terça-feira, 29 de outubro de 2024

Resenha — Blanco nocturno

PIGLIA, Ricardo. Blanco nocturno. Caracas: Monte Ávila Editora, 2011.


Comprei este livro há mais de 10 anos, na finada livraria de Santa Elena de Uairén, na Venezuela. Na época, custou-me 10 mil Bolívares (o que, na época, era o equivalente a 1 Real). Li o livro, mas não lembrava mais de quase nada e nem de ter entendido direito (na época meu espanhol não era muito bom). Por isso decidi revisitar a obra. Vamos à resenha.

O livro conta a história de um assassinato que ocorreu numa pequena cidade dos pampas Argentinos. Ali o portoriquenho americano Tony Durán morre, em meio a uma disputa familiar, dólares não declarados, e uma fábrica nos arredores da cidade. Acompanhamos a narrativa primeiro por meio do detetive Croce, e depois pelos olhos do jornalista Renzi, ambos acompanhados pelas gêmeas Belladona e o fiscal Cueto.
La perdición y el mal alegran la vida, pero lentamente llegan los conflictos. (p. 25)
A princípio o ritmo da narrativa me causou certo impacto. É como se fosse uma narrativa policial, mas sem pressa, sem ação, mas ainda com aquela pulga atrás da orelha, tentando descobrir como o crime aconteceu. Porém o autor dá um tiro no pé ao decidir trocar o personagem principal por outro no meio da trama, dando uma quebra terrível pro leitor.

Aliás, o livro todo tem essa morosidade. A impressão que tenho é que o autor não queria de fato escrever uma crônica policial. Ele queria fazer um ensaio sobre os pampas argentinos, sobre as paisagens, a população, a vida do campo e os dramas familiares dos grandes latifundiários. Porém, como isso não vende, ele colocou uma roupagem de trama policial pra enganar os bestas.

Esse é o grande problema do livro, ele quer ser filosófico, profundo, revelador da realidade argentina, mas sem dar o mesmo peso para a trama, justamente para o que leva o leitor a ler o livro. Isso me levou a achar o autor pretensioso, querendo ser o inteligentão, cheio de referências a outros autores e a clássicos. Soa mais como ensaio de um jornalista do que como um livro de ficção.
[...] vendió sus acciones a los inversionistas y nosotros perdimos el controle de la empresa. Lo hizo de buena fe, que es como se justifican todos los delitos. (p. 232)
No fim das contas, é preciso reconhecer que o autor tem certa qualidade na sua escrita. Mas as frases confusas, os personagens sem relevância nenhuma para a trama e, pior, o final sem resolução do crime só "porque sim" são de matar. Não é uma obra que pretendo reler, não creio que vale a pena.

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Resenha — Dinheiro

ARANTES, Márcia. Dinheiro. Edição Kindle, 2024.


Estava decidido a não ler esse livro, porque já tinha lido outras coisas da Márcia e nunca fez muito o meu estilo. Comprei para apoiar uma colega escritora. Mas aí terminei um livro, tinha nada pra fazer, abri o app do Kindle e dei uma colher de chá. Li como quem não espera nada. E me peguei lendo, lendo, lendo. Colher de chá virou colher de sopa, de repente era colher de servir. Vamos à resenha.

O livro conta a história de vários personagens que se encontram por acaso na cidade de Affonso Camargo, no interior do Paraná. Ali o corretor de imóveis Marcelo, o coach Lamartine, e os próprios habitantes da cidade terão que enfrentar uns aos outros e seus desejos ocultos por poder, dinheiro e vingança.
"Rico e pobre. Bom e mau. Puta e santa. Aqui, a gente não é nada." (posição 873)
De modo geral, a narrativa é fluida, a escrita da autora é simples e mordaz ao mesmo tempo, dura até. A narrativa é "multi plot", ou seja, tem vários personagens principais e acompanhamos a história pelos olhos deles de modo alternado. Também achei a introdução de personagens bem natural. 

As transições são bem feitas, a gente pula de um pro outro sem sentir tanto o peso desse salto. A autora deixa a gente constantemente curioso, ela sabe terminar as seções de modo que não fica aquele clichê do "oh, o que será que vai acontecer?", mas, ao mesmo tempo, a gente fica sim querendo saber o que vai acontecer.

Aliás, a narrativa tem o toque da autora. É inquietante, sempre parece que tem algo de errado no ar. O texto é exageradamente autêntico, soa único, soa como a autora (mesmo que eu não a conheça direito). Acho que foi isso que me fisgou tanto e me prendeu no livro, ver que era alguém real, humano, contando uma história. 

Isso fica nítido quando vemos as descrições, por exemplo, que me parecem desnecessárias, e até acho que muitas são supérfluas, mas não sei explicar por que elas me fascinam tanto. Me pego não só lendo, mas saboreando mesmo várias delas, me deixando levar e entrar na história.
Ele quis abrir, e como quis, para encarar os olhos amarelos do maior e mais perigoso arquétipo de poder, a águia que tanto pode levar uma nação ao status de maior do mundo quanto derrubar um homem fraco para baixo do poço mais fundo. (posição 1484)
Alguns erros de digitação passaram batido, mas é normal — e não me refiro aos erros propositais mencionados em trocas de mensagens de texto pelo celular (isso, na verdade, eu achei muito bom). Além disso, a meu ver, as notas de rodapé não acrescentam em nada. Algumas vezes até tiram a graça porque em vez de deixar o leitor deduzir sozinho, vai lá e expõe de mão beijada. Nenhuma das notas de rodapé explicou algo que já não pudesse ser inferido pelo texto — e até quando não dá pra inferir, a contribuição não é necessária porque o leitor não precisava saber daquilo pra entender o que está acontecendo na cena.

O livro é divido em três partes. Devorei a primeira parte, achei muito bem escrito e maravilhoso... até que cheguei na segunda e terceira partes. Aí começaram os problemas.

Primeiro, achei um tiro no pé trazer personagem novo logo no começo da segunda parte. É desgastante ter que se familiarizar de novo com alguém, isso foi um banho de água fria no ritmo do livro, que em vez de se intensificar, desacelerou demais, pra depois turbinar demais na terceira parte. 

A partir da segunda parte, há uma série de eventos forçados, que não têm construção natural ou qualquer indicativo, fica parecendo que foi só por fazer. Aí coisas que eram pra ter vindo pro leitor como um choque, soam como forçada de barra do roteiro. 

Achei grave também as súbitas mudanças psicológicas pelas quais as personagens passam. Do nada metade das pessoas vê o homicídio ou a conspiração como solução razoável para seus problemas. E pior que nem faz tanto sentido, tudo pode ser resolvido de outras formas, embora o roteiro tente mostrar que só tem uma. 

Os personagens que foram tão bem construídos e cativantes na primeira parte, com todas as suas contradições e absurdos, vão gradualmente tornando-se mais e mais caricaturas de si. A coisa se torna tão absurda que o vilão da história no final se torna vítima e a gente quase fica torcendo pra que ele consiga se safar.

Não tenho como negar que na terceira parte a autora soube trazer uma narrativa acelerada, até bem construída. O problema é que isso só intensificou os problemas que já estavam acontecendo na segunda parte, tornando os personagens ainda mais caricatos e os eventos ainda mais forçados. De repente todo mundo tem corda, faca, sabe amordaçar e amarrar o outro, com força e instinto pra matar. Impressionante.

Entendo a escolha da autora com os eventos da terceira parte; mas, pra mim, só teria justificativa se acontecesse no começo do livro e guiasse a trama. Não ajuda a resolver a história, só insere mais confusão. Além disso, quebra um pouco o contrato com o leitor, que do nada se vê imerso num outro tipo de gênero que o livro não se propôs nadinha até então. É interessante sim a mistura de distopia com apocalipse zumbi, até curti... mas não teve nada no decorrer do livro que apontasse pra isso.

Tanto é que as reflexões temáticas da terceira parte são até muito boas, mas desconexas do cerne da história, que saiu da ganância para a vingança, e depois largou toda a construção narrativa que fez e ficou só com um fiozinho da meada pra chegar no final. A terceira parte finge que o livro inteiro foi sobre dinheiro, quando a maior parte das motivações e tramoias foi baseada em vingança. E aí o tema é jogado pelos ares e o livro termina do jeito que dá.
A multidão voa para o dinheiro como águias atrás de sua carninha. (posição 2581)
Qual é a minha conclusão então. Creio que autora fez um excelente trabaho na construção simbólica do livro. As constantes analogias óbvias e implícitas sobre a águia e a galinha, coragem e covardia, dinheiro e poder, até mesmo o detalhe gráfico de usar a imagem de uma galinha nas transições de cena. Faz muito tempo que não vejo algo tão bem trabalhado assim, é nítido como a escritora ganhou maturidade com sua própria forma de escrever. É de ler e ficar com inveja de uma escrita tão poderosa. 

É justamente por causa disso que os problemas que apontei me doeram tanto, achei uma grande, grande pena (ba-dum-tss). Se tivesse mantido a mão sobre o roteiro e os personagens que teve na primeira parte, esse livro teria sido uma obra-prima, e olha que falo isso de um gênero que eu nem curto direito. Se considerar essas questões, creio que a autora se tornaria referência no seu gênero literário.

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Resenha — Crime e castigo

DOISTOIEVSKI, Fiódor. Crime e castigo. São Paulo: Abril, 2010. (Clássicos Abril Coleções, v. 1 e 2). 


Voltei. Dois meses de desânimo e leitura errante. Mas aqui estou e finalizei a leitura desse clássico de Dostoiévski. Estranho, deve ter sido o primeiro livro que li dele na adolescência. Mais estranho ainda foi ele ter me fascinado à época, coisa que não conseguiu fazer de novo agora. Vamos à resenha.

Primeiro deixa eu falar dessa edição da Abril. Não é o único livro que tenho dessa coleção, mas todos eles têm um ponto em comum pra mim: odeio essa capa áspera. Entendo a ideia dos editores, mas pra mim realmente não colou. O texto é até disposto de maneira agradável, o papel é a bom e a fonte é adequada (ainda mais considerando que dividiram a obra em dois volumes), mas o toque da capa é bem incômodo.

Como o autor dispensa introduções e não nego que sou muito fã dele (já inclusive fiz resenha de outras obras dele como Uma criatura dócil, Noites brancas, Gente pobre, O ladrão honesto e outros contos, O idiota, Notas do subsolo e Os irmãos Karamazovi), vale a pena a gente ir direto pro texto e eu explicar porque essa é a obra dele que menos gostei, embora os críticos a considerem sua obra-prima.

Em Crime e castigo acompanhamos a história do estudante Raskólnikov, que abandonou a universidade por causa da sua situação financeira e de saúde. Vivendo num estado deplorável, ele achou uma solução para mudar sua vida: cometer um crime. O que ele não esperava, porém, era o peso que esse crime traria sobre seu espírito e como isso destruiria-o ainda mais.
Mais tarde compreendi, Sônia, que esperarmos que todos se tornem inteligentes é arriscar-nos a perder muito tempo. Pude, depois, convencer-me de que tal momento jamais chegaria, de que os homens não podeiam mudar, não estando no poder de ninguém modificá-los. Seria inútil perda de tempo tentá-lo. Sim, tudo isso é verdade... É a lei humana... (p. 186)
A princípio, fiquei dividido com o ritmo do texto. Por um lado, noto que Dostoievski não se incomoda com frases longas. Talvez ele fosse um dos últimos espécimes de uma época em que frases curtas não eram necessárias para que livros fossem considerados bons e acessíveis ao público. 

A minha primeira impressão foi de que, uma vez que nos acostumamos com o ritmo de Crimo e castigo, a leitura fica bem mais agradável. A princípio achei-a lenta demais, porém creio que seja apenas reflexo de nossos tempos. Como disse, uma vez acostumado ao ritmo do autor, a história fica (à sua própria maneira) eletrizante.

Porém essa impressão não durou. Não só as frases longas e sem impacto direto na narrativa se tornaram mais comuns, como também o próprio enredo pareceu se perder. 

Na verdade, em alguns momentos me parece que Dostoievski esquece o fio condutor da história e traz várias cenas que me soam mais como "casos de família" do que narrativas que contribuem para o ponto central da história. Aliás, me parece que vários momentos intensos da história sequer se dão com o personagem principal. Certamente os verdadeiros críticos literários terão explicações para isso, mas eu, mero leitor, não fiquei convencido.

Quanto ao tema, bem, não é outro senão o tema central da obra de Dostoiévski: a condição humana. Na verdade, salvo engano Dostoievski era católico, mas me pergunto se ele não leu uma dose cavalar de Nietzsche antes de escrever Crime e castigo, porque em alguns momentos me parece que ele não só retrata a dureza da vida, mas a leva a extremos para reforçar seu ponto (refiro-me à história contada por Marmeládov no começo e todo o desenlace com sua família no decorrer do livro).

Enfim, não dá pra negar que esta é uma obra profunda, que Doistoiévski conseguiu retratar a alma, o espírito abalado de Raskólnikov de uma maneira sensacional. Tendo dito isso, porém, a leitura foi muito chata pra mim. Precisei fazer esforço em vários momentos. O final até anima, os últimos capítulos retomam a narrativa de um jeito interessante; mas pra mim não compensa o livro inteiro. Talvez fosse o caso do editor ter sugerido cortar algumas partes (eita que agora os críticos me crucificam).

Por enquanto, pretendo doar meu exemplar. Triste dizer isso, mas não creio que terei interesse em reler essa obra tão cedo e, quando/se tiver, vou comprar uma edição melhorzinha. Ainda gosto muito de Dostoiévski e ainda planejo ler sua obra completa. Por hora, porém, Crime e castigo não foi a melhor das leituras.

terça-feira, 30 de julho de 2024

Resenha — The Green Mile / (À espera de um milagre)

KING, Stephen. The Green Mile. New York: Pocket Books, 1999.


Vamos começar essa resenha logo falando a verdade: Stephen King é um safado. Não tem outro jeito de expressar. O cara faz a gente ficar tão envolvido com a história que já não temos escolha senão ler até o fim. Já não é uma questão de vontade, mas de necessidade

The Green Mile, conhecido no Brasil como "À espera de um milagre" é o livro que deu origem ao famoso filme de mesmo nome. Nem sabia que tinha livro, confesso. Foi só quando vi a capa que me interessei. Também nunca tinha assistido ao filme por inteiro, então deu pra curtir o livo tranquilo.

Aqui acompanhamos a história do policial penal (ou carceireiro) Paul Edgecombe, chefe do Bloco E da Penintenciária de Cold Mountain, e responsável pela execução de prisioneiros na cadeira elétrica. Aqui ele tem que lidar com prisioneiros, colega de trabalho incompetente que só está lá por contatos políticos, e ainda com suas próprias lutas pessoais.

É nesse context que ele conhece John Coffey, um homem negro condenado à cadeira elétrica por um crime terrível. Mas quanto mais tempo ele passa com Coffey e quanto mais coisas acontecem, mais ele questiona a si mesmo, no que acredita e defende. 

Confesso que o ritmo do livro me desanimou no começo. Não é que a história se passe num andamento lento, mas é que toda hora King narra dizendo "Olha e você nem imagina o que aconteceu depois" ou então "Eu achava que aquilo era o pior, mas depois foi pior ainda". E fica toda hora nisso de empurrando o leitor pra frente, sem de fato dar alguma boa sustância no meio tempo. 

E aqui eu posso dizer que King é um safado mesmo. Ele enrola, enrola, enrola, até chegar na página 400 pra revelar tudo e aí PAM! Somos fisgados de um jeito terrível. Não queremos continuar, mas já não temos escolha. Me peguei lívido de horror com uma cena e ainda mais horrorizado em perceber que não conseguia parar de ler. 
A man's mouth gets him in more trouble than his peckers ever could, most of the time (p. 23-24)
Enfim, não me surpreende que este livo tenha sido tão bem aclamado pela crítica, muito menos que tenha se transformado em filme. É realmente muito bom. No fim da história, o pilantra faz com que a gente sinta que "valeu a pena" ter esperado e passado por tudo. Eu gosto muito disso em King: ele resolve as coisas, não deixa pontas soltas de mais. Dá uma satisfação em terminar qualquer obra dele.

No fim das contas, não sei dizer se esse livro fica na minha estante ou não. O começo é muito lento e o final talvez seja intenso demais pra mim. Estranho pensar que um autor de livros de terror se deu muito bem aqui com um livro de drama. E ainda me fez chorar. O safado.  

segunda-feira, 8 de julho de 2024

Resenha — Ultima: The Technocrat War I — Machinations

ANDREWS, Austen. Ultima: The Technocrat War, Book I of III, Machinations. New York: Pocket Books, 2001.


Comprei o livro deveras desconfiado, porque não é sempre que gosto de me aventurar em séries e tenho muito pé atrás com livros que já de cara se propõe a ser uma trilogia. Febres de trilogia, especialmente entre autores desconhecidos, é uma desgraça. Ainda bem que, pelo menos nesse caso, eu estava errado.

No primeiro livro desta série, somos apresentados a um mundo clássico da fantasia. Temos cavaleiros, uma raça humanóide com traços bárbaros, homens-felinos, e humanos. Temos reinos em guerra ou em tentativas de diplomacia; tramas políticas, espiões, artefatos, vilões, mocinhos que não sabemos se são vilões ou não, e, como não podia faltar, magia.

Acompanhamos a história do cavaleiro Sir Gabriel Montenegro, e sua jornada em busca da Virtude e do reestabelecimento do seu título de comandante. Paralelo e concorrente a isso, temos a guerra entre reinos, espiões enviados em missões secretas para sabotar uma tentativa de diplomacia, e personagens que têm segundas intenções com suas atitudes e palavras.

O autor segue a cartilha dos livros de fantasia, com ricas descrições de cenários e personagens. Pra mim até rica demais em alguns momentos, beirando o clichê; mas entendo que isso é parte das regras do jogo da fantasia e provavelmente algo que o público alvo espera de uma obra desse gênero

O enredo do livro foi uma boa surpresa. É uma história sólida, que carrega a gente até o fim, com boas reviravoltas. As cenas são interessantes e bem trabalhadas, mas em algumas ocasiões me pareceu que as arestas delas ficaram muito rudes, poderia ter polido mais algumas transições.

Na verdade, pra mim esse foi o único ponto negativo do livro. É que deveras em mais de uma ocasião as cenas transitam entre fatos de maneira tão desconexa que fica evidente que é forçada do enredo pra fazer a história progredir numa determinada direção. Me parece que o autor queria forçar a conexão entre dois pontos e não se deu ao trabalho de construir uma boa ligação entre eles.

Ao mesmo tempo em que admiro a capacidade do autor em tecer uma teia com várias tramas ao mesmo tempo, me pergunto se ele não exagerou em alguns momentos. Tenho a impressão de que quando estamos investidos em uma linha narrativa, ele coloca outra no caminho e isso mais atrapalha do que ajuda. Todavia, novamente, isso é bem clássico do gênero, então pode ser que a maior parte do público-alvo não se incomode com isso.
"'I ask for nothing,' said Montenegro. 'Rather the Virtues ask something of me. Let us serve Valor and Sacrifice. They are the footsteps of a warrior.'"
O livro é honesto com a gente. O autor diz desde o começo que é parte de uma trilogia, mas não corta a história bem no meio de uma grande revelação. Na verdade, ele prepara bem o terreno pra nos incentivar a continuar a leitura. Senti que houve mesmo honestidade intelectual com o leitor.

Eu teria algo a falar sobre o sistema de magia do livro, mas talvez isso seja algo a ser dito em outra resenha, quando tiver conhecido mais sobre a obra. Por enquanto, talvez basta dizer que estamos diante de um sistema de magia soft e que tenho a impressão de que a magia vai fazer ainda mais diferença nos próximos capítulos da trama.

Acho que só vou conseguir comprar os próximos exemplares em Janeiro/2025. Não obstante, não vou esquecer dessa série. Acho que tive a boa sorte de encontrar algo bom pra ler. 

sábado, 22 de junho de 2024

Resenha — Hidden child of the Holocaust

CRETZMEYER, Stacy. Hidden child of the Holocaust. New York: Scholastic, 2004.


Outro livro que comprei por apenas 1 dólar. Meu Deus, um único dólar que me trouxe tanta tanta coisa... A gente não tem escolha senão aprender a colocar coisas em perspectivas depois que lê livros como esses. Vamos ao livro.

A obra traz a história real de judia Ruth Kapp, quando esta tinha apenas entre 5 e 6 anos, vivendo na França ocupada pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra. A narrativa é em primeira pessoa e Stacy Cretzmeyer fez um trabalho sensacional em narrar os acontecimentos do ponto de vista de uma criança. Meu Deus, ela era só uma criança.

Acompanhamos Ruth, agora chamada Renée, fugindo com seus pais para o sul da França, onde foram auxiliados por membros da "Resistance", um grupo formado por não-judeus que arriscaram suas vidas para ajudar este grupo que foi injustamente perseguido. 

Segundo a própria Ruth Kapp, este foi o grande motivo que a incentivou a reviver memórias tão horríveis e registrá-las: para que o mundo conhecesse a história desses heróis anônimos aos quais ela deve sua vida

De todos os acontecimentos que o livro traz, acho que o que mais me impactou foi a própria atmosfera de distopia que a Segunda Guerra traz. Não poder sair na rua, ter medo de falar alguma palavra errada, não saber se seu vizinho ou mesmo familiar é amigo ou inimigo, ter que subornar pessoas para conseguir se manter vivo, sobreviver a torturas, passar por mortes horríveis só por ser judeu...

É inacreditável que na história da humanidade uma perseguição tão cega e cruel tenha acontecido, é quase como se não fosse possível, como se não fizesse sentido... e ainda assim aconteceu. 

Esta é uma resenha bem curta porque não tem como eu passar aqui o que o livro traz, simplesmente não tem. É preciso lê-lo. Minha maior tristeza no momento foi descobrir que este livro não foi traduzido para português e muita gente no Brasil talvez nunca chegue a ter conhecimento da vida de Ruth Kapp, uma das muitas crianças escondidas do Holocausto.

sábado, 15 de junho de 2024

Resenha — Incidente em Antares

VERÍSSIMO, Érico. Incidente em Antares. São Paulo: Globo, 1997.


É chocante como um livro permanece o mesmo, mas a gente muda tanto. Devo ter lido Incidente em Antares a primeira vez na adolescência e lembro de ter gostado. Hoje, na vida adulta, ainda gosto muito do livro, mas de uma maneira muito mais profunda.
Há conversa fiada em torno de tudo. Até (e principalmente) de Deus. (p. 144)
Em termos de qualidade literária, neste livro temos Veríssimo mais mordaz que nunca, as ironias não param. Ainda que O tempo e o vento seja considerado o magnus opum de Veríssimo, talvez seja em Incidente em Antares que o autor esteja no ápice da sua capacidade descritiva-narrativa. Consegue construir capítulos inteiros sem nenhum diálogo e ainda assim não temos escolha senão ficar com os olhos grudados porque é simplesmente interessante demais.

Haveria vários, vários momentos no livro que eu poderia transcrever aqui pra mostrar a capacidade descritiva de Érico Veríssimo, mas opto por só duas palavras. Em determinado momento, Veríssimo descreve que o personagem tem uma "voz atenorada". Que maneira elegante de dizer que alguém tem voz de tenor e, por consequência, que o timbre de sua voz é mais agudo. Tá loco, Érico Veríssimo é um exagero de bom.

Em termos de estrutura, no lugar de longos capítulos com várias cenas, Érico Veríssimo opta por fazer vários capítulos de uma única cena. Fico em cima do muro quanto a essa decisão. Se por um lado torna o texto mais dinâmico, por outro o cara é tão bom em fazer cenas que posso facilmente fechar o livro depois de um capítulo sem que pareça que estou interrompendo o ritmo da leitura. Em outras palavras, a decisão do autor ajuda o ritmo e atrapalha o ritmo. Por outro lado, quantas vezes se consegue escrever um livro com exatos 100 capítulos?

Érico Veríssimo destrói todas as máximas da escrita criativa. Tchekhov ficaria decepcionado em ver um capítulo inteiro que não contribui diretamente para a trama, um capítulo que meramente mostra a cena de uma empregada doméstica. Deveras a cena seria totalmente descartável para a trama; mas, meu Deus, que bom que ela está ali. É genial. Os críticos literários que critiquem, eu amo o fato de está cena estar aqui. Traz uma humanidade ao livro que é difícil de explicar.

Além disso, achei muito interessante como depois que o "incidente" acontece, Érico muda o protagonista da história de tal forma que aquele que antes era o herói pelo qual nós acompanhamos o desenrolar dos fatos agora se torna o vilão, de repente o personagem que nos fazia dar pequenos sorrisos com suas aventuras agora se torna alguém que rapidamente identificamos como decaído.

Ainda no quesito estrutura, a primeira parte do livro poderia ser facilmente lida como um ensaio sobre o que é o Brasil. Se em "Um lugar ao sol" eu argumento que Érico Veríssimo descreveu com maestria o espírito da vida; aqui ele fez o mesmo com a alma do Brasil.
— O P Gerôncio me disse que a Matriz está precisando duns consertos e duma pinturinha.
— O Brasil também, Tibé, o Brasil também. (p. 57)
O grande tema do livro não é outro senão o Brasil e suas incongruências. Nesse livro Veríssimo descreve com força o que é a política partidária brasileira desde a sua origem: confusão e discursos pra inglês ver. Como sempre, brilhante descrição do que é o Brasil verdadeiro.

Além disso, ler a história do Brasil sob a narrativa de Érico Veríssimo talvez tenha sido o que me fez gostar tanto de ficção histórica. Li uns 5 capítulos seguidos em que tudo era só narrativa de Getúlio Vargas e seu fim. Pura história do Brasil e eu vidrado em tudo, incapaz de parar de ler.

Veríssimo escreveu o livro em 1971, quando o regime militar ainda estava em vigor (ainda que numa descrescente, deveras), e hoje, já mais maduro, percebo como foi um ato de coragem. O livro não tem pena nenhuma em comentar sua história recente, sobre 1964, sobre atos institucionais... Rapaz, o bicho foi corajoso mesmo.

Aliás, em Incidente em Antares Veríssimo põe pra fora tudo que estava na ponta da língua há anos. Depois que a torrente começa, ele não tem escolha senão deixar ela inundar tudo. O posicionamento do autor perante a realidade da sociedade em que vive é muito clara.
Não, não voltes mais, Tibé. O fim de um homem não é nenhum espetáculo bonito. (p. 106)
[...] se por um lado o homem jamais se habitua à ideia da própria morte, por outro aceita sempre, e com admirável facilidade, a morte alheia. (p. 341)
Como pode um ser humano ser capaz de explicar tão habilmente a vida do brasileiro, quem sabe até mesmo o tão eludido conceito de "brasilidade"? Ele não fala da brasilidade como perspectiva externa, mas a verdadeira brasilidade que está no âmago do que chamamos de Brasil; aquele segredo de família que todo mundo sabe mas ninguém fala e quando chega alguém de fora fazemos de tudo para que não vejam ou descubram.

Enfim, o livro é um admirável conjunto de sátira, ironia, drama, e (veja só) até humor. Em vários momentos gargalhei de rir. No futuro, esse livro ainda me trará novas reflexões. É fácil pra mim ver que ainda haverá um futuro que vou reler isso aqui e ver as coisas sob outra perspectiva, trazendo ainda mais sabor pra história. Sei disso, porque já está acontecendo agora. Mal posso esperar pela próxima vez.
— Você também por aqui?
— Pois é. Coisas da vida. Depois eu explico. Me ajude a abrir os outros quatro caixões. (p. 234)