quinta-feira, 4 de junho de 2020

Resenha - Of mice and men

STEINBECK, John. Of mice and men. London: Heinnemann Educational Books: 1975.


Eu nem sei como começar. Li este livro pela primeira vez em 2009, por conta de uma classe na escola. Hoje, praticamente 10 anos depois, tive coragem pra revisitar a obra. Digo revisitar porque, mesmo tendo passado tanto tempo, eu lembrava do final. Eu lembrava da dor. Não lembrava de cada pequeno detalhe, mas conseguia sentir a mesma emoção mesmo sem ler de novo.

Não é à toa, portanto, que um livro desse marcou uma geração e se tornou um marco da literatura no século passado. Até o meu grande mestre Érico Veríssimo considerava Steinbeck um dos maiores escritores do mundo, tratando sempre dessas temáticas que falam da essência da vida e condição humana na terra. 

Ah! Fato curioso: "Of mice and men" foi lançado em 1937 e traduzido para o português pela primeira vez em 1940. A tradução veio por conta da editora Globo. E o responsável pela tradução? O próprio Érico Veríssimo.

Bom, voltando à minha leitura. Comprei o livro num sebo e descobri que ele pertenceu a uma estudante de inglês. Obrigado por ceder este livro ao mundo, Valéria Mendes Vieira, que provavelmente ganhou seu livro em 19/02/1982. Como você mesma disse em 27/02/1982, realmente: "Viver é estar em busca de uma constante realização."

Há um charme especial em ver a história dos livros e sua caminhada. Traz um pouco mais de respeito e consideração sobre as coisas. Talvez se fizéssemos o mesmo com as coisas que estão ao nosso redor, tudo duraria muito mais tempo e teríamos mais coisas para mostrar aos nossos filhos e netos.

Eu divago sem necessidade. Isso aqui é pra ser uma resenha. Culpa do livro.

"Of mice and men" é a história de George e Lennie na Califórnia da década de 1930, arrasada pela Grande Depressão. É uma história que fala de temas profundos: sonhos, desilusão, esperança, morte, solidão, o famoso "sonho americano" e as durezas da realidade. Eu peço perdão, mas não vou me aprofundar mais do que isso no enredo. Não posso correr o risco de destruir a beleza deste livro para outros leitores. Amigos, são meras 107 páginas que mergulham com profundidade na condição humana.

Uma vez que eu já havia lido esse livro, resolvi que dessa vez (e pela primeira vez, aliás!) eu o leria com os olhos do escritor. Não ia deixar de desfrutar dele, mas também não me deixaria carregar de maneira tão inconsciente. Por conta disso, ao fim de cada capítulo eu pensava: "O que foi que o autor fez aqui? Por que ele fez isso?"

Disso resultou a pior análise literária já feita deste livro tão magnífico. No meu humilde caderninho de anotações literárias, surgiram alguns questionamentos e até algumas revelações que eu não teria percebido de outra forma (como o fato de Lennie ser o personagem principal e não George). 


Essa nova forma de olhar o livro me ajudou a perceber e ficar ainda mais maravilhado com a genialidade de Steinbeck. Ele está fazendo o que eu e Veríssimo mais gostamos: contando as histórias das nossas vidas, histórias do cotidiano: onde as coisas mais fantásticas podem acontecer.

O livro trata de temas sociais de maneira muito clara, mas sem ser "preachy" ou piegas. Essas temáticas foram tão fortes que o livro chegou a ser proibido em alguns lugares por tratar de maneira tão clara algumas dessas questões. Quanto a isso, trago uma única citação, a do negro Crooks (e acho que isso convém, tendo em vista o momento que estamos vivendo, especialmente nos EUA):
'You're lucky' Crooks continued. 'You've got somebody who goes around with you and talks to you. I've got nobody.' (p. 51)
Durante todo o livro eu achava que Lennie era um dos excluídos. Mas isso não era verdade. Esse foi um dos erros que só percebi depois da minha análise. Enquanto Crooks, Candy e a esposa de Curley eram os verdadeiros excluídos, porque estavam sós, Lennie era diferente dos outros. Lennie tinha o George. Desde o começo até o fim. Até o fim. Ele tinha o George.

Meus amigos, a resenha acabou. Foi muito mal feita, porque não falou quase nada do enredo. Mas a verdade é que não tenho ânimo para encarar esse enredo de novo. Preciso de outros 10 anos para me preparar. Porém não encare isso como um desencorajamento: por favor leia esse livro. Ele me abalou, não porque seja ruim ou porque trate um tema mau. É o contrário. Esse livro me abalou pela sua beleza.

Leia-o.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Resenha - Antes do Éden

LITTLETON, Mark. Antes do Éden. São Paulo: Candeia, 2001.


Fala, meu povo. Vamos começar direto com o enredo desse livro, porque a maior parte dos comentários será sobre outros tópicos, pouco relacionados com a história em si. 

Antes do Éden conta a história de Aris, Rune, Cere e Tyree: anjos que estão nos eventos da rebelião ocorrida no céu, antes mesmo da criação do mundo. Como é de se esperar, eles veem o surgimento da rebelião de Satanás e depois sua consequente expulsão do céu, junto de seus anjos. 

Na revolução, Rune e Cere escolhem ficar do lado de Kyrie (Deus) enquanto Tyree e Aris escolhem "não escolher." Deus concede essa oportunidade, mas logo Tyree se debanda para o lado de Satanás, deixando Aris nesse "limbo celeste", em que ele não adere a nenhum dos lados e pode transitar tanto no céu quanto no inferno. Daí você já começa a perceber como a coisa é sem pé nem cabeça.

Depois o autor estende a história até pouco antes de Noé e o dilúvio, com os descaminhos do personagem principal, Aris. É isso. 

A primeira coisa que tem que ficar clara é: isto é FICÇÃO! Ninguém sabe ao certo o que aconteceu naqueles tempos, a Bíblia não revela. Não sabemos como ou por que as coisas aconteceram daquela forma, mas somos livres para conjecturar. Isto é, desde que entendamos que tudo isso não passa de ficção! Eu fico triste quando vejo gente lendo isso e tomando como verdade as interpretações (e acreditem, acontece).

Por ser ficção, o livro naturalmente tem algumas limitações que são esperadas. Como falar ou pensar como um anjo? Não dá. Como descrever ou saber como se comportar no céu? Não dá. Tudo bem. É ficção e a gente entende isso, são as regras do jogo. Logo, algumas limitações previsíveis se tornam presentes, como: o comportamento dos anjos e sua forma de pensar se tornam humanos, as descrições do céu são necessariamente terrenas, e por aí vai.

Eu conheço que há momentos em que o livro não deixa de brilhar. Na cena da eclosão da rebelião, quando Lúcifer desafia Deus diretamente, ficamos com o coração na mão. Também na cena de Aris e seu encontro quase fatal com a humana Motta somos tomados pelo sentimento que o anjo sentia. Infelizmente não há muitas outras como essas.

Penso que o livro perdeu foco por estender o enredo. Talvez a história devesse ter acabado após a Rebelião e a criação do ser humano. Mas o autor foi muito além, chegando até o dilúvio! A leitura ficou muito extensa, numa sucessão interminável de eventos, mas sem saber onde de quer chegar. Essa falta de propósito objetivo prejudica o desenvolvimento da trama.

Passando à escrita em si, logo no começo já vemos algumas coisas. Logo de cara encontrei um problema que se repetiu pelo resto do livro: excesso de adjetivos. Por favor, não me diga que o prédio era "sombrio e tenebroso, cheio de rachaduras medonhas". Faça o favor de escrever direito e mostrar ao leitor, não apenas contar.

Os adjetivos a gente pode até deixar passar, mas o problema mesmo é o vício terrível e insuportável do verbo "parecer" (veja como eu usei muitos adjetivos nessa frase e ela ficou carregada, né?). Sobre o vício: ou é ou não é, meu filho. Decida aí. O uso exagerado do verbo parecer só aponta pra uma insegurança do autor em falar as coisas. Além disso, "parece" para quem? Pra mim? Pro personagem? Pra um terceiro? O verbo leva a muitas subjetividades que só prejudicam o bom entendimento do texto.

Ainda no começo do livro, há uma exuberância de nomes estranhos de categorias de anjos, plantas, lugares e não há tempo suficiente pro leitor se familiarizar com eles. Entendo o propósito a que serve, mas ficou um pouco exagerado. Como bom amante de fantasia eu aprecio, mas o excesso prejudica, alguns trechos ficam bem difíceis de entender, ainda mais porque o autor não é bem "didático" na hora de apresentar e explicar as categorias de personagens ou objetos que ele criou. Vejam só:
"[...] um Hauker com vários Liminnines nas costas e um membro óbvio dos Harpistrers. Nenhum de nós sabia quando o Kinderling olhos furtivos apareceria novamente [...]" (p. 67)
É o que? 
(Aliás, veja que nesse minúsculo trecho, o autor não consegue evitar dizer que o membro era "óbvio" e que os olhos eram "furtivos", isso sem contar com o advérbio de modo. O texto precisava de uma boa enxugada ainda).

Analisando como escritor percebo que o autor se valeu muito do intertexto para configurar o começo do livro, ou seja, ele usou o conhecimento que o leitor já teria dessa história pra não precisar contextualizar muito. Digo isso porque tem pouca ação, a história se move para frente de um modo devagar. O autor acaba não tendo tanta pressa porque todo mundo sabe o que vai acontecer.

Há vários problemas de verossimilhança, especialmente no relacionamento Adão e Eva pós-queda. Não creio que eles tivessem sido tão gentis um com o outro do jeito que o autor pintou. O comportamento de Caim e Abel no sacrifício fatídico é tão infantil que deu cringes. Inclusive, de maneira geral, ele coloca o comportamento do ser humano de modo muito infantil.

O trato entre cenas não é bem trabalhado porque é inconsistente: às vezes é bem encaixado, às vezes é bem desconfortável. E falando nisso, alguns diálogos são bem desconfortáveis: tem horas que são bem formais e outras cheias de gírias ou expressionismos, não raro com o mesmo personagem.

Passo agora a abordar algumas dificuldades de edição e diagramação do livro. 

Sobre a edição do livro em si (não do texto), embora tenha uma capa bem trabalhada e uma qualidade de páginas razoável, o livro é um pouco maior do que o comum e embora pareça besteira, isso dificulta a leitura. Como as páginas são muito largas, a leitura fica muito ampla e os olhos têm que ir demais até o fim da página, não dá pra centralizar direito. Sim, com o tempo eu fiquei mais fresco com leitura.

Sobre a diagramação, ela é um problema do começo ao fim do livro. Há problemas sérios com diálogos entrevistados no meio de parágrafos. Deixa poluído e confuso. No começo era só desconfortável; mas conforme isso se repetia, tornou-se cansativo. Frases quebradas, parágrafos iniciando no meio de outros, vírgulas soltas. Além de ler a história a gente tinha que ler a leitura pra saber o que estava lá. Eu, hein.

Quanto à tradução, ela tem problemas clássicos (tradutore, traditore, né?). O mais evidente é o de traduzir as palavras e não os significados. Em alguns momentos dá impressão que o autor ou o tradutor quis mostrar sua erudição ao escolher palavras complicadas que, no contexto, perdem toda sua elegância. Além, claro, de traduções literais sofríveis.

Por fim, nós temos as questões de doutrina, o grande perigo da ficção cristã.

Escrever sobre este assunto já seria complicado, avalie quando aborda um assunto tão difícil de entender. O âmago de todas as dúvidas na verdade é: qual é a origem do mal? Não pretendo responder essa pergunta, não é espaço para isso. 

O cerne do livro é um "livre arbítrio" dos anjos. Infelizmente não temos base bíblica para deixar isso claro e realmente não tem como saber com certeza. O interessante, porém, é que mesmo que fosse verdade, não explica o seguinte: por que seres santos, dotados de "livre arbítrio", logo, plenamente capazes de escolha, optariam por se rebelar contra Deus? Eis a questão (que também não vou responder).

O livro incorre no erro fatal que eu sempre condeno: tornar Deus um personagem da história. E aconteceu exatamente o que eu disse que aconteceria se isso acontecesse: ele vira humano, ele erra, ele tem dúvidas. Ele deixa de ser Deus.

Além disso, o autor não consegue compreender que Deus merece ser adorado simplesmente por quem Ele é. E que isso, por mais estranho que pareça, é na verdade o melhor para as criaturas que Ele criou! Ele não precisa da adoração mas permite que seja adorado para o bem das próprias criaturas. Escrevi sobre isso neste e neste post do meu outro blog (se este assunto te interessou, não deixe de ler! Poderá esclarecer dúvidas que você tenha).

No final, naturalmente, a questão descamba para o "livre arbítrio" humano e Deus se torna um ser cada vez mais impotente. Na verdade, fica cada vez mais claro que o personagem retratado no livro não é o mesmo Deus que eu acredito. E fica provado que enquanto houver doutrinas teológicas que defendam o "livre arbítrio", Deus sempre será limitado a um ser que não tem onipotência e precisa assistir com tristeza todo o Seu plano "dar errado". Desculpa gente, mas é ridículo.

O livro é cheio de boas ideias, mas todas mal trabalhadas. Parece que o autor pegou todas as ideias boas a respeito do tema (e as ideias são realmente boas), juntou tudo num mesmo livro e tentou conectá-las da melhor maneira. Mas no fim permanece exatamente isso: o livro é uma colcha de retalhos, não uma unidade. Tem momentos que é interessante, mas tem muita coisa que é sofrível.

No fim das contas, claro exemplo de que até a melhor das ideias, se não for bem trabalhada, não produz um bom livro.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Resenha - Vivendo um chamado

VIDAL, Luci Vasquez. Vivendo um chamado: quando dizemos sim para Deus. João Pessoa: Betel Brasileiro Publicações, 2018.

"Até hoje, sou tão feliz com minha vocação quanto no dia em que tive minha primeira experiência missionária. Perseverei em seguir ao Senhor, meu Deus. Sua misericórdia e bondade me acompanharam. Nunca se apa gou em mim a chama de meu chamado missionário." (p. 175)
Meus caros, esta leitura foi um bálsamo depois do emaranhado que foi a leitura anterior. Esta é a biografia de Luci Vasquez Vidal e foi um grande privilégio ter lido este livro. Eu não sabia o que esperar, mas acho que não esperava tanto. Deixa eu contar pra vocês.

Faz um bom tempo desde a última vez que li uma biografia, então foi bom pegar este livro pra espairecer um pouco. A escrita do livro é clara e a gente vê que há uma certa fluência de autora iniciante. Apesar da falta de treinamento literário (que fica evidente em alguns diálogos, por exemplo) a leitura é imersiva. Somos fisgados e queremos saber quais as histórias que Luci tem para contar, por exemplo, dentro da aldeia potiguara, ou no Japão, ou na Itália. Cada história é melhor que a outra e essa diversidade proporciona uma leitura que não cansa.

Pra falar a verdade, biografias são sempre um dilema. Porque o autor precisa escolher os fatos relevantes para colocar e este não é um trabalho fácil. Eu não sei até que ponto Luci realmente lembrou de tudo que escreveu ou fez pesquisa – mas se tiver sido de cabeça ela tem uma memória fantástica. Há trechos com detalhes bem específicos.

Por outro lado, acho que no livro entraram muitos detalhes que não são tão importantes, fica parecendo mais uma catalogação. Além disso, às vezes repete muitas informações que já foram ditas em capítulos anteriores, muitas vezes coisas que o leitor acabou de ler. Talvez a autora tenha feito isso de modo a honrar pessoas ou lugares no registro; mas que fica cansativo isso fica.

Uma coisa que devo apontar é que vejo que ela tem pontos teológicos em que discordamos, mas ela é bem discreta quanto a eles, focando mais na trajetória da sua própria vida. Pra vocês terem uma ideia do quanto essa diferença doutrinária é pequena, eu ouso afirmar que é impossível ser crente e não se emocionar com a leitura do livro.

É absolutamente lindo conhecer os frutos do trabalho de Luci. Eles evidenciam como o trabalho de uma só pessoa pode transformar tantas vidas. Cito por exemplo duas meninas indígenas que a acompanhavam na aldeia. Luci as levou pra cidade, depois elas voltaram e sua família se tornou uma bênção para a comunidade. E isto não aconteceu apenas aí, há vários exemplos de pessoas que, por causa da ação de Luci, tornaram-se bênção para muitas outras.

E já que estamos falando de aprendizado aqui, preciso falar do que foi o cerne desta leitura pra mim. Este livro me ensinou muitas coisas. Uma delas foi que eu não confio plenamente no Senhor, mas quero depender das minhas próprias forças.

Quando Luci foi convidada para ser diretora do Seminário do Betel Brasileiro, ela estava ciente das grandes responsabilidades e também não tinha certeza se era totalmente capacitada. Não obstante, uma vez que ela sabia que aquela era a vontade de Deus, ela seguiu em frente. Comigo é o contrário. Eu só me dou a fazer as coisas quando sei que já estou capacitado.

Parece que eu estou constantemente dizendo:
– Por que eu sei que consigo, agora posso fazer o que Deus quer.
Enquanto Luci diz:
– Por que eu sei o que Deus quer, agora sei que consigo.
"Até hoje, sou tão feliz com minha vocação quanto no dia em que tive minha primeira experiência missionária. Perseverei em seguir ao Senhor, meu Deus. Sua misericórdia e bondade me acompanharam. Nunca se apagou em mim a chama de meu chamado missionário." (p. 169)
Não há muito mais o que falar. O livro é muito bonito e vale a pena a leitura. É uma típica biografia. Aliás, se um dia fizerem uma segunda edição, tenho ideias de perguntas a serem respondidas: Luci nesse tempo todo nunca se apaixonou? Nunca pensou em constituir família?

No livro, Luci é apresentada de maneira lúcida, ela sempre tem dúvidas e sempre busca a Deus. Mas eu queria ver aspectos ainda mais humanos: quando Luci errou? Quais foram esses erros? Como eles moldaram seu caráter? Esse tipo de abordagem é o que torna uma biografia verdadeiramente marcante. Vai além das experiências da pessoa e mostra a essência da pessoa. 

Apesar destas ideias, a verdade é que o livro já está pronto para ser lido. Esse sou apenas eu querendo a continuação da história. Podem ler o livro, eu empresto (e olha que isso é raro). Só me arrependo de não ter lido esse livro antes.

domingo, 3 de maio de 2020

Resenha - Sarah

CARD, Orson Scott. Sarah: Women of Genesis (Book I). New York: Forge Books, 2001.


Este foi, sem dúvida, um dos piores livros que já li na vida. Embora seja evidente a capacidade literária do autor, dada a imersão que o livro produz além da escrita de qualidade (percebe-se que o autor tem experiência com literatura), não justifica o terror que foi o decorrer do livro. Aguentem comigo, porque vou explicar.

Vamos começar falando das coisas boas, porque eu preciso reconhecer que há. A maioria delas está ligada à maturidade literária do autor. Passagens bonitas e bem escritas como essa abaixo:
"Everyone in Ur-of-the-north treated Father with great respect and honor, even though the was a king without a city. But this Abram did not need others to give him his honor. He carried it within himself." (9)
Além disso, a construção e contextualização social e política é bem trabalhada além de verossímil para uma época onde basicamente todos viviam no estado de natureza hobbesiano. Me refiro à política da mesopotâmia e do Egito e claro a construção social da de uma tribo beduína "hebraica", que é bem condizente também.

Interessante também como o paganismo é construído de modo derivado da verdadeira religião (que é exatamente como acontece!). Por exemplo, Asera, que é uma deusa-mãe na cultura pagã dos caldeus e vários outros povos daquela região, na verdade era simplesmente Eva, mas que aos poucos grupos religiosos passaram a atribuir status de deusa. A deturpação da verdade na sua essência. Ah, e se tem uma coisa que esse livro entende é de deturpação da verdade. 

Pronto, acabaram os pontos positivos do livro. Preparem-se.

Vamos aos pontos negativos literários. Primeiro, não sei até que ponto é verossímil uma menina de 10 anos pensando e agindo do jeito que Sarai age no começo do livro. Tudo bem que eram outros tempos e outra cultura, onde meninas de treze anos já estavam aptas a casar. Não obstante... não sei, achei forçado. 

Em vários momentos o livro tem uma transição corrida, por exemplo de Sarai jovem para Sarai com crise de meia idade. Isso faz com que o livro tenha mais momentos de "contar" do que "mostrar". Os diálogos também deixam a desejar em alguns momentos, embora, do meu ponto de vista, eles tenham sido bem trabalhados de modo geral.

Além disso, acho que houve um hiato na escrita do livro por que no final Abraão parece um personagem diferente mais humano mostra raiva medo. Stephen King alertou sobre isso: quando se escreve uma história, o ideal é fazer tudo de uma vez, pra não correr risco de descontinuidade. 

Pronto, acabaram os problemas literários. Preparem-se de novo, porque agora é que o bicho pega.

O livro tem um problema seríssimo de doutrina!! Há muitas heresias na história. Nossa muitas mesmo. Eu elenquei o tanto quanto aguentei, mas deixei de registrar algumas porque eu já não conseguia mais suportar. Chega um momento que se a gente dá atenção de mais, acabamos por honrar aquilo que deve ser menosprezado. 

A começar, a primeira heresia foi que foi Deus quem mandou Abrão mentir sobre Sarai ser sua esposa. A partir deste momento fiquei de orelha em pé pra cada passo que o livro dava na história. Deus não nos comanda a pecar, jamais! A Bíblia é muito clara quanto a isso:
Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta. (Tg. 1:13)
E o pior, é que o autor tem uns trechos no livro que apontam justamente para a sua hipocrisia, ou melhor, cegueira espiritual. Tem coisas que os personagens faz que são condenáveis, como bem exposto pelo autor, mas que ele mesmo o faz na escrita do livro. Olha só como é reveladora essa passagem:
"As to Pharaoh being a god, no man could equal such a claim, and in Sarai's opinion calling a man a god did not elevate the man, it only diminished the idea of godhood." (p. 93)
O livro me deixou oficialmente irritado. Sério, com raiva mesmo. Eu tinha a vã esperança que o autor consertasse o erro, mas ele manteve. Como se Deus tivesse ordenado a mentira e Faraó castigado no fim. Absolutamente ridículo. 

Brincar com a Escritura e cair na heresia é um dos meus grandes medos ao escrever. Por isso sempre tenho muito cuidado pra nunca mexer em nada com espinhos. Há terra o suficiente pra plantar sem precisar ser polêmico ou incorrer em erros. Que Deus conceda livramento para que eu sempre seja fiel à Palavra da Verdade.

Continuando, a situação só piora: Abrão é tratado no livro como um santo. Sempre certinho, sempre sábio, paciente, bondoso, nunca errando... É de dar nos nervos. E na tentativa de preservar a pura santidade de Abrão, feriram a divina. Porque Abrão não mente, não erra, não peca, mas coisas ruins acontecem. Ora, se ele não é o culpado... só pode ter sido o Deus que ordenou o pecado.

Há um limite de heresias que uma pessoa consegue aguentar. Tem que haver. Eu aguentei uma. Uma. Depois da primeira, eu segurei a onda e continuei a leitura com quem diz: "Coitado, só um pequeno lapso." Mas a partir da segunda tive vontade de jogar fora o livro e nem terminar a leitura. Mas pelo bem desta resenha e da preservação da verdade, eu precisei seguir em frente.

A coisa vai afundando cada vez mais. Não sei como dizer isso de outra maneira: o autor desenhou o enredo de modo que dar Agar para Abrão coabitar e ter um filho... foi ideia divina.

Não olhem pra mim, não fui eu quem escrevi (e jamais escreveria algo assim!). Como pode o autor ser tão cego para a verdade? No começo eu achei que ele havia se enganado, mas agora é mais que evidente que ele fez tudo de propósito! Na cabeça dele tudo que aconteceu foi tão santo, tão puro, tão certo, que ele esqueceu completamente do pecado! Do pecado de Sarai, de Abrão, de todos!
"Porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus," (Rm 3:22c,23)
Não é só inverossímil que o adultério de Abrão tenha sido algo abençoado por Deus, como se fosse um jeitinho para a promessa de Deus dar certo; não é só revoltante pensar que Deus apoiaria algo assim; não é só um desacordo com a Bíblia. É revoltante, é uma ofensa, é uma agressão à natureza divina. Maldito seja este pensamento de um Deus que é conivente com o pecado. Maldito.

Assusta-me, causa-me realmente grande temor que escritos como este estejam soltos por aí e, pior, que muitas pessoas talvez não consigam captar as sutilezas do texto. Que o Espírito Santo do Senhor tenha misericórdia dos neófitos e daqueles que não têm a quem recorrer nos momentos de dúvidas, para que não sejam levados pelos ventos de doutrina; que Ele envie cada vez mais servos para alertar o mundo quanto aos perigos das falsas verdades; que Deus nos livre homens como este autor, homens que:
"Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível" (Rm. 1:22-23b)
A partir desse momento tornou-se muito difícil fazer uma resenha mais ou menos neutra do conteúdo ou até mesmo apreciar as qualidades literárias dele, como eu pelo menos tentei fazer até então. Mas como poderia sequer fazer isso?

Como ser imparcial quando o autor diz que Agar foi a vilã da história o tempo todo? Que Abrão e Sarai estavam apenas tentando cumprir os propósitos de Deus? É de um absurdo sem tamanho! Ainda mais cometendo a gafe literária de criar uma situação que é obviamente inverossímil: Abrão, Sarai e Agar vivendo no mesmo lugar e mantendo aparências como se nada tivesse acontecido.

Será que ele simplesmente ignorou que Abrão fez sexo com outra mulher? Só este pequenino fato já é suficiente para corromper e modificar toda a relação de uma família! Argh, mal consigo me conter. O autor tenta com todas as forças contornar isso apelando para a regra antiga que Agar era escrava de Sarai, portanto, sua propriedade e tudo que vinha dela era seu por direito. Que grande absurdo. A própria narrativa mostra o rompimento fatal que houve não só na família mas entre todos os outros da comunidade com a situação mais do que inusitada: a esposa era uma, mas a mãe do herdeiro era outra.

Não bastasse isso, temos uma fala em que Abrão teria dito que Deus não é poderoso para fazer o que quer, negando seu Eterno Decreto. Vejam por si mesmos:
"God can make of anyone of he whishes, thought Sarai. She even said this to Abram, but Abram disagreed: 'God can make of anyone exactly what they are willing to become, and nothing better'." (p. 258)
Pff! Que Deus é esse que precisa se submeter ao homem para seguir com Seus projetos? Além disso, veja a frase do autor: "Deus pode transformar alguém na exata medida que eles desejam ser transformados, nada além disso." Me diz aí: quem é que por iniciativa própria deseja ser transformado? Não fosse Deus vir ao nosso encontro, quem de nós teria ido a Ele? Quantos de nós não ouvimos falar de Jesus durante nossa vida inteira até o dia que tivemos os olhos abertos? O que mudou naquele fatídico dia? Sua natureza? Por supuesto! Foi o agir de Deus na sua vida. Não o contrário.

Acho que chegou determinado ponto do livro que o autor já estava descarado demais pra tentar ainda manter aparências. Ele mergulha logo em todo tipo de heresias sem medo ou desconforto nem mesmo com as circunstâncias históricas, afetando a verossimilhança da história. Novamente, vejam por si. O trecho abaixo é Sara (agora já com novo nome) externando seus pensamentos logo após ouvir a promessa de que, apesar da idade, ela teria um filho com Abraão:
"She knew that like all God's promises, this one depended on her worthiness before the Lord." (p. 264)
Ô, meu Deus. Depois dessa eu encerro meu caso, porque sinceramente não sei mais o que falar. Deixa só eu explicar: se você ou qualquer um de nós depender de você mesmo, ou do seu "valor" perante Deus para ser abençoado, meu filho, sinto dizer, você vai viver eternamente longe da graça salvadora do Senhor. Lembre-se: é impossível que Deus conviva com o pecado. Não tem jeito de você ter valor algum perante Deus, você não tem.

Sabe por que é que Deus olha pra você? Sabe por que é que Deus te abençoa? Sabe por que quando nós falamos com Deus Ele nos ouve? É por causa de Jesus. JESUS. Quando Deus olha pra você, ele vê algo que não vale nada; mas quando Ele coloca a lente e vê através de Jesus, você passa a ter um significado diferente. Porque Jesus morreu por você e o Seu sangue permitiu que você se aproxime de Deus e tenha comunhão com Ele de novo. Não é pelo seu valor, mas pelo valor de Jesus.

Foi mal, gente. A resenha se tornou um ensaio bem diferente do que eu esperava. Mas eu acho que vocês entendem isso. Quando a gente está acostumado com a verdade, qualquer distorção dela nos causa estranheza. E se até um cachorro late quando seu dono é atacado, quanto mais eu ao ver meu Deus rebaixado por essas falácias.

Agora cheguei na página 268. Apenas 4 páginas depois daquela que me fez ter esse ímpeto teológico acima. Na página 268 Abraão pressente que algo de ruim está para acontecer porque... ele viu nas estrelas. Sim, Abraão consulta o céu e quando uma estrela assim ou assado aparece, isto é sinal de algo ruim. Por que Abraão era convertido ao paganismo e também astrologia, aparentemente.

Distorção. 

Essa é a palavra que melhor define o livro. As qualidades literárias ficam ofuscadas pela quantidade de distorções presentes na história. Céus, eu li livros de ateístas progressistas que foram menos hereges. Foi só depois de terminar a leitura do livro que descobri que o autor é mórmon. Lendo palavras dele mesmo, deixou bem claro que ele não acredita na inerrância das Escrituras e que abertamente reinterpreta fatos bíblicos. Não me diga.

Tem coisas, meus caros, que não dá pra aguentar. Vocês vão me desculpando, mas cometerei um crime. Este livro e a continuação dele (sim, porque eu fui besta o suficiente pra gastar 17 dólares com estes dois livros) não vão ficar na minha estante. Eu sinto dizer, mas eles não vão nem pra doação. Eles vão para o único lugar que merecem ir: o lixo. Talvez o papel reciclado ainda possa ser útil.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Resenha - Viagem à aurora do mundo

VERÍSSIMO, Érico. Viagem à aurora do mundo. São Paulo: Globo, 1996.

– Pois o que o Prof. Fabricius e eu prometemos a vocês é uma excursão através das idades, começando no Período Cambriano e terminando nos tempos recentes.
– Uma viagem à aurora do mundo! – exclamei.
– Isso, romancista. Isso! Uma viagem à aurora do mundo. (p. 83)

Algo dentro de mim sabia que esse dia chegaria; mas, como as evidências até aqui sempre apontaram na direção contrária, surpreendi-me quando chegou. É o dia em que não gostei de um livro de Érico Veríssimo. Vamos à resenha.

Viagem à aurora do mundo conta a história de um escritor que, sem querer, vê-se preso numa casa onde pessoas no mínimo estranhas se reúnem para fazer um experimento científico nunca antes visto. Um grande cientista, Prof. Fabricius, criou uma máquina que consegue captar imagens do passado e projetá-las numa tela. Não é um filme, mas a vida real, o passado da Terra, bem diante dos nossos olhos. A premissa não é ruim, mas é que o livro tem um problema de bases. Vou explicar. 

Não tenho conhecimento científico para embasar o que estou falando, mas minha experiência como leitor e como "escritor" têm mostrado isso. Quando escrevemos um roteiro, livro, conto, etc., precisamos nos ater àquilo que propomos (é bem parecido com o que fazemos na pesquisa científica). Se deixamos o foco ou perdemos nossa base, o texto fica arenoso e o leitor não sabe direito como caminhar nele.

Acontece que neste livro, finalmente Veríssimo mergulhou na ficção científica. Mas parece que ele ainda faz isso como quem pede desculpas. A verdade é que, na sua literatura, Érico Veríssimo sempre apontou um desejo de escrever fantasia, mas sua gana por contar os causos da realidade (o que eu chamo de "fantasia do cotidiano"), sempre o impediram de seguir nesta linha. Mas aqui ele faz isso, o livro é uma espécie de ficção fantasiosa. Porém... 

Érico Veríssimo transformou o livro num texto didático! A ideia de viajar no tempo não é novidade, o diferencial aqui seria a máquina projetar a imagem sem que os personagens viajassem de fato. Porém Veríssimo não foca na viagem em si ou na ficção científica por trás disso, mas explora um caráter didático explicando, por exemplo, o que são as eras pré-históricas, quais são as teorias do surgimento da Terra, da origem da vida, como eram os animais no passado (incluindo até figuras deles!).

Novamente, é o que disse: é um problema de bases. Porque se Veríssimo tivesse focado neste aspecto didático, bom, então não haveria problema! O livro seria perfeito para um professor de Ciências da escola usar, ainda mais numa época (1939!) onde a televisão não era difundida e a sociedade se valia muito do rádio e dos livros para ter informações. 

Mas o que Érico Veríssimo faz é permear a história toda com ares de fantasia. O casarão misterioso, os "bruxos", a "mocinha", o "vilão", o "herói", o "tutor", e por aí vai. O livro acaba oscilando entre dois aspectos que, no fim das contas, não permite que a gente se firme bem em nenhum dos dois. Por isso a leitura, pelo menos para mim, não foi tão agradável quanto poderia ser.

Não obstante, permanece quem o escreveu: do meu ponto de vista, o maior nome da literatura brasileira. Tem umas referências que ele faz que eu acho fenomenais! Eu já deveria ter desconfiado quando ele colocou uma partitura em "Incidente em Antares" e nas várias referências musicais que ele fazia. Mas olha só que bacana essa citação dele, que só vai entender de verdade quem é músico (especialmente os tenores!):
"[...] depois me precipitei corredor em fora, na ponta dos pés, glorioso como um tenor que sai de cena a berrar um dó natural numa fermata que começa junto da prima dona, em cena aberta, [...]" (p. 126)
Talvez o cerne da minha questão com o livro tenha sido o velho problema de expectativas. Não esperava ver em Veríssimo uma literatura infantil como essa (ou seria infanto-juvenil?). Porque, sinceramente, o livro é perfeito pra crianças. Tem um herói, uma mocinha, personagens misteriosos e fantásticos, seres antediluvianos e até figuras! Como disse, talvez tenha sido só um problema de expectativas.

Mesmo assim, como já falei, ainda há ali escondidos os traços do grande escritor que foi (que é!) Érico Veríssimo. Olha só essa frase: 
"– O homem foi, é e será sempre o mais incoerente e estúpido dos animais. Vive a se queixar de que a vida é monótona e de que não lhe acontecem coisas extraordinárias. Sonha com a aventura mas foge quando ela se lhe apresenta." (p. 172)
Nos seus capítulos curtos, Viagem à aurora do mundo talvez seja o livro perfeito para uma criança conhecer o trabalho de Érico Veríssimo e se deixar levar por uma leitura simples. O meu primeiro contato com o autor foi O tempo e o vento, né, mas vamos deixar aí essa sugestão no ar. E eis o fim da resenha, do primeiro livro que não gostei de Érico Veríssimo.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Resenha - Eden

McPHERSON, Brennan S. Eden: Biblical Fiction of the World's First Family. Sparta: McPherson Publishing, 2020.


Bom, não é a primeira vez que eu falo de Brennan McPherson e tenho certeza que não será a última. Vocês verão referências minhas às outras resenhas que fiz dele no decorrer do texto. Gostaria de destacar apenas que o cara é um escritor independente (os livros são autopublicados), mora nos EUA e deve ter a minha idade. 

Logo, a primeira coisa que impressiona é qualidade do material que temos em mãos. Embora não seja financiado por uma editora, tem qualidade superior a muita coisa que se vende por aí como "de primeira". Vamos passar direto pro texto e falar um bocado sobre este livro.

Pra começo de conversa, a primeira frase já me incomodou. Veja bem, depois que comecei a ler e tentar entender o processo de escrita com mais afinco, as primeiras frases de livros ou histórias ganharam novo significado pra mim. Elas precisam, elas têm a obrigação de me cativar. O poder desse gancho, pra mim, como escolha pessoal, se tornou muito forte.

E é por isso que a frase "a lua se escondia atrás de uma cortina cinza de nuvens", já me causa agonia, por conta do clichê. O começo do livro tem vários clichês sobre "a noite", incluindo as estrelas que brilham no céu e até o piado de uma coruja! Achei demasiado.

Mas a gente logo vê algo que eu acho muito bom na obra de McPherson: a psicologia dos personagens é bem trabalhada. Nós vemos Adão, por exemplo, no meio de sua família (que a este ponto já é um pequeno vilarejo), sentindo-se culpado pelo que fez, assombrado pelos fantasmas do passado que causaram tanto mal para toda a humanidade. E o livro se trata dele mesmo narrando sua história para Enoque, o primeiro profeta.

Como eu suspeitava, partes do que eu li na prequel "Adam" (que, inclusive, eu já até resenhei aqui) estão também no capítulo que Adão descreve a criação. Por conta disso, embora eu ame, ame de verdade esta parte da história, não vou comentar mais. Deixe de preguiça e leia a outra resenha. Por outro lado, o fato de lido Adam estragou muitas nuances do começo de Éden, porque eu já sabia o que o autor ia fazer: como o homem vai se afastando de Deus aos poucos, como o relacionamento com a serpente é algo cultivado devagar, até crescer e explodir tudo, etc.

Eu já comentei com McPherson (sim, somos colegas de e-mail!) que não gosto da ideia de tornar Deus um personagem, dando falas e tudo o mais. Pode ser preciosismo, pode ser exagero, mas não consigo ir contra a minha consciência. Eu estava disposto a não deixar me abater por isso nesse livro. Mas, mano, até dizer que os olhos de Deus são castanhos ele fez! Achei exagero e desnecessário. Porém cumpre-me dizer que o personagem é trabalhado com respeito no decorrer da história.

O reencontro com o Pai depois da Queda foi emocionante, infelizmente não para alegria, mas para a mais profunda tristeza. O autor descreveu com maestria e criatividade o que deve ter sido o momento mais terrível da História. Me doeu o coração só de imaginar. Houve vários momentos que me emocionei ao ver o desenrolar em minúcias de uma história que eu já conhecia.

Aliás, o livro é muito fiel ao retratar a Queda, mostrando como ato consciente do homem e da mulher, além de colocar a responsabilidade por ela nos ombros do homem, o que está absolutamente correto! E fica evidente a destruição do bom relacionamento entre homem e mulher (é um dos grandes focos temáticos do livro). Um odiava o outro por ter caído em pecado e perdido a graça de Deus, ao mesmo tempo que, na sua solidão, tudo que podiam ter era um ao outro:
"For I felt certain that I could not regain my Father's closeness. Yet, if that were true, I had nothing left but her. And she hated me." (posição 967)
A ideia da separação de Deus caiu em mim com um baque. Pense que todos os dias Adão e Eva encontravam Deus no jardim e que, depois da Queda, eles não podiam mais falar diretamente com Deus. Já pensou conversar com alguém todo dia e a pessoa chegar e dizer: "Não podemos mais nos falar, quem sabe daqui a um ano"? Terrível. Terrível.

Do jeito como é descrita a saída de Adão e Eva do paraíso, bem como o choque com a nova realidade, me surpreende que os dois tenham conseguido viver depois daquilo tudo. O autor é muito autêntico em mostrar os comportamentos de ambos beirando a loucura. 

O encadeamento dos capítulos é um absurdo de bom. Quero muito aprender como fazer isso, porque McPherson escreve de um jeito que não deixa a gente parar! E não é como se cada capítulo terminasse num cliffhanger (que é o truque mais barato da cartola), mas é realmente a cadência da história que joga o leitor pra frente. 

Há algumas questões de verossimilhança no livro. Penso que é natural, especialmente porque estamos falando de uma época sem registros. Mas quero trazer os questionamentos à tona, porque julgo que são pertinentes. 

Veja bem, em certo ponto da história, Adão e Eva partem do pressuposto que ela poderia ter um filho, que esse filho seria uma criança e que eles teriam que cuidar dessa criança. Mas... como eles sabiam disso? Tem gente hoje em dia tendo filhos mas sem esta profundidade! Quantos adolescentes inconsequentes não estão por aí sem ter noção da responsabilidade de criar outro ser humano? Penso que esta motivação partiu de pressupostos do autor, não dos personagens.

Mas, do meu ponto de vista, o livro tem um problema grande de verossimilhança e este problema foi gerado devido a percepções culturais do autor sem que ele percebesse. Eu me refiro às estações do ano.

Tendo eu vivido num lugar onde só há duas estações e num país onde os climas predominantes são tropical e equatorial, não é difícil pra mim imaginar um lugar em que o tempo não seja visto por estações. Porém acho que não foi o caso do autor, que delineou bem quatro estações para aquele lugar, incluindo até um período de neve que foi muito relevante na história. Eu sei que é ficção, eu sei que é um tempo extremamente remoto e eu o estou vendo com olhos contemporâneos. Não obstante, não me convence essa história de quatro estações. Acho que foi uma percepção cultural do autor.

Em alguns pontos, o livro me parece ter uma vaga defesa ao vegetarianismo. Mas eu suscito apenas uma pergunta: o que aconteceu com a carne dos primeiros animais que Deus sacrificou no Éden, para fazer as roupas? Deus permitiu o desperdício do alimento? Não quero criar polêmica, mas estas dúvidas pipocaram na minha cabeça.

Apesar destas coisas, porém, o livro brilha. Talvez a grande beleza do livro é porque reconhecemos em Adão nós mesmos. E até às circunstâncias que hoje enfrentamos, estão muito próximas em princípio das que ele também sentiu. Se hoje dependemos da Provisão, por exemplo, quanto mais ele. Veja como esse trecho captura muito bem essa ideia (esta, aliás, acho que foi a citação mais bonita de todo o livro):
"From the little we have shared of Eden, many believed that after we sinned, we were on our own. But that could not be further from the truth. We would have died without Him. We still would." (posição 1650)
Novamente vejo uma ponta de desejo de redenção de Caim. O autor fez isso no primeiro livro que li dele. E aqui isso não é tão direto quanto lá, mas vê-se uma trama de comportamentos e falas que querem mostrar uma pressão social que teria ajudado a moldar o caráter de Caim e empurrá-lo na direção errada. Neste ponto, porém, não posso deixar de notar a maestria do autor em fazer isso.

A história em si é muito bem montada. Nós sabemos o que vai acontecer, nós conhecemos a história do Éden, nós conhecemos a história de Caim e Abel (a narrativa termina um pouco depois do primeiro assassinato), mas ainda assim ficamos grudados no livro, curiosos pelos meandros que os personagens terão que percorrer até chegar naquele ponto fatídico.

Após a história em si, o autor insere no fim do livro um comentário sobre os capítulos 1-4 de Gênesis. Embora, a princípio, desnecessário para um livro de ficção cristã, achei que a seção veio a contribuir com a melhor leitura do livro. Mas, como parte do livro, a seção também está aberta a críticas e comentários.

O que tenho a ressaltar deste trecho é quando ele mostra a culpabilidade mútua tanto do homem quanto da mulher no momento da Queda, até mesmo a culpa maior recaindo sobre o homem. Eu concordo plenamente com isso. A última coisa que quero ver é a Escritura sendo usada para criar sexismos sob o falso selo de "Cristianismo."

Não obstante, embora eu creia que ele creia nisso, não foi exatamente o que foi repassado na história. O Adão que ele retrata é quase um banana! Em muitas, muitas situações mesmo, eu fico com raiva do personagem de Adão. Talvez o pecado dele o fizesse cada vez mais um homem ausente no seu lar, mostrar o homem cada vez mais omisso. Eu entendo e concordo com essa opção de narrativa (aliás, muito fiel). 

Mas nos momentos de maior agonia, eu o vejo se retrair e acovardar-se! O comportamento se encaixa na história, até porque a história é moldada, em boa parte, por este comportamento. Mas uma vez que Adão não é apenas um personagem de uma história fictícia, eu me pergunto se aí também não houve um problema de verossimilhança.

A não ser por este mero ponto, tudo que ele falou quanto às interpretações do começo de Gênesis se encaixam perfeitamente com tudo que acredito, incluindo aí que existia dor antes da Queda (as dores do parto seriam multiplicadas), que o mal já existia antes (o homem só não tinha o conhecimento da dicotomia bem x mal) e que, de certa forma, havia uma espécie de ciclo da vida, embora, a princípio, o homem não estivesse incluso quanto à morte (ainda que isto não impedisse que outras criaturas estivessem).

Fiquei bem triste em ver o livro que me apresentou a McPherson, Cain (resenhado aqui), des-publicado. Digo isso porque com "Eden", o autor descontinuou e reestruturou a história que ele tinha trabalhado no outro livro. Por outro lado, ao ver o autor "se desculpando" por aspectos de fantasia no seu livro sobre o Dilúvio, me faz entender seus motivos. Presumo eu que seu público não quis aceitar muito bem estes elementos de fantasia. Algo que eu, particularmente, acho uma grande pena, uma vez que para mim, é nestes elementos que resta o grande toque de singularidade do livro.

Agora tem algo muito interessante em como Deus age por meio de escritores de ficção cristã, e gostaria de me incluir nisto. O desejo de McPherson com seus livros é exatamente o mesmo que tenho com o meu (ou "os meus", quem sabe). Veja só:
"I hope that tese books stimulate thought and help you to fall deeper in love with Scripture. I also hope these books help you see the text of the Bible from a fresh perspective. As always, your source of truth is the Bible.I write these books not to add anything to the Bible, but to entertain, uplift, encourage, provoke thought, challenge (both myself and others), and to give myself an additional reaon to dive deeper into the heart of Jesus" (posição 4259)
Caramba, é exatamente isto que eu faço também! Está aqui um exemplo claro do Espírito Santo agindo com o mesmo propósito em corações tão distintos, separados por culturas, idiomas e espaço geográfico tão diferentes; mas unidos com o mesmo propósito de adorar o Criador com tudo que Ele mesmo nos concedeu. Pode parecer loucura, mas eu sinto no autor um verdadeiro irmão e amigo.

Por isso, não me resta outra opção senão mais uma vez recomendar este autor. Tenho o sincero desejo de que todos o leiam, porque eu creio que ele será um nome a ser reconhecido. E, se não for, terá sido uma grande pena para nossa geração. Deus em sua grande Providência poderá usar estes trabalhos mesmo que McPherson não se torne grande. Mas minha oração é que ele cresça, para abençoar ainda muito mais vidas. 

Leia-o.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Resenha - O Fantasma da Ópera

LEROUX, Gaston. The Phantom of the Opera. E-book. AmazonClassics, 2017.


Ah, meus amigos... Le Fantôme de l'Opéra... Eu nem sei como iniciar essa resenha. Este livro é fenomenal. Não, corta isso. Fantástico. Não, é pouco. Eu não consigo expressar como esse livro é bem escrito, envolvente, fascinante... (muitos adjetivos com a letra f). Mas eu vou tentar, sinceramente. Mas eu já aviso: essa vai ser uma resenha longa, eu tenho motivação pessoal especial para falar do Fantasma da Ópera, o livro é bom, etc. Estão avisados.

Bom, em 2019 eu tive o privilégio de participar de um musical aqui em Roraima intitulado "Os melhores da Broadway". O musical O Fantasma da Ópera foi apresentado em Los Angeles pela primeira vez em 1986 e... está em cartaz até hoje! É o musical com maior tempo de permanência na Broadway até hoje, passou até de Cats

Então, participando deste musical eu tinha uma única função: interpretar ninguém, ninguém menos, que o Fantasma da Ópera. Eu nem consigo explicar direito como foi aquilo, como foi experimentar ser o Fantasma, cantar como ele, pensar como ele, sentir como ele... ser louco como ele... ah! Só isto já era motivação suficiente para eu pegar esse livro para ler. 

Devo confessar que a primeira vez que ouvir falar do Fantasma não foi pelo livro, mas pelo musical que depois se tornou filme. Este filme eu achei muito interessante, mas eu achava que O Fantasma da Ópera era uma produção recente. Jamais eu desconfiaria que o livro foi lançado em 1910! Caramba... taí um título que sobreviveu ao teste do tempo, não dá pra negar. E não foi à toa.

"[...] every one felt that if the dead did ever come and sit at the table of the living, they could not cut a more ghastly figure." (p. 29)

No livro o autor tenta convencer a gente continuamente que a história é baseada em fatos reais sobre um fantasma que realmente existiu. Isso é legal porque sempre deixa a gente com uma pulga atrás da orelha. Além disso, é clássico daquela época as histórias serem contadas por meio de um storyteller e não diretamente por um narrador onisciente (a que me vem a cabeça com mais evidência é Moby Dick).

E vamos falar logo das técnicas e estilo do livro. De cara, notei que ele faz uso muito bem de uma técnica que já vi mestres recomendando: em vez de você falar ou descrever diretamente algo, você coloca um personagem para fazer isso. Torna muito mais interessante ouvir sob a perspectiva de outra pessoa, além de servir para enriquecer o próprio personagem. Classic win-win situation. 

E isso acontece várias vezes no decorrer do livro, porque o storyteller (narrador), para compor sua história, precisou pegar fragmentos de diários, entrevistas, além de pesquisas com fontes diretas (olha só como é interessante a questão da verossimilhança aqui!). Logo, a narrativa fica muito densa e rica, até pela necessidade de questionarmos os próprios relatos, uma vez que são narrativas de personagens, não de um narrador que sabe tudo.

Veja bem, exceto por umas duas ou três cenas, o livro não é escrito do ponto de vista do Fantasma (que seria o maior protagonista de toda a história). Isto torna o um personagem ainda mais interessante, porque sempre o conhecemos apenas a partir do ponto de vista de outras pessoas. Uma técnica narrativa utilizada com perfeição por Leroux! (Eu me adianto aqui falando de personagens, mas é que não consigo evitar falar... dele).

Quanto ao estilo, veja que estamos falando dos últimos resquícios do romantismo do século XIX. Ou seja, mesmo numa obra como esta encontramos ainda os arroubos de romantismo excessivo que causam um misto de agonia e vontade de rir. Acho que o autor não conseguia evitar aqueles diálogos melosos e motivações (ao meu ver contemporâneo) pífias a princípio. Mas isto é pequeno, pequeno.

O grande lance dessas falhas é que o autor encontrou uma mina de ouro. O Fantasma é um personagem muito bom. A ideia de ter um fantasma num teatro é simplesmente boa demais, quase surpreendente que ninguém tivesse pensando nisso antes. E talvez seja isso que torne a ideia tão genial: estava bem debaixo do nosso nariz.

E, pior!, se fosse apenas uma boa ideia, talvez Leroux ainda tivesse a capacidade de arruiná-la; mas, não. Ele foi habilidoso o suficiente para transformar essa ideia numa baita história. Estou convencido de que o que eu enxergo agora como problemas estilísticos não são mais do que marcas de sua época. Ninguém escapa ao Zeitgeist

Tá, agora vamos chegar no que eu acho o âmago do livro: os personagens. Não é que a trama seja ruim, pelo contrário. Mas é pela boca dos personagens que nós vemos a maior parte do desenrolar dos acontecimentos, dando a eles uma função mais do que primordial.

Pra começo de conversa, eu sempre tive um problema com a personagem Christine. Eu sempre achei ela boba demais, muito crédula e bem lesa mesmo. Mas conforme o livro foi desenrolando a psiqué dela, eu fiquei convencido. Enquanto ainda a odeio no filme -- visto que lá é impossível transparecer de maneira plena o que um livro traz --, aqui ela já parece realmente ser outra pessoa.

Alguns personagens foram bem mais realçados no livro do que no filme. Por exemplo, o filme deixa muito a desejar quando não inclui nele o Persa. Este cara é essencial não só para explicar a história do Fantasma (sua origem e desenvolvimento) mas também para os acontecimentos que garantem o final da história! Diabos, tem uns quatro capítulos que são narrados diretamente por ele! 

Falar de personagens ainda é falar de técnicas. O uso de nuances é brilhante. Por exemplo, o penacho negro do chapéu de Mademoiselle Giry. O autor usa este objeto pra constantemente se referir às agitações internas da personagem sem gastar uma linha abordando isso diretamente. Brilhante.

Claro que temos aqui o Raoul, o parzinho romântico de Christine. Embora meio bobão (novamente aqui transparece bem o estilo da época), a gente vê que o personagem tem uma certa consistência. Mas a impressão que eu tive dele não melhorou tanto, mesmo com o aprofundamento do livro. Este é o resquício mais forte que temos no livro de um romantismo babão.
"It is true, Christine!... I am not an Angel, nor a genius, nor a ghost... I am Erik!" (p. 130)
Ora, sem mais delongas, chegou a hora de falar do personagem principal, o Fantasma da Ópera. Ele é, de longe, o personagem mais interessante e mais bem trabalhado de toda essa narrativa. 

Este cidadão, cujo nome é Erik, tem uma história complexa de abandono social, deformação física e distúrbios psicológicos. Não obstante, ele consegue ter uma voz poderosíssima, uma criatividade cigana invejável com manipulações e ilusionismo, além de capacidades fantásticas como ventriloquismo.

A primeira coisa que realmente preciso falar dele é o seguinte: o Fantasma da Ópera não é bonito! E nem pode ser! Esquece aquele ator lindo e maravilhoso com uma mascarazinha furreca. Não! Aquilo não é suficiente! O Fantasma era chamado, na sua infância, de "O Cadáver Vivo". A sua própria mãe nunca o beijou nem abraçou, aliás, foi ela que fabricou sua primeira máscara! 

Ele rodou a Europa e Ásia Menor como uma aberração talentosa. As pessoas não conseguiam sequer olhar direito para ele sem que lhes causasse horror. O Fantasma é descrito como não tendo nariz, olhos afundados e a pele do rosto ressecada e sugada, como se ele fosse um cadáver mesmo! Além disso, era dito que ele tinha o cheiro de um, pois sua pele era fria e causava asco ao toque.

Vejam, essa feiura moldou todo o caráter do Fantasma, ela não é um detalhe e tampouco pode ser retirada. O livro não é uma aventura romântica, longe disso! O livro é praticamente um terror gospel, quase uma aventura policial de suspense. O Fantasma pode falar de amor, pode dizer que sente amor, mas ele é um psicopata. Não esqueçam disso. A sua loucura o define.

Ah, e gente, gente!... Meu Deus! Não dá pra seguir em frente sem falar do capítulo 12: "A lira de Apolo". Caramba! Eu disse: CARAMBA! Aquele capítulo é fantástico! É quando somos apresentados ao Fantasma em toda a sua essência. E que personagem fascinante! E como é fascinante a relação dele com Christine, a quem eu tanto odiava ainda há pouco. 

Nossa, quantas exclamações neste último parágrafo, é quase um abuso; mas não consegui evitar. Este capítulo deve ser a alma de todo o livro, que é justamente a cena do telhado. A grande cena em que Christine se declara para Raoul, sem saber que lá, escondido, enchendo-se de fúria e vingança, estava o Fantasma da Ópera. 

Os lugares descritos no livro também têm uma relevância interessante. O mundo dos Porões do Teatro são absolutamente fascinantes. O autor criou ali um reino de fantasia, com monstros, personagens obscuros e quasi-zumbis que perambulam. É genial! Nós de repentes somos transportados e imersos num fundo de suspense, onde tudo é possível, onde paredes são espelhos, onde um homem pode conduzir uma miríade de ratos e onde uma sombra desconhecida passa, a serviço de alguém que não é o Fantasma!

A França é o centro dos acontecimentos, ou melhor, a grande Casa de Ópera de Paris. Mas a Escandinávia é constantemente mencionada e sempre se dá a ela um ar de "tempos melhores", paz ou simplicidade de vida. Curioso é perceber que mais de um personagem teve sua infância nestas localidades.

E é absolutamente chocante a quantidade de fatos reais envolvidos. Sim! Porque a Casa de Ópera à qual o livro se refere é real! Trata-se do Palais Garnier. Ele realmente é uma das maiores casas de ópera do mundo, tem de verdade túneis subterrâneos que foram inclusive usados como esconderijos durante guerras, e, pra piorar tudo, tem de verdade um lago subterrâneo que é usado até hoje em treinamentos de bombeiros.

As similaridades que o livro tem com a vida real o tornam ainda mais fascinante. Cabe aqui lembrar que Leroux foi jornalista na época e esteve bem informado quanto às obras de construção do Palais, daí seu insight tão perfeito sobre o local. Só esta Casa de Ópera em si já é um deslumbre, ponto perfeito para o mistério. E ele ainda resolveu colocar o Fantasma nela! Ah, que gênio!
"Poor, unhappy Erik! Shall we pity him? Shall we curse him? He asked only to be 'some one', like everybody else.
[...]
He had a heart that could have held the empire of the world; and, in the end, he had to content himself with a cellar.
" (p. 283-284)
Com o que finalizamos, então? Com um livro muito, mas muito bom mesmo. Caramba, e pensar que é uma obra do começo do século passado! Se formos pensar estilisticamente, na verdade é uma obra do final do século XIX! A gente fica vidrado nela, mas de um jeito diferente das obras contemporâneas, em que temos um pico de ação perto do fim.

Claro que temos sim mais acontecimentos se desdobrando perto do final, mas há constantemente mistério e temor que nos impulsiona à necessidade de saber o que vai acontecer. Até mesmo os diálogos são bem construídos pensando nisso, na doce agonia de deixar o leitor em permanente ânsia da revelação da verdade. E que verdade, meus caros.

Por favor, por favorzinho, leiam o Fantasma da Ópera, aproveitem que está de graça na Amazon por conta da quarentena do vírus (aliás!, segundo ou terceiro livro que leio já nesta quarentena). Aproveitem esta oportunidade para se deleitar com uma literatura que não dá pra botar defeito. Leiam, leiam! Venham para onde eu estou agora porque the Phantom of the Opera is here... inside my mind!