- Branca Sobreira traz o conto "The Hand". É cru, pesado, real. Gostei DEMAIS da abordagem dela, ao ponto de ir pesquisar no Google outros textos dela e gostei de todos. Se peca em alguma coisa aqui é ter colocado o título em inglês – não colabora em nada com o conto e só serve pra ser um estrangeirismo que diferencia o título.
- Cintia Laud, no conto "Não há cordões em mim", constrói um clima muito bom, um ambiente bem trabalho em pouco tempo, com direito ainda a uma excelente revelação no final, pra dar aquele punch. Tem uma abordagem mais seca, direta, mas sem revelar demais. Muito bom o texto.
- Glauber Santos Wisniewski, no conto "O motorista do shuttle ouvia jazz", tem um estilo clean, agradável de ler. Dessa vez não condeno o estrangeirismo, porque casou com o tom geral do conto, contribuiu para dar um ar de "exterior" e viagem – ou seja, o título serviu a algum propósito dentro do texto, não sendo só um título em si.
- Quando li Isadora Rodrigues, em "Um estalo", senti que não foi o melhor trabalho da autora, mas tem potencial.
- Marina Barrichello Marone ganha fácil o título de melhor conto de terror do livro com a história narrada em "A janelinha".
- E por fim Wanderson Mota Silva fica com o título de melhor trocadilho no conto "A toalha" – conto este que encerra a coletânea.
sexta-feira, 28 de outubro de 2022
Resenha – O vendedor de sofás
Buraco
Remanso
— Quem não foi, né? — ele sorriu. — Deixe eu ver.
Apresentei-lhe minha mão arroxeada e inchada, mostrei bem pra ele as veias onde os vermes passeavam.
— Que é isso?!
— Doutor o senhor já foi a um igarapé num fim de tarde?
— Sim, mas o que isso…
— O senhor sabe aquele horário em que os piuns e carapanãs saem? Bem perto do pôr do sol?
— S-sim.
— Então o senhor sabe que naquela hora, aquela mesma hora, em que Cruviana não sai, fica escondida com medo do silêncio, aquele momento entre a luz e a escuridão em que você tá mas não tá ali, sabe? Em que os buritizais ficam parados, esperando pra ver o que vai acontecer naquela hora específica.
Levantei da maca devagar e caminhei até ele. Minha mão roxa pesava e doía, eu comecei a suar. O médico deu dois passos pra trás, ele olhou pra porta, mas então já não tinha porta porque era o crepúsculo.
— O que tá acontecendo? — tinha medo na voz dele.
— Não tá acontecendo nada, nada mesmo. O senhor não entende que é exatamente isso? Não acontece nada. Não é mais dia, mas também não é mais noite. E só o que resta é o enxame de insetos que vem nos morder, tirar o sangue, a sanidade, porque eles entram no seu olho, no seu nariz, no seu ouvido, e não importa quanto você se debata eles não param de te atacar, porque você é só um e eles são centenas, milhares, centenas de milhares.
E no fundo dos olhos daquele médico eu vi que ele sabia também. Quem é de Roraima sabe. Sabe que quando o mormaço entorpecente vem, não tem rede que resolva, não tem ventilado que aguente, não tem ninguém que consiga suportar. Todo mundo acha que gosta do silêncio, até a hora que ele vem.
O médico continuou recuando até que os pés dele entraram na água do igarapé. A água também corria sem fazer som. Ele estava descalço e agora eu também. Na verdade, estava nu. Porque agora eu já não conseguia impedir o fluxo, e senti quando meus olhos começaram a inchar e o mundo começou a ficar arroxeado e tudo se espalhava. O médico ainda conseguiu gritar:
— O que é isso?! — e já o grito dele estava abafado, engolido pela infinitude do lavrado.
— Silêncio, doutor… — eu sussurrei.
Silêncio…
– O quê?
– O e-mail.
– Ué, já enviei.
– Eita, já? Pera, deixa eu ver aqui. Ah, é. Chegou mesmo. Vish, mas veio sem anexo.
– Alô? Oi? A ligação está cortando.
– Eu disse que o e-mail chegou sem anexo.
– Sim eu mandei o e-mail, já disse.
– Já entendi isso, mas estou dizendo que veio sem anexo.
– Oi? O anexo? Sim, eu fiz a tabela, já te enviei.
– Marcos, eu tô dizendo que veio sem anexo. Sem. Anexo. Ouviu?
– Hum… acho que entendi agora. Foi sem anexo, é?
– Isso!
– Ah, tá. Desculpa. Fica aí na linha que vou enviar de novo. Enviando. Nossa, a ligação tá cortando demais, difícil te ouvir. Pronto, agora foi! Recebeu?
– Recebi sim.
– Pronto, tá aí o e-mail. Posso ir?
– Marcos.
– Que foi?
– Veio sem anexo.
Anfêmero
Antes, ainda se podia passear, levar a família para ver um pequeno gêiser, essas coisas que só quem vive no fundo do mar sabe apreciar. Mas hoje não tem mais condições. Cada esquina é uma moreia, um molusco bêbado perdido, um detrito que caiu do espaço.
O fundo do mar é um deserto, mas não significa que a gente não posso gostar do deserto.
Existe um lugar, porém, que a gente gosta de evitar. São as fossas oceânicas. Reza a lenda que lá embaixo existem seres horripilantes e é para lá que vão todos os peixes que boiam. Sim, é um paradoxo. Eles boiam, mas no final vão parar no mais profundo do mar.
O fundo do mar é cheio de histórias. Se olhar para baixo, tem as fossas; mas, se olhar para cima, tem o Grande Espaço. Não falo ali onde voam peixes, falo de onde caem os detritos. Há histórias até de gente que foi abduzida. Nunca conheci um desses, só ouvi falar. Há histórias.
Certo dia eu andava com minha esposa à procura de plânctons. Nossas patas vasculhavam a areia. Procurávamos e montávamos guarda ao mesmo tempo. Um peixe sobrevoou nossa cabeça e tentamos nos enterrar na areia, mas ele falou conosco:
– Esperem! Estou perdido.
– Como é?
– Vocês sabem o caminho para as fossas?
Eu e minha esposa nos entreolhamos. Era um robalo qualquer, não havia nada de especial nele, parecia inocente o suficiente.
– E o que diabos o senhor vai fazer lá? – minha esposa interpelou.
– Vou buscar meu pai.
Silêncio. Um vento de ondas levantou a poeira no fundo do mar e eu tossi.
– O senhor está falando sério? – dessa vez eu que falei.
– Já disse que sim. Vocês sabem o caminho ou não?
Novamente ficamos em silêncio, mas viramos a cabeça para o leste. O robalo entendeu tudo e pegou o rumo à toda velocidade.
– Moço, faça isso não – minha esposa disse, mas ele já não conseguia escutar.
O fundo do mar é um deserto e no deserto a gente vê miragens, coisas estranhas. Será que aquele peixe estava lá mesmo? E como o doido conseguiria resgatar alguém das fossas? Olhei para minha esposa e ela não disse nada, começou a cavucar a areia de novo. Imitei-a.
Mais tarde, já em casa, nenhum dos dois teve coragem de comentar o causo. Se falássemos aos vizinhos, seríamos motivo de chacota, como aqueles que dizem ter sido abduzidos. O deserto é um lugar com poucas novidades e, nós aprendemos naquele dia, era assim que preferíamos.
No dia seguinte, apenas eu saí para procurar comida.
– Estou indisposta, você se importa?
– Tranquilo, querida, sem problemas.
Eu saí de casa um pouco aliviado. Não queria sentir de novo o desconforto de pensar naquele peixe. Mas eu não conseguia evitar. No fundo eu sei que minha esposa também não e foi por isso que preferiu ficar em casa.
Eu andei pelo deserto infinito, mas estava distraído demais para conseguir o que precisava. Olhava para cima e ficava imaginando como seria ir além do Grande Espaço, lá onde só alguns peixes-pássaro conseguem ir. O meu devaneio me fez caminhar a esmo. Quando menos esperei, eu estava lá.
Eu olhei para a escuridão do profundo do mar e, como eu tanto temia, ela olhou de volta para mim. Fiquei procurando sinais do robalo, mas eu sabia que era impossível ver qualquer coisa ali. O chamado do abismo era cada vez mais forte. Precisei de muita força para olhar para trás e ver o que estava ali desde sempre.
Há um deserto no fundo do mar. Lá os crustáceos andam ignorando o fim do mundo, apenas contemplando os pássaros-peixes que os sobrevoam com ar sonhador. O crustáceo precisa ser esperto, as coisas ainda são como antigamente.
quarta-feira, 26 de outubro de 2022
Resenha – Almas mortas
[...] a nossa pátria está perecendo, não pela invasão de vinte tribo estrangeiras, mas por nossas próprias mãos. (p. 444-445)
E ficou claro que espécie de criatura é o ser humano: é sábio inteligente e sensato em tudo o que se refere aos outros, mas não a ele próprio. (p. 250)
Deus do céu, que distância imensurável há entre conhecer o mundo e o saber utilizar-se deste conhecimento! (p. 396)
O dia, ao que parece, foi encerrado com uma porção de vitela fria, uma garrafa de sopa de repolho azedo e um sono ferrado, um ronco puxado, como se dizem algumas partes do vasto império russo. (p. 13, grifos meus)
[...] adormeceu logo, num sono forte e profundo, um sono maravilhoso como só é dado dormir àqueles felizardos que não conhecem nem as hemorróidas, nem as pulgas, nem os dotes intelectuais excessivos. (p. 156, com destaque para a equiparação de hemorroidas e dotes intelectuais excessivos)
Se a devassidão tem que entrar neste mundo, que não seja pelas minhas mãos! (p. 374)
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| Fim de 'Almas Mortas" (Gógol queima seu manuscrito). Mikhail Clodt, 1887 |
quarta-feira, 28 de setembro de 2022
Resenha – A moreninha
[...] naturalmente, Bocage, quando tomava carraspana, descompunha os médicos.— C'est trop fort! bocejou Augusto [...] (p. 9)
Esse intelectualismo que sempre permeou os clássicos foi exatamente o que sempre me afastou deles. Não porque eu (ou outros leitores) não tenhamos capacidade intelectual de entender ou degustar, mas porque é uma leitura feita para uma casta, cheia de rodeios, citações em idiomas estrangeiros e referências que só não são obscuras pra quem tem todo o tempo do mundo pra ler poetas arcadistas.
A história não caminha de fato para frente, mas é permeada por uma sucessão de anedotas que poderiam ser facilmente reduzidas a poucas linhas (e olhe lá – por mim cortava era tudo). Aqui acompanhamos a história de Augusto, um estudante de medicina, que finda se apaixonando pela irmã do seu amigo Fabrício – trata-se de Carolina, a Moreninha –, por ocasião de uma visita que faz à casa da avó de seu amigo.
Outra coisa que incomoda é que é tudo um conto de fadas, um mundo alheio e abstrato. Não que literatura deva tratar apenas do que é real apenas realisticamente; mas é que, mesmo na fantasia ou ficção, é preciso que o leitor se relacione ou se identifique com os personagens.
Talvez isso tivesse sido realidade para o século XIX. Porém, ainda assim, creio que, se o fora, então o foi apenas para uma parcela da população. O distanciamento é tão grande que não parece que estamos lendo uma história, parece que estamos lendo um relato de acontecimentos tão somente. É chato porque é distante, bem distante de nós.
Em mais de uma ocasião me pareceu que o verdadeiro apelo do livro está no seu erotismo nem sempre tão velado. No começo da história, por exemplo, lemos a seguinte descrição que o amigo de Augusto, Fabrício, faz de uma de suas primas:
A mais moça tem um ano de menos: loira, de olhos azuis, face cor-de-rosa... seio de alabastro... dentes... (p. 11)
Pobre Augusto!... não te chamarei feliz!... ele vê a um palmo dos olhos a perna mais bem torneada que é possível imaginar!... através da finíssima meia aprecia uma mistura de cor de leite com a cor-de-rosa e, rematando este interessante painel róseao, um pezinho [...] não foram beijos o que desejou o estudante outorgar àquele precioso objeto [...] (p. 73)
Em amor a imaginação é tudo: é ardendo em suas chamas e elevado nas asas de seus delírios que o mancebo se faz poeta por amor (p. 16)


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