Mais um livro que li em algum momento da adolescência. Deve ter sido pra algum trabalho da escola, certamente. Lembro que, na época, não achei grandes coisas. Hoje, já passados muitos anos, tive a oportunidade de revisitar a obra e cheguei a uma conclusão: meu eu adolescente estava certo. Olha, me desculpe, mas aqui vai ter muito spoiler. E não venha não. O livro é de 1881. Se não leu até agora, não posso fazer nada.
O livro é o seguinte: Brás Cubas morreu e agora vai contar sua autobiografia do além-túmulo. Isso dá a ele liberdade de falar tudo o que sempre teve medo de falar durante a vida e contar os mais sórdidos detalhes sem medo de consequências — afinal, já está morto.
Brás Cubas então conta toda a sua história, desde a infância travessa, o período de estudos e seu primeiro amor, Marcela, uma mulher mais velha, totalmente interesseira, cujo único objetivo é se aproveitar de homens usando sua beleza. Marcela termina a vida velha, feia e pobre.
Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos. (p. 63)
Herdeiro de fortuna, Brás Cubas pode se dar ao luxo de se dedicar ao que quiser e passa então a narrar o que se tornará o núcleo do que torna o livro interessante: seu adultério com Virgília, esposa do político Lobo Neves.
Este é o cerne da história. A Globo não inventou nada, apenas copiou a fórmula de fazer o espectador torcer para que o casal adúltero se dê bem. Vemos o mocinho tentando ficar com a mocinha, pena que ela já é casada (e ainda pior, casada com um palerma que nem sequer vê o adultério acontecendo debaixo do seu nariz, enquanto o resto da cidade todinha sabe).
Infelizmente, uma hora essa história acaba e o livro fica bem menos interessante. Nos últimos 2/5 do livro, senti que o autor estava mais interessado em filosofar do que em contar uma história — algo também muito comum em vários autores intelectualizados da época, falando pra um público bem específico (falarei mais disso abaixo). Antes disso, porém, vale comentar um pouco da técnica de Machado.
A princípio, me surpreendi com o livro: tem muita narrativa e pouco diálogo, que é justamente o que eu considero ser o elemento mais forte de qualquer texto em prosa. Foi só então que me toquei de que não era nada disso. Porque o livro todo é um diálogo! Como a narração é feita em primeira pessoa, Brás Cubas está constantemente conversando com o leitor; é uma espécie de monólogo e diálogo ao mesmo tempo.
Aliás, falemos do autor também. Machado nessa obra é um Dostoiévski, só que mais culto e irônico. Inclusive, ironia é a palavra-chave do comportamento de Brás Cubas. Até porque, à la Dostoiévski, Brás Cubas não é nenhum herói. O personagem é mesquinho e pândego, um retrato que o autor pinta da alta sociedade de sua época.
E aqui chegamos ao que eu considero ser o grande problema de ler Machado de Assis. É que, infelizmente, o que me incomodava em Machado antes ainda me incomoda agora: pra mim, ele é excessivamente intelectual e culto. Faz mil referências a personagens, filosofias e culturas que exigem demais.
Quando era adolescente, não entendia nada; hoje já consigo acompanhar — mas longe de me trazer orgulho, me traz cansaço, porque essas referências nem somam tanto assim à narrativa. Me parece simplesmente ser o gosto pela exuberância, querer mostrar como é inteligente e culto. Isso sem falar na questão dos estrangeirismos. Ele presume que o leitor é versado em inglês e francês com uma frequência maior do que o necessário. Nesse caso, porém, a culpa não é só dele, porque bem caberia ao editor adicionar notas que traduzissem os termos
No fim das contas, isso me aponta de volta para a impressão que sempre tive: que Machado é uma literatura para as elites (e, hoje em dia, nem ela mais, visto que poucos leem e buscam ser cultos). Honestamente, foi o próprio Machado quem disse muito bem:
[...] o livro é enfadonho, cheira a sepulchro, traz certa contracção cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. (p. 201)
Entendo por que o livro é um clássico, e entendo que Machado estava realmente bem à frente do seu tempo, fazendo coisas que só autores no século seguinte teriam coragem de fazer tão bem (como escrever um capítulo inútil, ou deixar um capítulo inteiro em branco, sem palavras). Além disso, não há como negar que ele domina muito, muito bem o português.
Além disso, os temas são bem atuais e relevantes: relacionamentos proibidos, famílias destruídas pela maldade do ser humano, pessoas esquecidas pela sociedade e seus pares, e por aí vai. Ah, e, claro, o tema da morte. Essas duas citações falam por si:
Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes. (p. 97)
Morreu sem lhe poder valer a ciência dos médicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem coisa nenhuma; tinha de morrer, morreu. (p. 135)
Enfim, no fim das contas, a leitura é até interessante, só cansa. Não sei quão pecaminoso para os críticos é dizer que Machado de Assis é meio chato de ler. Bom, não sou crítico literário, nem intelectual, nem coisa nenhuma. Só sei de uma coisa: é meio chato sim.
Talvez os mais intelectuais do que eu consigam aproveitá-la melhor. Ah, e aí está, provavelmente essa é a conclusão ideal: ao contrário de Machado, me falta cultura.






