Bom, a verdade é que nem sei por onde começar. Li esse livro no começo da vida adulta, há uns bons 15 anos. Eu já sabia o que me esperava, eu já sabia que ele não era bom, não, mas que era muito bom. Depois de mais de 1900 páginas, aqui estou eu. Vamos à resenha.
A alegria causa um efeito estranho, oprime como a dor. (p. 65)
É preciso iniciar dizendo que esse livro é um absurdo de bom, por muitos motivos. Vamos começar falando da genialidade dos autores. Sim, no plural! Acontece que Alexandre Dumas não escreveu esse livro sozinho, mas trabalhou em parceria com Auguste Maquet, que foi quem fez todo o roteiro do livro! Coube a Dumas adicionar os diálogos e descrições que ele faz tão bem.
Pra mim, honestamente, foi Maquet o grande gênio aqui. Porque é um absurdo que se consiga manter o leitor vidrado na leitura por quase duas mil páginas! Imagina o esforço colossal que é manter um leitor engajado com o texto num livro simples de 200 páginas, avalie num que é dez vezes maior que isso! Imagine ainda isso em 1844-1846, sem computador, sem inteligência artificial!
A trama do livro é muito interessante. Acompanhamos a história de Edmond Dantès, um jovem francês honesto e honrado, que tem a sua vida destruída por pura inveja e injustiça. Dantès é preso, mas depois retorna a Paris como o Conde de Monte Cristo, revelando sua identidade aos poucos, conforme exerce sua vingança sobre todos os que o injustiçaram
O livro segue uma estrutura muito clara em quatro partes, com uma quebra temporal no meio. Temos a vida inicial de Dantès; seu tempo na prisão; depois uma quebra temporal onde toda a preparação dele acontece fora de cena; então ele retorna como Conde para executar sua vingança aos poucos; e no fim do livro executa de maneira tremenda tudo o que planejou. O esquema seria algo assim:
Traição → Esperança || Preparação || Execução → Vingança
Desnecessário repetir que é muito bem escrito. A trama é cheia de reviravoltas inesperadas, de revelações antecipadas e cada capítulo contribui com a história de modo geral. Aliás, achei notável que, apesar da história ser sobre Dantès, os personagens secundários dão vida e cor ao livro também. Diria até que, sem eles, a história não seria a mesma.
Aliás, esse livro tem um dos meus personagens favoritos: o Abade Faria. O homem que Dantès encontrou na prisão, mas que transformou a vida dele por completo. O homem que abdicou e deu toda sua vida, seu conhecimento, sua riqueza, tudo de si a Dantès. Um dos personagens que mais me fez chorar.
Este tesouro lhe pertence, meu amigo — declarou Dantès. — Pertence-lhe só a si, e eu não tenho nenhum direito a ele. Não sou parente.— Você é meu filho, Dantès! — gritou o velho. — Você é o filho do meu cativeiro, pois o meu estado condena-me ao celibato. Deus o enviou para confortar ao mesmo tempo o homem que não podia ser pai e o prisioneiro que não podia ser livre.E Faria estendeu o braço que lhe restava ao rapaz, que se lhe agarrou ao pescoço chorando. (p. 280)
Um último ponto quanto ao texto em si, é sobre a edição. Por favor, não comprem nada da Editora Montecristo. Edição cheia de erros de ortografia, pontuação, e até palavras que parecem não existir. A impressão muito forte que me passou é que foi uma tradução feita por inteligência artificial, sem nenhuma verificação humana. Repito: não comprem nada da Editora Montecristo.
Por fim, evidente que o grande tema do livro é vingança. Tudo é sobre a injustiça que Dantès sofreu, e a devida reparação que ele fará. O Conde é como uma força da natureza. Move-se devagar, sem pressa, mas é inevitável. A mudança do personagem principal é lenta, mas contada com cuidado. Não nos cansa, mas aumenta nossa antecipação.
Dantès se enxerga como uma força da Providência divina, como se ele fosse uma espécie de escolhido de Deus para fazer justiça na terra, mas é só uma desculpa. Embora seja impossível negar que foi muita coincidência ele conseguir tudo que conseguiu, vê-se claramente que o seu desejo é vingança.
Achei interessante que a vingança contamina o leitor a tal ponto, que ficamos desapontados quando ela não é tão feroz quanto prevíamos, ou, pior, quanto gostaríamos. Do meu ponto de vista, teve uns dois personagens ali que acho que mereciam pior do que o que o Conde lhes proporcionou. Acho que o livro serve até pra mostrar a maldade do meu próprio coração.
Vivam, pois, e sejam felizes, filhos queridos do meu coração, e nunca esqueçam que até ao dia em que Deus se dignar desvendar o futuro ao homem, toda a sabedoria humana residirá nestas palavras:
Esperar e ter esperança!
Seu amigo,Edmond Dantès
Conde de Monte Cristo. (p. 1909)
Enfim, essa é uma obra sensacional, deveras atemporal. Li-a no começo da vida adulta, li de novo agora e tenho certeza de que lerei de novo no futuro. Não tem como, é uma história fantástica. Recomendo demais a todos que leiam também — se possível, numa boa edição.







