quinta-feira, 30 de março de 2023

Resenha — Praticamente inofensiva

DOUGLAS, Adams. Praticamente inofensiva. São Paulo: Arqueiro, 2010.


Alguns livros às vezes é bom esquecer mesmo. Estou aqui abatido para escrever essa resenha. Comecei a leitura tão animado e me deparei com aquele final que... ai, gente... eu não concordo, eu não quero. Não. Não faz sentido esse final ser assim. É evidente que não vou dar spoiler, mas... poxa...
Praticamente tudo na vida era, em menor ou maior escala, estranho. O problema é que aquilo era estranho de uma maneira um pouquinho diferente daquele estava acostumado, o que era no mínimo esquisito. (p. 38)
Depois de ler e resenhar todos os outros livros da "Trilogia de Cinco", (quais sejam: O Guia do Mochileiro das GaláxiasO restaurante no fim do universo; A vida, o universo e tudo Mais; Até mais e obrigado pelos peixes!) finalmente chegamos no último da série. Nada aqui é tão distinto dos livros anteriores. Ainda é a criatividade monstra de Douglas Adams, ainda é sua sagacidade misturada com ironias, ainda é seu humor. 

Em Praticamente Inofensiva voltamos a acompanhar, pela última vez, o trio original: Arthur Dent, Ford Prefect e Tricia McMillan. Dessa vez em aventuras regadas a muita viagem no tempo-espaço e até um pouquinho de relacionamentos como temática. 

Depois de ler descobri que este livro na verdade foi escrito TREZE anos depois do quarto. Ou seja, houve um senhor hiato nesse meio tempo. O problema desses intervalos grandes é que o autor muda. Sejamos honestos, todo mundo muda. Treze anos é tempo demais pra não sermos uma metamorfose ambulante. Mesmo que queiramos, não tem como. Ninguém resiste ao tempo.

Há quem argumente que, por causa desse hiato, Praticamente Inofensiva não seria de fato parte da série do Guia, mas uma espécie de história independente, já que muitos personagens dos outros livros nem são citados aqui. Do meu ponto de vista, porém, esse argumento não se sustenta. É inegável que a história que se passa aqui é dando continuidade ao que veio antes (especialmente com a referência a "Stavromula Beta", que é um acontecimento do terceiro livro da série).

No fim das contas não tenho mais nada a acrescentar se não que fiquei bem desapontado com o fim que o autor deu pra essa série. Parece-me que há um sexto livro mas que sequer foi escrito por Douglas Adams, tendo sido comissionado depois que o autor morreu em 2001. Por isso, não vou atrás dele. Infelizmente pra mim O guia do mochileiro das galáxias acabou aqui, desse jeito triste e fatal. 

Ainda é uma série que vale a pena ser relida. Só preciso de tempo pra esquecer de novo e a tristeza passar.

terça-feira, 21 de março de 2023

Resenha — Peter Pan

BARRIE, J. M. Peter Pan. London: Penguin Popular Classics, 1995.


Novamente dos livros que li há muito tempo e resolvi pegar de novo. Dessa vez um clássico que não é clássico à toa, embora, devo confessar, acho que ele me fascinou mais na primeira leitura do que nessa. E, convenhamos o final é bem inspirador... mas eu me adianto.

Como sempre falo da edição que é um paperback clássico. Aqueles livrinhos com um peso leve que dá pra levar pra qualquer canto e ler sem se preocupar. As folhas amareladas da Penguin Classics são realmente muito boas e agradáveis aos olhos. Sem comentários sobre a tradução dessa vez porque foi em inglês mesmo — o que me surpreendeu, porque encontrei algumas palavras que achei difíceis para crianças (mas estamos falando de crianças de 1911, então vai saber né).

A história em si não tem segredo. É o Peter Pan que todo mundo conhece indo chamar a Wendy e seus irmãos para aventuras na Terra do Nunca. Lá eles têm várias aventuras e lutam contra o terrível Capitão Gancho e seu bando de piratas. 

Em mais de um momento fiquei sinceramente me perguntando se esse livro é para crianças mesmo. O começo me pareceu bem alegórico e até abstrato demais pra uma criança conseguir entender tudo. Falar da Terra do Nunca (Neverland) é falar da mente de uma criança, é uma multitude de possibilidades e ideias, é uma mistura tão bem feita de realidade e fantasia que em vários momentos é bem difícil discernir o que é o quê. E em certo momento, o autor fala diretamente conosco, adultos, ao dizer:
We too have been there; we can still hear the sound of the surf, though we shall land no more. (p. 7)
Ainda nesse tema, uma coisa que sempre me chama a atenção quando leio essa história é como a Tinker Bell é malvada. Além disso, ela nem aparece tanto na história. Ela é bem ativa no começo e depois nem se fala mais nela. Confesso que quando ela voltou perto do fim eu nem lembrava mais que ela existia direito.

Aliás, fadas de modo geral (assim como sereias) não são apresentadas no livro como seres próprios para o convívio com crianças. Em determinado momento uma sereia espera a Wendy desmaiar para então puxar ela para o fundo do lago e afogá-la. Além disso, saca só essa citação aqui sobre as atividades das fadas (escrita em um livro infantil):
After a time he fell asleep, and some unsteady fairies had to climb over him on their way home from an orgy. (p. 75)
A verdade é que o próprio Peter Pan também não é flor que se cheire nem pode servir de modelo algum, nem para adultos nem para crianças. Ele se acha bastante e, honestamente, é o tipo de criança que deve ser insurpotável ter por perto. Ele não liga pra ninguém mais além dele mesmo. Nos poucos momentos que vemos ele se importar com outros, percebe-se que estes momentos são de fato as exceções. 

Há quem argumente que ele não é mau, é que ele só não tem noção das coisas. Mas eu sinto muito, lendo o livro fica bem claro que embora seja possível se divertir com ele em vários momentos, fica evidente que há maldade nele sim.
"Pan, who and what are thou?"
"I'm youth, I'm joy [...]" (p. 158)
Sobre a narrativa em si, achei que o livro ora pendeu pra um marasmo, ora foi bem enérgico. O começo é um pouco lento e mesmo na Terra do Nunca há momentos que a leitura é meio paradona demais. 

Por outro lado, isso contrasta com aqueles momentos em que o livro não nos deixa com muito tempo pra respirar. A ação é muito bem concatenada. Entre as partes lentas, nos animamos com a visita de Peter, uma aventura no meio do livro que serve como um bom filler, e um fim é vertiginoso. No fim das contas uma leitura bem divertida deveras.

E, claro, é inegável que o livro termina com uma nostalgia super envolvente, que faz a gente ter saudade de algo que nunca experimentou — ou, quem sabe, já experimentou sim: a magia infinita de ser criança.

Por fim, é certo que este livro não vai sair da minha estante. Talvez daqui há uns anos eu faça que nem o Peter fez e visite a Wendy de novo. Embora, é claro, ele nem vá se lembrar que eu existo mais. 

sexta-feira, 10 de março de 2023

Resenha — A máquina de xadrez

LÖHR, Robert. A máquina de xadrez. Rio de Janeiro: BestBolso, 2012


Estamos de volta com livros da categoria "li-há-muito-tempo-e-embora-eu-lembre-um-pouco-da-história-não-lembro-o-suficiente-pra-me-fazer-querer-ler-de-novo" (nome da categoria ainda pode mudar). A máquina de xadrez conta uma versão ficcionada de uma história real: no século XVIII um cidadão chamado Wolgang Von Kempelen construiu um autômato que, segundo ele, podia fazer o que nenhum outro autômato da sua época era capaz: ele podia pensar. 

O livro é realmente fascinante. Como sempre, cito a edição muito bem trabalhada da BestBolso, que embora não seja pocket book (10x15) traz a agradável sensação de um livro compacto e bem recheado com seus 12x18cm. Confesso que fiquei até com vontade de, quem sabe, talvez, publicar meu primeiro romance neste formato. Parece interessante.

Do meu ponto de vista os tradutores fizeram um excelente trabalho. Honestamente eu nem percebi que era uma tradução, de tão bem feito que ficou — por outro lado, o livro original é em alemão e eu não entendo nadinha da estrutura deste idioma. Por isso, minha opinião aqui não é lá muito bem fundamentada.

A história em si é um blockbuster clássico. O autor fez o dever de casa e produziu uma história bem trabalhada, sem muitas arestas e só umas poucas forçadas de roteiro pra coisa dar certo. O começo, por exemplo, é fascinante. O autor vai direto ao ponto, sem muitas cenas ou diálogos, se vale da narração pra rapidamente situar o leitor e fisgar sua atenção. As cenas são bem redondas, trabalhadas. É fácil notar quando a cena realmente tem um fim natural.

O livro é bem leso em alguns momentos e de repente fica super eletrizante. Toda a construção e encadeamento dos capítulos fazem valer a pena chegar até o final e desfrutar da história. Aliás, depois que termina dá até um pouco de pena, porque deixa o gosto de "quero mais".

Penso que o livro erra em poucos pontos: 1) a história tem uns lampejos de flashback que às vezes me confudem; 2) a leitura não é necessariamente leve, por causa do excesso de descrições às vezes o ritmo é cansativo, muitas vezes precisei parar no meio do capítulo pra continuar depois.

Mas até isso é relativo, sabe? Porque até mesmo os flashbacks que o autor usa, ele o faz de modo a dar pequenos spoilers pro leitor e fazer a gente ficar com a pulga atrás da orelha e se perguntando: "Como diabos a história vai chegar nesse ponto?"

O livro não é cheio de grandes citações, tampouco a história tem grandes significados. Enquanto não chega a ser uma leiturinha barata feito A garota do lago também não é nenhum Dostoiévski. Mas isso não significa que não tenha umas tiradas legais, como essa:
As pessoas deste mundo já falam mais do que necessário, por que deveriam as máquinas aprender a falar também? Máquinas de calar, isto é o que eu desejo às vezes. (p. 77)
Por fim, confesso que logo que comecei a ler o livro bateu um desânimo, porque eu lembrava de boa parte da história. Mas agora, depois de terminada a leitura, tenho certeza de que este é um livro que vai ficar na minha estante, porque certamente ele vale a pena ser lido no futuro. Fica a recomendação.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Resenha — Drácula

STOKER, Bram. Dracula. Ware, Hertfordshire: Wordsworth Editions, 2000.


"There was one great tomb more lordly than all the rest; huge it was, and nobly proportioned. On it was but one word

DRACULA.
(p. 309)
Essa resenha vai ser parecida com a que fiz de Frankenstein: fatos e fakes sobre o que de fato está no livro do Drácula. Pretendo mostrar como muito do que se toma por "vampiro" hoje não tem nada a ver com o clássico que marcou o gênero de uma vez para sempre. Antes porém, dois adendos.

A edição da Wordsworth Classics é muito boa por ser bem trabalhada e ter preço acessível. O texto é bem diagramado e as notas de rodapé são bem úteis (coisa rara!) e ajudam a gente a entender melhor a história. O único pecado é essa capa horrível, que, assim como Frankenstein, não tem nada a ver com o personagem.

A história é narrada de forma epistolar, ou seja, em forma de cartas ou relatos escritos nos diários dos personagens. Stoker foi genial em conseguir não só expressar bem toda a narrativa usando essa técnica, como também foi capaz de concatenar toda a série de acontecimentos e relatá-la de forma ordenada nessa mistura de diários e cadernos. Só não gostei do uso de maneirismos na hora de falar (tipo escrever em caboquês), dá muito trabalho de ler e dificulta o ritmo.

O autor nos informa de tudo isso sem de fato nos informar. São detalhes que surgem na narrativa e a gente absorve sem perceber — eis aí a maestria de um escritor. Não sei se fiquei assustado, embora devo admitir que várias vezes o livro conseguiu me deixar com um pouco de medo. Por outro lado, em mais de um momento, fiquei sim horrorizado.

Só lembrando que Stoker não foi o primeiro a falar de vampiros. Enquanto Drácula é de 1897, a primeira menção a "vampyre" apareceu em 1819 com John Polidori. Quando Stoker escreveu sobre o tema, ele já era bem popularizado na Europa. Stoker só fez consolidá-lo de modo incrível. A partir daqui vou enumerar diversos fatos que o livro traz sobre o Drácula. 

O livro dá medo, dá vontade de chorar, é eletrizante em alguns momentos... Hoje nós lemos Drácula e já temos todo um imaginário formado sobre ele. Fico me perguntando como deveria ter sido ler isso em 1897 pela primeira vez. Daí a importância de comentar o que está de fato no livro:

#DA SUA PESSOA
  • Drácula não era horripilante. Pelo contrário, ele era carismático, embora de fato a sua aparência tivesse algo peculiar. (p. 17)
  • O livro é claro em dizer que ele tinha bigode volumoso. (p. 17)
  • Ele não tem reflexo no espelho (p. 23)
  • Ele deve ter pelo menos 300 anos de idade (p. 41)
  • Ele dorme de olhos abertos e parece exatamente como um morto, sem pulso ou respiração (p. 41)
  • Ele tem olhos vermelhos (p. 79)
  • Ele não tem sombra (p. 199)
  • A cripta dele fede a sangue podre e decomposição (p. 208)
  • Ele é rico e tem um castelo, mas não tem só um covil (p. 219-220)
#QUEM ELE ERA EM VIDA (antes de ser vampiro)
  • Drácula era um nobre da etnia húngara dos sículos (p. 25)
  • Ele tinha um irmão que morreu na guerra contra os turcos (p. 26)
  • O seu primeiro nome é "Voivode" e ainda em vida ele era considerado um guerreiro forte e muito inteligente. (p. 200)
  • Ganhou seus poderes ao fazer um pacto com o diabo (p. 200)
  • Ele foi um soldado, político e o maior alquimista da sua época, além de ter sido muito inteligente e versado em todas as ciências. Após a morte, ele perdeu parte desse conhecimento, e teve que reaprender várias coisas (p. 251)
#PODERES
  • Ele é capaz de se mover pelas paredes como um lagarto (p. 30)
  • Alimentação
    • Ele se alimenta sugando o sangue de suas vítimas (p. 77)
      • Ele suga o sangue aos poucos, não é tudo de uma vez
      • As pessoas que morrem e se tornam vampiras por causa dele, passam a ficar sob seu controle (p. 169)
      • Ele passa a ter conexão mental com essas vítimas. Não chega a ser telepatia, mas há transmissão de sons e sensações (p. 260)
    • Ele rejuvenece depois de sugar sangue da vítima (p. 44)
    • Quando ele toca na vítima, ela não consegue lutar contra e ele toma o sangue dela sem resistência (p. 239)
  • Controle sobre animais
    • Ele pode comandar lobos (p. 40)
    • Ele pode controlar ratos, corujas, mariposas, raposas (p. 197)
  • Domínio sobre outras pessoas
    • Mesmo dormindo ele é capaz de paralisar a pessoa que olhar nos olhos dele (p. 45)
    • Pode hipnotizar pessoas (p. 76-77)
    • As vampiras, mesmo no caixão, têm uma espécie de encantamento que seduz os homens e faz eles não quererem matar elas. Eles ficam divagando até o por do sol, quando elas acordam e matam (p. 308)
  • Controle sobre o mar
    • Ele pode criar e controlar tempestades (p. 65)
    • Ele pode criar neblina (p. 65)
  • Mudança de formas
    • Ele pode encolher ou aumentar de tamanho (p. 197)
    • Pode ficar incorpóreo (p. 74)
    • Ele pode se transformar em um cachorro grande (p. 67)
    • Pode se transformar em morcego (p. 79)
      • Nesta forma ele pode hipnotizar pessoas (p. 79) 
      • Ele também pode sugar o sangue das vítimas (p. 80) 
#LIMITAÇÕES
  • Prevenção e morte
    • O alho de fato afasta ele (p. 119)
    • O crucifixo de fato afugenta (p. 177)
    • Estaca ou faca no coração mata o vampiro (p. 179)
    • Além da estaca, ele pode ser morto por decapitação ou uma "bala sagrada" — seja lá o que isso for (p. 200)
    • Um ramo de rosa selvagem colocado na tampa do caixão impede ele de sair ou entrar (p. 200)
    • O lugar onde ele dorme é considerado solo profano e é possível "santificar" o local de modo que ele não consiga voltar pra lá e descansar (p. 201).
    • Quando se mata um vampiro no túmulo, ele grita enquanto a estaca entra no seu peito e sua boca espuma sangue (p. 308-309)
  • Ele NÃO SE MACHUCA quando anda no sol. Exemplos dele andando no sol de boas:
    • Seguindo uma de suas vítimas durante o por do sol (p. 79)
    • Passeando num parque em Londres durante o dia (p. 143)
    • Durante o dia, disfarçado, ele mesmo ajudou estivadores a carregar seus caixões pra diferentes esconderijos em Londres (p. 219)
    • Pleno meio dia e ele andando na rua — embora confinado à forma de homem até o anoitecer (p. 253)
  • Durante o dia seus poderes são limitados. Para se transformar durante o dia em um animal ele só consegue exatamente no nascer do sol, ao meio-dia, ou no por do sol (p. 199)
  • Ele só pode entrar numa casa se tiver sido convidado (p. 199)
  • Ele não consegue atravessar água corrente (p. 199)
  • Símbolos sagrados (hóstia, crucifixo, etc.) queimam a pele do vampiro ou até da pessoa que está no processo de se transformar em um (p. 246)

#VAMPIROS EM GERAL
  • Um vampiro transformado não é a mesma pessoa, é mais como se um vampiro surgisse naquela pessoa, usando o corpo como seu receptáculo. Em determinado momento, quando encontraram com Lucy, era a mesma pessoa fisicamente, mas o olhar, os modos, gestos, tudo diferente. Eles chamam ela de a "Coisa" em vez do nome da pessoa, porque é totalmente distinto (p. 176)
  • O vampiro retém apenas parte das memórias de quando em vida (p. 176-177)
  • Vampiros entram e saem dos túmulos de forma incorpórea (p. 177)
  • Assim como todos os outros vampiros, Drácula era um prisioneiro dentro do seu próprio corpo (p. 314)

#OUTROS FATOS INTERESSANTES NO LIVRO

A primeira menção ao termo "vampiro" no livro é num contexto em que um dos personagens menciona os Pampas Argentinos e destaca que lá havia morcegos-vampiros que atacavam cavalos e sugavam o sangue deles:
"One of those big bats that they call vampires had got her in the night, and, walked with his gorge and the vein left open, there wasn't enough blood in her to let her stand up [...]" p. 126)
Aliás, o livro só vai chamar Drácula de vampiro lá do meio pro fim. Van Helsing também faz menção a ele como "Nosferatu", que é o mesmo que "Un-Dead" ou "Des-Morto" — nós conhecemos essa palavra mais comumente como "Morto Vivo".

O autor é deveras muito bom e tem momentos que o livro emociona, a gente realmente se vê inserido naquele contexto. Trago duas citações que achei bonitas e marcantes, ao ponto de valer a pena o registor aqui:
"[...] though sympathy can't alter facts, it can help to make them more bearable." (p. 79)
"If ever a face meant death — if looks could kill — we saw it at that moment." (p. 176)
Uma última conclusão que preciso destacar. Quando se lê esta obra NÃO DÁ vontade de ser o Drácula. Não tem nada de glamouroso ou sedutor em ser esse vilão. No fundo o Drácula é um covarde. Ele ataca apenas as mulheres e quando foi enfrentado por homens preferiu fugir. Ele é realmente desprezível. É como se você assistisse um filme de um monstro nojento e no final dissesse: "Que vontade de ser igual a ele". Não faz sentido nenhum.

O Drácula apresentado nesse livro tem vários poderes, mas tem muitas limitações e uma personalidade corrompida. A personalidade podre é basilar, faz parte da essência do vampiro (não só do Drácula). Não há possibilidade de ser um "vampiro bom", pelo menos não como Stoker apresenta Drácula aqui.

No fim das contas, este livro é uma obra-prima. Isso que nem falei aqui dos diferentes personagens e das tramas! Não foi a primeira vez o que li e, tenho certeza, também não será a última vez que o lerei. Se você puder, tire tempo pra ler este livro.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Crônicas que eu não deveria publicar — 2

Do caboco.

O caboco não é o caboclo, que você aprendeu na escola. O caboco é um outro tipo, que não tem a ver com raça, tem mais a ver com comportamento. O caboco em si é um estudo sociológico e antropológico completo, uma espécie que faz parte da fauna do Brasil. 

Pensando assim, podemos começar com a geografia e a localização do caboco. O caboco é um ser que está na América Latina de modo geral. No Brasil, ele é encontrado em qualquer lugar, embora sua presença esteja mais forte nas regiões Norte e Nordeste, além de espalhado pelos interiores desse Brazilzão.

O caboco é por natureza desconfiado e auto-inferiorizado. O caboco não se sente à vontade nos círculos mais altos da sociedade ou, por contraste e exagero, sente-se à vontade demais nestes círculos, deixando bem claro que não pertence a eles. O caboco, no fundo, tem ojeriza ao ridículo — situação na qual, não importa o quanto se esforce, ele sempre se vê.

O caboco quando fica em uma fila (e ele fica muito em filas) não se distrai com um livro, com um celular, com as notícias na TV. O caboco gosta de olhar as outras pessoas. Ele fica olhando, julgando, morrendo de medo de ser comparado a outrem e, ao mesmo tempo, comparando-se. O caboco tem olhos rápidos. Se ele percebe que alguém o viu olhando, tenta disfarçar e fingir.

O caboco tem medo de conversar. Ele prefere fingir que não viu, prefere fazer gestos com a cabeça, prefere até mesmo ignorar, a correr o risco de passar vergonha quando fala. Porque, novamente, o caboco não sabe falar — ou pelo menos acha que não sabe.

O caboco, no fundo, tem medo. E, na maioria das vezes, ele expressa seu medo por meio da raiva. Não que ele seja violento; mas seus modos transparecem sua agressividade. O caboco é a garçonete que detesta atender as pessoas, que nem encara as pessoas na mesa, que faz de mau grado porque, no fundo, ela nem queria interagir com aquelas pessoas. E isso não tem a ver com o cansaço do dia de trabalho — ela teria esse comportamento em qualquer outra situação: é a caboquice.

A caboquice então se manifesta nessas coisas. O caboco só se sente à vontade quando está com outros cabocos. E ainda criticam uns os outros quando um deles faz caboquice. 

Aliado à desconfiança natural, o caboco tem por certo que ele é impotente. O caboco se submete às mais diversas situações porque ele não sabe falar, então quem fala, bom... esse deve saber o que está falando. O caboco não sabe se comportar em diversas situações sociais, então, bem... aquele que sabe deve saber mais que ele. 

O caboco quando se vê numa situação de desvantagem, em vez de buscar a vantagem, resume tudo numa reclamação, solta impropérios de indignação, e volta pra casa com a certeza de que fez absolutamente tudo que podia fazer, porque, sabe como é né, as coisas são assim mesmo, vai fazer o quê?

Às vezes, quando em manada, o caboco solta a voz. O problema é que caboco com voz alta afasta outros cabocos. Então basta um começar a se evadir do local, de repente quem falou se vê sozinho e, novamente, diante do sentimento de impotência que lhe é natural.

A dieta do caboco é, na maioria das vezes, o que ele consegue ter. Mas, se em alguma situação ele tem acesso a comida diferente da sua, logo critica, pois aquilo não é comida de verdade. E não me refiro a pratos finos e exóticos. Até mesmo a culinária caboca de outra região pode causar no caboco um sentimento de estranhamento.

Enfim, o caboco é uma espécime tão natural do Brasil, que não está limitado a um recorte geográfico ou social (embora, como já argumentei, alguns recortes o tornem mais evidente). O caboco é parte da alma do Brasil, da América Latina.

E, neste ponto, talvez você se pergunte: mas de onde vem isso? Foram séculos de colonização? Mas então porque isso se manifesta em uns e outros não? Por que isso é tão natural para algumas pessoas e outras não conseguem sequer entender a razão desse tipo de ser? Afinal, o que fez do caboco um caboco?

Aí já são perguntas para os universitários. Antropólogos e sociólogos, se algum de vocês desenvolver uma pesquisa falando sobre isso, por favor entrem em contato, quero ler uma boa explicação sobre esse fenômeno. Mas por favor não me liguem, nem olhem diretamente pra mim, se possível nem falem comigo que fico nervoso. 

Desculpem, é minha alma de caboco.



sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Resenha — Atire no pianista

GOODIS, David. Atire no pianista. Porto Alegre: L&PM, 2007.


O ano de 2023 não poderia ter começado com melhor estilo. Não é a primeira vez que falo de David Goodis por aqui. Este mestre da literatura noir (literatura da noite, da sujeira, da sarjeta, dos miseráveis e dos gangsters dos anos 1920-30) caiu na minha estante pela primeira vez há um bom tempo e não saiu mais. 

Além de Atire no pianista li e resenhei A garota de Cassidy e A lua na sarjeta. Depois destes, vai ficar faltando só Sexta-feira negra pra oficialmente ter lido todas as obras dele traduzidas para o português (pelo menos até onde sei — aliás, todas publicadas pela editora L&PM).

E falando da editora, devo confessar que parte do que me apaixonou nestes livros de Goodis foram as edições pocket book. Meu Deus, que troço legal de ter e levar por aí pra ler. Super prático, não ocupa espaço, e surpreende como um livro tão pequeno pode carregar uma história tão boa.

E já caindo no enredo em si, putz, que história boa do cão. Devo confessar que o começo dos livros de Goodis sempre me parecem um pouco iguais, cheios de clicks típicos do gênero: a rua suja, a taverneira de seios fartos, o ambiente cheirando a cigarro, o personagem cansado. Parece que escreve pra identificar o gênero, não necessariamente pra escrever uma história — o que, na verdade, é uma técnica válida de escrita porque o livro de cara já mostra ao leitor para que veio.

Por outro lado, estou tão acostumado a livros de Goodis que vão direto ao ponto, que trazem um ar de urgência, que, de certa forma, têm pressa (assim como a fome e o frio têm), que foi uma grata surpresa encontrar neste livro uma narrativa que não corre, que ainda tem a mesma sensação de perigo e urgência, mas ainda assim me permite desfrutar da leitura com um pouco mais de gusto.

A história é fascinante e horrível ao mesmo tempo, como o melhor da literatura noir. Perto do fim tem algumas forçadas do enredo, mas nós estamos de tal forma fisgados pela história eletrizante que nossa suspeição da descrença está tinindo e essas forçadas pouco importam.

Aliás, no final o ritmo é vertiginoso, envolvente, tudo passa rápido porque nós devoramos as páginas e, quando vemos, já acabou, é o fim. E não temos escolha senão fechar o livro — porque já não há mais o que ler — e deixar aquela história reverberar na nossa cabeça. Literalmente fechei o livro e fiquei olhando para a parede, encarando o vazio de morte que a história me fez ver.

O modo como Goodis constrói tudo é tão bem concatenado, tão bem descrito que parece que não havia outra escolha para os personagens senão fazer exatamente o que fizeram, do modo que fizeram. Nos sentimentos mergulhados naquele mundo. Aliás, a descrição de Goodis sobre o que é praticar piano é tão exageradamente precisa que não tive escolha senão registrar aqui:
Trabalho, trabalho e mais trabalho. (p. 97)
Não me resta escolha senão dizer que Atire no pianista é um exemplo de bom livro: uma história simples mas bem contada que vale mais que qualquer história complexa, cheia de meandros e invencionices. Às vezes, basta falar do que há de mais fascinante, simples e terrível: a própria vida.

domingo, 1 de janeiro de 2023

Crônicas que eu não deveria publicar — I

A sincera impressão que tenho de Manaus é que ela se tornou uma cidade onde as pessoas se acostumaram com o que é feio, sujo e desorganizado. A tal ponto que tudo é visto como normal, como se todo lugar fosse assim e não há razão para reclamar de Manaus, tendo em vista que todas as outas cidades são assim: ruas sujas e mal cuidadas, pinturas descascadas, fedor. Manaus é uma metrópole no meio da selva amazônica e, com isso, ganha todos os brindes da região Norte do Brasil: calor, mosquitos e chuva. Tudo que é preciso pra deixar uma cidade caótica ainda pior. 

Disto resulta em uma cidade onde viver de modo desordenado é comum. É comum que os carros simplesmente parem no meio do trânsito pra ver alguma coisa. É comum que os motoristas usem os semáforos apenas como sugestão, não obrigação. É comum que os pedestres tenham que implorar para passar na faixa de pedestres e que os carros parem como se estivessem fazendo um mero favor.

Sobre o trânsito, tenho uma hipótese sociológica a considerar, mas antes deixe-me falar sobre o trânsito.

Em Manaus todos são extremamente agressivos. Dar o pisca pra trocar de faixa ou dizer que vai dobrar é um costume que só os turistas têm; quem é de casa, faz questão de atrapalhar o outro. Se você der o pisca pra trocar de faixa, o carro ao lado vai acelerar pra você não conseguir fazer isso. Se você não andar colado no carro da frente, quem está do lado vai avançar e quase bater no seu carro, tudo pra ganhar aquela posição. Há um constante jogo de poder no trânsito manauara.

E daí minha hipótese sociológica: a agressividade no trânsito desta cidade se dá pela frustração coletiva que os condutores têm na sociedade em geral. Minha premissa é que os cidadãos deste local se sentem tão impotentes que na oportunidade que têm de exercer domínio (no trânsito, com carros), eles o fazem. Não porque precisam fazer isso, mas pela satisfação que encontram em passar de outra pessoa, de ganhar vantagem em cima de alguém que eles nem conhecem e provavelmente nunca tornarão a ver.

O condutor de Manaus está no meio de uma cidade feia, suja, caótica, e é no trânsito que ele encontram uma oportunidade para, pelo menos por uns meros segundos, sentir que está no controle de alguma coisa. São aqueles segundos de domínio e agressividade que fazem o manauara suportar sua própria cidade.

Seria isso verdade em todas as grandes cidades? Não sei. Já andei em outras grandes cidades e não encontrei o que encontrei aqui, pelo menos não em todas. Por outro lado, nunca dirigi em São Paulo. Seria isso uma característica das grandes cidades? Se sim, por que nem todas são assim? Se não, por que Manaus é assim? Seria essa uma questão estrutural ou pontual? É um evento local? Regional? Nacional?

Soma-se a isso a caboquice. Mas aí se torna já uma outra questão, porque a caboquice não é exclusiva de Manaus. Caboco é um dos pontos fortes dos interiores do Brasil e regiões como Norte e Nordeste. E, veja bem, não me refiro ao caboclo, mas sim ao caboco. Mas isso é assunto para outra crônica.

Por enquanto, fiquemos com isso: desordem e agressividade como ferramenta para encontrar o sentimento de ordem. Sentimento este que nunca se mantém, evidente, uma vez que não é assim que de fato se corrige as coisas e se muda a sociedade. 

Eu queria muito poder gostar de Manaus, mas infelizmente não dá. É ruim demais.