segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Resenha — Siracvsa

SÁ, Guilherme de. Siracvsa. Amazon KDP, 2022. E-book.


Peguei o livro pra ler porque acreditei estar ajudando um autor pequeno na Amazon. Não fazia ideia de que o cara era vocalista da finada banda Rosa de Sarom. Se soubesse, talvez tivesse pensado duas vezes. De qualquer forma, pelo menos posso dizer que fiz uma leitura honesta. Vamos a ela.
Suas mãos de ferro lhe trouxeram o poder. E o poder era algo que o comprazia demasiado. Então, o poder se tornou um vício. (p. 77)
Bom, trata-se da história de Santo Salafia, um mafioso italiano na década de 70, na cidade de Siracusa. Ele traiu seu padrinho da máfia e agora vai ter que tentar salvar a filha das garras dos mafiosos.

O livro tem alguns pontos positivos. O fato dos capítulos serem curtos é interessante pra leitura, deixa ela mais fluida. E acho que o autor mostra bem a lógica da fé católica, de pagar pelos pecados, e de personagens que são próprios dessa tradição de fé. Infelizmente acho que é isso.

A primeira coisa que é problemática no livro é o uso do sobrenatural. Há milagres, demônios, transições estranhas entre realidade física e espiritual. Entendi que o autor quis usar isso como pitadas pra aumentar o tempero do livro, mas não deu certo não.

Os trechos sobrenaturais, de modo geral, não contribuíram bem para o livro. Eles não somam ao gênero do livro nem propõem algo que justifique gastar tanto tempo em suas descrições. Eles poderiam até acontecer, mas de modo mais pontual. Do jeito que está escrito, parece que o autor quis só aparecer. 

Como não sabe bem o que fazer, o autor se perde. Por exemplo, do nada aparece um anjo da guarda aleatório. Absolutamente do nada, sem preparo, sem informação, simplesmente porque sim. E aí a gente percebe que o autor tentou misturar Constantine com O Poderoso Chefão, mas não se preparou corretamente pra isso. É muito solto, não se constrói o suficiente, parece que ele tentou inventar moda do nada. Na tentativa de acertar os dois, conseguiu errar ambos.

Um outro problema é que o autor não é bom com o ritmo do texto. Ele imprime urgência e logo em seguida se perde em longas descrições que não colaboram em nada pra trama. Um outro exemplo disso é que na marca de 70% o autor inseriu outro personagem bem importante. Não é que isso não possa ser feito, mas deveria ter premeditado melhor a chegada dele, ou, no mínimo, inserido pitadas sobre o que isso contribui para o gênero do livro. 

Começamos com aventura (mafioso tentando resgatar a filha), passamos para ficção fantástica (mafioso sendo salvo do inferno), do nada, vamos para a política (cardeias e alta cúpula da Igreja com picuinhas), e finalizamos com aventura misturada com ficção fantástica. Não tem coesão e o leitor está sempre tendo que se virar nos trinta pra acompanhar.

Pra completar com a cereja do bolo, os personagens são superficiais, via de regra, puramente movidos pela trama, sem que tenhamos qualquer motivo real para torcer por eles, já que não os conhecemos nem temos clareza da razão dos seus atos. O vilão nem aparece, o autor dá mais profundidade pra personagens secundários do que pro próprio protagonista. (aliteração braba aqui, hein).

Enfim, graças a Deus o livro foi de graça. E acho que o que mais me deixa triste é ver o tanto de avaliações: 771, com uma nota final de 4,6 estrelas. Infelizmente não faz o menor sentido. Na verdade, se parar pra pensar, o livro que o Leo Dias escreveu sobre a Anitta tem umas 800 avaliações na Amazon, e nota também superior a 4 estrelas. Esqueci que boa parte de publicar é ser conhecido, não necessariamente a qualidade da escrita. 

É a vida. 

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