quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Resenha - Breve história da literatura brasileira

VERÍSSIMO, Érico. Breve história da literatura brasileira. São Paulo: Globo, 1996.


"Para infelicidade dos ensaístas e felicidade dos romancistas, os fatos da vida, como os caprichos da alma, recusam-se a ser rigidamente arquivados e rotulados." (p. 15)
E assim já fica claro que este não é um mero livro acadêmico. É, meu povo, Érico Veríssimo sendo Érico Veríssimo. Este foi o único livro que ele escreveu em outro idioma (inglês), porque na verdade trata-se de uma coletânea de palestras que ele deu quando morava nos EUA (1943). Organizado o material, tornou-se este compêndio bem interessante sobre a nossa literatura.

É a primeira vez que leio um livro de história da arte (seja da literatura, da música, etc) que tem sabor. Não me peçam pra explicar, mas é exatamente isso. Dá gosto de ler, porque não se enumeram as coisas, tampouco se mencionam, mas se mostram de um jeito único que só Érico Veríssimo mesmo pra conseguir fazer.

Na verdade não é bem uma história da literatura brasileira. Está mais para uma história do Brasil, pincelando aí seus reflexos na literatura do país. É preciso lembrar a plateia para quem estes textos foram escritos originalmente: estudantes norte-americanos e de outras partes do mundo para quem o Brasil limitava-se a Rio de Janeiro, matas e cobras.

É estranho ver como ele apresenta a história, entretanto. Porque ao mesmo tempo em que ele se diz um realista, alguém que quer mostrar a sociedade do jeito que ela realmente é e talz, não dá pra negar que tudo que ele fala tem traços de um romantismo muito forte. E acho que essa é a grande beleza do que ele escreve, porque o brasileiro é assim. Ora somos terrivelmente frios e duros com a realidade ao nosso redor, ora nos pegamos (feito bestas) a sonhar com um Brasil melhor.

Outra curiosidade legal sobre este livro. É o único da série que tem fotos do autor. Fiquei muito contente em ver o estimado mestre nessas fotos de época. Isto se deu porque, enquanto a autoria é mesmo de Érico Veríssimo, a tradução é de Marta da Glória Bordini, que deu alguns retoques nesta edição.


Veríssimo não tem pena de falar aquilo que todos nós pensamos quando estudamos literatura brasileira: que os textos dos escritores antigos (do século XIX pra trás) eram chatos pra caramba! Graças a Deus houve uma voz sincera pra falar isso. 
asdfsadf
"Se vocês me perguntam se os escritores brasileiros das duas primeiras décadas do século XIX eram excepcionais, responderei que eram aproveitáveis." (p. 47)
Como era natural de todos que viveram no eixo sul-sudeste do Brasil (céus! É assim até hoje), a Amazônia ou o Norte de modo geral nas abordagens de Veríssimo limita-se a exemplos anedóticos e estereotipada. Mas, em sua defesa, é bem verdade que o Norte só foi produzir grandes escritores (ou pelo menos torná-los conhecidos) já em meados do século XX. 
"O Amazonas é uma espécie de úmido inferno Verde repleto de surpresas, prodígios e terrores." (p. 142)
Ele usa o argumento da intransponibilidade da floresta para explicar a falta de literatura amazônica. Mas é preciso lembrar que esta era a visão geral do Brasil daquela época. Se pensarmos em Villa-Lobos, por exemplo, que foi um grande marco na nossa arte e um importante representante do Brasil mundo afora, este era também o seu exato pensamento! Coisa que ele deixou claro em várias ocasiões.

Érico Veríssimo dá grande importância para Aluísio de Azevedo como um dos primeiros escritores brasileiros a retratar a sociedade como ela realmente é, em vez de perder-se em romantismos ou idealismos que tanto caracterizaram os estilos precedentes.

É engraçado que Veríssimo chama a si mesmo de "poeta frustrado" não apenas na sua biografia mas em vários outros livros. Frustrado ou não, a verdade é que ele era um grande admirador da poesia, fato este que é corroborado pelo tanto de tempo que ele gasta neste livro dando conta de diferentes poetas. Claro, muitos deles bem importantes pra nossa literatura; porém nem na escola eu ouvi falar desses caras com tanta paixão como este homem os retratou.

Ele avalia que a enquanto a Primeira Guerra foi um marco pra toda uma geração de poetas e ficcionistas europeus e americanos, para o Brasil não representou quase nenhum impacto pois, o país participou da guerra apenas pelos jornais.

Admiro a coragem de Érico Veríssimo em arriscar falar da literatura brasileira contemporânea (a ele, claro). É muito difícil avaliar com clareza quem são os grandes autores de uma época estando nela. Mas o esforço é admirável. Ele fala de Monteiro Lobato com especial carinho. Penso que se reconhecia nele de certa forma. Ele também fala repetidas vezes dos Andrade (Mario e Oswald). Interessante notar que o autor não menciona apenas autores de literatura, não sei se por estar proferindo essas palestras num contexto acadêmico. Mas ele cita nomes como Gilberto Freyre, Afonso Arinos e Sérgio Buarque de Holanda.

Ah! Mas uma coisa que impressiona é como ele realmente conhece os autores de seu tempo! Tudo bem que era outra época, onde era mais fácil encontrar os autores, uma vez que o livro ainda era uma das principais fontes de conhecimento (senão a principal). Além disso, vale lembrar que a década de 1920 não foi uma década qualquer para a arte brasileira como um todo.

Novamente me deparo com o teste do tempo e vejo que foram poucos os autores que sobreviveram. Na verdade, começo a desconfiar que Érico só estava fazendo a camaradagem de tentar citar o máximo de escritores vivos que conhecia, tanto pra preencher a palestra como pra prestigiar os colegas (não sei se por bondade mesmo ou para fins "diplomáticos").

Na avaliação de Veríssimo, a década de 1930 foi a década da "maturidade literária" do Brasil, em que os autores conseguiram se desvencilhar dos fantasmas da Europa (séc XIX) e também domar o leão da Arte Moderna (pensando na semana de 1922).
"Acho que o grande mural do Brasil está sendo pintado hoje, não por um único artista, mas por um grande número deles." (p. 141).
Fiquei triste que ele não cita ele mesmo nesse apanhado histórico, fiquei curioso em ver como citaria suas obras. Por outro lado, aponta para sua humildade e eu posso ficar tranquilo porque anos mais tarde ele escreveria sua autobiografia.

Por fim, teve só mais um detalhe que achei bem legal. Como o livro é de história, eu não poderia deixar de registrar aqui alguns achados arqueológicos que encontrei neste livro. Veja por si mesmo, não falarei mais nada. Deixarei que as gerações futuras tentem decifrar para que servia isto bem aqui:


segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Resenha - Solo de clarineta: memórias – I

VERÍSSIMO, Érico. Solo de clarineta: memórias – I. São Paulo: Globo, 1995.


A verdade é que eu não tinha estrutura emocional pra ler esse livro e não sabia. Não sabia. Aqui está a primeira parte da autobiografia de Érico Veríssimo. É isso. Não tem muito o que apresentar aqui, vamos à resenha mesmo.

Vejo-me numa posição privilegiada ao ler este livro. Aqui encontro um Érico Veríssimo já idoso, caminhando pros 70 e contando a história da sua vida. E, enquanto o faz, sempre mostra como diferentes personagens ou situações de seus livros foram inspirados na sua própria vida. Digo que sou privilegiado não apenas por conhecê-lo melhor, mas porque já li toda a sua obra e sempre sei ao que ele se refere quando menciona seus romances.
"Creio necessário esclarecer que a família Cambará não é positivamente uma projeção dos Veríssimo no domínio da ficção, assim como Santa Fé não é uma cópia de papel carbono de Cruz Alta." (p. 14)
Estou chocado com a coragem de Érico Veríssimo em se expor. Fala não só da família, como também tem a ousadia de falar de suas próprias dúvidas e anseios sexuais na infância e adolescência. Some-se a isso sua capacidade de descrição absurda. Uma coisa é descrever algo que você cria do zero, outra é descrever algo real que existe na sua memória. Tenta aí pra você ver como é difícil. E, mesmo assim, Veríssimo o faz.

Esse é um livro, primordialmente, de história. Ele conta uma história, uma narrativa, claro; mas é parte da História com "H" maiúsculo, uma vez que ele está narrando fatos, não uma construção ficcional. E por isso é muito interessante a gente ler sempre pensando no que estava acontecendo na História nacional e internacional. Pra citar só um dos vários exemplos, olha só ele num contexto de pandemia:
"Em 1918 a influenza espanhola atirou na cama mais da me metade da população de Cruz Alta, matando algumas dezenas de pessoas. Não se dignou, porém, contaminar-me. Lembro-me da tristeza de nossas ruas quase desertas durante o tempo que durou a epidemia, e dos dias de calor daquele dramático novembro bochornoso." (p. 120)
Não fica muito claro em que ponto se deu a gênese do autor. Mas na casa dos 20 anos, Érico Veríssimo já escrevia contos que nunca publicava e era um devorador de livros não só em português, mas como em francês e inglês. Tem um ponto que sempre é comum a todos os grandes escritores: lê-se muito.

E isso não cansa de me chocar. Enquanto Stephen King já namorava a literatura desde a infância, eu encontro aqui um Érico que sabia fazer desenhos, amava a ópera e vez ou outra arriscava uns versos (poesia!), quiçá alguns contos que nunca chegou a publicar. Marrapaz! Será que este é o mesmo Érico Veríssimo que eu tanto admiro e conheço? Um cara que é dono de uma farmácia em Cruz Alta, que tem suas escapadelas com mulheres, que vive uma vida... comum... 

Aqui fica muito clara aquela dica que todo mundo dá para os jovens escritores: escreva sobre algo que você conhece. É isso. A vida de Érico Veríssimo poderia ser facilmente um livro de ficção escrito por ele mesmo. Em cada pequena anedota, em cada personagem, em cada fato que ele narra, eu encontro as sementes de diferentes cenas de seus livros, ideias e até mesmo pessoas. 

Quando ele saiu de Cruz Alta rumo a Porto Alegre com a resolução de se tornar escritor, eu fiquei triste. Porque neste ponto a história dele e a minha começam a ficar muito diferentes. Porque no fundo, eu sei que não consigo fazer o que ele fez. Estou para sempre preso à minha Cruz Alta. Sem o networking que ele fez em Porto Alegre, duvido que tivesse conseguido galgar os degraus necessários.

Quando Érico Veríssimo passou a se dedicar à editora Globo, esta ganhou muito mais do que um escritor; mas também um produtor com olhar arguto pra escolher quais obras publicar e traduzir, conquistando aí direitos autorais para várias obras estrangeiras de grosso calibre.

Caramba só agora que me toquei: Érico Veríssimo nunca terminou sequer o Ensino Médio.

Não sei que lições ele quis passar quando escreveu suas memórias. Mas, puxa vida!, não tem como não enxergar tudo isso e se maravilhar. Nem parece que é a história do maior escritor brasileiro de todos os tempos; mas de um conhecido da família que sempre tivemos curiosidade em conhecer mais. O que torna evidente, mais do que nunca: Érico Veríssimo é o mestre da fantasia do cotidiano.

E aqui nós podemos ver, claro muitos reflexos de tudo que ele viveu na sua própria literatura. Das muitas coisas que há para falar, também vou destacar só uma: o pai dele, Sebastião Veríssimo, que seria uma inspiração indireta para vários outros personagens. O temperamento do pai dele foi algo que marcou praticamente todos os grandes homens de O tempo e o vento.

Não entendo que capacidade absurda é essa que Érico Veríssimo tem de fazer a gente se emocionar com o que ele escreve. Não acredito que alguém consiga ler o trecho que ele fala do conflito com o pai bêbado sem lágrimas nos olhos. Aliás, e o que falar daquela despedida? Não tô nem aí: eu chorei de soluçar.
"Na minha opinião o que importa mesmo não é homenagear os mortos, levando-lhes regularmente flores às sepulturas, pois isso é formal e fácil. O que me parece da maior importância é tratá-los bem, com amor se possível, enquanto estão vivos." (p. 194)
Mas o que importa mesmo de uma biografia não são tanto os fatos, porque isso talvez a gente até consiga em outros lugares. O que importa mesmo são as marcas do que esta vida significou. E, meu amigo, como significou. 

Com o prestígio que galgou com Olhai os lírios do campo e várias outras conquistas literárias, Veríssimo se tornou uma referência nacional e internacional da nova literatura brasileira. Foi convidado para visitar os EUA com tudo pago pelo governo (conforme narrado em Gato preto em campo de neve) e depois voltou a ser convidado para morar lá por dois anos (visto em A volta do gato preto). Mas isso eu já sabia. O que não sabia é que ele foi convidado para ser Diretor do Departamento de Ações Culturais na então União Pan-Americana, que hoje é a Organização dos Estados Americanos (OEA), cargo que exerceu por 03 anos em Washington!

Impressionante como são realmente poucas as coisas que sobrevivem ao teste do tempo. Em determinada seção do livro, Érico descreve seu amor pelo cinema e as primeiras vezes que assistiu algo, ainda criança. O que me impressiona é que ele vira vários atores e filmes dos quais eu nunca ouvi falar. E o mesmo se repete para músicos e alguns escritores. Afinal de contas, acho que ele próprio foi um dos poucos que sobreviveu ao teste do tempo. 

Veríssimo argumenta que a indústria Hollywoodiana do começo do século passado ajudou a fomentar e solidificar alguns paradigmas de racismo presentes no imaginário americano, colocando o estrangeiro (ou mesmo o nacional) de pele escura como vilão ou bandidos em quase todos os filmes.

Ainda falando de marcas, vale lembrar que Érico Veríssimo era polêmico, porque seus livros mostravam a realidade dura da sociedade. Acusado de comunista, ele até tinha simpatia pela teoria, mas na prática não quis se associar à esquerda, porque detestava todo tipo de totalitarismo. Um homem com apurado e admirável senso político.

Ao falar de sua literatura, na parte final ele se dedica a contar como foi o processo de escrita de "O Tempo e o Vento", que ele já havia planejado pra ser sua magnum opus. Interessante notar (e não poderia ser diferente) que a pesquisa foi parte essencial de todo esse tratado histórico sobre a família Terra-Cambará.
"[...] nunca morri de amores pelo regionalismo e, para ser sincero, tinha e ainda tenho para com esse gênero literário as minhas reservas, pois acho-o limitado e, em certos casos, com um certo odor e um imobilismo anacrônico de museu." (p. 288)
You and me both, Érico. You and me both. Porém, diferente de mim, Érico Veríssimo percebeu que estava sentado numa mina de ouro, porque a história de toda aquela região tinha tudo para ser épica e caracterizar uma verdadeira saga que marcaria a história da literatura brasileira. Ele sabia disso. Não foi à toa que demorou anos pra escrever todas as mais de 2000 páginas que compõem os três tomos de O tempo e o vento.

A verdade, meus caros, é que eu estou a um passo de ter lido toda a obra de Érico Veríssimo. E isso me assusta. Porque depois não o terei mais em novidade, ainda que o tenha para sempre.

Acabou que essa resenha ficou muito mais analítica do que eu esperava. Ela reflete em nada (ou em muito pouco) o tanto que eu me emocionei lendo esse livro. Foi o que disse no começo: eu não estava preparado. Não estava preparado pra conhecer o homem por trás e ver que ele era um ser humano comum, alguém... como eu. E não canso de ver a mim mesmo nele e em vários aspectos da sua história.

Era um homem simples; que detestava extremos; que não tinha medo de falar a verdade, mas que sabia que era necessário ponderar o momento certo de fazê-lo; que amou a literatura e se sacrificou por ela. Um homem que marcou a história do Brasil. 

Ah, Érico, eu queria tanto ter te conhecido.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Resenha - Farenheit 451

BRADBURY, Ray. Fahrenheit 451. 2ª ed. São Paulo: Globo, 2012.


Fala, meu povo! Estamos aí com mais uma resenha distópica. Não sei por que mas todos estes últimos livros que comprei são bem com essa temática. Pra ser sincero, acho que me deixei levar mais pelos títulos e a hype do que pelo conteúdo. Mas eu diria que valeu a pena. E já me adianto: não ficou uma beleza essa capa minimalista?

Em Fahrenheit 451 estamos num futuro distante (pelo menos uns cinco séculos a nossa frente), onde acompanhamos a história de Guy Montag, um bombeiro que começa a questionar se o seu trabalho é mesmo a coisa certa a fazer. Isto porque neste futuro, os livros são proibidos e a função dos bombeiros é queimar as casas de pessoas onde há livros armazenados. Em suma, é isso.

Quanto ao estilo do livro não tenho muito a comentar, senão a evidente ausência de capítulos – algo que, pra mim, foi meio chato. Digo isto porque estou acostumado a usar capítulos como pontos de parada na leitura. Mas não é nada demais, só questão de costume.

A tradução ficou excelente. Não li no original, mas percebi algumas escolhas do tradutor que vieram a calhar muito bem com a cultura brasileira e expressar de modo mais claro o que o texto original quis dizer. Está de parabéns.

Ainda sobre o estilo, é preciso deixar claro: não se trata de ficção científica, mas de uma distopia. Na ficção científica, boa parte do conteúdo da história precisa estar atrelado a um reflexo do conflito homem-máquina ou homem-tecnologia. E não é este o caso aqui, uma vez que o conflito está muito mais para homem-homem.

Cara, novamente encontrei erros de digitação que não deveriam ter passado. Sinceramente, não sei se é por que antigamente eu não prestava atenção nisso ou se as editoras têm ficado cada vez mais relapsas; mas este não era o tipo de coisa que eu costumava ver. E nem era o tipo de coisa que a editora Globo devesse ter deixado passar. 

Por fim, alguns trechos eu acho q passam devagar demais. Falo daquela reunião com os outros exilados em que há uma série de elucubrações que me parecem desnecessárias para a história. Isto acontece, na verdade, em mais de um momento. Embora em alguns destes eu tenha detectado que o autor fez isso de propósito, mostrando a alienação de personagens (especialmente Mildred, a esposa de Montag), que se apegam a coisas fúteis e efêmeras em vez de atentar para as grandes questões.

E com esse gancho acho que posso falar um pouco da história em si. Veja bem, como se trata de uma distopia, estamos falando de uma sociedade estratificada, que passou por um processo de burrificação geral, quase paranoica. Isso, pra mim, tem horas que é maluco demais. Embora eu entenda o propósito do autor, fica arenoso demais para um entendimento mínimo que é necessário.

Embora eu precise reconhecer que tratava-se de um pioneirismo exorbitante para a época, confesso que agora as teorias da conspiração de uma distopia tão absoluta já me cansam. Acho que isso se dá, especialmente, porque eu não acredito que algo assim possa acontecer e, portanto, trata-se de algo inverossímil.

Mas são as mensagens e reflexões do livro que o tornaram um marco tão importante na literatura do século passado. Pra começar, é evidente que há sim no livro um pouco de "tecnofobia". Eis aqui neste livro uma das origens da fobia à televisão que perdurou até meados dos anos 2000. Mas é necessário enxergar isso dentro do contexto em que o livro foi escrito.

Vejam bem, o livro publicado na década de 1950 e o mundo desta época tinha acabado de sair da II Guerra Mundial, que transformou as bases de todo um pensamento filosófico. Entendam, desde o século XIX as pessoas acreditavam que a tecnologia e o progresso seriam a grande salvação da humanidade, e isso até fazia sentido. Mas quando as pessoas se depararam com o auge da tecnologia – a bomba atômica – e o potencial que a tecnologia tinha para erradicar a raça humana, as perspectivas mudaram.

Daí a necessidade de enxergar essa tecnofobia (especialmente direcionada à televisão) que Bradbury fez de modo descarado no livro. Havia também a predição aí de que os livros impressos estariam fadados à morte. Predição essa que, graças a Deus, não se cumpriu.

Ainda nessa questão, não precisa ser um crítico literário pra identificar que Fahrenheit 451 faz uma pesada apologia ao uso e preservação do livro. A isto soma-se o brilhantismo do autor em usar uma metalinguagem realmente muito à frente do seu tempo. Aliás, todo esse trecho da defesa e importância do livro é um absurdo de tão bem escrita:
"Os livros eram só um tipo de receptáculo onde armazenávamos muitas coisas que receamos esquecer. Não há neles nada de mágico. A magia está apenas no que os livros dizem, no modo como confeccionavam um traje para nós a partir de retalhos do universo." (p. 107-108)
Além dessa questão, o autor faz um excelente crítica ao hedonismo. E noto que isso é até algo comum entre as distopias. Se lembrarmos de "admirável Mundo Novo" e sua "soma", temos a exata mesma receita: uma sociedade "avançada" cuja receita da "felicidade" é tão plena, que o seu cidadão têm dificuldade de lidar com a realidade.

E, claro, é evidente que há um componente político muito forte na obra (como é natural de todas as distopias também). Existe aqui uma crítica real à enxurrada de informações às quais as pessoas são submetidas e a consequente incapacidade de processamento qualitativo delas, o que leva (e aqui eu não tenho como discordar) a um processo de burrificação em massa.

Não quero me alongar muito nessa questão, porém mais dia menos dia vou acabar escrevendo alguma coisa que mostra de maneira bem clara qual é a minha posição política e o porquê dela. Mas, por enquanto, quero apenas trazer à tona essa citação: 
"Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um." (p. 84)
Por fim, quero trazer uma crítica ao mau uso deste livro por diferentes grupos políticos. Interessante notar que, na história, são as próprias minorias que iniciaram todo o processo de queima dos livros, pegando aqueles textos que falavam coisas com as quais não concordavam ou acreditavam. O autor não mencionou isto por acaso, mas tem uma opinião bem severa sobre o assunto:
"Cada minoria, seja ela batista, unitarista; irlandesa, italiana, octogenária, zen-budista; sionista, adventista-do-sétimo-dia; feminista, republicana; homossexual, do evangelho-quadrangular, acha que tem a vontade, o direito e o dever de esparramar o querosene e acender o pavio." (p. 211)
Ele inclusive é ferrenho com uma série de críticas que recebeu de diferentes grupos feministas quando estes abordaram que muitos de seus livros e peças de teatro não tinham partes expressivas para mulheres. Em outra ocasião, foi um grupo negro que recomendou que ele reescrevesse uma história para inserir nela um personagem negro. Sobre tudo isso, o autor é categórico:
"Pois este é um mundo louco e ficará mais louco se permitirmos que as minorias [...] interfiram na estética." (p. 212)
E, neste ponto, por mais que eu não acredite em distopias malucas e totalitárias em nível tão amplo, não dá pra deixar de se assustar com algumas predições que acertaram na mosca, especialmente esta última, em que nossa arte é cada vez mais guiada por padrões externos à própria arte, delimitando não só a estética, mas oprimindo o artista.

A verdade é que o mundo está ficando sim cada vez mais maluco. Não se trata de discriminação, se trata de uma ultra-sensitividade que quer nos homogeneizar e fazer justamente o oposto do que tanto prega: eliminar as diferenças e, assim, tornar o mundo um lugar mais cinza, feio e árido.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Resenha - Fora de horas

CASTILHO, Paulo. Fora de Horas. Barcelona: Contexto, 2001.


Fala, meu povo! Estamos aí de volta para mais uma resenha! O livro de hoje é um excelente exemplo daqueles tesouros de estante. Refiro-me, claro, àqueles livros que às vezes compramos e ficam na nossa estante até chegar num ponto que sequer lembramos que eles ainda existem. No caso de Fora de Horas, descobri que tinha um pouco de literatura portuguesa contemporânea na minha estante. Que coisa, não?

A primeira coisa que fica clara, portanto, é que estamos lidando com um português diferente. E isso é bem legal. É muito interessante notar como o nosso idioma revela traços do nosso povo, da mesma forma que o uso do português pelos portugueses também os revela. 

Por isso, nós temos aqui algumas expressões como "pequeno-almoço", que quer dizer café-da-manhã, e o uso muito forte de pronomes em posições que, aos olhos do brasileiro comum, pode parecer que trata-se de um português mais "culto"; embora, claro, trate-se apenas de um uso diferente do idioma.

Bom, a história desenvolve-se com o narrador Luís na maior parte do tempo. Ele é um poeta português que está passando por uma crise de divórcio e foi para os EUA para tentar espairecer a mente. Lá ele encontra-se com uma amiga de longa data, Maria José, com quem viaja pelo território americano junto de outras pessoas (dentre elas uma jovem chamada Clara, que torna-se importante pra história depois). 

Embora a maior parte do tempo o livro seja narrado por Luís, temos alguns capítulos de Maria José e não dá pra dizer que a trama pessoal dela é secundária, está mais para uma segunda história primária, tão importante quanto a de Luís. Por isso, eu acho que, no fundo, eles são quase a mesma pessoa, ou melhor, espelhos um do outro. E não necessariamente num bom sentido. 

O livro, que é altamente introspectivo, trata de conflitos pessoais, dificuldades de relacionamento e problemas amorosos de modo geral, tudo isso mergulhado no drama da meia-idade e nos Estados Unidos da década de 1980. O livro não é uma história de amor entre Luís e Maria José, que fique bem claro (aliás, o único indício de algo neste sentido é logo afundado pelo autor na primeira parte do livro).
 
Quanto aos personagens, Luis me parece exageradamente volúvel, muito tendente a paixões e uso quase desesperado da palavra "amor". Que o autor quisesse fazer um personagem carente, vá lá que fosse; mas desse jeito ficou tão forçado que beirou o inverossímil. O desespero pessoal dele é tão forte que me pergunto se alguém poderia chegar no nível de entrega que ele chegou sem se degenerar.

Além de Maria José, de quem já falei um pouco, a única personagem que merece ainda menção é a Clara, que no livro representa a força da juventude e serve para contrastar não só com o comportamento mas também as ações dos dois mais velhos. 

Tem algo sobre os personagens que me dá agonia: eles parecem existir apenas a partir da sua relação com outros. Nos seus infindáveis monólogos, estão sempre a falar do que os outros pensam, agem, do que eles fazem, e como tudo isso os afeta. Mas resume-se a isso. É gente imatura que, no fundo, não sabe falar de ideias, mas apenas de outras pessoas.

E ô povinho que já gosta de falar de problemas, defeitos e traumas. Aff. Ficam roendo a questão até ela quase se desintegrar, ocasião essa em que se atêm a outro problema só para, quando este também cansar, voltarem ao primeiro. 

Isto pode ser resumido em: personagens exageradamente psicanalistas. E excelentes em analisar o comportamento do outro, enquanto pensam também estarem julgando a si mesmos e compreendendo-se com perfeição. Embora eu entenda a atração por esse mergulho na psiquê humana, por outro lado vejo que ela não me interessa tanto quanto a relação ou interação que os personagens têm uns com os outros. Porque é esta relação ou interação que, diferente dos excessivos monólogos, realmente revela a verdade sobre a natureza e psiquê dos personagens.

Isto se traduz na estrutura do livro não apenas pela trama, mas pelos gigantescos parágrafos que servem para ajudar a mergulhar no personagem. Quando os vi pela primeira vez quase desisti de ler, mas depois que me acostumei, torna-se quase impossível resistir ao mergulho. No caso da figura abaixo, o parágrafo começou na página anterior e, embora não seja o caso, tem vezes que dura por umas três páginas.


No fundo, porém, permaneço dividido entre gostar ou entediar-me com os parágrafos longos e as descrições excessivas. Elas são excessivas, mas é evidente que foi proposital do autor. Por isso, me é difícil afirmar com certeza se gostei desse design ou não. Talvez a minha mente só esteja habituado demais às narrativas com mais acontecimentos ou até mesmo mais enxutas, mas não sei.

A esses parágrafos longos, pode-se somar os esquemas de diálogos em parágrafos corridos, sem quebras. Bem moderninho. Vou colocar uma citação abaixo que exemplifica bem o que quero dizer. E não, eu não errei a diagramação do parágrafo, é assim mesmo:
"Devíamos ter tomado um avião até São Francisco e alugado então um carro para o regresso. Amanhã guias tu – disse a Maria José. Depois perguntou à Clara se ela não estava também farta. A Clara respondeu: não, estou com o Luís. Eu disse: por mim continuava assim eternamente." (p. 140)
Não só pela temática, mas até pela estrutura do livro, exige-se um certo estado de espírito pra ler. Não adianta chegar com pressa ou agitado demais, porque não vai dar pra se concentrar. O livro trata de introspecção, e é preciso estar preparado para isso.

Ao falar da trama do livro, no segundo 1/4 do livro ele muda de uma narrativa "de casa" para uma história de viagem, com alguns conflitos no caminho. Não creio que essa mudança veio para o bem. Na verdade, estou cada vez mais convencido de que inserir uma viagem de carro na história não foi uma boa escolha. 

Isso não seria ruim necessariamente se o livro fosse se toda em torno da viagem. O problema é que ela ocupa o segundo ato quase todo do enredo e depois o livro perde fôlego para continuar. Logo, assim como no término de uma viagem os personagens já estão cansados, também o leitor perde vigor conforme a viagem termina. 

O mergulho de Luís no mundo de Clara não é feito de modo suave, o que torna os capítulos em que ele descreve cenas com ela episódicos demais, sem que haja uma linha que ajude a construir de modo sutil a tensão que o autor quer imprimir nessa relação. Aliás, toda essa história é colocada fora de hora. Já no último 1/3 do livro ela vem do nada e ainda tenta no final ser cheia de peso e significados. Infelizmente não funciona assim, ela só pareceu solta no meio do livro.

Por isso, quando o final retorna à dinâmica Luis – Maria José, o leitor sente um alívio por finalmente ver-se em terreno familiar. Porém, não posso deixar de notar que talvez essa tenha sido a exata intenção do autor, uma vez que isto reflete o exato estado de espírito de Luís. E, neste ponto, o livro deixa claro porque ganhou prêmios literários importantes.

Porém não posso deixar de notar que o final é anti-climático demais. Últimas 5 páginas do livro e o autor ainda está desenvolvendo coisas dos personagens. Aí é demais, meu filho. Enquanto eu esperava resolução, o livrou tentou abordar questões novas e isso não curti; embora eu reconheça que isso pode ter sido o exato propósito do autor, para subverter convenções.

Niilismo. Era essa a palavra que tanto procurei pra definir a temática do livro. Mas não um niilismo suicida, porém uma abordagem moral (própria de Nietzsche, claro) que constantemente torna o narrador inerte diante da sua própria realidade, e que, ao interagir com outros personagens, descobre que eles também estão afundados nessa mesma realidade:
"Cada um, como tantas vezes sucede, a ouvir a o outro mais por cortesia do que por interesse verdadeiro. No fundo, interessados sobretudo em encontrar uma caixa de ressonância perante a qual pudéssemos desenrolar o tema preferido: falar de si mesmo." (p. 90)
"Creio, creio hoje firmemente, que os seres humanos não foram destinados a verdadeiramente comunicar. É-nos dado um nome e uma identidade própria quando nascemos. Somos indivíduos e indivíduos permanecemos. Somos únicos e únicos queremos ser. Natural é que pagamos o preço." (p. 196)
Sei que depois de tudo isso que falei, parece que eu odiei o livro e vou jogar ele fora. Mas não é isso. Todas as quebras de paradigmas e constantes subversões que quebram a expectativa podem ser coisas boas! É claro que esta é minha experiência como leitor e pode não ser a de outros que não curtem essa abordagem mais "meta" (porque eu não estou mais analisando a escrita em si, mas a escrita da escrita).

Não se enganem, o livro não é ruim, por incrível que pareça! Tem alguma coisa nele que é hipnotizante. O estilo do livro, no final das contas, impacta. E a gama de temas que ele aborda acaba capturando a atenção do leitor. Não foi à toa que o livro ganhou vários prêmios em Portugal e solidificou a carreira literária do autor.

Por mais estranho que pareça, eu convido você a dar uma chance e ter uma leitura diferente. E, olha, ainda bem que eu resolvi fazer arqueologia de estante. 

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Resenha - A revolução dos bichos

ORWELL, George. A revolução dos bichos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.


Gente do céu. Só não li mais rápido porque o tempo não deixou. Mas pense num outro livro que foi num tapa. Não é à toa que Orwell é aclamado por tantos como um dos principais escritores do século XX. O cara não era apenas talentoso, mas extremamente sagaz no uso de suas habilidades literárias.

Neste livro, um grupo de bichos reúnem-se numa granja para expulsar os humanos e instaurarem, eles próprios, um governo liderado por animais em que todos são iguais e se promova a liberdade plena. Livres dos homens e das opressões do sistema anterior, porém, os animais logo descobrem que o novo sistema instalado não é em nada melhor que o anterior, chegando até a ser pior. A essência do livro está resumida numa citação da página 106: 
"Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros."
De cara, portanto, vocês já sabem qual é o teor do livro. Ele fala de tiranias e absolutismos, mas numa perfeita sátira ao governo da União Soviética no anos 1940! Sim, porque o autor nem tenta esconder que é exatamente este o seu propósito. Este é com certeza o principal pano pra manga deste livro, mas vou deixar pra abordar isso no final. 

Quero começar dizendo que não sou de julgar muito aspectos físicos do livro. Vez ou outra aponto uma capa e talz, mas dessa vez eu preciso tirar o chapéu pra Companhia das Letras. Rapaz, o papel desse livro é de extrema qualidade, fiquei até impressionado em ver um papel dessa gramatura em uma edição que não fosse comemorativa ou algo assim. Aliás, a edição do livro é de 2007, mas a reimpressão é de 2020. Cheirando a novo.

Quanto ao estilo literário, tem algo que choca logo no começo. É uma fábula! Eu não consigo acreditar, mas é isso mesmo. O livro é uma fábula escrita de uma maneira simplesmente genial. Não é à toa que tanto falam deste livro. Aliás, o título em inglês é Animal Farm: a fairy story. 

Eu pensei que os parágrafos longos do texto acabassem tornando-se um empecilho pra mim, mas como são bem construídos, eles não se tornam cansativos. Além disso, como o livro tem um tom de fábula que vai do começo ao fim, a leitura é impressionante de tão leve. Só pra complementar essa questão de ritmo de leitura, em alguns momentos acho que a tradução deixou a desejar. Não é que estivesse ruim, é que a expressões que poderiam ser traduzidas de outra maneira para deixar o texto mais fluido.

Passando ao enredo em si, logo nas primeiras páginas o livro quase me perdeu, por conta da propaganda ideológica forte. Na verdade o meu medo era que aquilo fosse se manter; mas como foi algo bem pontual, deu pra seguir em frente. E, olha... ainda bem que eu segui em frente!

A guinada no meio do livro, quando os animais percebem que o seu mundo ideal não era aquilo que imaginavam, foi muito bem escrita. É chocante como num único parágrafo (tá certo que ele era bem grande) o autor consegue exprimir ao mesmo tempo o sentimento de desilusão e medo pelo futuro. Ali fica bem claro um divisor de águas. 

Mas, claro, são as interpretações do texto que mais enobrecem essa obra. Como é uma crítica aberta ao regime socialista da União Soviética, o livro teve várias utilizações e interpretações ao longo dos anos, até mesmo com dificuldades de publicação num primeiro momento. E aqui o limiar é muito tênue, porque as pessoas verão na obra aquilo que quiserem ver. 

Se por um lado rechaçam o o regime socialista, dirão que a obra mostra de modo muito claro como este modelo de governo é pernicioso e não traz benefícios à população no fim das contas. Por outro, quem defende o socialismo de modo ideológico, dirá que a obra não critica o socialismo em si, mas sim o socialismo stanlinista. E aí, meus caros, podem vir mil interpretações. Mas quero destacar as palavras do próprio autor:
"Tornei-me pró-socialista mais por desgosto com a maneira como setores mais pobres os trabalhadores industriais eram oprimidos e negligenciados do que devido a qualquer admiração teórico por uma sociedade planificada." (p. 142)
Lemos estas palavras num prefácio que o mesmo escreveu à edição ucraniana de 1947. Edição esta que foi traduzida e distribuída ilegalmente na União Soviética que, claro, não aprovava em nada a obra. O que o autor destaca também é que, não apenas a URSS, mas até outros países democráticos não viam com bons olhos a distribuição de uma obra que poderia prejudicar um aliado (ainda que aliado por pouco tempo).

Aliás, falando dos apêndices (que, nesta edição, incluem os dois prefácios do autor), é totalmente descartável aquele posfácio de Christopher Hitchens que, embora seja um importante crítico literário do século passado, em pouco ou quase nada acrescenta às palavras do próprio autor sobre a obra.

E, retornando mais uma vez a essas palavras, choca mais uma vez notar como erros do passado continuam presentes no futuro. Parece que a humanidade está fadada à cegueira mesmo, não tem jeito. Tolos são aqueles que ainda insistem em negar os efeitos perenes do pecado na humanidade como um todo:
"Além disso, os trabalhadores e os intelectuais de um país como a Inglaterra não compreendem que a URSS de hoje é totalmente diferente do que foi em 1917. Em parte porque não querem compreender (ou seja, porque querem acreditar que, em algum lugar, existe de fato um país realmente socialista), e em parte porque, acostumados a relativas liberdade e moderação na vida pública, o totalitarismo lhes é completamente incompreensível." (p. 144)
Quando nos defrontamos com a natureza humana desta forma e vemos que fatos como estes não são de um passado distante, porém de menos de um século atrás!, percebemos que, cada vez mais, nossa esperança não pode estar posta nos homens ou suas ideologias. Enquanto Deus não for o guia de todas as nossas atitudes, viveremos desesperançados neste mundo caído, onde a natureza hobbesiana nunca falha: o homem é o lobo do homem. 

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Resenha - O conto da aia

ATWOOD, Margaret. O conto da aia. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.


Gente do céu. Que furacão foi esse? Li o livro todo em 02 dias? Foi isso mesmo, produção? Eita, acho que foi mesmo. Simplesmente devorei este livro que me cativou de uma maneira que eu não esperava. Pena que a autora escorregou nos 45 do segundo tempo. Mas isso eu vou explicar com calma. Vamos à resenha.

Pra quem não conhece, O conto da aia é uma distopia teocrática. Só essa premissa já achei bem interessante. Em vez de focar numa distopia cuja ideologia política é o motor da centralização do poder, a autora utiliza um fundo religioso para criar a mesma atmosfera de medo e opressão que é tão característica da distopia.

Além disso, o livro obedece aos pré-requisitos do gênero, incluindo aí uma sociedade funcionalista (em que as mulheres eram categorizadas de acordo com sua "utilidade") e a objetificação dos personagens em diferentes momentos, especialmente para justificar fins escusos. 

Por conta disso, acompanhar a trama de Offred ("nome" da personagem principal) e a sua realidade na República de Gileade, uma ditadura que se instaurou nos Estados Unidos após o assassinato do Presidente e a derrubada do Congresso, reorganizando a sociedade com base em princípios extremistas inspirados nas ideias do Antigo Testamento da Bíblia.

Quero começar falando um pouco de aspectos do texto em si, sem entrar ainda no estilo da autora ou no conteúdo da história. Eu peguei uma edição de excelente qualidade, muito bem trabalhada. Livro novinho, papel e espaçamento agradáveis com uma letra de tamanho adequado. Não há o que reclamar aqui.

Mas logo no começo já percebo algumas coisas que apontam para o teor do livro. Além de um ou outro advérbio de modo em excesso, vejo a ânsia da autora em mostrar uma nova abordagem: "Nossa olha para mim, olha como sou moderna, olha como não respeito o recuo dos parágrafos, olha como não respeito o uso do travessão, olha como uso meia risca e em outros momentos sequer uso. Olha como sou moderna." 😂😂

Brincadeiras à parte, eu entendo o porquê dessas escolhas. Ela estava numa época em que a literatura pedia algumas coisas como essa (década de 1980). Ela não foi pioneira neste sentido, mas vê-se que era um marco mexer não só com o enredo ou partes da história, mas com a própria estrutura do texto visual também.

Agora eu percebi mais de uma vez, porém deixei de lado porque achei que era só impressão. Mas não era: o livro tem erros de digitação. Por exemplo na página 102: "quacres" para, na linha seguinte, corrigir e usar "Quakers". Sei que é algo pequeno, mas estamos falando da Rocco, que não é uma editora pequena e não deveria ter deixado isso passar. E não foi só essa, claro.

Passando ao estilo da autora, é aqui que as coisas ficam cada vez mais fascinantes. As descrições da autora podem parecer supérfluas no primeiro momento. Mas na verdade, servem a um propósito muito bem desenhado, que é mostrar como, na privação de liberdade, até as coisas mais simples fazem falta.

Tem algo que ela faz de modo consciente (me parece) e que ajuda demais a manter o clima de suspense/dúvida durante todo o livro: ela nunca aborda o assunto diretamente. Se a mulher está numa casa e tem alguma coisa estranha acontecendo, ela não fala dessa coisa. Ela fala do que a mulher está sentindo, de memórias que ela teve antes, descreve algum objeto que traz reminiscências, seja lá o que for. Mas ela não aborda de modo direto a coisa em si e, quando o faz, é por meio de algum personagem ou mesmo nessas reminiscências do passado. Essa sutileza ajuda a deixar o leitor constantemente ligado, pra tentar compreender aquilo que ainda ficou sobrando.

Bom, mas tenho certeza que é o conteúdo do livro, por meio da história e dos vários temas inseridos nela, que é o grande foco de todas as discussões e repercussões que aconteceram depois. Como a história é contada do ponto de vista de uma mulher e a grande temática do livro se dá na objetificação desta, muitos chamam o livro de uma "distopia feminista". Mas é a própria autora que diz que este termo não está correto:
Texto original: "In a feminist dystopia pure and simple, all of the men would have greater rights than all of the women. It would be two-layered in structure: top layer men, bottom layer women. But Gilead is the usual kind of dictatorship: shaped like a pyramid, with the powerful of both sexes at the apex,
Tradução livre: "Numa distopia feminista pura e simples, todos os homens teriam mais direitos que todas as mulheres. Seria uma estrutura de duas camadas: homens no topo, mulheres embaixo. Mas Gileade é o tipo comum de ditadura: em forma de pirâmide, com os poderosos de ambos os sexos no topo," (entrevista concedida do The Guardian)
Tendo posto essa questão de lado, aí sim podemos mergulhar em temas mais profundos como a própria organização da sociedade e a dominação do ser humano pelo próprio ser humano (eita natureza hobbesiana, hein?). 

Tem algo muito tenso que acontece durante a história, que poderia até ser considerado inverossímil: o lento e constante cerceamento das liberdades individuais. Porém é ainda mais terrível do que parece, por que se você ler "O pianista" perceberá que não é só verossímil, como já até aconteceu.

Definitivamente não é um livro para menores. Embora os trechos explícitos sejam bem curtos, é a atmosfera do livro que serve a um propósito mais pesado. Tudo é tenso. E isto é excelente para construção do tônus de livro de modo geral. Não se enganem, o livro não é nada ruim. Só não é para crianças ou adolescentes.

Nesse quesito de organização da sociedade, algo que é muito claro na abordagem de Atwood é seu argumento quanto à inevitabilidade da natureza (neste caso, dos impulsos sexuais) e a constante necessidade do ser humano de dominar o lado mais selvagem da sua própria natureza:
"Você não pode controlar o que sente, disse Moira certa ocasião, mas pode controlar como se comporta." (p. 230)
Por conta da temática sexual tão forte e a dominação na história ter cunho religioso, muitos podem querer interpretar isso de forma incorreta, tal como fazem na leitura de uma "distopia feminista". É importante olharmos para a obra e vermos o que ela revela por si, não o queremos enxergar nela. 

Digo isto porque não creio que a autora abomine a religião, como possa parecer. Porque ela deixa bem claro que o que aconteceu na história foi um mau uso da religião, havendo inclusive outros grupos religiosos na trama que foram importantes (quakers) e outros citados como "inimigos" do novo governo fanático. Taí, é isso. O problema não é a religião, mas o fanatismo. E é a própria autora que confirma isso:
Texto original: "I don't consider these people to be Christians because they do not have at the core of their behavior and ideologies what I, in my feeble Canadian way, would consider to be the core of Christianity,” 
Tradução livre: "Eu não considero estas pessoas como Cristãs porque elas não tem no âmago de seu comportamento e ideologias o que eu, na meu humilde entendimento canadense, considero como sendo o âmago do Cristianismo," (conforme entrevista que ela deu nesta ocasião)
Agora, infelizmente, o livro terminou pra mim com um problema. E vejam bem, não tem nada a ver com o enredo. Tem a ver com o que eu caracterizei como "escorregadas literárias" da autora. E olhe que, via de regra, isso não é problema. Aliás, é muito comum nós encontrarmos em diferentes livros algum detalhe que não nos agrade. Mas, quando a história é muito boa, conseguimos deixar isso de lado e seguir em frente. O problema é que Atwood cometeu três erros desse tipo um atrás do outro... e logo no final.

A primeira escorregada aconteceu do capítulo 40 para o 41, quando ela fez algo que quebrou o encanto para mim: o uso excessivo de ilusões, constantemente desconstruindo as cenas anteriores. Esse recurso eu acho péssimo. Porque o leitor já gastou o tempo dele lendo trechos, mergulhando na cena com a personagem, só pra logo em seguida a autora dizer: "Ah, mas não foi bem assim, na verdade aconteceu isso aqui." Aí dois parágrafos depois ela faz exatamente a mesma coisa. Criando outra ilusão!

Some-se a isto o segundo problema, que foi a quebra exagerada da quarta parede. Conquanto já tivesse feito isso no decorrer do livro, fê-lo de modo agradável, sem exagerar, adereçando de um modo que contribuísse com a história, aqui neste final gastou tempo demais utilizando esse recurso de modo mais direto do que o necessário e a troco de muito pouco ou quase nada.

A gota d'água pra mim foi o terceiro deslize: quebrar as regras do jogo que ela mesma estabeleceu. Vejam bem, durante todo o livro ela constrói as coisas com calma, devagar, mostrando as nuances da personagem e seus problemas. Não acontece nada de muito impressionante no livro, não há grandes reviravoltas nem super acontecimentos, mas a gente simplesmente fica vidrado em tudo que tá acontecendo... porque ela faz isso com uma calma agonizante! 

Mas aí ela faz isso durante o livro inteiro pra lá no final me aparecer com um apaixonamento súbito?? Oras, foi contrastante demais com o resto do livro e pareceu jogado à força pra complementar o roteiro. E pra que fim até agora eu não entendi. Em basicamente uma linha ela entregou a personagem a uma paixão que não foi abordada em nenhum outro momento!

Olha, esses três problemas não seriam nada demais se estivessem espaçados no livro. O problema é que eles vieram um atrás do outro (sério, foi logo em seguida, todos eles) e ainda muito perto do final, onde a autora não tinha mais espaço pra se recuperar. A brincadeira da autora com ilusões estragou o clímax. Porque a gente simplesmente não sabe se foi verdade ou uma mera ilusão e a nossa experiência torna-se ilusória também.

"Ah, mas isso aí foi o recurso que ela usou pra deixar o final dúbio". Então me explica porque ela acrescentou no final do livro aquela explicação metaficcional sobre os acontecimentos do próprio livro? Quando ela fez aquilo, cristalizou toda a aura de mistério que sobrou no final da trama propriamente dita. Enquanto deixou o final mais redondinho, tirou os "ecos" que poderiam reverberar daquele final.

É, meus caros. Não fosse esse problema aí no final, eu não teria praticamente nada de ruim a falar do livro. Porque pense numa leitura fantástica! Não foi à toa que devorei o livro em dois dias. E olha que faz um tempo que não conseguia uma proeza dessa. A leitura é fenomenal e, se você tiver mais de dezoito anos e uma mente pelo menos um pouquinho aberta, vale a pena a leitura.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Resenha - A volta do gato preto

VERÍSSIMO, Érico. A volta do gato preto. São Paulo: Globo, 1996.


É, meus caros. Estamos de volta para mais uma resenha do maior escritor brasileiro de todos os tempos. Confesso que estou num misto de nervosismo e tristeza. Depois deste livro, faltarão apenas mais dois para que eu termine a leitura completa de toda a obra de Érico Veríssimo. E, pra piorar, vou terminar com as autobiografias dele. Tanto a primeira parte, como a segunda, que ele não conseguiu terminar antes de morrer. Mas por enquanto vamos nos focar nesse aqui. 

A volta do gato preto é uma referência direta a Gato preto em campo de neve, ou seja, uma continuação das peripécias do autor em terras yankees nos anos 1940, dessa vez acompanhado pela esposa e os dois filhos. Engraçado como na resenha que fiz do primeiro livro, falei como o autor usou o simbolismo do gato preto contra o campo de neve para representá-lo na sua viagem. Pois bem. 

O autor inicia este segundo livro falando que todo mundo achou que era justamente isso que ele queria fazer. Mas não tinha nada a ver. Ele simplesmente viu um gato preto correndo num campo de neve e aquele contraste foi tão bonito que ele resolveu usar como título. Só isso. Pelo menos é o que ele diz, haha.

Bom, assim como o primeiro, o estilo desse livro é marcado por ser um conjunto de relatos. Isso precisa ficar claro desde o começo e o leitor precisa ser paciente. Porque ainda que os relatos caminhem com um propósito, não há um senso objetivo de história, tampouco um ticking clock que imprima um senso de urgência.

Por conta disso, tem vários momentos que o excesso de descrições serve apenas pra gerar uma impressão histórica de alguns fatos e às vezes nem isso, limitando-se às impressões de Veríssimo sobre algum fato. Claro, isso é condizente não apenas com a proposta do livro, mas também com uma época em que livros eram uma importante fonte de informações. Porém pode ser entediante.

Além disso, percebe-se que Veríssimo quis dar um tom mais despojado ao livro. Isto se nota não só no estilo, mas até na revisão. Tem um bocado de advérbios de modo que achei desnecessários e umas boas aliterações que poderiam ter saído. Mas eu presumo que o autor viu isso e, por conta do estilo do livro, resolveu deixar. 

Mais perto do final do livro, Érico introduz vários pequenos ensaios sobre a vida nos EUA ou impressões do povo americano. Para isso cria um alter-ego (Tobias) e dialoga com ele. Mas, sinceramente, acho isso extremamente aborrecido. Não sei até que ponto isto fica bem num livro de memórias. Talvez seja novamente reflexo de uma época em que os livros informavam bastante ou, talvez, seja só porque o autor já estava num ponto em que podia se dar ao luxo de simplesmente colocar no livro o que quer.

Passando às impressões do autor sobre algumas coisas, se mudar com a família para um país tão diferente não deve ter sido uma tarefa fácil. Mas Érico Veríssimo já havia comentado o quão importante fora o apoio de sua esposa para sua carreira. Isto fica evidente em vários trechos do livro em que ela o apoia das maneiras mais simples. Nisto encontro um paralelo com Steohen King, para quem o apoio da esposa também foi essencial, como ele mesmo falou.

Eu sei que eu já falei isso várias vezes e até chato de tanto que eu falo. Mas é impressionante demais para não se notar. Como será que às vezes eu consigo ter as mesmas impressões de um homem vivendo em uma época tão diferente da minha? Como pode ser que a realidade do Brasil tenha se permanecido a mesma depois de mais de 80 anos, apesar de tudo? Veja esse trecho e me diga se você também não concorda:
"[...] fico a pensar no que poderia ser a nossa gente brasileira no dia em que passasse a comer direito, a ter assistência médica e mais escolas; no dia, enfim, em que a mortalidade infantil fosse reduzida ao mínimo possível, e em que houvesse melhor distribuição de oportunidades para todos..." (p. 47)
Esse tipo de reflexão social é tão certeira e terrivelmente atual que não podemos evitar a surpresa. Caramba, quem é que não concorda com ele? Quem é que não tem o mesmo sonho dele? E, o pior, quem é que não fica assombrado em ver que tantas décadas depois a situação não melhorou tanto assim?

Tendo lido Érico Veríssimo desde a infância, me pergunto até que. Eu e ele realmente pensamos de maneira igual ou a sua influência foi tão grande sobre mim que hoje reconheço nele fragmentos de coisas que penso ou acredito. Eis o grande dilema da formação do eu.

A gente precisa lembrar que o autor está nos EUA, mas num contexto de Segunda Guerra Mundial. Por isso ele sofre com as mesmas dúvidas que todos os artistas têm durante todas as suas vidas: o que um escritor, um músico, um pintor pode fazer para contribuir com a sociedade? Conclusão dele é muito simples: ele deve fazer o que pode.

Ainda sobre as impressões de Veríssimo, duas vezes Érico Veríssimo descreveu Nova Orleans. Duas vezes me deu vontade de conhecer aquele lugar pessoalmente.

Quanto às poucas aventuras que quero destacar dentre os tantos que ele passou, lembro de novo aqui a época em que ele estava nos EUA. Gente, a Segunda Guerra Mundial não foi um capítulo secundário na história dos nossos vizinhos do norte. Pra vocês terem uma noção, Veríssimo estava nos EUA quando o presidente Roosevelt foi assassinado. Até seus filhos sentiram o baque que aquilo foi para a nação. Todo esse contexto de Guerra levou a momentos únicos:
"Creio não estar simplesmente fazendo uma frase se afirmar que a explosão dessa bomba sobre Hiroshima foi como o estrondo dum gongo colossal, marcando a abertura duma nova era para o mundo." (p. 516)
Mas o principal fato que gostaria de deixar registrado aqui é que Veríssimo simplesmente não apenas encontra, como é o intérprete de Villa-Lobos quando este vai aos Estados Unidos por conta de um concerto!! Eu não sei como reagir a isso. Parece um daqueles crossovers de séries ou filmes que a gente sempre espera ver. Ah! O que eu não daria pra ver estes dois lado a lado. Até Stravinsky aparece no bolo!

Mas, pelo que me parece, eles não poderiam ser mais diferentes. Enquanto estou acostumado com um Veríssimo meio cabreiro e quase recatado, encontro em Villa-Lobos um excêntrico e egocêntrico personagem. Enquanto Veríssimo admite que no começo não gostava muito de estar perto do maestro, ao final passa admirar aquela pessoa que não tem medo de falar o que pensa ou sente, sem se importar com o que os outros vão achar dele.

Sobre literatura, de modo geral (ou "dicas literárias"), Veríssimo comenta algumas coisas que eu achei digno de deixar anotado, até porque este pretende ser um blog de um escritor, rsrsrs. 
"Queres um conselho de amigo? Quando te sentires cansado, aborrecibo de toda a rotina da vida, compra umas calças amarelas." (p. 158)
"Literatura! Pura literatura. A vida não cabe assim em conceitos e imagens." (p. 189)
"O marido de Joan Bennett me oferece um cigarro. Infelizmente não fumo. Mais uma vez me convenço de que fazer a personagem fumar é um excelente recurso para o ficcionista, um jeito natural de criar pausas na narrativa." (p. 320)
Ainda sobre isso, Veríssimo deixa escapar um pouco do que sofre no Brasil em relação ao que escreve. Vejam bem, o estilo de Érico Veríssimo pode ser facilmente chamado de "realismo", porque ele não tem pena em mostrar as misérias sociais e problemas que os personagens enfrentam. Porém, isto é inserido numa época em que o governo brasileiro queria a todo custo evitar que tal imagem fosse exposta tanto para o Brasil como para o mundo. Daí muitos críticos dizerem que a literatura de Érico Veríssimo era "indecente", e que não visava os bons costumes.

Por fim, meus amigos, o que tenho a comentar não é muito profundo, mas preciso comentar. 

A verdade é que Érico Veríssimo teve uma sorte desgraçada que acho que nenhum outro brasileiro teve. Meus amigos, ele morou dois anos nos EUA com tudo pago pelo governo americano. Isto é absolutamente impensável! Com a Política da Boa Vizinhança, os EUA se aproximavam dos vizinhos sul-americanos enquanto davam a Veríssimo uma oportunidade ímpar. 

Não vou mentir, invejo-o um pouco. Quem não gostaria de 1) viver da sua arte; 2) ser pago para viajar e falar a outras pessoas sobre a sua arte? Sonhos, sonhos impossíveis.

No final do primeiro livro, minha impressão foi de que Érico Veríssimo não falava apenas de suas aventuras, mas falava de esperança (só ver lá a resenha que fiz). Mas neste aqui, eu já acho que não é bem isso. Talvez abatido pelos horrores da Guerra, o que Veríssimo faz aqui com maestria é apontar para a saudade. E disso eu entendo muito bem, Érico.

Eu morei nos EUA, terminei meu Ensino Médio lá. Ano passado (2019) fiz outra visita por conta da reunião de 10 anos do fim do Ensino Médio. Saudade é a palavra que impera quando lidamos com aquelas paisagens incríveis e com aquelas pessoas que conhecemos. Calma, não estou subestimando o Brasil. Não é isso. É o que quando a gente mora em um lugar assim, o lugar não é o lugar. O lugar são as pessoas. E é delas que sentimos mais falta. 

No final das contas, a gente tem saudade de sorrisos, abraços, conversas e oportunidades. Mas a vida precisa seguir em frente. O jeito então é sacudir os ombros e olhar pra cima, na esperança de que a saudade nos traga pra sempre bons momentos.