quarta-feira, 17 de junho de 2026

Resenha — A senhoria

DOSTOIÉVSKI, F. A senhoria. São Paulo: Editora 34, 2011.



Então, né. Já li muita coisa de Dostoiévski, a tal ponto que agora estou tendo que recorrer a obras cada vez mais obscuras dele, no sentido de obras que não fazem parte da grande mídia ou das listas de obras mais populares. Foi assim que me deparei com A senhoria

Neste livro acompanhamos a breve história de Vasily Mikhailovich Ordínov, um jovem que mora em São Petersburgo e vive da renda gerada pela herança de um falecido bisavô. A narrativa começa com Ordínov recebendo a notícia da proprietária de sua atual residência informando que ela vai se mudar e por isso ele não vai mais poder morar na casa. Resta a Ordínov então procurar um novo lugar pra morar.

Nessa procura, andando quase aleatoriamente pelas ruas de São Petersburgo (coisas que praticamente todos os personagens de Dostoiévski fazem), ele se depara com uma igreja, onde vê uma bela moça rezando e um velho carrancudo ao seu lado. Trata-se de Katerína e Múrin, na casa de quem ele encontra um quarto para alugar. Katerína se torna alvo de uma obsessão amorosa e é, ao mesmo tempo, sua senhoria.

O livro toca suavemente no tema da predestinação. Katerína se vê presa ao velho Múrin, que a levou do vilarejo onde morava entre os tártaros. Ordínov tenta libertar a moça dos feitiços do velho, que realmente parece ser uma espécie de místico local, mas mesmo tendo a oportunidade, ela julga que jamais será livre — e no final acaba não sendo mesmo.

É uma narrativa curta e, honestamente, um tanto confusa. As divagações de Dostoiévski são muitas e às vezes temos dificuldade de seguir a trama com clareza. Certamente isso é padrão da narrativa dele, especialmente quando o personagem principal está doente e delirando (coisa que também sempre acontece nas obras do autor); mas fica cansativo e temos que recorrer à livre interpretação em alguns momentos para conseguir seguir com a história. 

Enfim, é um livrinho ok, mas não é nada que chame muito a atenção. Em alguns momentos o autor traz uns insights interessantes, mas nada que marque ou chame tanto a atenção. Julguei uma leitura mediana.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Resenha — Lolita

NABOKOV, Vladimir. Lolita. Ebook. 2007 (?)


Nabokov certamente diria que eu sou um moralista e, portanto, esse livro não é pra mim. Ele diz, inclusive, que, ao contrário do personagem principal do livro, o autor não se importa em nada com o que a sociedade vai dizer ou pensar (yeah, right). Enfim, decidi ler esse livro porque estava na lista de "100 livros pra ler antes de morrer" da BBC. Não sei se fiz a melhor das escolhas.

Esta não será uma resenha longa. Lolita conta a história de um pedófilo que escraviza sexualmente uma menor de idade por dois anos, até ela conseguir fugir dele. A narrativa é do ponto de vista do pedófilo, da sua manipulação e até mesmo algumas cenas desnecessariamente sugestivas do ponto de vista erótico. A história incomoda demais, eu digo que só valeu a leitura porque é possível ver como um pedófilo pensa e age, como trama pra conseguir dominar suas presas. 

Não há o que se falar quanto à qualidade da escrita de Nabokov, o cara realmente sabe o que está fazendo. E ainda trazendo à tona um tema tão sensível, não deve ter sido à toa que essa obra marcou tantos grandes escritores na época em que foi lançada — incluindo Érico Veríssimo, segundo ele mesmo.

Acho que o que mais me assustou, foi ver a crítica elogiando o livro e, em muitos casos, apontando a própria Lolita como causadora de tudo isso, já que a princípio ela teria seduzido o pedófilo. Nossa, é ruim até escrever isso. 

Não sei se consigo recomendar esse livro. Consigo ver um certo valor nele e mesmo qualidades, mas o tema é nojento demais. Penso que isso aqui serve mais como instrumento pedagógico para assistentes sociais ou profissionais da área do que para meros amantes de uma boa leitura como eu.

Enfim, é isso.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Resenha — It: A Coisa

KING, Stephen. It: A Coisa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014. Ebook.


Então, né. Esqueci de fazer a resenha desse livro. Devo tê-lo terminado em meados do mês passado, mas uma coisa puxa a outra e esqueci de escrever. Vamos logo à resenha (que talvez não seja tão profunda quanto poderia ter sido mês passado).

Creio que a história já está mais do que contada nos filmes e nas séries de televisão. Das crianças que lutam contra o monstro que vive embaixo da cidade em que moram, e que depois, quando adultas, voltam à mesma cidade pra derrotar de vez a criatura que se alimenta do medo das pessoas.
O silêncio se instalou entre os três. Não foi um silêncio completamente desconfortável. Nele, eles se tornaram amigos. (p. 336)
A primeira coisa que me chamou a atenção na narrativa, foi a coragem de Stephen King de encarar uma história com vários personagens principais. Você tem um líder ali, mas nenhum dos outros é secundário, todos são bem necessários pra história acontecer.

Porém, isso gerou um problema. O livro tem um começo lento, porque já que o autor se propôs a inserir tantos personagens importantes, ele vai ter que construir a backstory de todos eles. Foi cansativo ter que acompanhar a narrativa principal, só pra ver ela quebrada por mais um flashback de um personagem, mesmo já estando na página 390 do livro. Pra ter uma ideia, a história de verdade só começa a rolar lá pela página 450 do livro, o resto é tudo setup.

Mas é inegável a capacidade de escrita de King. Por exemplo, ele é muito bom em escrever personagens ou cenas odiosas, daquelas que doem por dentro da gente e dão vontade de bater em quem está causando o mal. Acho que ele é simplesmente bom em descrever coisas que muitas vezes acontecem na vida real, e é isso que realmente nos deixa com raiva.

Outro exemplo: ele é um mestre em já saber o que vai acontecer, mas não contar. Dá pra ver e é óbvio que o autor sabe o final, mas ele sabe não contar. Sabe segurar o suspense e soltar apenas pequenas informações pra gente ir pescando devagar.

E aí devo dizer o seguinte: não entendi qual o gênero do livro. Porque não acho que seja terror. Pra mim está mais próximo do gore do que de fato de algo que assusta. Infelizmente é isso, o livro não dá medo. A gente acompanha a história mais pela curiosidade de saber o que é A Coisa do que pelo medo do que ela pode fazer contra os personagens. 

Além disso, há muitas cenas gráficas e vários acontecimentos que, pra mim, são bem desnecessários. E pra quem só assistiu aos filmes e não leu o livro, aqui vai um exemplo: o livro tem uma cena de sexo entre crianças — e não é por alto, é bem mais detalhada do que um leitor desavisado esperaria.

Enfim, não curti tanto o livro. Ainda bem que não comprei um calhamaço de mais de 1500 páginas, mas sim um ebook e, por isso, o sentimento de perda não foi tão grande. Acho que esperava mais.