já que você deixou bem clara sua posição, não me resta outra saída — ele apertou um botão na lateral do relógio. De repente ele começou a brilhar, sua luz iluminava as palavras das resenhas, eu via reflexo dele nos outros personagens, eu vi que ele estava em cada pequeno texto que eu já escrevi. Ele continuou:
               — Eu podia ter ido embora a qualquer momento, eu ainda posso voltar para a minha dimensão literária por causa desse relógio aqui. E já que você não precisa de mim, eu vou embora. Esse transmissor que eu joguei aí no chão é uma viagem só de ida para sua dimensão original. Divirta-se nos seus microcontos. A verdade é que, assim como você, eu também já cansei. Passar bem.
             Então ele sumiu.



sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Liberdade

                Era o ano setenta e dois da pandemia. Adelaide corria com o menino preso nos braços. Os cabelos pulavam com o vento da noite. O lavrado era um terrível vazio para seus perseguidores; mas para ela, que conhecia aquela terra, era a única salvação. O vento a açoitava e dificultava a fuga. Será que não haveria trégua?

Hoje não, Cruviana”, ela pensava, “por favor”.

Ela fugia. Para onde? Não importava. Onde ainda haveria esperança? Ela não sabia. Mas corria. Corria e a noite voava. O menino chorava e ela dizia:

É só o vento, meu filho. Vai ficar tudo bem.


______________


Vamos, seus incompetentes! Ela não pode estar longe daqui!

As lanternas nos fuzis varriam o horizonte na procura dela. Os homens estavam nervosos. Eles sabiam que ali o vírus não os encontraria, mas… quem sabe o que mais se escondia por ali? Cada passo era lento; cada pequeno som, um tormento.

Capitão, veja isso! — um soldado apontou para algo no chão.

O que é? — ele se aproximou e viu algo jogado no chão. — Essa mulher ficou doida! Ela deixou a máscara para trás?

Os homens o olharam com a mesma surpresa.

Já chega. Vamos voltar — ele fez um sinal para os outros. — Sem isso ela não vai durar nada. A gente coloca tudo no relatório e manda pro Comitê.

Sim, senhor!

Eles entraram no jipe e o motorista fez o caminho de volta para Boa Vista. A vicinal que cortava a terra indígena era de uma terra fina que o fazia tossir. Ele segurou a tosse, no temor que aquilo fosse entendido como indício de algo mais. A viagem de volta foi um sufoco. O farol iluminava a estrada, mas seus olhos estavam postos na lua que banhava o lavrado.

Pra onde diabos essa mulher foi?”, pensava.


_________


Os capacetes dourados patrulhavam as ruas. Na praça do Centro Cívico, um dos mecanoides abriu a cancela para que o capitão entrasse. Ele os mirou desconfiado. Imunes ao vírus mas… confiáveis? Não tinha quem o convencesse disso. Ele estava nervoso. Não seria tão fácil explicar a fuga da indígena.

Capitão Raimundo desceu do carro. Dos degraus do Palácio do Governo ele viu as ruínas da Assembleia Legislativa. Estremeceu. Esse governo provisório lhe dava arrepios. Mas algo dentro dele o lembrava: “Faça seu trabalho, não se preocupe com essas coisas”. E este motto permitia que ele dormisse à noite: “Faça seu trabalho”. Com o pensamento firme na cabeça, segurou a pasta com o relatório e se preparou para a audiência.

Ao entrar no Palácio, foi levado à sala de descontaminação. Depositou a maleta no chão e abriu os braços. Os jatos de ar e químicos subiram às narinas e queimaram por dentro. Ele fez uma careta, mas não reclamou. Era sua rotina desde que nasceu. Será que houve mesmo um tempo em que as coisas eram diferentes? Ele afugentou o pensamento e saiu da sala:

Destino? — perguntou o mecanoide na recepção.

Gabinete do sub-Presidente.

Nome?

Raimundo da Costa Filho.

Após alguns toques na tela, respondeu:

Espere ali, por favor — e apontou para algumas cadeiras.

Ele sentou-se e viu que a televisão mostrava aquela mesma reportagem de sempre. A mesma propaganda explicando como o estado de pandemia evoluiu. Quem no ano de 2020 imaginaria que o vírus ganharia tamanhas proporções? Se os governos e as pessoas tivessem agido corretamente… quem sabe o futuro não seria diferente?

A reportagem mostrava a centralização do poder nas mãos do Comitê de Preservação da Vida. Aos poucos, tudo foi ruindo. Criado como um gabinete de crise, ele foi tomando proporções maiores, até aquele fatídico vinte e sete de junho quando…

Sr. Raimundo! — a voz do mecanoide o tirou de seu devaneio. — Pode dirigir-se ao gabinete agora.

Obrigado — ele não sabia por que agradecia ao robô. Velhos hábitos.

Subiu as escadas e entrou no gabinete ornado. A secretária limitou-se a apontar para a porta da sala do sub-Presidente. Este fumava um cigarro em pé e sorriu ao vê-lo entrar:

Fala Raimundo! Oxente rapaz, que demora. Sente aí, sente aí.

Bom dia, sub-Presidente — ele disse ao sentar-se.

Ora, mas que cerimônia é essa? — ele dava passos lentos atrás da mesa, cinzas caíram do cigarro sem odores. — Desde quando não me chama mais de Chico?

Foi mal, Chico.

O que houve, rapaz? — ele percebeu que o capitão estava incomodado.

Olha… — a cadeira ficou desconfortável de repente. Ele não olhava para o outro, com a mão afrouxava a gravata. Ele suava e o ar escapava.

Fale de uma vez, homem. Que enrolação é essa?

A desgraça da mulher fugiu, cacete — ele estourou. — Foi isso que houve.

Raimundo, tu tá de brincadeira comigo, né?

Raimundo tirou uns papéis da pasta:

Coloquei tudo no relatório — tirou ainda um saco plástico com a máscara dentro. — Foi tudo que encontramos dela.

Os passos de Chico diminuíram, ele aproximou-se da mesa e apagou o cigarro no cinzeiro. Puxou a cadeira giratória devagar e sentou. Nem olhou para Raimundo quando pegou o relatório para ler. Quando terminou, disse:

Raimundo, isso aqui não tá certo.

Um silêncio desconfortável pairou na sala enquanto os dois homens se encaravam.

Tá, mas eu vou fazer o quê?

Chico olhou firme para Raimundo e disse:

Você vai me fazer outro relatório.

Ué — estranhou. — Como assim?

No outro relatório eu quero a informação de que ela foi encontrada morta.

Tá louco, Chico?

Chico é o caramba — ele sibilou. — O que é que eu vou reportar pro Presidente, hein? Que nosso experimento fugiu? Que a droga da cura do Covid-25 tá por aí no meio do mato? Tu tá ficando doido, Raimundo? Quer me ferrar?

Raimundo ficou teso na cadeira e suspirou. Após um momento de silêncio, disse:

E de que adianta fazer outro relatório?

Pô, Raimundo — ele afastou a cadeira da mesa e recostou-se, tirando um cigarro e um isqueiro do bolso. — Achei que você era mais inteligente.

O outro limitou-se a dirigir-lhe um olhar frio. Chico puxou algumas baforadas e continuou:

Se o experimento deu errado porque fugiu, eu vou precisar de mais recursos pra fazer outro, não acha? — ele suspirou. — Olha, eu sei que não é o ideal, mas é só fazer outro relatório, entende? Você é o chefe da segurança, coloca lá direitinho. Quantos homens foram contigo?

Três.

Pronto, olha aí! Pouca gente. Dá pra resolver isso fácil. Não precisa criar caso.

Eita, Chico…

Parente, tu se preocupa demais. Faz só o teu trabalho, faz.

A frase acendeu o interruptor dentro de Raimundo:

Pô, Chico… você tá certo. Amanhã te entrego o outro relatório, que se dane.

Isso aí! — ele abriu um sorriso de orelha a orelha. — As coisas às vezes são mais simples do que a gente imagina.

Pior que é, a gente que gosta de complicar.

Ambos sorriram. Chico levantou-se e parou em frente à grande janela do escritório. Contemplando a cidade, disse:

Aí fora, Raimundo, tem muita gente contando com nosso trabalho, sabe? — as baforadas nublavam a vista da janela. — Já pensou se tudo acaba hoje, o caos que não seria? Olha a loucura que seria. Diacho, parente, tu não lembra como era antes do Comitê? Tá louco, a gente vivia com medo, não podia fazer nada, tudo era motivo de pânico. Olha aí agora. A gente finalmente tem ordem e progresso nesse país.

Demorou só quase seiscentos anos — exagerou.

Os dois riram. A velha amizade de tantos anos florescendo de novo.

Só tem uma coisa, Raimundo… — Chico disse sem virar-se.

Diga lá.

Tu vai precisar fazer outra coisa.

E o que é? — ele ficou logo desconfiado.

Aquela mulher não vai poder ficar solta assim não — Raimundo ficou tenso. — Tu vai atrás dela e vai encontrar ela pra mim, tá me entendendo?

De costas para a sala, fumando, Chico era uma figura impassível. Raimundo porém sabia que o amigo não havia chegado ao cargo de sub-Presidente à toa. Não eram poucos os motivos para temer. Amizade era um artigo descartável para algumas pessoas que chegam no poder. Não era a primeira vez que Chico pedia alguns serviços fora do comum e Raimundo sabia que não seria a última. Por isso, limitou-se a dizer:

Sim, senhor.


_________


Com a extinção dos Yanomami em 2038 por conta do vírus, o Comitê adotou uma série de medidas protetivas para o isolamento das populações tradicionais. Se por um lado isso era um holofote para o Comitê, apontando para a preservação dos povos ribeirinhos e algumas tribos próximas às cidades, por outro era o subterfúgio perfeito para esconder os campos de concentração. Eis a razão principal de tantos protocolos para acesso às áreas indígenas.

Raimundo pensava nisso enquanto o carro percorria as vicinais naquele final de tarde. Com o mínimo de barulho possível, ele pretendia entrar por uma das rotas alternativas logo que a noite baixasse. Mas a pergunta que estava na cabeça de todos foi feita por um dos soldados:

Mas, chefe, a gente vai procurar onde? Será que ela foi pra aldeia? — questionou. — Mas lá todo mundo conhece ela.

Eu sei, Ferreira — respondeu Raimundo. — Mas é lá que a gente vai ter que começar.

No volante, Aelton ouvia os dois em silêncio. Desde que não lhe mandassem fazer nada além de sua função, ele não se importava. Era um motorista que queriam? Era um motorista que teriam. Agora que não venham inventar outro serviço pra ele. Ele buscava ao máximo ignorar a conversa do capitão e os outros soldados. “Foca no seu trabalho”, dizia para si.

Capitão, o seu contato ainda tá na aldeia? — perguntou Neemias, o outro soldado.

É justamente com ela que eu quero falar — ele fez um gesto com a mão. — Mas chega de papo furado. Aelton, acelera aí porque eu acho que vai chover.

As primeiras gotas já os tinham alcançado quando eles desceram do carro, na entrada da maloca. Como eram oficiais do Comitê, em nenhum momento questionaram suas credenciais. Foram recebidos pelo tuxaua:

Opa! Sejam bem-vindos.

Como está, seu Carlos? — o capitão respondeu, aproximando-se.

Aqui tá bom, tá bom — então foi direto ao assunto. — Vieram passear por aqui, foi? Até sem máscara vieram.

Estamos só de passagem. E aqui ninguém precisa de máscara, não tem doente.

Ah, é?

Pois é.

E vão pra onde?

Ah, isso aí que vamos ver…

Hum.

Seu Carlos.

Diga.

Por acaso a dona Severina tá por aí?

Ele olhou para os quatro com um olhar desconfiado.

Deve tá. Por quê?

A gente queria falar com ela.

Hum — o tuxaua fez um sinal positivo com a cabeça e pausou antes de continuar. — Mas aí eu não sei se de repente ela não tá indisposta, né?

Como é?

Ela já é bem velha… não pode receber visita assim.

Ah, é?

Pois é… De repente tivessem trazido uma coisinha pra ela.

Ah… — o capitão entendeu. Afinal, ambos falavam o mesmo idioma. — É que a gente veio com pressa. Mas veja se isso aqui não dá pra conseguir alguma coisa.

Ele tirou algumas notas do bolso e passou para as mãos do tuxaua.

Ô… vai ter que dar, a gente se vira por aqui — e segurou firme as cédulas na mão. — Podem vir por aqui.

A noite já havia caído e neste horário a maloca quase toda dormia. Há costumes que não se perdem nunca. Ainda bem. Os soldados passaram sob olhares curiosos de alguns, mas sua visita não causou grande comoção. Tivessem vindo durante o dia, a algazarra teria sido incontrolável.

Dona Severina estava deitada numa rede, balançando-se e entoando uma canção que só ela conhecia. Era a mulher mais idosa da maloca, guardava para si tradições que já se perderam de um idioma que ninguém mais queria aprender. Ela estava acordada, mordiscando lembranças para que elas não se perdessem. Quando se é mais experiente, o sono foge da gente. E ela fugia do sono, temendo que numa dessas não acordasse de novo.

Sa'pontîn, dona Severina — o tuxaua cumprimentou quando se aproximaram. Ela se remexeu na rede e viu os homens. Com a voz frágil, sua primeira reação foi dizer:

Kaikusi mîîkîrî narî o'ma.

O tuxaua sorriu. Já estava acostumado aos devaneios da velha. Mas os homens se entreolharam, desconfiados. Aelton perguntou:

O que foi que ela disse?

É coisa de velha doida — o tuxaua balançou a cabeça. — Ela disse “a onça é um animal muito perigoso”. Eita, dona Severina velha de guerra. A bicha tá cada dia mais doida. Mas taí, podem falar com ela. Depois vocês podem dormir perto de mim. Trouxeram rede?

Não viemos pra dormir — respondeu o capitão.

Como não? Vão sair à noite, é? — o tuxaua ficou novamente desconfiado.

Pois é. Tem serviço aí pra fazer.

É?

É.

Hum — apertou as notas na mão de novo. — Como quiserem. Até a próxima.

Obrigado, seu Carlos.

O tuxaua se afastou com passos rápidos. Seja lá o que for que esses kraiwa estivessem prestes a fazer, que fizessem logo e fossem embora o quanto antes. Não gostava deles. Homens como Raimundo ele sentia o cheiro de longe, era gente em que não se pode confiar. As cédulas na mão eram a única coisa que lhe permitiam suportar aqueles quatro.

Putz — disse Raimundo, ao lado da rede de dona Severina. — Pô, acho que esqueci meu celular lá no carro. Aelton, pega lá pra mim?

De boa. Onde tá?

Acho que deixei no porta-luvas.

certo.

Raimundo esperou Aelton se afastar um pouco mais e falou baixo:

Vocês trouxeram? — perguntou aos outros dois.

Tá aqui, chefe — disse Ferreira.

Mas será que ainda funciona? — perguntou Neemias.

A gente só vai saber se testar.

Ferreira tinha uma mochila às costas. Colocou-a no chão e dentro dela retirou uma caixinha de metal comprida. Dentro dela havia uma seringa e material para coleta de sangue. Depois tirou outro objeto: um cubo metálico com um botão em cima.

Vai logo, caramba — Raimundo estava visivelmente nervoso. — Antes do Aelton voltar.

Tá, eu sei — reclamou Ferreira. — Neemias, vai lá enrolar o Aelton, vai. Não gosto que fiquem me apressando.

E eu não gosto que fiquem me dando ordens — retrucou Neemias.

Deixa de drama, Neemias — falou Raimundo. — Só vai.

Ele se retirou a contragosto. Enquanto isso, Neemias pegou o braço de dona Severina e procurava nele a melhor entrada para a seringa. A mulher, sem forças para lutar, cedeu como em todas as outras vezes que eles fizeram isso. Reclamou quando a seringa penetrou sua pele, mas ninguém a ouviu. Com habilidade, Neemias retirou o sangue da mulher.

Raimundo pegou o cubo metálico e apertou o botão. O dispositivo abriu um compartimento na lateral e pôs para fora um vidro circular bem pequeno. Sobre ele, Neemias pingou uma gota de sangue. Raimundo apertou novamente o botão e o vidro recolheu-se para dentro do cubo, que emitiu uma luz esverdeada por alguns segundos.

Tá feito — disse Raimundo. — Ainda funciona.

Fechou — Neemias despejou o resto do sangue coletado num recipiente e guardou todo o material de volta na caixinha.

Então vamo embora. Aproveitar que de noite ela não tá esperando a gente.

Partiu, chefe.

Eles levantaram e deram às costas para dona Severina. Ela mexia-se pouco. O cansaço de anos caindo sobre cada músculo do seu corpo velho. O braço estendido doía, mas ela não falou nada. Não conseguia. E, quando falava, ninguém lhe entendia ou fazia questão de entender. E lá ficou ela, um resquício de um passado que já agora era apenas uma memória. Os homens caminhavam em direção ao carro e ela ficou.

A rede já não balançava mais.


_________


Pra direita! Pra direita! — gritava o capitão. — Cacete, Aelton. Não sabe mais a diferença de esquerda e direita é?

Foi mal, chefe. É que dirigir assim de noite é complicado, né?

Fala menos e dirige mais.

No lado do passageiro, o capitão segurava o cubo metálico. Uma pequena seta no topo dele guiava sua direção. Era seu compasso. O jipe já havia saído da vicinal há tempos, eles agora rumavam no meio do mato.

Capitão — disse Ferreira. — Com esse negócio dá pra ver se a gente tá perto?

Pergunta besta hein, Ferreira — retrucou. — Claro que dá.

Esse caminho aqui tá levando a gente na direção da serra.

Ninguém perguntou nada, Neemias — o capitão estava irritado. — Vocês não sabem calar a boca? Se aquietem aí que uma hora a gente chega. E Aelton, pé na tábua.

Os solavancos do terreno, porém, não permitiam acelerar demais. No horizonte, Raimundo procurava qualquer vestígio de presença humana. Para onde teria ido a mulher? Ele começou a lembrar de Adelaide no laboratório. Não interagiu com ela, mas seu nome foi repetido por vários cientistas. Resistente, boa estrutura corporal, DNA favorável, décadas de testes com sangue indígena, plasmas, vírus… imunidade. Finalmente chegaram no resultado. Um ser humano imune a todas as variações do Covid. Ora, quem diria? Os experimentos foram um sucesso!

Mas ela ainda não era compatível para produção da vacina em larga escala. Era preciso algo mais. Era preciso um ser humano que já tivesse nascido com essa capacidade, não um com uma imunidade produzida artificialmente. Um espécime com um novo DNA, uma nova estrutura, uma nova imunidade.

Será que o menino tinha nome? Não, melhor não. Ele sacudiu esse pensamento da cabeça. Não era um menino. Era um espécime. Há uma diferença entre uma pessoa e uma… coisa. Não era difícil. Afinal, o governo sabia muito bem o que fazia, ele tinha direito sobre a sua propriedade. Não é dele? Deixa fazer o que quiser.

Só tô fazendo meu trabalho — ele murmurou.

Como é, chefe? — perguntou Aelton. O capitão saiu do seu devaneio:

Nada não. Concentra aí — então a luz no topo do cubo metálico piscou com mais intensidade. — Agora sim a coisa vai ficar boa. Finalmente! Rapaziada, prepara aí, que estamos perto.


_________


A correria surda ocorria dentro da mata fechada. Os homens desviavam das raízes no chão, mas era quase impossível não fazer barulho. Avançavam devagar. Na mão do capitão, brilhava a bússola. Os rifles estavam preparados e cada um deles olhava ao redor com os óculos de visão noturna, na tentativa de encontrar a mulher.

Não havia ali perto nenhum traço de civilização. Teria ela ficado louca de vez? Embrenhou-se na mata para morrer? A floresta os observava também. Na copa das árvores os animais pareciam grandes sentinelas. Os homens tentavam fazer silêncio, porém a mata não tinha este compromisso. Os sons da noite se proliferavam. Porque havia invasores ali.

Pessoal, pessoal! — o capitão sussurrou. — Vocês estão ouvindo isso?

Eles pararam e tentaram ouvir a noite. Sim. Eles ouviam.

Capitão… será que é mesmo? — perguntou Ferreira.

Olha eu tô achando que é isso mesmo — respondeu Neemias. — É choro de criança.

Bora lá, bora lá! — ordenou o capitão.

Eles correram apressados, o volume do som aumentava, estavam na direção certa. O terreno irregular os atrapalhava, mas seguiam decididos. A essa altura já estavam no pé da serra. Conforme se aproximaram, ouviram:

Shh, shh… vai ficar tudo bem. Não chora, não chora — seguido de uma melodia simples, um acalanto. O capitão fez um sinal com a mão para estancarem o passo. Com outro comando, eles seguiram bem devagar na direção. Não havia mais dúvidas, era Adelaide. O choro havia cessado.

A gente vai fazer o seguinte — o capitão sussurrava o mais baixo possível. — Neemias pega o flanco da esquerda, Ferreira o da direita. Eu vou no centro. Alguém tem uma visão clara do local?

Chefe, acho que é uma caverna — disse Ferreira.

Ótimo. Melhor impossível. A gente já deve estar na serra mesmo. Todo mundo entendeu o que é pra fazer?

Positivo, capitão.

Copiado.

Eles pisavam firme, os rifles prontos. Assim que chegaram na porta da caverna ligaram as lanternas das armas e gritaram:

Parada aí!

Pro chão, pro chão!

Ah! — gritou a mulher, abraçando o filho.

A cena era deplorável. A terra na caverna estava úmida, a mulher tinha as roupas rasgadas. A criança mamava. Adelaide estava magra, os cabelos desgrenhados. Ela implorava:

Por favor! Eu não! Aqui não!

Os homens a olharam em silêncio. Não era costume falar com ninguém. Com os rifles erguidos, Ferreira e Neemias aguardavam as ordens do capitão. Este viu a situação que a mulher estava. Lembrou-se dela no laboratório, lembrou das promessas dos cientistas e lembrou também do sub-Presidente. O rifle na mão, o dedo coçava para apertar o gatilho. Mas que coisa! Por que ele hesitava? Os homens já estranhavam a demora.

Pra que diabos você foi fugir?! — ele gritou, vomitou as palavras. O som ecoou na caverna e a impressão que eles tiveram era que o mundo inteiro os ouvia. — Não dava pra ficar quieta no seu lugar?

Vão matar meu filho! — ela gemia e chorava. Sua fala era cortada, arrastada. Tinha um sotaque de quem não falava português direito.

E daí? Depois tu faz outro, imbecil — ele retrucou, o rifle empunhado, a luz no rosto da mulher. — Essa daí é a cura pra nossa doença! Vai deixar todo mundo morrer por causa de uma criança?

Que doença? — ela falou, confusa.

Como assim que doença, sua índia suja? — o capitão cuspia enquanto falava. — Não tá vendo o mundo inteiro morrendo por causa do Covid?

Pelo amor de Deus! — ela gritou. — E meu filho tem a ver com isso? Eu tenho ver com isso? Por que não deixa a gente em paz?

Vocês são a cura, sua idiota! Vocês são a cura! Vocês são imunes.

A expressão de Adelaide aos poucos tomou nova forma. Da confusão, passou para um súbito entendimento e devagar caiu numa risada. Ela ria baixinho, seus ombos balançavam. Então cresceu, cresceu, até se tornar um riso convulsivo que fez a criança soltar o seio e começar a berrar de novo. Isso só a fez rir mais alto.

Capitão, que merda é essa? — questionou Ferreira.

Raimundo limitou-se a levantar-lhe a palma da mão.

Vocês são é burro — ela disse após se recuperar da crise de risos. — Tá bom, tá bom. Pega. Leva meu filho de volta, leva. Ele não tem cura. Vai. Pode levar.

Agora ninguém precisa mais dele — disse Raimundo.

É claro que não precisa! — Adelaide ria. — Ninguém cura, kraiwa idiota.

Quem aquela porca achava que era pra falar com capitão Raimundo dessa forma? Que mentiras a cabeça desvairada dela ainda seria capaz de produzir? Raimundo começou a ver o ridículo da situação. A mulher estava acuada, sem chance de fuga. Era uma fugitiva e ladra, roubou propriedade do governo. E, pra piorar, estava louca. E ali estava ele, o chefe da segurança discutindo com uma mulher que ele viu algumas vezes na vida. Argh! E aquele moleque não parava de chorar!

Capitão! Qual o comando? — gritou Neemias, superando o choro da criança.

Vocês acabaram meu povo — gritava Adelaide. — E pra quê? Hein? Acham que eles querem melhorar? Até eu que “não sou gente”, sei. Porque eu sei.

Aquilo era um pandemônio. Os homens pediam ordens. A mulher gritava coisas sem sentido, o menino chorava. Estava um calor dos infernos, o suor escorria dentro da roupa, os mosquitos tentavam entrar por qualquer orifício no corpo.

Cala a boca! — gritou o capitão. — Pra mim já chega!

Um clarão, um som retumbante. Outro estampido e um rosto contorcido de dor. O sangue corria, a mulher ainda estrebuchava. Cacete. Pra quê essa algazarra toda? A mulher cuspia sangue. Outro tiro. E o silêncio ensurdecedor, que doía nos ouvidos deles. Agora que tudo acabou, Raimundo finalmente conseguia pensar direito.

Os dois homens olhavam para o chefe. Mudos ante a situação, entreolharam-se em seguida. Ninguém teve coragem de se mexer. Esperavam a direção do capitão. Era o que eles sabiam fazer melhor: seguir ordens. Abaixaram os rifles, a única luz sobre o corpo da mulher era a lanterna do capitão. Ela estava caída por cima da criança. O cheiro do sangue subia às narinas. O capitão tossia.

Se as palavras da mulher tiveram algum efeito em Raimundo não sabiam. Se ele a conhecia de outro lugar, tampouco. Eles mesmos estavam acostumados às mentiras daqueles que estão próximos à morte. Falam qualquer coisa, na vã expectativa da redenção. Não há redenção. Apenas o que sempre foi. No fundo, isso os tranquilizava, e a tensão dentro deles começava a esvanecer. Não era preciso ler demais a situação. Era apenas o seu trabalho. Não era um trabalho agradável, mas era necessário.

É por causa desse tipo de coisa, que nosso Brasil vai pra frente. E aquilo também tranquilizava Raimundo. O último sangue Macuxi fez um igarapé que tocava a bota do capitão. O rifle ainda empunhado. Os homens ainda estranhavam sua reação. Ele também estranhava. Que diabos? Eu, hein. Balançou a cabeça e saiu da caverna. Os homens o seguiram. De repente sentiu-se sufocado, a floresta era uma enorme prisão. Sem falar nada, correu. Cada passo aumentava sua ofegação, a floresta os queria prender, mas ele precisava fugir, estava cada vez mais difícil respirar. Precisava sair de uma vez por todas daquele emaranhado sem fim que o impedia de seguir em frente. A umidade do ar era terrível, ele precisava de ar, precisava respirar. Tosse dos infernos! Cada galho, cada raiz, cada folha era uma afronta. Que morressem todos!

Quando deu o primeiro passo fora da floresta, viu à distância Aelton fumando ao lado do jipe, na vicinal. Respirou aliviado. O vento do lavrado empurrava para longe os cheiros da escravidão da floresta. Bom mesmo era ser livre. Livre como o vento. Raimundo corria, precisava da liberdade, precisava voltar e dizer que havia cumprido sua missão, que seu trabalho estava feito, que não era mais preciso se preocupar. Ele fugia. Para onde? Não importava. Para onde ainda havia liberdade? Ele não sabia. Mas corria. Corria e a noite voava.

Conto publicado no Volume II da Coleção Literatura de Circunstâncias (Editora da UFRR, 2020), distribuição gratuita.