sábado, 2 de maio de 2026

Resenha — A casa de ópera de Manoel Luiz

TADDEI, Celso. A casa de ópera de Manoel Luiz. Goiânia: Mondru, 2024. Ebook.


Bom, segui com meu intuito de me atualizar na literatura brasileira contemporânea. Encontrei esse livro que foi finalista do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Romance de Entretenimento e resolvi dar uma chance. À resenha.

Estou cada vez mais convencido de que a moda da literatura brasileira contemporânea é contar uma história fazendo o mínimo possível para, de fato, contar uma história. Conquanto entenda que a crítica literária deve adorar esse tipo de coisa, eu, mero leitor, não consigo gostar. Por favor, quando eu pegar o seu livro, conte-me uma história. Mas conte-ma bem.

Aqui o autor traz a história de Manoel Luiz, um barbeiro português que sai do seu país rumo ao Brasil, onde funda uma Casa de Ópera. O livro funciona como um mockumentary (dá um Google aí qualquer coisa). A narrativa alterna entre coisas que acontecem com Manoel Luiz e com o próprio autor do livro. 

De um lado, temos um barbeiro português que almeja a arte, mas só no Brasil vai conseguir desenvolvê-la. E, claro, estando no Brasil, vai penar na mão de Vice-Reis, nobres, conterrâneos e até Reis para conseguir manter viva sua Casa de Ópera. 

Do outro lado, temos o narrador, que é uma espécie de jornalista tentando escrever um ensaio coeso sobre a Casa de Ópera. Para isso, conta com a ajuda do Professor Doutor e Doutor Lionardo Zacharias de Miranda, que no meio de suas investigações físico-quânticas consegue descobrir várias informações cruciais sobre Manoel Luiz e fatos do passado. 

Veja bem, o livro me incomodou, mas nem por isso deixo de reconhecer que ele tem alguns fortes pontos positivos. O livro é bem-humorado e tem um excelente toque de nonsense. Aliás, enquanto o autor trata do Manuel, a sua loucura me lembra um outro certo livro, o Manual.

E é interessante que o autor seja bem-humorado não só na narrativa e no tratar dos acontecimentos, mas com a própria estrutura do livro! Capítulos inseridos do nada, títulos irônicos, tem de tudo um pouco. O livro tem alma de brasileiro: é uma esculhambança. Veja os exemplos a seguir:
Pausa da pausa para contar como descobri Manoel Luiz (ou fui descoberto por ele) e também esclarecer alguns pontos (título de capítulo, p. 41)

Também já disse, e agora repito, que não necessariamente qualquer coisa que eu esteja contando aqui seja totalmente verdade. Bom, neste ponto, sim, ele se aproxima bastante dos livros de História. (p. 43)

Na primeira página deste volume, registrei, ingenuamente, que deveria ficar mais fácil escrever à medida que avançasse. Não fica. (p. 217)
O autor traz alguns temas também que são próprios de qualquer livro que narre bem o período Brasil imperial: racismo, absurdos da realeza e as marcas que tornam o Brasil Brasil. Ou seja, injustiças, jeitinhos e bagunça, tudo levado a toque de gaita, que é o que sabemos fazer de melhor. 

Se parar pra pensar, o que de fato me cansou no livro é que me parece que o autor não soube dosar sua erudição cômica. É engraçadão, é divertido, beleza. Mas como a história demora muito pra avançar, é cheio de comentários no meio ou pequenas anedotas que muito pouco contribuem pro avanço da trama, a gente acaba cansando mesmo e tem que fazer um esforço pra ler até o fim. 

Douglas Adams, que mencionei acima, tem disso também. É aquela vontade louca que o nonsense traz de criar parágrafos tão densos que apenas eles já serviriam como base pra um livro. Mas pelo menos Douglas Adams conta uma história, aqui ficou muito picotado. 

Enfim, tendo dito tudo isso, desgostei do livro? Não diria. Leria de novo? Também não diria. Mas digo que gostei do conceito e da perícia do autor em manusear a ferramenta-livro além das palavras em si. Isso foi de certa forma instrutivo. Dei 4 estrelinhas no Kindle. 

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