quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Resenha — O diário de Anne Frank

FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. Editora Viseu, 2021. Ebook.


Ok, eu não esperava que esse livro fosse me atingir tanto. Comprei por míseros 50 centavos na Amazon e li como uma leitura despretensiosa. Já tinha ouvido falar bastante do livro, naturalmente, e também sabia que se tratava de uma história sobre o Holocausto.
Fiquei pensando, enquanto mordiscava o cabo da caneta-tinteiro, que qualquer um pode rabiscar algumas tolices, com letra bem grande e espaçada, mas a dificuldade era provar, acima de tudo, a necessidade que se tem de falar. (p. 19)
O diário de Anne Frank nada mais é do que — adivinha — o diário de uma moça de 14 anos chamada Anne Frank. Ela nasceu alemã, mas teve que se refugiar na Holanda, onde permaneceu escondida por dois anos com sua família e outras pessoas antes de ser capturada pelos nazistas.

Nas páginas do diário nós vemos o cotidiano daquelas pessoas, com foco especial para o relacionamento entre as famílias e personagens. Tudo se degrada, casais brigam o tempo todo, gênios fortes batem de frente com gênios fortes. É que ninguém gosta de ficar aprisionado, nem que seja para sobreviver. 

Anne é uma menina meio chata, sinto dizer. Ela é implicante e, como uma boa adolescente, tem dificuldade em ligar o filtro. Fala demais e implica bastante, sempre muito cheia de opiniões e sempre achando que está certa e por cima da carne seca. Confesso que por boa parte do livro, achei chato ouvir o que ela tinha a dizer. 

A verdade, é que Anne é muito intensa — tanto para o mal, quanto para o bem. É inegável que ela, em muitos momentos, ajuda a manter os ânimos em alta no esconderijo. Também é possível vê-la sendo grata e reconhecendo as pessoas que os ajudam. Vejam esses trechos:
Alguns mostram seu heroísmo lutando contra os alemães; nossos benfeitores revelam o seu dando-nos alegria e carinho (p. 203).
Nesse trecho, Anne conversa com Peter, um rapaz de 17 anos que se tornou sua paixonite enquanto os dois estavam escondidos. Peter fala primeiro:
— Você sempre me ajuda — disse ele.
— Como? — perguntei surpresa. 
— Com sua alegria. (p. 249)
É preciso sempre ter em mente que o livro não é uma obra de literatura na sua origem, mas simplesmente um diário de uma menina, que encontrou na escrita uma forma de sobreviver, de lidar, de expressar aquilo que ela não podia expressar em mais nenhum lugar. Nesses termos, creio que é muito possível dizer que Anne teria sido uma excelente escritora.

Como falei, embora o livro não tenha necessariamente fortes traços que caracterizariam uma boa literatura, já se notam as centelhas de alguém com potencial para uma escrita potente. Por exemplo, Anne é muito honesta em falar o que precisa ser dito. Enquanto isso é um traço da sua personalidade, também é característica essencial de bons escritores, que são honestos consigo mesmos:
Não tenho ciúmes de Margot. Nunca tive. Não invejo seus bons modos, sua beleza. É que eu preciso, e muito, do amor verdadeiro de papai. Não só por ser filha dele, mas por mim mesma, por mim, Anne. (p. 62).
Ah, como eu não esperava o final. Foi horrível. Uma vida inteira, um potencial enorme, um fim tão abrupto. As páginas param de repente, já não tem mais nada. E aí a gente fica sabendo que o único sobrevivente de toda a família foi Otto Frank, o pai dela. Horrível considerar e ver a falta de limites da maldade humana. 

Por outro lado, incrível ver a resiliência, talvez também tão característica à condição humana quanto a maldade. Enfim, esse livro me inspirou mais do que eu imaginava. E fiquei bem feliz em ver que o pai honrou a memória da filha e hoje uma fundação carrega esse privilégio.

No fim das contas, não é tanto pelo conteúdo do diário — que, bem admito, tem vários trechos muito bons; mas sim pelas circunstâncias nas quais ele foi escrito. Um retrato vivo da realidade daqueles dias sombrios e da luz no fim do túnel para quem passou por eles. 
Não se preocupe, arranjaremos tudo. Aproveite bem sua vida despreocupada enquanto puder. (p. 19)

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