quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Resenha — A implacável

NOLLI, Rafael. A implacável. Edição do Autor, 2024. E-book.


Peguei esse livro no "Encha seu Kindle" da Amazon. A capa tinha corujas, e eu gosto de corujas. Este foi o único motivo.

Bom, trata-se da história de Oio e Baga. Uma criança e um adolescente em suas andanças por um mundo desconhecido. Os caminhantes se deparam com uma bruxa, ela rouba o coração de Oio, e agora eles terão que recuperar o coração da própria bruxa, que fora roubado antes. Essa é a trama.

Primeiro, devo confessar que o autor é super criativo. Escreveu um livro infantojuvenil de qualidade. Os personagens se metem em encrencas sérias, a vida deles corre risco, e precisam encontrar soluções criativas pra se safar delas. 

Ele faz repetidas referências veladas ao Guia do Mochileiro da Galáxia. Traz personagens curiosos como o Vendedor de Ar ou o guerreiro Ponto Cego:
Ponto Cego anda às claras, sem a necessidade de camuflagem: ele está sempre no ponto cego, no local onde sua vista não alcança. (p. 16)
Por outro lado, a história é muito episódica e solta. Não fica claro qual era o objetivo inicial dos dois irmãos Oio e Baga, e ainda que os eventos sejam concatenados de maneira criativa e interessante, a gente fica meio sem saber pra onde ir. Isso se evidencia pelo fato de que o título do livro parece não ter relação com a narrativa, até uma primeira menção quando 70% da leitura já foi feita. Pra piorar, a menção é vaga, falando de uma personagem que nem aparece e mal tem relevância pra história.

Bom, presumo que o autor claramente deve saber o que está fazendo, já que, depois de uma rápida pesquisa, descobri que ele tem premiações grandes e importantes. 

Enfim, é uma leitura infantojuvenil de qualidade, eu diria. Seria um bom livro para iniciar uma criança ou pré-adolescente curioso pela leitura. É engajante e bem lúdico. Pena que a capa e o título não têm nada a ver com nada. Mas eles funcionaram bem: me fizeram pegar o livro pra ler. 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Resenha — Memórias Póstumas de Brás Cubas

ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Caelwick Press, 2026. E-book.



Mais um livro que li em algum momento da adolescência. Deve ter sido pra algum trabalho da escola, certamente. Lembro que, na época, não achei grandes coisas. Hoje, já passados muitos anos, tive a oportunidade de revisitar a obra e cheguei a uma conclusão: meu eu adolescente estava certo. Olha, me desculpe, mas aqui vai ter muito spoiler. E não venha não. O livro é de 1881. Se não leu até agora, não posso fazer nada.

O livro é o seguinte: Brás Cubas morreu e agora vai contar sua autobiografia do além-túmulo. Isso dá a ele liberdade de falar tudo o que sempre teve medo de falar durante a vida e contar os mais sórdidos detalhes sem medo de consequências — afinal, já está morto.

Brás Cubas então conta toda a sua história, desde a infância travessa, o período de estudos e seu primeiro amor, Marcela, uma mulher mais velha, totalmente interesseira, cujo único objetivo é se aproveitar de homens usando sua beleza. Marcela termina a vida velha, feia e pobre.
Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos. (p. 63)
Herdeiro de fortuna, Brás Cubas pode se dar ao luxo de se dedicar ao que quiser e passa então a narrar o que se tornará o núcleo do que torna o livro interessante: seu adultério com Virgília, esposa do político Lobo Neves. 

Este é o cerne da história. A Globo não inventou nada, apenas copiou a fórmula de fazer o espectador torcer para que o casal adúltero se dê bem. Vemos o mocinho tentando ficar com a mocinha, pena que ela já é casada (e ainda pior, casada com um palerma que nem sequer vê o adultério acontecendo debaixo do seu nariz, enquanto o resto da cidade todinha sabe). 

Infelizmente, uma hora essa história acaba e o livro fica bem menos interessante. Nos últimos 2/5 do livro, senti que o autor estava mais interessado em filosofar do que em contar uma história — algo também muito comum em vários autores intelectualizados da época, falando pra um público bem específico (falarei mais disso abaixo). Antes disso, porém, vale comentar um pouco da técnica de Machado. 

A princípio, me surpreendi com o livro: tem muita narrativa e pouco diálogo, que é justamente o que eu considero ser o elemento mais forte de qualquer texto em prosa. Foi só então que me toquei de que não era nada disso. Porque o livro todo é um diálogo! Como a narração é feita em primeira pessoa, Brás Cubas está constantemente conversando com o leitor; é uma espécie de monólogo e diálogo ao mesmo tempo. 

Aliás, falemos do autor também. Machado nessa obra é um Dostoiévski, só que mais culto e irônico. Inclusive, ironia é a palavra-chave do comportamento de Brás Cubas. Até porque, à la Dostoiévski, Brás Cubas não é nenhum herói. O personagem é mesquinho e pândego, um retrato que o autor pinta da alta sociedade de sua época. 

E aqui chegamos ao que eu considero ser o grande problema de ler Machado de Assis. É que, infelizmente, o que me incomodava em Machado antes ainda me incomoda agora: pra mim, ele é excessivamente intelectual e culto. Faz mil referências a personagens, filosofias e culturas que exigem demais. 

Quando era adolescente, não entendia nada; hoje já consigo acompanhar — mas longe de me trazer orgulho, me traz cansaço, porque essas referências nem somam tanto assim à narrativa. Me parece simplesmente ser o gosto pela exuberância, querer mostrar como é inteligente e culto. Isso sem falar na questão dos estrangeirismos. Ele presume que o leitor é versado em inglês e francês com uma frequência maior do que o necessário. Nesse caso, porém, a culpa não é só dele, porque bem caberia ao editor adicionar notas que traduzissem os termos

No fim das contas, isso me aponta de volta para a impressão que sempre tive: que Machado é uma literatura para as elites (e, hoje em dia, nem ela mais, visto que poucos leem e buscam ser cultos). Honestamente, foi o próprio Machado quem disse muito bem:
[...] o livro é enfadonho, cheira a sepulchro, traz certa contracção cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. (p. 201)
Entendo por que o livro é um clássico, e entendo que Machado estava realmente bem à frente do seu tempo, fazendo coisas que só autores no século seguinte teriam coragem de fazer tão bem (como escrever um capítulo inútil, ou deixar um capítulo inteiro em branco, sem palavras). Além disso, não há como negar que ele domina muito, muito bem o português. 

Além disso, os temas são bem atuais e relevantes: relacionamentos proibidos, famílias destruídas pela maldade do ser humano, pessoas esquecidas pela sociedade e seus pares, e por aí vai. Ah, e, claro, o tema da morte. Essas duas citações falam por si:
Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes. (p. 97)
Morreu sem lhe poder valer a ciência dos médicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem coisa nenhuma; tinha de morrer, morreu. (p. 135)
Enfim, no fim das contas, a leitura é até interessante, só cansa. Não sei quão pecaminoso para os críticos é dizer que Machado de Assis é meio chato de ler. Bom, não sou crítico literário, nem intelectual, nem coisa nenhuma. Só sei de uma coisa: é meio chato sim. 

Talvez os mais intelectuais do que eu consigam aproveitá-la melhor. Ah, e aí está, provavelmente essa é a conclusão ideal: ao contrário de Machado, me falta cultura.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Resenha — Siracvsa

SÁ, Guilherme de. Siracvsa. Amazon KDP, 2022. E-book.


Peguei o livro pra ler porque acreditei estar ajudando um autor pequeno na Amazon. Não fazia ideia de que o cara era vocalista da finada banda Rosa de Sarom. Se soubesse, talvez tivesse pensado duas vezes. De qualquer forma, pelo menos posso dizer que fiz uma leitura honesta. Vamos a ela.
Suas mãos de ferro lhe trouxeram o poder. E o poder era algo que o comprazia demasiado. Então, o poder se tornou um vício. (p. 77)
Bom, trata-se da história de Santo Salafia, um mafioso italiano na década de 70, na cidade de Siracusa. Ele traiu seu padrinho da máfia e agora vai ter que tentar salvar a filha das garras dos mafiosos.

O livro tem alguns pontos positivos. O fato dos capítulos serem curtos é interessante pra leitura, deixa ela mais fluida. E acho que o autor mostra bem a lógica da fé católica, de pagar pelos pecados, e de personagens que são próprios dessa tradição de fé. Infelizmente acho que é isso.

A primeira coisa que é problemática no livro é o uso do sobrenatural. Há milagres, demônios, transições estranhas entre realidade física e espiritual. Entendi que o autor quis usar isso como pitadas pra aumentar o tempero do livro, mas não deu certo não.

Os trechos sobrenaturais, de modo geral, não contribuíram bem para o livro. Eles não somam ao gênero do livro nem propõem algo que justifique gastar tanto tempo em suas descrições. Eles poderiam até acontecer, mas de modo mais pontual. Do jeito que está escrito, parece que o autor quis só aparecer. 

Como não sabe bem o que fazer, o autor se perde. Por exemplo, do nada aparece um anjo da guarda aleatório. Absolutamente do nada, sem preparo, sem informação, simplesmente porque sim. E aí a gente percebe que o autor tentou misturar Constantine com O Poderoso Chefão, mas não se preparou corretamente pra isso. É muito solto, não se constrói o suficiente, parece que ele tentou inventar moda do nada. Na tentativa de acertar os dois, conseguiu errar ambos.

Um outro problema é que o autor não é bom com o ritmo do texto. Ele imprime urgência e logo em seguida se perde em longas descrições que não colaboram em nada pra trama. Um outro exemplo disso é que na marca de 70% o autor inseriu outro personagem bem importante. Não é que isso não possa ser feito, mas deveria ter premeditado melhor a chegada dele, ou, no mínimo, inserido pitadas sobre o que isso contribui para o gênero do livro. 

Começamos com aventura (mafioso tentando resgatar a filha), passamos para ficção fantástica (mafioso sendo salvo do inferno), do nada, vamos para a política (cardeias e alta cúpula da Igreja com picuinhas), e finalizamos com aventura misturada com ficção fantástica. Não tem coesão e o leitor está sempre tendo que se virar nos trinta pra acompanhar.

Pra completar com a cereja do bolo, os personagens são superficiais, via de regra, puramente movidos pela trama, sem que tenhamos qualquer motivo real para torcer por eles, já que não os conhecemos nem temos clareza da razão dos seus atos. O vilão nem aparece, o autor dá mais profundidade pra personagens secundários do que pro próprio protagonista. (aliteração braba aqui, hein).

Enfim, graças a Deus o livro foi de graça. E acho que o que mais me deixa triste é ver o tanto de avaliações: 771, com uma nota final de 4,6 estrelas. Infelizmente não faz o menor sentido. Na verdade, se parar pra pensar, o livro que o Leo Dias escreveu sobre a Anitta tem umas 800 avaliações na Amazon, e nota também superior a 4 estrelas. Esqueci que boa parte de publicar é ser conhecido, não necessariamente a qualidade da escrita. 

É a vida. 

sábado, 1 de agosto de 2026

Resenha — Neuromancer

GIBSON, William. Neuromancer. New York: Ace Books, 2000.

The sky above the port was the color of television, tuned to a dead channel. (p. 8)
Li Neuromancer na adolescência, entendi muito pouco ou quase nada e, agora, depois de adulto, resolvi ler de novo pra ver se conseguia absorver um pouco mais. Se for pra ser honesto, a verdade é que não foi tão melhor quanto eu esperava, o livro é meio confuso mesmo. À resenha.

Gibson narra a história de Case, um hacker que perdeu sua habilidade de entrar na matrix, e agora foi contratado por Armitage, um servo da inteligência artificial Wintermute. A IA vai recrutar também Molly, uma femme fatale capaz de assassinar inimigos, e Riviera, um humano ciberneticamente modificado capaz de projetar hologramas. Juntos, eles vão tentar fazer o que foram contratados para fazer: libertar a IA e torná-la um ser autônomo e independente. 

O livro é o precursor de todo o movimento cyberpunk. Vários dos conceitos que hoje estão na moda como IA, o conceito de matrix, mundo digital, etc., nada disso era tão fluente na década de 1980, quando o livro foi escrito. Esse é claramente um daqueles casos em que o autor de ficção científica não sabia, mas na verdade estava prevendo o futuro.

A narrativa não é sem problemas. Eu entendo a ideia de Gibson de não descrever demais as coisas, deixando pro leitor descobrir. Mas ele exagera. Por exemplo, se eu digo que "Case usa o Hitachi enquanto flipa pro simstim da Molly, que acabou de pegar seu fletcher."... que diabos isso significa? 

O autor não explica, e aí fica pro leitor entender que Hitachi é tipo um computador portátil, que o simstim é um chip que permite a um hacker se conectar à mente de outra pessoa e ver pelos olhos dela, que fletcher é um tipo de pistola. Na verdade, duvido muito que o leitor consiga discernir sozinho sem fazer alguma consulta online pra ajudar a clarificar. É tudo muito confuso, dificulta demais a leitura. A gente perde a imersão várias vezes pelo simples fato de não saber o que está acontecendo. 

Enfim, é uma leitura boa, cheia de conceitos que premeditaram muita coisa do futuro, e coisas que ainda não sabemos se um dia vão acontecer — como plugar a própria consciência na matrix da internet. 

Porém, não é um livro que eu pretenda ler de novo. Li-o em formato de ebook (bem apropriado para o tema), mas se tivesse sido impresso, eu teria doado depois de terminar. É aquela leitura que vale a pena uma vez, pra conhecer o gênero e se deixar imergir naquele universo; mas depois acaba, e é só.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Leitura não concluída — Catch-22

HELLER, Joseph. Catch-22. Horizon Ridge Publishing, 2024. Ebook.


Caí na besteira de comprar esse livro porque estava na lista da BBC de "100 livros pra ler antes de morrer". Pois esse aí eu garanto que é melhor morrer sem ler mesmo, que não vai acrescentar nada. 

É a "história" de Yossarian, um piloto de bombardeiros durante a II Guerra Mundial e seus percalços no exército, onde ele se vê preso graças a uma tecnicalidade do sistema chamada "Catch-22". É que qualquer pessoa que for declarada insana pode pedir dispensa e ser mandada de volta pra casa; porém, se uma pessoa for falar com o médico e dizer que é insana pra voltar pra casa, isso na verdade demonstra sua sanidade, então ela não vai poder voltar pra casa, vai ter que continuar na guerra.

Essa premissa opressiva seria interessante se de fato houvesse uma história. O que há, na verdade, é uma série de causos de um soldado americano, contando sobre os colegas pilotos traumatizados pelas bombas, sobre suas relações com prostitutas locais em Roma, sobre as trapaças e golpes que eles aplicavam nos próprios comandantes pra não ter que voar e correr o risco de morrer.

O livro tem muitas frases de efeito legais sobre a guerra e como ela é devastadora. Isso também fica claro nos exemplos que o livro traz por meio dos próprios personagens. Mas, pelo amor de Deus, conte uma história. 

É uma narrativa desconexa, típica do pós-Guerra (o livro foi escrito em 1953). Entendo que, pra época, tem o seu efeito e lugar; mas, pra agora, é simplesmente chato. Não tem nexo narrativo, é só um aglomerado de histórias dos quais se vão tirando algumas lições e, só no final, alguma conclusão a nível de enredo. Era melhor que o livro tivesse começado só no capítulo 32.

Chato pra caramba, demora demais pra não falar nada. É excelente pra mostrar alguém traumatizado pela guerra, excelente mesmo, em vários momentos parece até que não tem lógica ou sanidade nenhuma. Mas isso rapidamente cansa, e o leitor não tem real motivo pra continuar lendo. 

Leia um resumo do livro ou veja um filme, mas não perca seu tempo lendo esse livro. 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Resenha — A senhoria

DOSTOIÉVSKI, F. A senhoria. São Paulo: Editora 34, 2011.



Então, né. Já li muita coisa de Dostoiévski, a tal ponto que agora estou tendo que recorrer a obras cada vez mais obscuras dele, no sentido de obras que não fazem parte da grande mídia ou das listas de obras mais populares. Foi assim que me deparei com A senhoria

Neste livro acompanhamos a breve história de Vasily Mikhailovich Ordínov, um jovem que mora em São Petersburgo e vive da renda gerada pela herança de um falecido bisavô. A narrativa começa com Ordínov recebendo a notícia da proprietária de sua atual residência informando que ela vai se mudar e por isso ele não vai mais poder morar na casa. Resta a Ordínov então procurar um novo lugar pra morar.

Nessa procura, andando quase aleatoriamente pelas ruas de São Petersburgo (coisas que praticamente todos os personagens de Dostoiévski fazem), ele se depara com uma igreja, onde vê uma bela moça rezando e um velho carrancudo ao seu lado. Trata-se de Katerína e Múrin, na casa de quem ele encontra um quarto para alugar. Katerína se torna alvo de uma obsessão amorosa e é, ao mesmo tempo, sua senhoria.

O livro toca suavemente no tema da predestinação. Katerína se vê presa ao velho Múrin, que a levou do vilarejo onde morava entre os tártaros. Ordínov tenta libertar a moça dos feitiços do velho, que realmente parece ser uma espécie de místico local, mas mesmo tendo a oportunidade, ela julga que jamais será livre — e no final acaba não sendo mesmo.

É uma narrativa curta e, honestamente, um tanto confusa. As divagações de Dostoiévski são muitas e às vezes temos dificuldade de seguir a trama com clareza. Certamente isso é padrão da narrativa dele, especialmente quando o personagem principal está doente e delirando (coisa que também sempre acontece nas obras do autor); mas fica cansativo e temos que recorrer à livre interpretação em alguns momentos para conseguir seguir com a história. 

Enfim, é um livrinho ok, mas não é nada que chame muito a atenção. Em alguns momentos o autor traz uns insights interessantes, mas nada que marque ou chame tanto a atenção. Julguei uma leitura mediana.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Resenha — Lolita

NABOKOV, Vladimir. Lolita. Ebook. 2007 (?)


Nabokov certamente diria que eu sou um moralista e, portanto, esse livro não é pra mim. Ele diz, inclusive, que, ao contrário do personagem principal do livro, o autor não se importa em nada com o que a sociedade vai dizer ou pensar (yeah, right). Enfim, decidi ler esse livro porque estava na lista de "100 livros pra ler antes de morrer" da BBC. Não sei se fiz a melhor das escolhas.

Esta não será uma resenha longa. Lolita conta a história de um pedófilo que escraviza sexualmente uma menor de idade por dois anos, até ela conseguir fugir dele. A narrativa é do ponto de vista do pedófilo, da sua manipulação e até mesmo algumas cenas desnecessariamente sugestivas do ponto de vista erótico. A história incomoda demais, eu digo que só valeu a leitura porque é possível ver como um pedófilo pensa e age, como trama pra conseguir dominar suas presas. 

Não há o que se falar quanto à qualidade da escrita de Nabokov, o cara realmente sabe o que está fazendo. E ainda trazendo à tona um tema tão sensível, não deve ter sido à toa que essa obra marcou tantos grandes escritores na época em que foi lançada — incluindo Érico Veríssimo, segundo ele mesmo.

Acho que o que mais me assustou, foi ver a crítica elogiando o livro e, em muitos casos, apontando a própria Lolita como causadora de tudo isso, já que a princípio ela teria seduzido o pedófilo. Nossa, é ruim até escrever isso. 

Não sei se consigo recomendar esse livro. Consigo ver um certo valor nele e mesmo qualidades, mas o tema é nojento demais. Penso que isso aqui serve mais como instrumento pedagógico para assistentes sociais ou profissionais da área do que para meros amantes de uma boa leitura como eu.

Enfim, é isso.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Resenha — It: A Coisa

KING, Stephen. It: A Coisa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014. Ebook.


Então, né. Esqueci de fazer a resenha desse livro. Devo tê-lo terminado em meados do mês passado, mas uma coisa puxa a outra e esqueci de escrever. Vamos logo à resenha (que talvez não seja tão profunda quanto poderia ter sido mês passado).

Creio que a história já está mais do que contada nos filmes e nas séries de televisão. Das crianças que lutam contra o monstro que vive embaixo da cidade em que moram, e que depois, quando adultas, voltam à mesma cidade pra derrotar de vez a criatura que se alimenta do medo das pessoas.
O silêncio se instalou entre os três. Não foi um silêncio completamente desconfortável. Nele, eles se tornaram amigos. (p. 336)
A primeira coisa que me chamou a atenção na narrativa, foi a coragem de Stephen King de encarar uma história com vários personagens principais. Você tem um líder ali, mas nenhum dos outros é secundário, todos são bem necessários pra história acontecer.

Porém, isso gerou um problema. O livro tem um começo lento, porque já que o autor se propôs a inserir tantos personagens importantes, ele vai ter que construir a backstory de todos eles. Foi cansativo ter que acompanhar a narrativa principal, só pra ver ela quebrada por mais um flashback de um personagem, mesmo já estando na página 390 do livro. Pra ter uma ideia, a história de verdade só começa a rolar lá pela página 450 do livro, o resto é tudo setup.

Mas é inegável a capacidade de escrita de King. Por exemplo, ele é muito bom em escrever personagens ou cenas odiosas, daquelas que doem por dentro da gente e dão vontade de bater em quem está causando o mal. Acho que ele é simplesmente bom em descrever coisas que muitas vezes acontecem na vida real, e é isso que realmente nos deixa com raiva.

Outro exemplo: ele é um mestre em já saber o que vai acontecer, mas não contar. Dá pra ver e é óbvio que o autor sabe o final, mas ele sabe não contar. Sabe segurar o suspense e soltar apenas pequenas informações pra gente ir pescando devagar.

E aí devo dizer o seguinte: não entendi qual o gênero do livro. Porque não acho que seja terror. Pra mim está mais próximo do gore do que de fato de algo que assusta. Infelizmente é isso, o livro não dá medo. A gente acompanha a história mais pela curiosidade de saber o que é A Coisa do que pelo medo do que ela pode fazer contra os personagens. 

Além disso, há muitas cenas gráficas e vários acontecimentos que, pra mim, são bem desnecessários. E pra quem só assistiu aos filmes e não leu o livro, aqui vai um exemplo: o livro tem uma cena de sexo entre crianças — e não é por alto, é bem mais detalhada do que um leitor desavisado esperaria.

Enfim, não curti tanto o livro. Ainda bem que não comprei um calhamaço de mais de 1500 páginas, mas sim um ebook e, por isso, o sentimento de perda não foi tão grande. Acho que esperava mais. 

sábado, 2 de maio de 2026

Resenha — A casa de ópera de Manoel Luiz

TADDEI, Celso. A casa de ópera de Manoel Luiz. Goiânia: Mondru, 2024. Ebook.


Bom, segui com meu intuito de me atualizar na literatura brasileira contemporânea. Encontrei esse livro que foi finalista do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Romance de Entretenimento e resolvi dar uma chance. À resenha.

Estou cada vez mais convencido de que a moda da literatura brasileira contemporânea é contar uma história fazendo o mínimo possível para, de fato, contar uma história. Conquanto entenda que a crítica literária deve adorar esse tipo de coisa, eu, mero leitor, não consigo gostar. Por favor, quando eu pegar o seu livro, conte-me uma história. Mas conte-ma bem.

Aqui o autor traz a história de Manoel Luiz, um barbeiro português que sai do seu país rumo ao Brasil, onde funda uma Casa de Ópera. O livro funciona como um mockumentary (dá um Google aí qualquer coisa). A narrativa alterna entre coisas que acontecem com Manoel Luiz e com o próprio autor do livro. 

De um lado, temos um barbeiro português que almeja a arte, mas só no Brasil vai conseguir desenvolvê-la. E, claro, estando no Brasil, vai penar na mão de Vice-Reis, nobres, conterrâneos e até Reis para conseguir manter viva sua Casa de Ópera. 

Do outro lado, temos o narrador, que é uma espécie de jornalista tentando escrever um ensaio coeso sobre a Casa de Ópera. Para isso, conta com a ajuda do Professor Doutor e Doutor Lionardo Zacharias de Miranda, que no meio de suas investigações físico-quânticas consegue descobrir várias informações cruciais sobre Manoel Luiz e fatos do passado. 

Veja bem, o livro me incomodou, mas nem por isso deixo de reconhecer que ele tem alguns fortes pontos positivos. O livro é bem-humorado e tem um excelente toque de nonsense. Aliás, enquanto o autor trata do Manuel, a sua loucura me lembra um outro certo livro, o Manual.

E é interessante que o autor seja bem-humorado não só na narrativa e no tratar dos acontecimentos, mas com a própria estrutura do livro! Capítulos inseridos do nada, títulos irônicos, tem de tudo um pouco. O livro tem alma de brasileiro: é uma esculhambança. Veja os exemplos a seguir:
Pausa da pausa para contar como descobri Manoel Luiz (ou fui descoberto por ele) e também esclarecer alguns pontos (título de capítulo, p. 41)

Também já disse, e agora repito, que não necessariamente qualquer coisa que eu esteja contando aqui seja totalmente verdade. Bom, neste ponto, sim, ele se aproxima bastante dos livros de História. (p. 43)

Na primeira página deste volume, registrei, ingenuamente, que deveria ficar mais fácil escrever à medida que avançasse. Não fica. (p. 217)
O autor traz alguns temas também que são próprios de qualquer livro que narre bem o período Brasil imperial: racismo, absurdos da realeza e as marcas que tornam o Brasil Brasil. Ou seja, injustiças, jeitinhos e bagunça, tudo levado a toque de gaita, que é o que sabemos fazer de melhor. 

Se parar pra pensar, o que de fato me cansou no livro é que me parece que o autor não soube dosar sua erudição cômica. É engraçadão, é divertido, beleza. Mas como a história demora muito pra avançar, é cheio de comentários no meio ou pequenas anedotas que muito pouco contribuem pro avanço da trama, a gente acaba cansando mesmo e tem que fazer um esforço pra ler até o fim. 

Douglas Adams, que mencionei acima, tem disso também. É aquela vontade louca que o nonsense traz de criar parágrafos tão densos que apenas eles já serviriam como base pra um livro. Mas pelo menos Douglas Adams conta uma história, aqui ficou muito picotado. 

Enfim, tendo dito tudo isso, desgostei do livro? Não diria. Leria de novo? Também não diria. Mas digo que gostei do conceito e da perícia do autor em manusear a ferramenta-livro além das palavras em si. Isso foi de certa forma instrutivo. Dei 4 estrelinhas no Kindle. 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Resenha — O homem não foi feito para ser feliz

MENDES, Maurício. O homem não foi feito para ser feliz. Goiânia: Mondru, 2025. Ebook.


Tá, vamos lá. Decidi voltar ao mergulho na literatura brasileira contemporânea, na tentativa de encontrar algumas pérolas no meio desse mar de possibilidades. Não seria a primeira vez que aconteceu, já tive a oportunidade de ler algumas coisas bem boas. Mas não foi o caso aqui.

O livro conta a história de Germano, um médico negro que mora em Fortaleza, tem uma vida regrada a prostitutas, descontentamento com tudo e mania de perseguição. Germano não é um personagem carismático, e só continuamos a leitura pela curiosidade, não porque nos importemos com ele. Na verdade, nenhum personagem é muito bem escrito aqui.

Mas, antes, vale dizer que a narração do livro é bem feita. O autor tem no mínimo um bom grau de conhecimento da técnica ou uma boa intuição do que quer contar. O problema é essa moda hoje na literatura brasileira em que a narrativa é vista como secundária. Em vez de contar uma história, o personagem principal se resume a ficar em devaneios e flashbacks, entremeados por um fio narrativo mínimo.

Por isso, a trama sofre muito. Praticamente não tem história. A descrição bem feita é quase inexistente, ela via de regra não acrescenta nada ou muito pouco à cena; mas o pior mesmo são os diálogos horríveis. Personagens que não conversam, parece que representam uma peça de teatro, com uma ou outra exceção. Me parece que o autor está mais preocupado em colocar frases de efeito na boca dos seus fantoches do que em de fato deixar eles viverem.

Como falei, o personagem principal é chato. É um daqueles que está sempre reclamando, não tem quem aguente ficar perto. Na verdade, é triste. O personagem vive descontente com a vida, vive em função dos outros e da sociedade, critica tanto a família tradicional, mas sofre muito justamente por não tê-la, enquanto racionaliza sua escolha de todas as formas que consegue.

Quanto aos temas que o livro aborda, creio que o melhor trabalhado seja o menosprezo à mulher. O personagem trata as mulheres como objetos sexuais, ignorando aspectos humanos, mesmo quando eles são evidentes. Me lembra um pouco o Vampiro de Curitiba, de Trevisan (e não, isso não é um elogio). Digo que esse é o melhor trabalhado, porque esse pelo menos é contado pela história (até certo ponto) e não pelo próprio narador. 

Não tenho problema com livros que defendem ideologias ou questões sociais (basta ver minha resenha de Filhos de Vênus), mas tem que saber trabalhar o tema.  Aqui o autor se propõe à temática do racismo, mas é muito "tell" e pouco "show". Parece que ele quer obrigar a gente a concordar, em vez de contar uma história e ressaltar a questão racial por meio da narrativa. Se você quer trabalhar um tema na sua história, por favor, deixe que a história o faça.

Tendo dito tudo isso, o pior ficou pro final, quando o livro acabou e eu fiquei: "Não é possível que acabou. Sério que é isso mesmo?". Nem se dar ao trabalho de carregar a narrativa até o final o livro se deu. Entendo que talvez tenha sido uma escolha criativa... mas, do meu ponto de vista, não necessariamente uma boa escolha criativa.

Enfim, comprei numa promoção da Amazon e forcei a leitura pra acabar o quanto antes. Infelizmente não recomendo.

sábado, 18 de abril de 2026

Resenha — O Conde de Monte Cristo

DUMAS, Alexandre. O Conde de Monte Cristo. Montecristo Editora, 2023. Ebook.


Bom, a verdade é que nem sei por onde começar. Li esse livro no começo da vida adulta, há uns bons 15 anos. Eu já sabia o que me esperava, eu já sabia que ele não era bom, não, mas que era muito bom. Depois de mais de 1900 páginas, aqui estou eu. Vamos à resenha.
A alegria causa um efeito estranho, oprime como a dor. (p. 65)
É preciso iniciar dizendo que esse livro é um absurdo de bom, por muitos motivos. Vamos começar falando da genialidade dos autores. Sim, no plural! Acontece que Alexandre Dumas não escreveu esse livro sozinho, mas trabalhou em parceria com Auguste Maquet, que foi quem fez todo o roteiro do livro! Coube a Dumas adicionar os diálogos e descrições que ele faz tão bem.

Pra mim, honestamente, foi Maquet o grande gênio aqui. Porque é um absurdo que se consiga manter o leitor vidrado na leitura por quase duas mil páginas! Imagina o esforço colossal que é manter um leitor engajado com o texto num livro simples de 200 páginas, avalie num que é dez vezes maior que isso! Imagine ainda isso em 1844-1846, sem computador, sem inteligência artificial!

A trama do livro é muito interessante. Acompanhamos a história de Edmond Dantès, um jovem francês honesto e honrado, que tem a sua vida destruída por pura inveja e injustiça. Dantès é preso, mas depois retorna a Paris como o Conde de Monte Cristo, revelando sua identidade aos poucos, conforme exerce sua vingança sobre todos os que o injustiçaram

O livro segue uma estrutura muito clara em quatro partes, com uma quebra temporal no meio. Temos a vida inicial de Dantès; seu tempo na prisão; depois uma quebra temporal onde toda a preparação dele acontece fora de cena; então ele retorna como Conde para executar sua vingança aos poucos; e no fim do livro executa de maneira tremenda tudo o que planejou. O esquema seria algo assim:
Traição → Esperança || Preparação || Execução → Vingança
Desnecessário repetir que é muito bem escrito. A trama é cheia de reviravoltas inesperadas, de revelações antecipadas e cada capítulo contribui com a história de modo geral. Aliás, achei notável que, apesar da história ser sobre Dantès, os personagens secundários dão vida e cor ao livro também. Diria até que, sem eles, a história não seria a mesma. 

Aliás, esse livro tem um dos meus personagens favoritos: o Abade Faria. O homem que Dantès encontrou na prisão, mas que transformou a vida dele por completo. O homem que abdicou e deu toda sua vida, seu conhecimento, sua riqueza, tudo de si a Dantès. Um dos personagens que mais me fez chorar. 
Este tesouro lhe pertence, meu amigo — declarou Dantès. — Pertence-lhe só a si, e eu não tenho nenhum direito a ele. Não sou parente.

— Você é meu filho, Dantès! — gritou o velho. — Você é o filho do meu cativeiro, pois o meu estado condena-me ao celibato. Deus o enviou para confortar ao mesmo tempo o homem que não podia ser pai e o prisioneiro que não podia ser livre.

E Faria estendeu o braço que lhe restava ao rapaz, que se lhe agarrou ao pescoço chorando. (p. 280)
Um último ponto quanto ao texto em si, é sobre a edição. Por favor, não comprem nada da Editora Montecristo. Edição cheia de erros de ortografia, pontuação, e até palavras que parecem não existir. A impressão muito forte que me passou é que foi uma tradução feita por inteligência artificial, sem nenhuma verificação humana. Repito: não comprem nada da Editora Montecristo.

Por fim, evidente que o grande tema do livro é vingança. Tudo é sobre a injustiça que Dantès sofreu, e a devida reparação que ele fará. O Conde é como uma força da natureza. Move-se devagar, sem pressa, mas é inevitável. A mudança do personagem principal é lenta, mas contada com cuidado. Não nos cansa, mas aumenta nossa antecipação.

Dantès se enxerga como uma força da Providência divina, como se ele fosse uma espécie de escolhido de Deus para fazer justiça na terra, mas é só uma desculpa. Embora seja impossível negar que foi muita coincidência ele conseguir tudo que conseguiu, vê-se claramente que o seu desejo é vingança.

Achei interessante que a vingança contamina o leitor a tal ponto, que ficamos desapontados quando ela não é tão feroz quanto prevíamos, ou, pior, quanto gostaríamos. Do meu ponto de vista, teve uns dois personagens ali que acho que mereciam pior do que o que o Conde lhes proporcionou. Acho que o livro serve até pra mostrar a maldade do meu próprio coração.
Vivam, pois, e sejam felizes, filhos queridos do meu coração, e nunca esqueçam que até ao dia em que Deus se dignar desvendar o futuro ao homem, toda a sabedoria humana residirá nestas palavras:

Esperar e ter esperança!

Seu amigo, 
Edmond Dantès
Conde de Monte Cristo.
(p. 1909)
Enfim, essa é uma obra sensacional, deveras atemporal. Li-a no começo da vida adulta, li de novo agora e tenho certeza de que lerei de novo no futuro. Não tem como, é uma história fantástica. Recomendo demais a todos que leiam também — se possível, numa boa edição.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Resenha — O diário de Anne Frank

FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. Editora Viseu, 2021. Ebook.


Ok, eu não esperava que esse livro fosse me atingir tanto. Comprei por míseros 50 centavos na Amazon e li como uma leitura despretensiosa. Já tinha ouvido falar bastante do livro, naturalmente, e também sabia que se tratava de uma história sobre o Holocausto.
Fiquei pensando, enquanto mordiscava o cabo da caneta-tinteiro, que qualquer um pode rabiscar algumas tolices, com letra bem grande e espaçada, mas a dificuldade era provar, acima de tudo, a necessidade que se tem de falar. (p. 19)
O diário de Anne Frank nada mais é do que — adivinha — o diário de uma moça de 14 anos chamada Anne Frank. Ela nasceu alemã, mas teve que se refugiar na Holanda, onde permaneceu escondida por dois anos com sua família e outras pessoas antes de ser capturada pelos nazistas.

Nas páginas do diário nós vemos o cotidiano daquelas pessoas, com foco especial para o relacionamento entre as famílias e personagens. Tudo se degrada, casais brigam o tempo todo, gênios fortes batem de frente com gênios fortes. É que ninguém gosta de ficar aprisionado, nem que seja para sobreviver. 

Anne é uma menina meio chata, sinto dizer. Ela é implicante e, como uma boa adolescente, tem dificuldade em ligar o filtro. Fala demais e implica bastante, sempre muito cheia de opiniões e sempre achando que está certa e por cima da carne seca. Confesso que por boa parte do livro, achei chato ouvir o que ela tinha a dizer. 

A verdade, é que Anne é muito intensa — tanto para o mal, quanto para o bem. É inegável que ela, em muitos momentos, ajuda a manter os ânimos em alta no esconderijo. Também é possível vê-la sendo grata e reconhecendo as pessoas que os ajudam. Vejam esses trechos:
Alguns mostram seu heroísmo lutando contra os alemães; nossos benfeitores revelam o seu dando-nos alegria e carinho (p. 203).
Nesse trecho, Anne conversa com Peter, um rapaz de 17 anos que se tornou sua paixonite enquanto os dois estavam escondidos. Peter fala primeiro:
— Você sempre me ajuda — disse ele.
— Como? — perguntei surpresa. 
— Com sua alegria. (p. 249)
É preciso sempre ter em mente que o livro não é uma obra de literatura na sua origem, mas simplesmente um diário de uma menina, que encontrou na escrita uma forma de sobreviver, de lidar, de expressar aquilo que ela não podia expressar em mais nenhum lugar. Nesses termos, creio que é muito possível dizer que Anne teria sido uma excelente escritora.

Como falei, embora o livro não tenha necessariamente fortes traços que caracterizariam uma boa literatura, já se notam as centelhas de alguém com potencial para uma escrita potente. Por exemplo, Anne é muito honesta em falar o que precisa ser dito. Enquanto isso é um traço da sua personalidade, também é característica essencial de bons escritores, que são honestos consigo mesmos:
Não tenho ciúmes de Margot. Nunca tive. Não invejo seus bons modos, sua beleza. É que eu preciso, e muito, do amor verdadeiro de papai. Não só por ser filha dele, mas por mim mesma, por mim, Anne. (p. 62).
Ah, como eu não esperava o final. Foi horrível. Uma vida inteira, um potencial enorme, um fim tão abrupto. As páginas param de repente, já não tem mais nada. E aí a gente fica sabendo que o único sobrevivente de toda a família foi Otto Frank, o pai dela. Horrível considerar e ver a falta de limites da maldade humana. 

Por outro lado, incrível ver a resiliência, talvez também tão característica à condição humana quanto a maldade. Enfim, esse livro me inspirou mais do que eu imaginava. E fiquei bem feliz em ver que o pai honrou a memória da filha e hoje uma fundação carrega esse privilégio.

No fim das contas, não é tanto pelo conteúdo do diário — que, bem admito, tem vários trechos muito bons; mas sim pelas circunstâncias nas quais ele foi escrito. Um retrato vivo da realidade daqueles dias sombrios e da luz no fim do túnel para quem passou por eles. 
Não se preocupe, arranjaremos tudo. Aproveite bem sua vida despreocupada enquanto puder. (p. 19)

domingo, 11 de janeiro de 2026

Resenha — Better off dead

BENNER, Tarah. Better Off Dead. Blue Sky Studio, 2023. Ebook. 


Olha, 2026 já começou bem. Encontrei esse livro de graça na Amazon e fui surpreendido com uma história simples, mas coesa, com uma boa estrutura, daquelas que a gente já entendeu qual é a pegada desde o começo, mas ainda assim é gostosa de ler. À resenha.

Nesse livro acompanhamos a história de Caroline, sua vó Gran e sua viagem para a pequena cidade de Mountain Shadow. Ela recebe a notícia de que sua excêntrica tia-avó havia morrido e deixou para Caroline uma herança inesperada: um hotel antigo e mal-assombrado. Como se isso não fosse suficiente, houve um assassinato na cidade, e agora a vó, de 92 anos, é a principal suspeita. 

De cara já achei a apresentação de personagens muito bem feita. Tudo é muito clichê, mas em nada a autora peca quando introduz as pessoas. Elas parecem pessoas reais, não apenas personagens. A autora dá um show de mostrar. Conhecemos os personagens não por causa do que o narrador fala, mas por causa do que os personagens dizem e, principalmente, do que eles fazem. Esta é a fórmula básica da boa apresentação de personagens.

Quanto à estrutura, a autora segue o manual de roteiros bem certinho. Começa com a personagem no mundo normal dela, então ela é empurrada pra fora dele, depois tem um problema logo no começo e por causa dele outro problema surge, e assim por diante. Tudo bem concatenado.

O único porém de ter uma estrutura tão comum, é que é preciso que o leitor mais especializado releve um pouco o roteiro. Este, justamente por ser bem formulaico, tende ao clichê muito facilmente. Como falei, a autora segue uma cartilha bem certinho. Não obstante, creio que é possível deixar isso de lado pra apreciar os personagens. A gente ainda fica curioso pra saber o que vai acontecer, e fica fácil perdoar as poucas forçadas que o roteiro dá.

Enfim, é um livro simples, uma boa leitura pra começar o ano. Deu um pouco de curiosidade pra ver os outros livros da série, mas nem tanto. A autora foi esperta e deixou muitas pontas soltas, de modo que alguns romances, dramas, ou mesmo fatos inexplicados ficam em aberto pra que o leitor venha a querer ler os outros livros. Bom, não fiquei tão curioso assim.

Mas, quem sabe o futuro, né? Bom saber que Tarah Benner escreve literatura sólida. Vou guardar essa informação e seguir em frente. Bom ano a todos!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

2025: O resumo da ópera

Bueno, novamente isso aqui. A princípio começou como uma retrospectiva bacana sobre o ano literário; mas, agora, sinto que estou ficando meio cansado de tudo. Que pena a vida ser assim às vezes. Ainda gosto muito de ler, mas a escrita tem me trazido frustrações. Talvez no futuro eu fale apenas das leituras. Enfim, bora lá.



1. Livros resenhados

Esse ano acho que até li bem. Na verdade, acho que o que me ajudou bastante foi que não li apenas ficção. Foi revigorante ler outro tipo de literatura. Além disso, me dei o direito de não terminar leituras ou de simplesmente não escrever longas resenhas. Talvez parte do meu problema seja esse: estou perdendo o gosto de fazer só por fazer. Quem sabe o segredo não esteja justamente na simplicidade das coisas e eu que estou complicando tudo?

Jan1) Shibumi; 2) Max and the multiverse; 3) Mountain of lies
Fev4) The War of the Worlds
Mar——
Abr5, 6 e 7) Trilogia Mistborn; 8) O cortiço; x¹) Agent Zero (não concluída); 9) Contos amargos; x²) Little Women (não concluída)
Mai10) Mind Machines; 11) O clube de xadrez da morte
Jun——
Jul12) Os demônios; 13) O vale dos mortos; 14) (In)fungível
Ago15) Nem sinal de asas; 16) Corredor do tempo; 17) O último adeus de Sherlock Holmes; 18) Se o medo tivesse um som; 19) Entre lembrar e esquecer; 20) Breakers
Set21-26) Leituras de não-ficção; além dessas posso incluir 27-32) Leituras sobre aconselhamento bíblico
Out-33) Meltdown; 34) Livro sem nome
Nov35) Alice no País das Maravilhas; 36) Knifepoint
Dez37) A vida breve dos cães; 38) Filhos de Vênus

Olha, agora que parei pra ver... rapaz... nada mal, né?! Trinta e oito livros num ano! Parece até que sou jovem e não tenho nada pra fazer da vida. Mas antes fosse! Olhando pra trás (é pra isso que retrospectivas servem, não é?) percebo que as leituras de não-ficção fizeram uma diferença bem grande. Meu cérebro estava cansado e eu nem sabia.

Tanto é que vou eleger uma obra de não-ficção como a melhor do ano. Tem várias aí na lista que merecem no mínimo uma menção honrosa, como a trilogia Mistborn, a triologia Breakers e as obras de literatura brasileira contemporânea como Nem sinal de asas e Entre lembrar e esquecer. Aliás! Esse foi o ano em que mais li literatura brasileira contemporânea! Para a minha surpresa e alívio, existe muita coisa boa por aí — e muita coisa ruim.

A melhor leitura desse ano foi sem dúvidas Aconselhamento cristão de Gary R. Collins (nem está resenhado no blog, só fiz um fichamento pessoal de estudo dele). A minha vida com certeza vai ter um antes e depois por causa dessa obra. Traz ferramentas incríveis para ajudar outras pessoas e, algo que eu nem esperava: ajudar a mim mesmo.

A pior do ano também tem vários concorrentes, dessa vez vou deixar empatadas as obras que claramente eram apenas "literatura de entretenimento". Me refiro àquelas em que o autor só segue uma fórmula de roteiro e escreve qualquer coisa. Pense numas leituras ruins: Max and the multiverse, Agent Zero, Mind machines e Livro sem nome (esse último é o contrário: tenta ser inteligentão e não faz 

Finalizando com a quantidade de livros, meio que já comentei sobre isso. Olha lá, meu povo. Nem eu esperava tanto desse ano. Vai ver, é esse o segredo, aprender a gerenciar as expectativas. 240 livros nos últimos 8 anos. Acho que seria legal ter a meta de 300 livros lidos em 10 anos, mas como ano que vem vou viajar, melhor não contar com isso.
2018: 27 livros
2019: 37 livros
2020: 40 livros
2021: 21 livros
2022: 35 livros
2023: 20 livros
2024: 23 livros
2025: 38 livros
 
2. Concursos literários e produções

Toda vez é a mesma coisa: eu decido que não vou enviar nenhum texto para concursos literários esse ano... aí vou lá e envio. Em minha defesa, a maioria dos contos foi submetida ano passado. Esse ano mesmo eu só submeti dois, e isso porque a jornalista Vanessa Brandão (uma das produtoras da Mostra Picuá de Cinema e Literatura) me enviou o edital no WhatsApp e me convidou a participar. 

Engraçado como é a vida, né? O único conto que submeti esse ano ficou em primeiro lugar na Mostra Picuá. Essa mostra só teve duas edições até agora. Nas duas fiquei em primeiro, com um conto que escrevi sem pretensão nenhuma, só pra brincar. A foto que está no começo desse post mostra os dois troféus.


Meus textos em inglês que foram publicados esse ano estão disponíveis aqui. E os textos selecionados na Mostra Picuá estão disponíveis aqui.

Bom, do meu ponto de vista, meu aproveitamento esse ano foi de 100%, porque, de fato, só escrevi mesmo um conto e um poema e eles foram selecionados e publicados. Os outros são a rebarba do ano passado. Me impressiona como os números falam por si:
2018: 18 textos enviados, 4 aprovados → 22% de aproveitamento
2019: 17 textos enviados, 4 aprovados → 23% de aproveitamento
2020: 18 textos enviados, 6 aprovados → 33% de aproveitamento
2021: 35 textos enviados, 6 aprovados → 17% de aproveitamento
2022: 46 textos enviados, 7 aprovados → 15% de aproveitamento
2023: 10 textos enviados, 4 aprovados → 40% de aproveitamento
2024: 25 textos enviados, 1 aprovado → 4% de aproveitamento
2025: 8 textos enviados, 4 aprovados → 50% de aproveitamento
Olha quem diria, hein? O melhor aproveitamento de toda a série histórica dessas retrospectivas. E ainda ganhei um considerável valor em dinheiro por ter escrito um texto de uma página e meia. Caramba... nada mal mesmo. Olha aí o gráfico mais besta de todos os tempos: 



3. "Carreira" literária

Olhando pra trás, eu já sei o que me matou esse ano. É que no começo do ano eu resolvi que ia escrever um outro livro. E dessa vez eu fiz o caminho das pedras que todos os autores dizem ser necessário: planejar o roteiro. Meus amigos, se tem uma coisa que eu fiz foi planejar o roteiro, viu? Cada cena, cada variação, cada possível simbolismo, desenvolvimento de personagens, encadeamento de trama... o que vocês imaginarem, eu fiz. Ficou esse monstro aí:

Mas na hora de escrever, foi um desastre! O texto ficou totalmente rígido, não senti familiaridade com a personagem, tudo me pareceu um grande desperdício de energia e tempo. Em determinado momento, até achei interessante a experiência de planejar o livro; mas na hora de escrever, senti que estava escrevendo uma história chata e forçada, muito diferente do que eu gosto de fazer.

Isso daí terminou de destruir a minha esperança. Eu já vinha cansado do ano anterior, então o fracasso desse planejamento terminou de jogar um balde de água fria onde só tinha uns poucos carvões. Mas isso aconteceu no começo do ano. Hoje confesso que estou um pouquinho mais animado pra voltar a escrever.

Momento terapia:
É que acho que descobri qual foi meu grande problema. É que estou achando que meus textos valem alguma coisa. É que estou achando que meus textos são tão bons, tão valiosos para serem lidos, que não quero escrever qualquer coisa e também não quero escrever para não vê-los publicados, alcançando o grande público. Parte do erro é também achar que uma vez que eu tenha uma ideia interessante, essa ideia precisa ser explorada, trabalhada e zelada. Acho que há um pressuposto, um medo embutido, de que se eu descartar uma boa ideia, nunca mais terei outra igual. 

Então qual o plano pro próximo ano? Tentar escrever, é isso. Enquanto em 2025 eu simplesmente desisti, em 2026 preciso me dar o direito de errar, de escrever algo ruim, de aprender qual o meu processo. E isso só se consegue tentando. 

2026 tem ainda mais um ponto a se considerar: minha esposa e eu vamos passar esse próximo ano viajando pelo Brasil! Vamos tentar escolher um novo lugar para morar, numa aventura bem louca que estamos planejando desde o fim de 2024. Caso alguém tenha interesse, estou registrando a viagem nesse blog aqui: Peregrinos da terra.


#O resumo da ópera
  • Livros lidos: 38
  • Textos escritos: 2
  • Textos enviados pra concursos literários: 8
  • Textos aprovados: 4
No fim do ano passado, tudo que eu queria era ter escrito um bom livro em 2025. Não foi o que aconteceu. Aliás, nem o livro que foi aceito pra publicar pela UFRR saiu (a editora até me contatou, mas só porque eu passei o ano inteiro insistindo — e contataram só pra dizer que não vai sair esse ano, quem sabe no começo do próximo). 

Para esse próximo ano, acho que tenho que aprender a gerenciar minhas expectativas e, principalmente, parar de achar que o que eu escrevo é tão valioso que não possa se perder. O erro é achar que algo é meu, quando, na verdade, tudo vem de Deus. Talvez se eu tivesse aprendido essa lição de humildade no começo do ano, não teria sofrido tanto. Que Deus me ajude a crescer, não a retroceder!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Resenha — Filhos de Vênus

PIMENTEL, Aldenor. Filhos de Vênus. Boa Vista: Wei, 2024.


Existe uma felicidade secreta que só os esquecidos têm. As pessoas de boa memória não conseguem entender e talvez até achem um absurdo dizer isso: mas é que esquecer pode ser bem divertido. Não esquecer em si, mas a chance que a memória ruim nos dá de redescobrir

O autor do livro, Aldenor Pimentel, me contatou para que eu fosse um dos leitores beta dessa obra. Lembro de ter lido e enviado comentários. Mas agora, mais de um ano depois, eu não lembrava de quase nada da história. Ler este livro e me surpreender com os fatos, ter a chance de arregalar os olhos com as reviravoltas, são as coisas boas que os esquecidos têm. 
Pra alguns, o tempo é um furacão, que nos arrasta sem pressa. (p. 15)
A história do livro é bem interessante. Estamos numa sociedade onde as pessoas são feitas de barro ou de mármore. Os Filhos da Terra, como Eva, são frágeis, quebradiços; seu barro não pode ficar molhado por muito tempo; a única coisa que têm a seu favor é que eles têm os dois braços. Os Filhos de Vênus, por outro lado, são de mármore. São rígidos, fortes, bonitos de se ver, como Cláudio, o filho da rainha. O único porém é que eles nasceram sem braços e precisam escravizar os Filhos da Terra para viver.

O primeiro capítulo é um arraso! A narração é muito bem executada. Dá vontade de continuar lendo, de entender a razão das coisas, de ver o que vai acontecer com a escrava que vai trabalhar no palácio real e se apaixonar pelo príncipe, de como a sociedade estratificada foi criada e organizada. 

As descrições também são na medida, o autor faz um excelente uso da falta de descrições em vários momentos justamente para forçar o leitor a montar a cena na cabeça. Esse tipo de respeito à inteligência do leitor tem sido cada vez mais raro e por isso eu a apreciei bastante.

Pensando nos três pilares da escrita, tal como expostos por Stephen King (narração, descrição e diálogo), creio que a única falha mesmo são os diálogos. A maioria dos personagens são caricatos e os diálogos rasos, as reações são exageradas. Mas confesso que é possível superar essas dificuldades, porque realmente a narração é exímia.

Gosto bastante da informalidade com a qual o livro conta a história. Parece que de fato estamos ouvindo alguém falar com a gente, nos relacionamos com o texto que está cheio de trocadilhos (inclusive, até me pergunto se eles funcionariam em outro idioma — tendo a crer que não) e também cheio de brasilidades. Ainda que em alguns momentos me pareça que o autor forçou a mão para fazer caber algumas expressões, essa característica do texto é bem presente e torna a leitura fluida.

A princípio achei os capítulos curtos demais, porém creio que eles servem ao seu propósito e funcionam bem: falam o que têm que falar e fazem a história rodar. Por outro lado, alguns capítulos me parecem um pouco corridos demais. Não é que eles não funcionem como são, mas é que eu não me importaria em ter visto algumas cenas se desenrolarem com um pouco mais de calma, talvez com mais detalhes, com trejeitos que revelassem mais o personagem.

Porém, creio que a grande força do livro está na temática. A alegoria do livro é muito clara. A famosa luta de classes é bem evidente desde o começo e muito bem explorada no decorrer do livro por meio de símbolos. O livro explica seu mundo pelo simples fato de que alguém foi lá e fez, e isso criou um sistema ao qual todos se submetem. 

Nesse sentido, o livro é uma clara distopia: um sistema maior que obriga as partes a se comportarem de determinada forma e até molda suas expectativas sobre o que deveria ser ou não. Creio que o autor apresenta o marxismo de uma forma bem original que não tinha visto ainda.

Além dos diálogos, meu único porém é que acho que no epílogo o autor se explicou demais. O texto já tinha deixado tudo bem claro e algumas explicações finais soaram meio gratuitas. Também preferia que o autor não tivesse adicionado os posfácios, já que redundam no mesmo problema do epílogo.
Em outras terras, Vênus será uma deusa admirada pelos quatro cantos do mundo. A ela será destinado aposento digno de sua importância. O mundo inteiro vai admirar sua beleza. E quem olhar sua cara não exagerará seu coração de pedra. (p. 99)
Não obstante, esse livro é muito interessante. É um livro que nos prende, que, no mínimo, nos faz pensar sobre a condição humana ou a condição da sociedade. E como nos últimos tempos tenho lido bastante literatura brasileira contemporânea (vide as últimas resenhas postadas aqui), creio que tenho algum cacife pra dizer que estamos diante de uma admirável obra de literatura brasileira — coisa que não tem sido tão comum nos últimos tempos.

Ah, e por fim, só pra se ter ideia de como eu realmente havia esquecido do livro. Comecei a leitura pelo prefácio. Achei as primeiras frases bem interessantes, argutas de um jeito que me deu curiosidade de ler. Logo pensei: "Quem será que escreveu? Porque sei que o Aldenor gosta de convidar autores locais. Vou já ver quem é, fiquei curioso pra ler outras coisas escritas por esse autor."

Quem escreveu o prefácio fui eu.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Resenha — A vida breve dos cães

FREDERICK, Elton. A vida breve dos cães. Goiânia: Mondru, 2023.


Tomei um susto agora quando fui procurar a imagem da capa do livro no Google. É que não sabia que esse livro foi finalista do Prêmio Jabuti de 2024. Gente do céu, se esse livro é o finalista, não sei o que esperar da literatura brasileira. Ou, sendo mais brando, não sei o que esperar do Jabuti, talvez. Enfim, a resenha.

O livro conta a história de Isaque, Cecília e Isabel, nessa ordem e de forma alternada. Eles vivem numa sociedade onde foi passada a Solução 79, onde sacrificam mulheres de 79 anos e usam seu sangue como cura para crianças que sofrem de alguma doença não especificada. O livro narra o dia em que Isaque tem que levar Isabel para a eutanásia forçada e o dilema sofrido por ele e Cecília. 

A premissa é interessante, mas, pelo amor de Deus, o livro é muito chato de ler. É um vai e volta desnecessário, a narrativa não é linear e além disso ainda muda de personagem com frequência. Tenho que gastar mais tempo tentando identificar o quem e quando do que me concentrando no quê da história (que foi o que eu realmente me propus a ler). 

Só depois que fica claro quem é quem, mas até lá já começamos a olhar o livro com o canto dos olhos. Até porque, embora a narrativa fique um pouco mais organizada, nem por isso se torna menos chata. Os personagens então nem se fala. É triste de ler. É que eles simplesmente não têm progressão: é a feminista sempre revoltada, o introvertido banana e a idosa fundamentalista. São pintados dessa forma e temos que aturar isso até o fim. 

Não bastasse isso, o que mata mesmo é a narrativa chata. Cheia de detalhes e causos que contribuem muito pouco pra história. O autor não cumpre sua parte no acordo e fica levando a gente pra caminhos obscuros sem propósito. Me parece que o autor quer criar uma atmosfera, um ethos próprio. É o tipo de livro que está mais interessado em filosofar e criar ambientes de impressão do que de fato fazer o que um bom livro deve fazer: contar uma história

Esse é o tipo de livro que dá raiva de ler, porque a gente sente que só perdeu tempo. Pronto, taí. É o tipo de livro que professores obrigam alunos a ler e depois eles pensam: "Se leitura é isso, nunca mais eu quero ler na minha vida".

Pra se ter uma ideia, a história começa a ficar interessante na página 239, quando já se passou mais de 80% do livro — e se parar pra pensar, é exatamente nesse ponto que a história finalmente avança. Mas ainda assim esse ímpeto dura pouco tempo, porque logo o livro cai no marasmo de novo. Imagine aguentar 239 páginas de setup pra depois ainda não ser recompensado. 

Eu entendo o que o autor quis fazer, não é uma ideia errada; mas é que a execução foi péssima. Pra fazer bom uso da narrativa alternada, o autor precisa avançar a trama ao mesmo tempo em que usa as narrativas em tempos diferentes pra complementar o que acontece no presente. Tudo precisa contribuir para a história diretamente, não dá pra só ficar contando causos e pensar que isso preenche bem o espaço.

Pra não dizer que o livro não acertou em nada, acho que a temática, na medida do possível, foi bem representada. O livro tem um forte apelo à exaustão que muitas mulheres sofrem na sociedade atual. E ele é muito certeiro em mostrar a causa disso: a passividade masculina. Quando o homem não é o cabeça, a mulher perde a cabeça.

Mas é isso. Esse é o tipo de livro que me faz querer desistir de literatura contemporânea. Ainda bem que li outros esse ano que salvaram. É a vida.

domingo, 30 de novembro de 2025

Resenha — Knifepoint

ROBERTSON, Edward W. Kinfepoint. Kindle Edition. 2013.


O terceiro livro da série Breakers (primeiro livro aqui, segundo livro aqui) que consegui de graça na Amazon USA. O primeiro livro me pegou de jeito, o segundo achei ok. Nesse aqui, acho que o autor conseguiu recuperar o que tinha deixado de lado no segundo. À resenha.
"You are a very hard girl, Raina. Don't think that makes you the strongest." (p. 1104)
O livro narra o retorno de um personagem do primeiro livro, Walt, em sua jornada desde o México até o retorno à Califórnia, onde ele vai tentar eliminar o que restou dos aliens, a convite de um grupo de sobreviventes. Paralelo a ele, temos a história de Raina, uma garota que sobreviveu ao vírus sozinha e teve que ver seus pais adotivos levados por um grupo de sobreviventes com tendências imperialistas.

Como sempre, as duas narrativas se encontram no final (embora nesse aqui de modo mais discreto) e é bem satisfatório ver que o autor amarra as pontas soltas tanto quanto possível. Tem algumas forçadas na trama, mas não há dúvidas: o miserável é um excelente escritor. Talvez não seja uma literatura que vai mudar vidas, mas é uma leitura satisfatória, bem escrita, e que nos diverte.
It was marvelous, in its way, that it was easier to fight the aliens than to try to understand another human. (p. 1114)
Não tenho muito a dizer porque, em grande parte, o livro se assemelha aos outros dois da série, e imagino que os próximos também irão (a série tem oito livros!). Talvez valha mencionar que foi a primeira vez que o autor abordou alguma questão espiritual como parte do tema do livro (basta dizer que a Raina tinha seu próprio modo espiritual de ver o mundo). No mais, é sobrevivência, ver que os seres humanos são piores que os aliens, argumentos de que o ser humano está destruindo a Terra, etc, etc.

Infelizmente o defeito do livro permanece o mesmo. É que ainda neste livro percebemos a dificuldade do autor de fazer boas descrições no fim do livro. Acaba ficando latente demais. Tudo vira uma confusão, nunca dá pra entender direito o que está acontecendo, parece que o autor se perde nos labirintos que ele mesmo cria. 

Não obstante, o livro se paga. É bom de ler, meio cansativo em alguns momentos, mas ainda assim ficamos satisfeitos quando vemos a história se desenrolar. Gosto de livros que dão vontade de ler. Certeza que ainda vou ler esse autor no futuro. Até lá.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Pergunta honesta: tem alguém aqui mesmo?


Esse será um post bem diferente.

Tenho esse blog há 7 anos e nunca me propus a nada demais com ele. Surgiu simplesmente porque eu queria ter um lugar centralizado onde guardaria todos os meus textos publicados (já faz um tempo que esqueci de fazer isso), mas que acabou se tornando um diário de leitura pra todos os efeitos.

Aqui eu simplesmente anoto o que achei dos livros que li. Não é uma leitura profissional, não é uma leitura especializada. É tão somente uma leitura honesta. Escrevo para mim, pro Gabriel do futuro vir aqui e lembrar "Ah, foi isso mesmo! Foi isso que achei desse livro". Se posto o link das publicações no Facebook e nos status do WhatsApp, é só porque se tornou padrão compartilhar as coisas que escrevo.

Tendo dito isso, desconfio que o Google está me enganando, e por isso fiz esse post. É que, por curiosidade, depois de muito tempo sem fazer isso, resolvi clicar na aba "Estatísticas" do blog. E os números que apareceram simplesmente não fazem o menor sentido pra mim. Veja você mesmo (favor clicar na imagem, coloquei o maior que pude):


Esse é o registro da quantidade de visitas que o blog teve. 
0 seguidores: faz todo o sentido pra mim.
306 postagens: ok, eu escrevo um bocado de coisa. Em média uns 40 posts por ano.
43 comentários: ok, volta e meia aparece alguém. 
Agora... 47k visitas nesse tempo todo?? 533 esse mês? 2017 (Duas mil e dezessete) no último mês?! 

Não, calma lá. Aí não pode ser. A única explicação é que o Google tá me enganando. Mas o lance é que os outros gráficos parecem concordar com essa estatística. Olha esse, por exemplo:


Tá certo que visitas ao blog não são o mesmo que abrir um post, muito menos o mesmo que ler um post. Eu entendo isso. Mas, ainda assim... como é que mais de DUAS MIL pessoas passaram por aqui no último mês? É o tipo de coisa que não faz sentido pra mim. Esse blog não é nada, eu não sou ninguém. Mês passado eu só fiz dois posts, e ambos de livros que nem são conhecidos! Essa estatística só pode estar errada. 

Bom, fiquei claramente encucado com isso e resolvi fazer esse post pra tentar averiguar o que está acontecendo. Pensei em pedir pras pessoas comentarem, mas a verdade é que é meio chato de comentar no Blogger. Pensei em pedir para me mandarem mensagem no privado, mas isso também é muito trabalho na sociedade moderna e apressada de hoje. Então resolvi fazer o seguinte:

Por favor, clique no botão que está no fim desse post. Não é nada mais que um contador, é só pra eu ter uma noção real do que está acontecendo. E, sim, entendo que isso não será um teste real, porque talvez alguém tenha chegado no meu blog pra ver outro post, não esse que eu coloquei aqui. Mas isso foi a melhor solução que encontrei. Eu só fiquei curioso, é isso.

A pergunta é, de fato, bem honesta: tem alguém aqui mesmo?