sábado, 18 de abril de 2026

Resenha — O Conde de Monte Cristo

DUMAS, Alexandre. O Conde de Monte Cristo. Montecristo Editora, 2023. Ebook.


Bom, a verdade é que nem sei por onde começar. Li esse livro no começo da vida adulta, há uns bons 15 anos. Eu já sabia o que me esperava, eu já sabia que ele não era bom, não, mas que era muito bom. Depois de mais de 1900 páginas, aqui estou eu. Vamos à resenha.
A alegria causa um efeito estranho, oprime como a dor. (p. 65)
É preciso iniciar dizendo que esse livro é um absurdo de bom, por muitos motivos. Vamos começar falando da genialidade dos autores. Sim, no plural! Acontece que Alexandre Dumas não escreveu esse livro sozinho, mas trabalhou em parceria com Auguste Maquet, que foi quem fez todo o roteiro do livro! Coube a Dumas adicionar os diálogos e descrições que ele faz tão bem.

Pra mim, honestamente, foi Maquet o grande gênio aqui. Porque é um absurdo que se consiga manter o leitor vidrado na leitura por quase duas mil páginas! Imagina o esforço colossal que é manter um leitor engajado com o texto num livro simples de 200 páginas, avalie num que é dez vezes maior que isso! Imagine ainda isso em 1844-1846, sem computador, sem inteligência artificial!

A trama do livro é muito interessante. Acompanhamos a história de Edmond Dantès, um jovem francês honesto e honrado, que tem a sua vida destruída por pura inveja e injustiça. Dantès é preso, mas depois retorna a Paris como o Conde de Monte Cristo, revelando sua identidade aos poucos, conforme exerce sua vingança sobre todos os que o injustiçaram

O livro segue uma estrutura muito clara em quatro partes, com uma quebra temporal no meio. Temos a vida inicial de Dantès; seu tempo na prisão; depois uma quebra temporal onde toda a preparação dele acontece fora de cena; então ele retorna como Conde para executar sua vingança aos poucos; e no fim do livro executa de maneira tremenda tudo o que planejou. O esquema seria algo assim:
Traição → Esperança || Preparação || Execução → Vingança
Desnecessário repetir que é muito bem escrito. A trama é cheia de reviravoltas inesperadas, de revelações antecipadas e cada capítulo contribui com a história de modo geral. Aliás, achei notável que, apesar da história ser sobre Dantès, os personagens secundários dão vida e cor ao livro também. Diria até que, sem eles, a história não seria a mesma. 

Aliás, esse livro tem um dos meus personagens favoritos: o Abade Faria. O homem que Dantès encontrou na prisão, mas que transformou a vida dele por completo. O homem que abdicou e deu toda sua vida, seu conhecimento, sua riqueza, tudo de si a Dantès. Um dos personagens que mais me fez chorar. 
Este tesouro lhe pertence, meu amigo — declarou Dantès. — Pertence-lhe só a si, e eu não tenho nenhum direito a ele. Não sou parente.

— Você é meu filho, Dantès! — gritou o velho. — Você é o filho do meu cativeiro, pois o meu estado condena-me ao celibato. Deus o enviou para confortar ao mesmo tempo o homem que não podia ser pai e o prisioneiro que não podia ser livre.

E Faria estendeu o braço que lhe restava ao rapaz, que se lhe agarrou ao pescoço chorando. (p. 280)
Um último ponto quanto ao texto em si, é sobre a edição. Por favor, não comprem nada da Editora Montecristo. Edição cheia de erros de ortografia, pontuação, e até palavras que parecem não existir. A impressão muito forte que me passou é que foi uma tradução feita por inteligência artificial, sem nenhuma verificação humana. Repito: não comprem nada da Editora Montecristo.

Por fim, evidente que o grande tema do livro é vingança. Tudo é sobre a injustiça que Dantès sofreu, e a devida reparação que ele fará. O Conde é como uma força da natureza. Move-se devagar, sem pressa, mas é inevitável. A mudança do personagem principal é lenta, mas contada com cuidado. Não nos cansa, mas aumenta nossa antecipação.

Dantès se enxerga como uma força da Providência divina, como se ele fosse uma espécie de escolhido de Deus para fazer justiça na terra, mas é só uma desculpa. Embora seja impossível negar que foi muita coincidência ele conseguir tudo que conseguiu, vê-se claramente que o seu desejo é vingança.

Achei interessante que a vingança contamina o leitor a tal ponto, que ficamos desapontados quando ela não é tão feroz quanto prevíamos, ou, pior, quanto gostaríamos. Do meu ponto de vista, teve uns dois personagens ali que acho que mereciam pior do que o que o Conde lhes proporcionou. Acho que o livro serve até pra mostrar a maldade do meu próprio coração.
Vivam, pois, e sejam felizes, filhos queridos do meu coração, e nunca esqueçam que até ao dia em que Deus se dignar desvendar o futuro ao homem, toda a sabedoria humana residirá nestas palavras:

Esperar e ter esperança!

Seu amigo, 
Edmond Dantès
Conde de Monte Cristo.
(p. 1909)
Enfim, essa é uma obra sensacional, deveras atemporal. Li-a no começo da vida adulta, li de novo agora e tenho certeza de que lerei de novo no futuro. Não tem como, é uma história fantástica. Recomendo demais a todos que leiam também — se possível, numa boa edição.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Resenha — O diário de Anne Frank

FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. Editora Viseu, 2021. Ebook.


Ok, eu não esperava que esse livro fosse me atingir tanto. Comprei por míseros 50 centavos na Amazon e li como uma leitura despretensiosa. Já tinha ouvido falar bastante do livro, naturalmente, e também sabia que se tratava de uma história sobre o Holocausto.
Fiquei pensando, enquanto mordiscava o cabo da caneta-tinteiro, que qualquer um pode rabiscar algumas tolices, com letra bem grande e espaçada, mas a dificuldade era provar, acima de tudo, a necessidade que se tem de falar. (p. 19)
O diário de Anne Frank nada mais é do que — adivinha — o diário de uma moça de 14 anos chamada Anne Frank. Ela nasceu alemã, mas teve que se refugiar na Holanda, onde permaneceu escondida por dois anos com sua família e outras pessoas antes de ser capturada pelos nazistas.

Nas páginas do diário nós vemos o cotidiano daquelas pessoas, com foco especial para o relacionamento entre as famílias e personagens. Tudo se degrada, casais brigam o tempo todo, gênios fortes batem de frente com gênios fortes. É que ninguém gosta de ficar aprisionado, nem que seja para sobreviver. 

Anne é uma menina meio chata, sinto dizer. Ela é implicante e, como uma boa adolescente, tem dificuldade em ligar o filtro. Fala demais e implica bastante, sempre muito cheia de opiniões e sempre achando que está certa e por cima da carne seca. Confesso que por boa parte do livro, achei chato ouvir o que ela tinha a dizer. 

A verdade, é que Anne é muito intensa — tanto para o mal, quanto para o bem. É inegável que ela, em muitos momentos, ajuda a manter os ânimos em alta no esconderijo. Também é possível vê-la sendo grata e reconhecendo as pessoas que os ajudam. Vejam esses trechos:
Alguns mostram seu heroísmo lutando contra os alemães; nossos benfeitores revelam o seu dando-nos alegria e carinho (p. 203).
Nesse trecho, Anne conversa com Peter, um rapaz de 17 anos que se tornou sua paixonite enquanto os dois estavam escondidos. Peter fala primeiro:
— Você sempre me ajuda — disse ele.
— Como? — perguntei surpresa. 
— Com sua alegria. (p. 249)
É preciso sempre ter em mente que o livro não é uma obra de literatura na sua origem, mas simplesmente um diário de uma menina, que encontrou na escrita uma forma de sobreviver, de lidar, de expressar aquilo que ela não podia expressar em mais nenhum lugar. Nesses termos, creio que é muito possível dizer que Anne teria sido uma excelente escritora.

Como falei, embora o livro não tenha necessariamente fortes traços que caracterizariam uma boa literatura, já se notam as centelhas de alguém com potencial para uma escrita potente. Por exemplo, Anne é muito honesta em falar o que precisa ser dito. Enquanto isso é um traço da sua personalidade, também é característica essencial de bons escritores, que são honestos consigo mesmos:
Não tenho ciúmes de Margot. Nunca tive. Não invejo seus bons modos, sua beleza. É que eu preciso, e muito, do amor verdadeiro de papai. Não só por ser filha dele, mas por mim mesma, por mim, Anne. (p. 62).
Ah, como eu não esperava o final. Foi horrível. Uma vida inteira, um potencial enorme, um fim tão abrupto. As páginas param de repente, já não tem mais nada. E aí a gente fica sabendo que o único sobrevivente de toda a família foi Otto Frank, o pai dela. Horrível considerar e ver a falta de limites da maldade humana. 

Por outro lado, incrível ver a resiliência, talvez também tão característica à condição humana quanto a maldade. Enfim, esse livro me inspirou mais do que eu imaginava. E fiquei bem feliz em ver que o pai honrou a memória da filha e hoje uma fundação carrega esse privilégio.

No fim das contas, não é tanto pelo conteúdo do diário — que, bem admito, tem vários trechos muito bons; mas sim pelas circunstâncias nas quais ele foi escrito. Um retrato vivo da realidade daqueles dias sombrios e da luz no fim do túnel para quem passou por eles. 
Não se preocupe, arranjaremos tudo. Aproveite bem sua vida despreocupada enquanto puder. (p. 19)

domingo, 11 de janeiro de 2026

Resenha — Better off dead

BENNER, Tarah. Better Off Dead. Blue Sky Studio, 2023. Ebook. 


Olha, 2026 já começou bem. Encontrei esse livro de graça na Amazon e fui surpreendido com uma história simples, mas coesa, com uma boa estrutura, daquelas que a gente já entendeu qual é a pegada desde o começo, mas ainda assim é gostosa de ler. À resenha.

Nesse livro acompanhamos a história de Caroline, sua vó Gran e sua viagem para a pequena cidade de Mountain Shadow. Ela recebe a notícia de que sua excêntrica tia-avó havia morrido e deixou para Caroline uma herança inesperada: um hotel antigo e mal-assombrado. Como se isso não fosse suficiente, houve um assassinato na cidade, e agora a vó, de 92 anos, é a principal suspeita. 

De cara já achei a apresentação de personagens muito bem feita. Tudo é muito clichê, mas em nada a autora peca quando introduz as pessoas. Elas parecem pessoas reais, não apenas personagens. A autora dá um show de mostrar. Conhecemos os personagens não por causa do que o narrador fala, mas por causa do que os personagens dizem e, principalmente, do que eles fazem. Esta é a fórmula básica da boa apresentação de personagens.

Quanto à estrutura, a autora segue o manual de roteiros bem certinho. Começa com a personagem no mundo normal dela, então ela é empurrada pra fora dele, depois tem um problema logo no começo e por causa dele outro problema surge, e assim por diante. Tudo bem concatenado.

O único porém de ter uma estrutura tão comum, é que é preciso que o leitor mais especializado releve um pouco o roteiro. Este, justamente por ser bem formulaico, tende ao clichê muito facilmente. Como falei, a autora segue uma cartilha bem certinho. Não obstante, creio que é possível deixar isso de lado pra apreciar os personagens. A gente ainda fica curioso pra saber o que vai acontecer, e fica fácil perdoar as poucas forçadas que o roteiro dá.

Enfim, é um livro simples, uma boa leitura pra começar o ano. Deu um pouco de curiosidade pra ver os outros livros da série, mas nem tanto. A autora foi esperta e deixou muitas pontas soltas, de modo que alguns romances, dramas, ou mesmo fatos inexplicados ficam em aberto pra que o leitor venha a querer ler os outros livros. Bom, não fiquei tão curioso assim.

Mas, quem sabe o futuro, né? Bom saber que Tarah Benner escreve literatura sólida. Vou guardar essa informação e seguir em frente. Bom ano a todos!