segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Pé d'água

Era um verão daqueles bem escaldantes de Roraima. Na maloca, os jovens faziam troça dele:

– Bora! Não é o senhor que sabe a Dança da Chuva?
– Esses curumins não têm mais respeito pelos velhos!

Mas de tanto tirarem graça com ele, resolveu: se é dança que queriam, era o que iriam ter.

Posicionou-se no centro da maloca e começou a entoar os cânticos antigos. Os meninos achando graça, os adultos balançando a cabeça como quem diz: “Imagine se eu em pleno século XXI ainda vou acreditar nessas besteiras!”

Então aconteceu: caiu um toró. Mas não foi qualquer toró. É um daqueles que, se a gente está em casa, corre pra tirar as roupas do varal e torce pra não ter enchente; ou, se estamos no trabalho, coçamos a cabeça e tentamos decifrar como voltaremos pra casa.

– Pois tome!

O velho estava tão surpreso quanto os meninos. Décadas de dança da chuva nunca fizeram nenhuma diferença... mas agora não havia como negar a eficácia!

Choveu aquele dia todo. E no outro. E no outro.

– Sim, não dá pra fazer parar não? – os outros indígenas perguntavam.
– Não me amole – ele se limitava a dizer.

A verdade é que não tinha ideia de que a dança funcionaria e, agora que funcionou, tampouco tinha ideia de como reverter a situação. Ele não sabia nenhuma dança de não-chuva!

Os meses passaram e a maloca virou uma palafita. Trocaram a plantação de mandioca pela pescaria diária. Os jornais do mundo inteiro relatavam a chuva torrencial na Amazônia brasileira. Um noticiário internacional resumiu:

– Pense num toró!

A comunidade, que no começo exaltou os poderes do velho, agora já não aguentava mais.
– Faça alguma coisa!

[...]


Texto completo no e-book da 1ª Mostra Picuá de Cinema e Literatura, disponível aqui.

sábado, 20 de novembro de 2021

Resenha – A peste

CAMUS, Albert. A peste. São Paulo: Círculo do Livro, 1987 (?).

"Mas Rieux endireitou-se e disse, com uma voz firme, que aquilo era tolice e que não era vergonha preferir a felicidade.

— Sim — disse Rambert —, mas pode haver vergonha em ser feliz sozinho.

Tarrou, que nada dissera até então, observou sem voltar a cabeça, que, se Rambert queria compartilhar da desgraça dos homens, jamais teria tempo para ser feliz. Era preciso escolher.

— Não é isso — disse Rambert. — Pensei sempre que era estranho a esta cidade e que nada tinha a ver com vocês. Mas agora que vi o que vi, sei que sou daqui, quer queira, quer não. A história diz respeito a todos nós." (p. 145)
Fui descobrir que Albert Camus foi um ganhador do Nobel de literatura depois que já tinha terminado de ler e me surpreender com este livro. Novamente, mais um achado que ganhei por meio de uma doação. Rapaz, será que o antigo dono sabia a preciosidade que estava dando de graça?

O livro é o que o nome diz. Numa pequena cidade francesa na Argélia começam a surgir sintomas estranhos, primeiro em ratos e depois nas pessoas. Os sintomas ficam mais graves e se espalham de maneira vertiginosa. Quando menos se espera, já não havia mais o que fazer: a peste bubônica estava instaurada na cidade. A única solução: fechar todas as saídas e entrar em quarentena até que tudo passe. Meu Deus... onde foi que já vi isso?
"[...] Bastou que alguém pensasse em fazer a soma, e a soma era alarmante. Em apenas alguns dias, os casos mortais multiplicaram-se e tornou-se evidente, [...] que se tratava de uma verdadeira epidemia." (p. 29)
Nós acompanhamos a história pelos olhos do Dr. Rieux, um médico que de repente se vê como um dos personagens principais no meio do caos da pandemia de uma doença incurável. Por meio dele é que vemos não só os acontecimentos, mas impressões fantásticas que ele têm sobre as pessoas, seus comportamentos e sobre a própria condição humana. 

Tudo isso é feito de maneira extremamente sutil. Não há somente um, mas vários momentos em que Camus mostra por que foi realmente digno de um Nobel de literatura. Tem uma capacidade de falar de modo bem profundo, mas abordando temas simples e cotidianos. Quem lesse o livro buscando apenas o enredo, talvez até achasse chatas as passagens significativas como a abaixo; mas o bom leitor veria o escritor não apenas descrevendo uma cena, senão também derramando parte da sua alma no texto:
"Sem dúvida, nada há de mais natural, hoje em dia, do que ver as pessoas trabalharem de manhã à noite e optarem, em seguida, por perder nas cartas, no café e me tagarelices o tempo que lhes resta para viver." (p. 8)
Creio que a leitura deste livro em outros tempos talvez trouxesse menor significância para mim; mas, vivendo hoje no meio de uma pandemia (um nível acima da epidemia!), não consigo evitar o fascínio com a capacidade do autor. Ele definitivamente fez seu dever de casa. 

As pesquisas tornaram o cenário muito verossímil e explicou muito bem até às atitudes dos personagens. Ora, não é fácil descrever um período de tragédia quando não se vive ele. Mas, na descrição do autor, parece que está descrevendo o mundo atual. 

Só pra dar um exemplo claro: não é de hoje que politica e peste se relacionam. Há uma cena em que o prefeito teme admitir oficialmente que é a peste chegou na cidade. Isto ocorre porque haveria uma série de implicações sanitárias e restritivas previstas em lei que ele seria obrigado a seguir como prefeito. Medidas estas que seriam bem impopulares. Ora... onde foi que já vi isso?
"A peste, é preciso que se diga, tirara a todos o poder do amor e até mesmo da amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes." (p. 127)
Antes de ir direto para o fim do livro, gostaria de destacar dois pontos que me chamaram a atenção. A primeira foi a cena inenarrável, uma exímia demonstração de habilidade: a cena da morte da criança. Que cena, meus amigos. Sem melodrama, sem exageros, sem grandes arroubos e, ainda assim, cheia de drama, cheia do exagero e arroubo que só a morte consegue trazer. 

Uma outra característica interessante, é que o autor não acredita em heróis. Em mais de um momento ele afirma que não poderia destacar quem foi o herói da luta contra a peste. Foram os médicos? Foram aqueles que continuaram trabalhando nos serviços essenciais apesar do perigo? Foram os voluntários das diversas forças-tarefa que lutaram contra a peste em vários lugares? Como, como selecionar uma única pessoa, um herói, nesta multidão de heróis?

E, se há vários heróis, já não faz sentido o próprio uso da palavra "herói", daquele que se destaca acima dos outros, daquele que traz sobre si as dificuldades em nome do bem do outro. Achei deveras bem interessante essa reflexão de Camus, porque quando olho para a minha própria epidemia (pandêmica), não consigo descordar das reflexões do autor.
"Na verdade, era difícil decidir que se tratava de uma vitória. Era-se apenas obrigado a verificar que a doença partia como viera." (p. 186)
No fim do livro (desculpa o spoiler) a peste termina. Fiquei um pouco sentida emocionado porque, para mim ainda não passou. E percebo que talvez isto seja verdade para o próprio autor. Há um sentimento bittersweet muito latente. Se por um lado a peste termina para os que sobreviveram e se reencontram com seus queridos, ela permanece para os que sobreviveram e agora não têm mais os seus queridos.

Que final triste e ao mesmo tempo tão belo. Há algo na narrativo de Camus que mistura poesia com prosa. Pra ser bem honesto, até me lembra um 1pouco o que Shakespeare faz, misturando, além de tudo, uma boa dose de filosofia. Como pode esse povo escrever tão bem, a ponto de transmitir não somente o que está nas palavras, mas algo além delas?

Não preciso dizer que fiquei bem impressionado com essa leitura, talvez, justamente, porque fui pra ela sem expectativa nenhuma, era só um livro doado e um passatempo enquanto não decidia se leria algo mais sério ou não. Caiu no meu colo cheio de seriedade e o tempo passou que nem vi. Leitura mais que recomendada.

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P.S.: da série "coisas que a gente ganha com livros usados"


Será que ganhava algum bônus se colecionasse vários selos? 

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Cotidiano

Engraçado pensar como há 200 anos as pessoas achavam que 2221 seria “o Futuro”, né? Ah, porque a tecnologia vai revolucionar o mundo; ah, porque estamos numa nova era. Ah, porque isso e aquilo. Ai, ai. Eu só faço rir. Antigamente tudo era cheio de esperança. Não sei por quê.

Aqui estou eu no metrô empanturrado de gente. Brasília ainda é a mesma coisa, especialmente os governos. Entra gente, sai gente, e nada muda. É a história do Brasil desde sempre. Tem carros voadores? Não tem. Tem gente morando na Lua? Não tem. É sério que todo mundo achava que o Brasil ia alavancar assim do nada?

Do metrô consigo ver boa parte da cidade subterrânea e seus moradores. Todo dia preciso virar a cara, porque não tem quem aguente olhar para aquilo. Ah e não me venha com moralismos. Todo dia tem guerra na televisão e não vejo ninguém reclamando mais.

O vagão está lotado por causa do horário. Uma velha está sentada próximo à saída. Ela tirou um dos olhos pra ajustar alguma coisa. Eu hein. Onde é que esse mundo vai parar. Não se sabe mais quem é quem. E ninguém se satisfaz mais.

Saio do metrô e caminho pelos túneis intermináveis até chegar no meu elevador. Juro que um dia eu canso dessa mesmice. Olha lá, já estão trocando o letreiro de um dos Ministérios. Toda vez é isso. Governo novo, ministério novo, pessoas novas – e só isso, porque o resto é tudo igual.

Quando finalmente chego no trabalho, o festival de burocracia continua. Não tem mais papel, pelo menos isso. Agora a gente faz tudo pelos cytrons. Francisco me cumprimenta:

– Olá, Raul! – sorridente, ele caminha em direção a sua mesa.

Eu respondo apenas com um meneio da cabeça. Manhãs não são pra mim e não tem quem me faça tomar aquelas pílulas de humor. Mexem demais com nosso corpo sem a gente saber. Ah! E nem me fale sobre coisas que fazem com a gente sem sabermos. Eita, aí eu ficaria aqui pra sempre.

Engraçado isso. Às vezes eu tenho a impressão de que, na verdade, estive aqui desde sempre. Uma sensação estranha. Mas o ruim mesmo é o pensamento que vem depois: que eu vou ficar aqui pra sempre. Sento na mesa e tiro meu cytron do bolso. Conecto ele na tela à minha frente, que se ilumina e mostra as tarefas do dia. Eu suspiro e, resignado, começo a trabalhar.

O dia transcorre sem absolutamente nada interessante. Nada. Eu queria ter alguma coisa pra te contar, mas não tem. Talvez quem more lá na Cidade Alta, na “Nova Brasília” possa te contar as últimas fofocas; possa te contar como estava a bolsa de valores e o que eles ganharam; possa, quem sabe, até contar alguma coisa que te faça rir.

Na volta é o mesmo metrô, a mesma multidão, a mesma fuligem cobrindo a cidade, os mesmos canteiros com flores naturalizadas, outdoors com gente famosa e os moribundos pedindo esmolas. É tudo o mesmo que sempre foi.

De novo estou fora do metrô e caminho em direção ao meu apartamento. É meu único alento, porque no caminho dele está o último bosque do Centro-Oeste. Uma vez eu li que “bosque” era uma espécie de floresta pequena, não um conjunto de cinco árvores. Mas não sei se é verdade. 

Quando chego no meu prédio, lá está de novo um elevador. É o mesmo modelo que eu usei hoje de manhã. Tem vezes que quando estou dentro dele, não sei se estou indo pro trabalho ou pra casa. É tudo tão igual que eu me confundo.

Em poucos segundos estou em casa. Entro no apartamento, jogo o casaco e a pasta em cima do sofá, vou direto pro quarto. Aff. Chega disso, chega, chega. Preciso é descansar mesmo. Não sei como se vive assim. 

Tiro a roupa e deito na cama, hoje o dia foi daqueles. Que nem ontem, que nem amanhã. Puxo o cabo de trás do meu pescoço e ligo na tomada. Ah! Bem melhor. Digito no meu braço uns comandos e me deito tranquilo. Pronto. Por hoje é só e amanhã tem mais. Mais do mesmo que sempre foi.

Conto selecionado e publicado no Podcast "Literatura Já!", disponível aqui.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Resenha – Verissimo Antológico

VERISSIMO, Luis Fernando. Verissimo antológico: meio século de crônicas, ou coisa parecida. Rio de Janeiro: Objetiva, 2020.


Eu não ia, mas vou contar esse livro como lido sim. Ora, não tenho culpa se ele é uma bíblia e interminável. Afinal, são 50 (eu disse cinquenta) anos de crônicas e contos. Se eu, Gabriel Alencar, Escritor ao Acaso, produzi algo em torno de 600 microcontos ao longo de dois anos, que dirá um monstro como Luís Fernando Veríssimo.

A verdade é que fiquei tão contente de ganhar esse livro direto das mãos do autor (contei essa história aqui), que resolvi lê-lo de uma sentada só. Eis o grande erro. Este não é um livro para ser lido assim, eu diria até que não é um livro para ser lido, mas consultado. Resultado: fiquei mais de dois meses lendo ele, nem terminei e ainda perdi o pique da leitura.

A obra gigantesca de LFV é dividida no livro conforme as décadas em que ele as escreveu, começando em 1970 e indo até os 2010. Uma coisa que é bem fácil de notar é a crescente ironia do autor conforme o tempo passa. Na verdade, talvez cada vez mais um realismo duro e cruel disfarçado de humor (ora, mas não é isso o humor?).

Este é um tópico que merece destaque. Luís Fernando Veríssimo foi praticamente o autor que inseriu a categoria de humor como "literatura séria" no Brasil. Antes, este gênero era excomungado a anedotas de escritores fracos, sendo os capacitados mais voltados à "alta literatura". Conheci até um grande jornalista que uma vez disse: "O que diabos aconteceu com esse cara?", referindo-se, claro, ao contraste com a obra de seu pai, Érico Veríssimo.

Outro destaque é para as próprias crônicas do autor. Seriam elas mesmo crônicas? Mas que crônicas são essas que acontecem com personagens? Ah, então são contos. Mas... pera... essa aqui não parece ser um conto... Pois é. Luis Fernando Veríssimo tornou-se um mestre de escrever esses textos simples e envolventes que a gente não sabe nem classificar.

Que a família Veríssimo é parte da minha história, isto já contei aqui também. E por isso não posso deixar de gostar do livro e de recomendar a leitura, muito embora agora eu reconheça que a leitura deva acontecer com parcimônia. Programe-se para ler ao longo do ano, talvez; quiçá intercalando após uma leitura pesada. Garanto que haverá material.

Não tem como não se admirar com a obra do cara. Um dia, quem sabe, chego também a meio século de escritos – isto é, se algum deles prestar o suficiente pra sobreviver ao teste do tempo, né? 
Veremos.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

O espírito do lavrado

[...]

— O que foi que eu fiz?

Realmente foi loucura. Ele andou até se sentir atordoado. Encontrou outros cajueiros e saciou a fome com os frutos, foi de igarapé em igarapé, buriti em buriti. E o lavrado parecia infinito. E o horizonte não chegava nunca. Em certo ponto olhou pra trás e não viu nem sinal de seu carro, nem sabia onde o tinha deixado. E o desconhecido que nunca chegava. Ele começou a perceber isso. Já entardecia e o sol se punha, magnífico. Agora não parecia mais dar uma bênção, e sim decretar um ultimato. Sim, o imponente sol laranja deitava-se e dava o veredicto: Raimundo, você não conseguiu desvendar o lavrado. Você falhou. As pernas já estavam cansadas, aquele mato rasteiro incomodava, e ainda tinha os piuns. Argh! Sim. Esses são verdadeiros arautos do inferno. Carapanãs, mosquitos, pernilongo, piuns, o nome importava pouco ali. E eles estavam às centenas, talvez milhares, rondando o corpo ensebado de Raimundo. O cheiro do suor lhe era desagradável, queria e precisava descansar. O sol parecia ter sugado as energias, sentia-se exaurido.

Mas e agora? O que fazer? Quanto tempo até alguém dar por sua falta? Será que já tinham percebido? Encontraram o carro? Mas quem ia saber? A família da Gabi pernoitaria no sítio, só veriam no dia seguinte. Raimundo do céu, o que foi que você fez?

Nunca foi um homem do campo, mas sempre se considerou alguém prático. Pensou no que fazer. O mais viável seria encontrar uma árvore e ficar debaixo dela. Não havia ali mata fechada e o céu estava límpido, algumas estrelas já despontavam na boca da noite, engolindo o mundo com sua escuridão até a única luz ser a lua e algumas estrelas. Caminhou, caminhou, caminhou procurando alguma árvore sob a qual pudesse se abrigar. Temia ficar perto d’água, não sabia que animais poderiam visitá-lo à noite. Avistou um buritizal e estancou o passo. Ali estaria um igarapé, com certeza. Olhou ao redor. A única árvore que poderia fornecer alguma espécie de abrigo era um caimbé, a poucos metros. Ele quase não protegia do sereno, mas o tronco retorcido oferecia um lugar onde pudesse recostar-se. Aproximou-se e sentou-se ao seu pé.

— O que foi que eu fiz?

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terça-feira, 24 de agosto de 2021

Resenha – As conspirações para matar Hitler

DARGIE, Richard. As conspirações para matar Hitler: os homens e mulheres que tentaram mudar a história. Cotia: Pé da Letra, 2020.


Sabe aqueles livros que você compra no impulso? Daqueles que você tá só passeando, mas o título te chama a atenção, você olha o preço e "Meu Deus, é só 13 reais!", sabe? Pois é, esse foi um desses. Com treze reais hoje em dia mal se compra um bom lanche na padaria, então eu digo que valeu sim o investimento.

O título é bem explicativo, são causos inseridos dentro de um contexto histórico específico, voltados para um personagem bem específico. Interessante notar que o livro não segue uma ordem cronológica e até a divisão temática é meio complicada, mas como é um livro de curiosidades, a gente pode perdoar. Temos algumas histórias bem interessantes mas quero ressaltar aqui apenas dois pontos que julgo os mais interessantes pra se registrar.
"Para Adolf Hitler, no entanto, era uma evidência clara de que ele estava sendo preservado para um propósito. [...] confiando em seu profundo sentimento intuitivo de que estava sob alguma proteção especial, a qual ele chamava de Vorsehung ou Providência." (p. 9)
O primeiro é que Hitler acreditava que ele tinha uma espécie de "propósito especial", uma força mística que o preservava para um grande destino. Isso ajuda a explicar muito de seu comportamento e também das suas táticas de guerra (que, lá pelo fim, foram muito questionadas pelos seus generais e até o levaram à imprudência).

O segundo é que, meus amigos, como cientista político (internacional) eu digo: não podemos nos render à limitação do espectro político. Quando vemos as facetas do nazismo expostas em diferentes formas, percebemos como muitas vezes uma visão dualista de mundo nos leva a uma compreensão limitada, ou melhor, uma incompreensão da realidade tal como ela é.

Em suma, o livro é bem agradável de ler, talvez mais agradável para aqueles que curtem uma boa dose de história, nomes de personagens e anos em alguns casos. De qualquer forma, temos histórias bem interessantes e algumas que são meio anedóticas. É um daqueles livros pra gente ler relaxando e aprendendo ao mesmo tempo. Super recomendo.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Resenha – Ana Karenina

TOLSTOI, Leon. Ana Karenina. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005 (Clássicos de bolso).


Certo estava Érico Veríssimo: sou uma vaca sentimental. Que livro absolutamente delicioso de se ler! Daqueles que a gente pega sem saber o que encontrar e, quando menos espera, lá estamos nós vivendo o drama da infiel Ana Karenina e Vronski, ou o amor apaixonado de Levine e Kitty... ah, mas me adianto.

Vamos começar, como sempre, falando dessa edição que me foi emprestada por um colega de trabalho. Pra ser bem honesto, foi uma diagramação chata de ler, faltou deixar espaço na margem interna, a gente tem que inclinar o livro todinho pra conseguir ler as letras do canto. Ler durante o dia até que vai, mas à noite a gente fica penando.

Paradoxalmente, pense numa leitura agradável de fazer. Os capítulos curtos são um convite que os bons leitores não conseguem evitar, o famoso "só mais um pouquinho". Agora é interessante que não é um livro pra ser lido com pressa. O autor nos convida a um desfrutar parcimonioso das cenas, de alguns detalhes até desnecessários porém ainda imersivos o suficiente, e do lidar dos personagens

A transição entre cenas é perfeita, consegue ir direto ao ponto sem ficar enrolando, imerge a gente com três ou quatro palavras certeiras. Impressionante, há muito não via algo assim. Aliás, o autor é sábio em não ficar com rodeios pífios quando a situação é óbvia: pintou um clima entre dois personagens e o leitor já sacou? Pronto, não tem por que ficar fazendo mistério, todo mundo já sabe, bola pra frente. Isso torna a obra mais honesta 

Interessante notar o contexto da época. Quando o livro foi escrito, já eram tempos de Pax Britannica e vejo reflexos disso no texto. Embora as expressões francesas não se deixem de fazer presentes, com cada vez mais frequência surgem as em inglês, mostrando a influência na sociedade russa (se bem que era em todo o mundo, né).

Agora vamo falar do que eu considero a alma do livro. No começo, o fato de haver muitos personagens me deu a impressão de que a narrativa seria bagunçada. Engano meu. Apesar da constelação de pequenos núcleos e individualidades, tudo se conecta magistralmente ao mesmo tempo em que nos ligamos com cada um dos dramas dos personagens. Um exímio trabalho que poucos conseguem alcançar.

Fico triste pelo marido da Ana Karenina, que não é sequer um homem mau e ainda se vê nessa situação ridícula, nesse buraco que a esposa cavou e insiste em se afundar. O trecho abaixo é extremamente revelador:
"Aléxis Alexandrovitch, tão enérgico quando se tratava dos interesses públicos, sentia-se impotente. Como um boi que vai ser morto, abaixava a cabeça e esperava resignadamente o golpe fatal." (p. 116)
No meio do caminho há quase um ensaio sociológico sobre o trabalho. No começo achei interessante, mas pro final cansei um pouco. Não obstante, revela muito da sociedade da época e dos dilemas que enfrentava. Engraçado que enquanto isso é a alma de Dostoiévski, aqui não é o tema mais forte do livro. Não obstante, há frases que mostram bem o drama da questão:
"Eu trabalho, sacrifico-me por um fim e esqueço que tudo acaba... Que é indispensável morrer." (p. 247)
"Quando foi preciso trocar sua primeira nota de 100 rublos para vestir o porteiro e o criado [...] Pensou que aquele dinheiro representava o salário de dois trabalhadores por ano, da madrugada à noite [...]" (p. 451)
Em determinado momento me perguntei se, já no último 1/4 do livro, dar falas a um personagem que se manteve silente até então foi uma boa pedida. Mas pior que funcionou porque foi emocionante. Aprendi portanto a não subestimar a inserção de novos personagens de modo pontual, quando isso serve para fortalecer ou jogar luzes ainda mais claras sobre o dilema de outro (refiro-me ao filho da Ana Karenina, que ganhou falas poucas, mas interessantes para enrobustecer o dilema da mãe).

Creio que o tema principal do livro está ligado a um moralismo. Tolstói disfarçou mas enfim chegou no amago da questão que tentou disfarçar: a romantização do adultério. Conquanto não tenha feito isso de modo abrupto, colocando o casamento feliz e saudável como contraste ao adultério, não se pode negar que ficaram alguns resquícios do desejo pela "liberdade" por alguns personagens. Espero que, pelo menos, o leitor possa ver o quanto, na verdade, isso resultou apenas em libertinagem e prejuízos.

O próprio final do livro é bem moralista, dando lições por meio das falas do personagem e as últimas linhas são quase uma palestra motivacional. Aliás, o final me pareceu meio demorado. Sabe quando já aconteceu tudo que tem pra acontecer? Depois que disso, não dá pra ficar segurando o leitor por muito mais tempo, o fôlego acaba. Tenho a sensação de que o autor poderia ter economizado algumas páginas no final pra deixar uma impressão mais forte.

Não obstante, o livro é MAGNÍFICO! Não se torna um clássico à toa. É genial, uma obra incrivelmente bem trabalhada, daquelas que a gente tem orgulho de ter na estante e de já ter lido. Aliás, como foi um livro emprestado, já vou começar a procurar promoções e colocar ele definitivamente na minha biblioteca. Não tenho dúvida que o revisitarei no futuro.