segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Resenha — Memórias Póstumas de Brás Cubas

ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Caelwick Press, 2026. E-book.



Mais um livro que li em algum momento da adolescência. Deve ter sido pra algum trabalho da escola, certamente. Lembro que, na época, não achei grandes coisas. Hoje, já passados muitos anos, tive a oportunidade de revisitar a obra e cheguei a uma conclusão: meu eu adolescente estava certo. Olha, me desculpe, mas aqui vai ter muito spoiler. E não venha não. O livro é de 1881. Se não leu até agora, não posso fazer nada.

O livro é o seguinte: Brás Cubas morreu e agora vai contar sua autobiografia do além-túmulo. Isso dá a ele liberdade de falar tudo o que sempre teve medo de falar durante a vida e contar os mais sórdidos detalhes sem medo de consequências — afinal, já está morto.

Brás Cubas então conta toda a sua história, desde a infância travessa, o período de estudos e seu primeiro amor, Marcela, uma mulher mais velha, totalmente interesseira, cujo único objetivo é se aproveitar de homens usando sua beleza. Marcela termina a vida velha, feia e pobre.
Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos. (p. 63)
Herdeiro de fortuna, Brás Cubas pode se dar ao luxo de se dedicar ao que quiser e passa então a narrar o que se tornará o núcleo do que torna o livro interessante: seu adultério com Virgília, esposa do político Lobo Neves. 

Este é o cerne da história. A Globo não inventou nada, apenas copiou a fórmula de fazer o espectador torcer para que o casal adúltero se dê bem. Vemos o mocinho tentando ficar com a mocinha, pena que ela já é casada (e ainda pior, casada com um palerma que nem sequer vê o adultério acontecendo debaixo do seu nariz, enquanto o resto da cidade todinha sabe). 

Infelizmente, uma hora essa história acaba e o livro fica bem menos interessante. Nos últimos 2/5 do livro, senti que o autor estava mais interessado em filosofar do que em contar uma história — algo também muito comum em vários autores intelectualizados da época, falando pra um público bem específico (falarei mais disso abaixo). Antes disso, porém, vale comentar um pouco da técnica de Machado. 

A princípio, me surpreendi com o livro: tem muita narrativa e pouco diálogo, que é justamente o que eu considero ser o elemento mais forte de qualquer texto em prosa. Foi só então que me toquei de que não era nada disso. Porque o livro todo é um diálogo! Como a narração é feita em primeira pessoa, Brás Cubas está constantemente conversando com o leitor; é uma espécie de monólogo e diálogo ao mesmo tempo. 

Aliás, falemos do autor também. Machado nessa obra é um Dostoiévski, só que mais culto e irônico. Inclusive, ironia é a palavra-chave do comportamento de Brás Cubas. Até porque, à la Dostoiévski, Brás Cubas não é nenhum herói. O personagem é mesquinho e pândego, um retrato que o autor pinta da alta sociedade de sua época. 

E aqui chegamos ao que eu considero ser o grande problema de ler Machado de Assis. É que, infelizmente, o que me incomodava em Machado antes ainda me incomoda agora: pra mim, ele é excessivamente intelectual e culto. Faz mil referências a personagens, filosofias e culturas que exigem demais. 

Quando era adolescente, não entendia nada; hoje já consigo acompanhar — mas longe de me trazer orgulho, me traz cansaço, porque essas referências nem somam tanto assim à narrativa. Me parece simplesmente ser o gosto pela exuberância, querer mostrar como é inteligente e culto. Isso sem falar na questão dos estrangeirismos. Ele presume que o leitor é versado em inglês e francês com uma frequência maior do que o necessário. Nesse caso, porém, a culpa não é só dele, porque bem caberia ao editor adicionar notas que traduzissem os termos

No fim das contas, isso me aponta de volta para a impressão que sempre tive: que Machado é uma literatura para as elites (e, hoje em dia, nem ela mais, visto que poucos leem e buscam ser cultos). Honestamente, foi o próprio Machado quem disse muito bem:
[...] o livro é enfadonho, cheira a sepulchro, traz certa contracção cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. (p. 201)
Entendo por que o livro é um clássico, e entendo que Machado estava realmente bem à frente do seu tempo, fazendo coisas que só autores no século seguinte teriam coragem de fazer tão bem (como escrever um capítulo inútil, ou deixar um capítulo inteiro em branco, sem palavras). Além disso, não há como negar que ele domina muito, muito bem o português. 

Além disso, os temas são bem atuais e relevantes: relacionamentos proibidos, famílias destruídas pela maldade do ser humano, pessoas esquecidas pela sociedade e seus pares, e por aí vai. Ah, e, claro, o tema da morte. Essas duas citações falam por si:
Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes. (p. 97)
Morreu sem lhe poder valer a ciência dos médicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem coisa nenhuma; tinha de morrer, morreu. (p. 135)
Enfim, no fim das contas, a leitura é até interessante, só cansa. Não sei quão pecaminoso para os críticos é dizer que Machado de Assis é meio chato de ler. Bom, não sou crítico literário, nem intelectual, nem coisa nenhuma. Só sei de uma coisa: é meio chato sim. 

Talvez os mais intelectuais do que eu consigam aproveitá-la melhor. Ah, e aí está, provavelmente essa é a conclusão ideal: ao contrário de Machado, me falta cultura.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Resenha — Siracvsa

SÁ, Guilherme de. Siracvsa. Amazon KDP, 2022. E-book.


Peguei o livro pra ler porque acreditei estar ajudando um autor pequeno na Amazon. Não fazia ideia de que o cara era vocalista da finada banda Rosa de Sarom. Se soubesse, talvez tivesse pensado duas vezes. De qualquer forma, pelo menos posso dizer que fiz uma leitura honesta. Vamos a ela.
Suas mãos de ferro lhe trouxeram o poder. E o poder era algo que o comprazia demasiado. Então, o poder se tornou um vício. (p. 77)
Bom, trata-se da história de Santo Salafia, um mafioso italiano na década de 70, na cidade de Siracusa. Ele traiu seu padrinho da máfia e agora vai ter que tentar salvar a filha das garras dos mafiosos.

O livro tem alguns pontos positivos. O fato dos capítulos serem curtos é interessante pra leitura, deixa ela mais fluida. E acho que o autor mostra bem a lógica da fé católica, de pagar pelos pecados, e de personagens que são próprios dessa tradição de fé. Infelizmente acho que é isso.

A primeira coisa que é problemática no livro é o uso do sobrenatural. Há milagres, demônios, transições estranhas entre realidade física e espiritual. Entendi que o autor quis usar isso como pitadas pra aumentar o tempero do livro, mas não deu certo não.

Os trechos sobrenaturais, de modo geral, não contribuíram bem para o livro. Eles não somam ao gênero do livro nem propõem algo que justifique gastar tanto tempo em suas descrições. Eles poderiam até acontecer, mas de modo mais pontual. Do jeito que está escrito, parece que o autor quis só aparecer. 

Como não sabe bem o que fazer, o autor se perde. Por exemplo, do nada aparece um anjo da guarda aleatório. Absolutamente do nada, sem preparo, sem informação, simplesmente porque sim. E aí a gente percebe que o autor tentou misturar Constantine com O Poderoso Chefão, mas não se preparou corretamente pra isso. É muito solto, não se constrói o suficiente, parece que ele tentou inventar moda do nada. Na tentativa de acertar os dois, conseguiu errar ambos.

Um outro problema é que o autor não é bom com o ritmo do texto. Ele imprime urgência e logo em seguida se perde em longas descrições que não colaboram em nada pra trama. Um outro exemplo disso é que na marca de 70% o autor inseriu outro personagem bem importante. Não é que isso não possa ser feito, mas deveria ter premeditado melhor a chegada dele, ou, no mínimo, inserido pitadas sobre o que isso contribui para o gênero do livro. 

Começamos com aventura (mafioso tentando resgatar a filha), passamos para ficção fantástica (mafioso sendo salvo do inferno), do nada, vamos para a política (cardeias e alta cúpula da Igreja com picuinhas), e finalizamos com aventura misturada com ficção fantástica. Não tem coesão e o leitor está sempre tendo que se virar nos trinta pra acompanhar.

Pra completar com a cereja do bolo, os personagens são superficiais, via de regra, puramente movidos pela trama, sem que tenhamos qualquer motivo real para torcer por eles, já que não os conhecemos nem temos clareza da razão dos seus atos. O vilão nem aparece, o autor dá mais profundidade pra personagens secundários do que pro próprio protagonista. (aliteração braba aqui, hein).

Enfim, graças a Deus o livro foi de graça. E acho que o que mais me deixa triste é ver o tanto de avaliações: 771, com uma nota final de 4,6 estrelas. Infelizmente não faz o menor sentido. Na verdade, se parar pra pensar, o livro que o Leo Dias escreveu sobre a Anitta tem umas 800 avaliações na Amazon, e nota também superior a 4 estrelas. Esqueci que boa parte de publicar é ser conhecido, não necessariamente a qualidade da escrita. 

É a vida. 

sábado, 1 de agosto de 2026

Resenha — Neuromancer

GIBSON, William. Neuromancer. New York: Ace Books, 2000.

The sky above the port was the color of television, tuned to a dead channel. (p. 8)
Li Neuromancer na adolescência, entendi muito pouco ou quase nada e, agora, depois de adulto, resolvi ler de novo pra ver se conseguia absorver um pouco mais. Se for pra ser honesto, a verdade é que não foi tão melhor quanto eu esperava, o livro é meio confuso mesmo. À resenha.

Gibson narra a história de Case, um hacker que perdeu sua habilidade de entrar na matrix, e agora foi contratado por Armitage, um servo da inteligência artificial Wintermute. A IA vai recrutar também Molly, uma femme fatale capaz de assassinar inimigos, e Riviera, um humano ciberneticamente modificado capaz de projetar hologramas. Juntos, eles vão tentar fazer o que foram contratados para fazer: libertar a IA e torná-la um ser autônomo e independente. 

O livro é o precursor de todo o movimento cyberpunk. Vários dos conceitos que hoje estão na moda como IA, o conceito de matrix, mundo digital, etc., nada disso era tão fluente na década de 1980, quando o livro foi escrito. Esse é claramente um daqueles casos em que o autor de ficção científica não sabia, mas na verdade estava prevendo o futuro.

A narrativa não é sem problemas. Eu entendo a ideia de Gibson de não descrever demais as coisas, deixando pro leitor descobrir. Mas ele exagera. Por exemplo, se eu digo que "Case usa o Hitachi enquanto flipa pro simstim da Molly, que acabou de pegar seu fletcher."... que diabos isso significa? 

O autor não explica, e aí fica pro leitor entender que Hitachi é tipo um computador portátil, que o simstim é um chip que permite a um hacker se conectar à mente de outra pessoa e ver pelos olhos dela, que fletcher é um tipo de pistola. Na verdade, duvido muito que o leitor consiga discernir sozinho sem fazer alguma consulta online pra ajudar a clarificar. É tudo muito confuso, dificulta demais a leitura. A gente perde a imersão várias vezes pelo simples fato de não saber o que está acontecendo. 

Enfim, é uma leitura boa, cheia de conceitos que premeditaram muita coisa do futuro, e coisas que ainda não sabemos se um dia vão acontecer — como plugar a própria consciência na matrix da internet. 

Porém, não é um livro que eu pretenda ler de novo. Li-o em formato de ebook (bem apropriado para o tema), mas se tivesse sido impresso, eu teria doado depois de terminar. É aquela leitura que vale a pena uma vez, pra conhecer o gênero e se deixar imergir naquele universo; mas depois acaba, e é só.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Leitura não concluída — Catch-22

HELLER, Joseph. Catch-22. Horizon Ridge Publishing, 2024. Ebook.


Caí na besteira de comprar esse livro porque estava na lista da BBC de "100 livros pra ler antes de morrer". Pois esse aí eu garanto que é melhor morrer sem ler mesmo, que não vai acrescentar nada. 

É a "história" de Yossarian, um piloto de bombardeiros durante a II Guerra Mundial e seus percalços no exército, onde ele se vê preso graças a uma tecnicalidade do sistema chamada "Catch-22". É que qualquer pessoa que for declarada insana pode pedir dispensa e ser mandada de volta pra casa; porém, se uma pessoa for falar com o médico e dizer que é insana pra voltar pra casa, isso na verdade demonstra sua sanidade, então ela não vai poder voltar pra casa, vai ter que continuar na guerra.

Essa premissa opressiva seria interessante se de fato houvesse uma história. O que há, na verdade, é uma série de causos de um soldado americano, contando sobre os colegas pilotos traumatizados pelas bombas, sobre suas relações com prostitutas locais em Roma, sobre as trapaças e golpes que eles aplicavam nos próprios comandantes pra não ter que voar e correr o risco de morrer.

O livro tem muitas frases de efeito legais sobre a guerra e como ela é devastadora. Isso também fica claro nos exemplos que o livro traz por meio dos próprios personagens. Mas, pelo amor de Deus, conte uma história. 

É uma narrativa desconexa, típica do pós-Guerra (o livro foi escrito em 1953). Entendo que, pra época, tem o seu efeito e lugar; mas, pra agora, é simplesmente chato. Não tem nexo narrativo, é só um aglomerado de histórias dos quais se vão tirando algumas lições e, só no final, alguma conclusão a nível de enredo. Era melhor que o livro tivesse começado só no capítulo 32.

Chato pra caramba, demora demais pra não falar nada. É excelente pra mostrar alguém traumatizado pela guerra, excelente mesmo, em vários momentos parece até que não tem lógica ou sanidade nenhuma. Mas isso rapidamente cansa, e o leitor não tem real motivo pra continuar lendo. 

Leia um resumo do livro ou veja um filme, mas não perca seu tempo lendo esse livro. 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Resenha — A senhoria

DOSTOIÉVSKI, F. A senhoria. São Paulo: Editora 34, 2011.



Então, né. Já li muita coisa de Dostoiévski, a tal ponto que agora estou tendo que recorrer a obras cada vez mais obscuras dele, no sentido de obras que não fazem parte da grande mídia ou das listas de obras mais populares. Foi assim que me deparei com A senhoria

Neste livro acompanhamos a breve história de Vasily Mikhailovich Ordínov, um jovem que mora em São Petersburgo e vive da renda gerada pela herança de um falecido bisavô. A narrativa começa com Ordínov recebendo a notícia da proprietária de sua atual residência informando que ela vai se mudar e por isso ele não vai mais poder morar na casa. Resta a Ordínov então procurar um novo lugar pra morar.

Nessa procura, andando quase aleatoriamente pelas ruas de São Petersburgo (coisas que praticamente todos os personagens de Dostoiévski fazem), ele se depara com uma igreja, onde vê uma bela moça rezando e um velho carrancudo ao seu lado. Trata-se de Katerína e Múrin, na casa de quem ele encontra um quarto para alugar. Katerína se torna alvo de uma obsessão amorosa e é, ao mesmo tempo, sua senhoria.

O livro toca suavemente no tema da predestinação. Katerína se vê presa ao velho Múrin, que a levou do vilarejo onde morava entre os tártaros. Ordínov tenta libertar a moça dos feitiços do velho, que realmente parece ser uma espécie de místico local, mas mesmo tendo a oportunidade, ela julga que jamais será livre — e no final acaba não sendo mesmo.

É uma narrativa curta e, honestamente, um tanto confusa. As divagações de Dostoiévski são muitas e às vezes temos dificuldade de seguir a trama com clareza. Certamente isso é padrão da narrativa dele, especialmente quando o personagem principal está doente e delirando (coisa que também sempre acontece nas obras do autor); mas fica cansativo e temos que recorrer à livre interpretação em alguns momentos para conseguir seguir com a história. 

Enfim, é um livrinho ok, mas não é nada que chame muito a atenção. Em alguns momentos o autor traz uns insights interessantes, mas nada que marque ou chame tanto a atenção. Julguei uma leitura mediana.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Resenha — Lolita

NABOKOV, Vladimir. Lolita. Ebook. 2007 (?)


Nabokov certamente diria que eu sou um moralista e, portanto, esse livro não é pra mim. Ele diz, inclusive, que, ao contrário do personagem principal do livro, o autor não se importa em nada com o que a sociedade vai dizer ou pensar (yeah, right). Enfim, decidi ler esse livro porque estava na lista de "100 livros pra ler antes de morrer" da BBC. Não sei se fiz a melhor das escolhas.

Esta não será uma resenha longa. Lolita conta a história de um pedófilo que escraviza sexualmente uma menor de idade por dois anos, até ela conseguir fugir dele. A narrativa é do ponto de vista do pedófilo, da sua manipulação e até mesmo algumas cenas desnecessariamente sugestivas do ponto de vista erótico. A história incomoda demais, eu digo que só valeu a leitura porque é possível ver como um pedófilo pensa e age, como trama pra conseguir dominar suas presas. 

Não há o que se falar quanto à qualidade da escrita de Nabokov, o cara realmente sabe o que está fazendo. E ainda trazendo à tona um tema tão sensível, não deve ter sido à toa que essa obra marcou tantos grandes escritores na época em que foi lançada — incluindo Érico Veríssimo, segundo ele mesmo.

Acho que o que mais me assustou, foi ver a crítica elogiando o livro e, em muitos casos, apontando a própria Lolita como causadora de tudo isso, já que a princípio ela teria seduzido o pedófilo. Nossa, é ruim até escrever isso. 

Não sei se consigo recomendar esse livro. Consigo ver um certo valor nele e mesmo qualidades, mas o tema é nojento demais. Penso que isso aqui serve mais como instrumento pedagógico para assistentes sociais ou profissionais da área do que para meros amantes de uma boa leitura como eu.

Enfim, é isso.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Resenha — It: A Coisa

KING, Stephen. It: A Coisa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014. Ebook.


Então, né. Esqueci de fazer a resenha desse livro. Devo tê-lo terminado em meados do mês passado, mas uma coisa puxa a outra e esqueci de escrever. Vamos logo à resenha (que talvez não seja tão profunda quanto poderia ter sido mês passado).

Creio que a história já está mais do que contada nos filmes e nas séries de televisão. Das crianças que lutam contra o monstro que vive embaixo da cidade em que moram, e que depois, quando adultas, voltam à mesma cidade pra derrotar de vez a criatura que se alimenta do medo das pessoas.
O silêncio se instalou entre os três. Não foi um silêncio completamente desconfortável. Nele, eles se tornaram amigos. (p. 336)
A primeira coisa que me chamou a atenção na narrativa, foi a coragem de Stephen King de encarar uma história com vários personagens principais. Você tem um líder ali, mas nenhum dos outros é secundário, todos são bem necessários pra história acontecer.

Porém, isso gerou um problema. O livro tem um começo lento, porque já que o autor se propôs a inserir tantos personagens importantes, ele vai ter que construir a backstory de todos eles. Foi cansativo ter que acompanhar a narrativa principal, só pra ver ela quebrada por mais um flashback de um personagem, mesmo já estando na página 390 do livro. Pra ter uma ideia, a história de verdade só começa a rolar lá pela página 450 do livro, o resto é tudo setup.

Mas é inegável a capacidade de escrita de King. Por exemplo, ele é muito bom em escrever personagens ou cenas odiosas, daquelas que doem por dentro da gente e dão vontade de bater em quem está causando o mal. Acho que ele é simplesmente bom em descrever coisas que muitas vezes acontecem na vida real, e é isso que realmente nos deixa com raiva.

Outro exemplo: ele é um mestre em já saber o que vai acontecer, mas não contar. Dá pra ver e é óbvio que o autor sabe o final, mas ele sabe não contar. Sabe segurar o suspense e soltar apenas pequenas informações pra gente ir pescando devagar.

E aí devo dizer o seguinte: não entendi qual o gênero do livro. Porque não acho que seja terror. Pra mim está mais próximo do gore do que de fato de algo que assusta. Infelizmente é isso, o livro não dá medo. A gente acompanha a história mais pela curiosidade de saber o que é A Coisa do que pelo medo do que ela pode fazer contra os personagens. 

Além disso, há muitas cenas gráficas e vários acontecimentos que, pra mim, são bem desnecessários. E pra quem só assistiu aos filmes e não leu o livro, aqui vai um exemplo: o livro tem uma cena de sexo entre crianças — e não é por alto, é bem mais detalhada do que um leitor desavisado esperaria.

Enfim, não curti tanto o livro. Ainda bem que não comprei um calhamaço de mais de 1500 páginas, mas sim um ebook e, por isso, o sentimento de perda não foi tão grande. Acho que esperava mais.