sábado, 12 de março de 2022

Resenha – Ben Carson

CARSON, Ben S.; MURPHEY, Cecil. Ben Carson. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2002.


Conversava eu com meu bom amigo Craig Chapman, quando, no meio da conversa, ele citou o nome Ben Carson. Eu parei no meio da video-chamada e disse "Ei! Eu conheço esse cara! Olha só, tenho a biografia dele!". Dito e feito, lá estava o livro na estante. 

Eu o lera a primeira vez na época da adolescência, quiçá fim da infância. Eu não lembrava de detalhes da história, mas lembro que gostei do livro, porque achei a história bem interessante. Ora, uma vez que o livro tinha bons antecedentes, por que não lhe dar outra chance? Lá fui eu.

Antes de falar do livro, vamos falar sobre o livro. A começar pela edição. Confesso que nem sei quem é essa tal de Casa Publicadora Brasileira. Só sei que o livro é velho. A cópia que tenho em mãos tem as páginas todas amareladas e é uma brochura normal. Não obstante, a leitura é bem agradável e, pra ser honesto, as páginas amareladas até me ajudam na leitura.

Agora se for pra falar da tradução, devo dizer que infelizmente o tradutor caiu no erro de traduzir. Eu consigo ver as expressões que fazem sentido em inglês, mas que quando traduzidas diretamente quase não têm nexo. Disso resultam, por exemplo, diálogos sôfregos, exatamente aquele tipo de diálogos que eu condeno veementemente na literatura (perdão pelos advérbios).
"– Continuarei fazendo tudo corretamente – respondi bruscamente. – Estarei bem. Não tenho trazido boas notas para casa?" (p. 58)
Na moral, quem fala assim? Ainda mais um adolescente conversando com a mãe. Não, não dá. Claro que depois de um tempo a gente se acostuma; mas, poxa, custava adaptar só um pouquinho pra leitura ficar mais verossímil?

Findados o pré-texto, podemos falar do conteúdo do livro, que nada mais é do que uma biografia do médico neurocirurgião norte-americano Ben Carson. O livro é dividido mais ou menos em três partes: infância e adolescência, faculdade e cirurgias (ou carreira profissional) até 1990, data da publicação do livro nos EUA.

Pegando o gancho da mãe, que citei ainda há pouco, se no começo o autor falou bastante da sua mãe (de modo bem emocionante até), fiquei surpreso em notar que ela não é mencionada quando de sua partida para universidade, já que esse evento é um marco para muitos pais (e talvez eu tenha aí minha resposta).

Não sei se Ben Carson escreveu esse livro ou foi um ghost writer. Seja lá quem for, é muito bom em narração. O encadeamento dos fatos é muito bem trabalhado, ao ponto de eu começar a ler num dia e no outro perceber que faltavam poucas páginas pro livro acabar. Pra ser exato, li o livro em três dias.

Tendo essa questão da autoria em mente, achei interessante que o autor várias vezes diz que não ligava pra posições de destaque, etc, mas o que eu via era ele no parágrafo seguinte se gabando de como tinha posição de destaque e quase um destino manifesto para sua posição de destaque. Ok, ok. É vero que há um limiar difícil entre se gabar e enumerar seus feitos, mas às vezes me parece que ele erra a mão.

Não obstante esses incômodos, é inegável que o livro traz algumas lições bem interessantes. Não sei se conscientemente, mas ter lido esse livro na adolescência moldou muito do que penso. Hoje ao reler me deparo com vários princípios que eu pensei ter adotado por mim mesmo mas agora me questiono se não foram influências desse livro (que nem a premissa "a inteligência supera a força" que vi, surpreso, o Merlin repetindo no filme "A espada era a lei".)

Pra citar apenas uma, lembro da ideia da mãe de Carson de que "se alguém consegue fazer, então você também consegue." Creio que findei adotando isso de maneira inversa e falava pras pessoas: "Se eu consigo fazer, então você também consegue."
"Outro capítulo da minha vida estava prestes a abrir-se e, como acontece frequentemente antes dos eventos transformadores da vida, eu não estava ciente disso." (p. 151)
Hoje lendo com outros olhos consigo ver algumas coisas na vida de Ben Carson que são na verdade coisas que acontecem com todo mundo, como a citação acima (talvez exatamente nesta época que vivo agora ela seja mais verdade na minha vida). 

Além dela, lembro que em determinado momento ele sentiu o baque que foi sair do Ensino Médio e ir pro Superior, quando percebe que na verdade ele não sabia estudar. Foi exatamente o que aconteceu comigo também na época da universidade.
"Jamais descobrimos porque Jennifer morreu. A operação foi bem-sucedida. Nada na autópsia mostrava que algo havia dado errado. Como às vezes acontece, a causa da sua morte permanece um mistério." (p. 189)
E eis a sina do médico. Apesar da nossa inteligência e criatividade (dois traços bem marcantes da história de Ben Carson), ainda temos que lidar com o que há de mais essencial na vida. Até mesmo o adventista de sétimo dia neurocirurgião. 

No fim das contas não é um livro que eu pretendo doar (atual destino de todos que não gosto muito), porque a leitura é interessante e, bem, creio que daqui a uns 10 anos minha memória não estará melhor do que agora, então talvez será uma boa surpresa encontrar o livro na estante e desprender algumas horas numa leitura agradável.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Resenha – A morte de Ivan Ilitch

TOLSTÓI, Leon. A morte de Ivan Ilitch. Porto Alegre: LP&M, 2020.


Considerando a situação atual do mundo (estamos há quase um mês do início do conflito Rússia - Ucrânia), talvez eu deva conceder que os russos não produzam os melhores políticos; mas, diabos, como sabem fazer bons escritores. Não é meu primeiro livro de Tolstói e devo admitir que foi justamente essa experiência prévia que me levou a comprar esse livro (fiz uma resenha de Anna Karenina quando o li). Fiquei encantado com a capacidade da narrativa do autor que resolvi explorar outras obras. E, nossa, como valeu a pena. 

Pra variar começo elogiando a edição da LP&M. Não é segredo algum que amo literatura de bolso, especialmente quando esses livrinhos empacotam boa literatura russa. Na verdade, creio que já percebo os primeiros sintomas da velhice: quando abri o livro, uma das primeiras coisas que notei foram as letras grandes (não enormes, mas apropriadas) e o excelente trabalho de diagramação. 

Não há muito o que falar da narrativa do livro senão aquilo que já comentei em Anna Karenina: extremamente fluida, dá gosto de continuar lendo. Aliás, o autor imprime uma verossimilhança tal no comportamento dos personagens que o modo como narra e descreve o definhamento de Ivan Ilitch, me fez pensar que Tolstói realmente viveu aquilo, pra falar com tanta propriedade.

O grande tema do livro não é Ivan Ilitch, mas a morte. O autor faz um contraste entre a vida de Ivan, seu florescimento e ápice, pra depois mostrar sua decadência até chegar, enfim, na morte. Em poucas palavras, Ivan enfrenta o que há de mais básico na existência humana, talvez até mais comum do que a própria vida: o fato de que todos vão morrer. 
"Ivan Ilitch via que estava morrendo e desesperava-se. No fundo do coração sabia que estava indo embora e, longe de acostumar-se com a ideia, simplesmente não conseguia entendê-la." (p. 69)
Conforme lia a narrativa, fiquei pensando como deve ser horrível viver com esse medo – ou pior, morrer com esse medo. Confesso que me peguei triste por saber que esta é uma realidade não de poucos, para quem o futuro nada mais é do que a escuridão do desconhecimento do que há depois da vida.

Aliás, a reflexão que o autor faz no capítulo 9 sobre vida e morte é absolutamente genial. Penso até que aquele capítulo, por si, já justifica a honra que todo o livro leva (críticos consideram este livro como uma das novelas mais perfeitas da literatura mundial).

Não havendo mais o que ser dito, basta dizer que é realmente um livro incrível. E agora que parei pra verificar o blog, tenho lido bastantes autores russos nestes últimos tempos. É como falei. Não sei se produzem bons políticos; mas, meu Deus, como souberam fazer bons escritores.

terça-feira, 1 de março de 2022

Resenha – Notas do subsolo

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Notas do subsolo. Porto Alegre: LP&M, 2012.


Antes da resenha, um causo.

Sempre que viajo, preciso de um livro pra ler. É inegociável. Pois bem, estava eu às vésperas de viajar e percebi que queria algo novo para ler, mas que nada que eu comprasse chegaria à tempo da viagem. Percebi novamente que estava sendo burro. Ora! Eu tinha a Biblioteca pública no Palácio da Cultura à minha disposição, bastava ir lá e fazer minha carteirinha! Livros e livros disponíveis de graça pra mim, bastava ir lá, pegar e ler. Pois bem. 

Após reunir os documentos e me dirigir à biblioteca, fiz a carteirinha e fui explorar a seção de livros que podiam ser emprestados (romances e ficção), todo contente. O que descobri, porém, é que não tenho sistema imunológico suficiente para emprestar um livro daquela biblioteca. O mofo e a poeira eram demasiados até mesmo para tocar em alguns casos. 

Chegou ao cúmulo de encontrar uma senhora teia de aranha em uma das estantes. Mas não uma teia, mas uma teia, tipo aquela que Frodo e Sam caíram. Na verdade, fiquei com medo de tocar nela e Aragogue sair pra me capturar e me dar de alimento pros seus filhos. 

Saí de lá bem triste e decepcionado. Não só a biblioteca estava mal abastecida (obras de Dostoiévski por exemplo, se contavam nos dedos os exemplares – e alguns deles ainda eram da mesma obra), como também os livros que estão ali, do meu ponto de vista, são im-prestáveis. Temo que se alguém levar pra casa, o bicho se desfaça no caminho. 

Até que ponto não dá e até que ponto não se quer
Foi este o questionamento que ficou quando desci as escadas da biblioteca, sem nenhum livro na mão e ansiando por um álcool em gel pra me livrar das alergias.

Findado o causo, vamos à resenha.

O que este causo tem a ver com tudo? É que após decidir que não teria outra escolha senão encontrar um livro na minha estante e reler, tive a grata surpresa de pegar esta obra de Dostoiévski que eu já havia lido há tanto tempo que sequer lembrava o conteúdo. Tudo que eu lembrava é que tinha gostado. Ah! E como eu estava certo com essa lembrança. 

Como pode, um livro tão bom desse sentado na minha estante e, pior, ignorado quando uma oportunidade de escolha surgiu. Quantos livos bons não estão sentados em estantes? Essa obra de Dostoiévski foi comentada da seguinte forma: "Notas do subsolo é um verdadeiro golpe de mestre da psicologia." E quem disse isso? Ninguém mais, ninguém menos, que Friedrich Nietzsche. 

Era uma obra desse nível que estava sentada na minha estante. 
"Sou um homem doente... Sou mal. Não tenho atrativos. Acho que sofro do fígado. Aliás, não entendo bulhufas da minha doença e não sei com certeza o que é que me dói." (p. 11)
"Quanto mais consciência eu tinha do bem e de todo esse 'belo e sublime', mais afundava no meu lodo e mais capaz me tornava de atolar-me completamente." (p. 15-16)
Dostoiévski faz nas primeiras páginas deste livro um verdadeiro tratado sobre a Depravação Total: não só ele é mau, como também tem deleite e satisfação em causar o mal a outros; e queda-se indiferente se ele gosta disso ou não, porque percebe que isso é parte da sua própria natureza. Tanto quanto dois mais dois são quatro, ele não o pode negar.

[Curiosidade interessante: toda essa exposição é feita por meio de uma diatribe. (Fica aí a instigação para googlar).]

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, há um caráter ensaístico do autor, que usa o personagem para falar da condição humana e tentar refutar várias ideias do seu tempo. Por exemplo, o personagem se nega a acreditar nas ideias do modernismo científico como base do comportamento humano. Ou seja, que há uma série de leis que regem o comportamento humano e basta descobri-las para se prever tudo. Dostoiévski estava à frente do seu tempo, uma vez que estas ideias seriam defendidas por um bom tempo, até eclodirem no caos da II Guerra Mundial e as justificativas "científicas" do nazismo.

Na segunda parte encontramos três episódios da vida do personagem sem nome que nos revelam quem ele realmente é: um homem perturbado, constantemente achando que é superior aos outros ao seu redor e sentindo-se injustiçado por que ninguém reconhece esta superioridade. 

Na verdade, o personagem tem uma espécie de síndrome do pombo enxadrista, com a possível diferença de que às vezes ele nota que é um pombo. Em determinado momento ele até me lembra aquele personagem do Guia do Mochileiro das Galáxias que, não importa a realidade ou tempo, é sempre "perseguido" por Arthur Dent, mesmo quando este sequer reconhece a existência do outro.

O personagem se coloca em situações terríveis e constrangedoras, mas seu orgulho é tamanho que ele só afunda cada vez mais nelas. Em determinado momento, por exemplo, ele tem uma crise nervosa e fica evidente que ele é provavelmente seu maior opressor – ainda que não se possa negar que as outras pessoas também o oprimam devagarzinho, cada um à sua maneira.

Ficamos ao mesmo tempo com pena e agonizando ao ver o personagem agir do jeito que age, aparentemente incapaz de escapar dos ciclos autodestrutivos em que ele mesmo se coloca, incapaz de sair do "subsolo" e todas as ramificações que ele traz.

Por fim, ressalto que amo as edições de livro de bolso. Tem alguma coisa nesses livros pequenos e tão cheios de coisas que me atrai, não sei dizer ao certo o que é. Mas o que vale a pena tirar o chapéu aqui é a tradução. Maria Aparecida Botelho Pereira Soares fez um trabalho excepcional trazendo um Dostoiévski que não fala bonito, mas também não fala feio. Aquele limiar entre a norma culta e o coloquial que só os mestres da arte conseguem dominar.

No fim das contas, não é à toa que pretendo um dia ter a coleção completa com todas as obras de Dostoiévski. O cara é um gênio no qual vale a pena se inspirar.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Dia

Dia 1
Vai dar tudo certo, tudo tranquilo. Na TV acabaram de dizer que coisa de três meses tudo acaba. Vou até aproveitar, vai ser um momento de relaxar, buscar novos projetos, vou me renovar. No fundo, acho até que vai ser bom.

Dia 15
Olha, as coisas não estão andando do jeito que eu imaginava. Acho que só estou cansado, sabe? Talvez o segredo seja deixar os dias passarem e ver o que acontece. Hoje lembrei que faz duas semanas que não rego as plantas. Esqueci que a quarentena não proíbe ir ao quintal. Nem lembro qual foi a última vez que peguei sol. A TV continua falando.

Dia 30
Bom, pelo menos agora serão apenas mais dois meses... Eita... mais dois meses disso? Pelo menos trabalhar online está sendo bom. Não tem que enfrentar trânsito, não tem colega de trabalho enchendo a paciência. Se bem que essas reuniões online são intermináveis! Ainda tem a dona Carminda que toda santa vez esquece de ligar a câmera, aí quando é pra ligar ela desliga. Um caos, um caos.

Dia 42
Fiz umas compras online só pra ver o carteiro me entregar a encomenda. Ele acabou de ir embora. Tentei papear mas ele nem me olhou direito. Na próxima vou montar uma mesinha lá fora com um café e convidar ele pra sentar. Ele lá na rua e eu na calçada, claro.

Dia 66
É... então... resolvi desligar a TV um pouco. Todo dia a mesma coisa. Se bobear já sei de cor todos os  números da pandemia e acho até que consigo adivinhar os do dia seguinte. Se pelo menos eu tivesse essa habilidade pra prever os números da Sena... Nossa! A lotérica! Nem lembrava mais que isso existe. Eita saudade daquela muvuca, as velhas mal-humoradas, os motoboy fedorento... hum...

Dia 90
Eu achava que a essa altura estaria livre. Mas não. Continua a mesma coisa. Comprei na internet um bicho de pelúcia pra me fazer companhia. Falo com ele todo dia, mas ele não me responde, o safado. Já cansei do trabalho online, especialmente quando tem prazo pra cumprir e não tem internet pra fazer nada. Hoje sentei no quintal, debaixo da árvore, e fiquei esperando a internet voltar. Um passarinho cagou em mim.

Dia 142
Hoje o urso de pelúcia falou comigo de novo, queria o relatório atualizado dos números da pandemia. Eu disse de cabeça e ele disse que estava errado, que era pra eu ligar a TV e conferir. Mas ele não manda em mim. Quem manda em mim é o passarinho, dou meu café da manhã todo dia pra ele, com medo de ele não pousar mais na árvore. Meu chefe disse que vamos ter outra reunião hoje a tarde. Meu Deus, a dona Carminda!

[...]


Para ler o conto na íntegra, acesse: https://thewolfbard.com/wp-content/uploads/2022/01/Revista-The-Bard-JANFEV-2022.pdf (p. 42-45)

Primeiro conto publicado em 2022! Uhul!

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Resenha – Pais e filhos

TURGUÊNIEV, Ivan. Pais e filhos. São Paulo: Abril Cultural, 1971.


Todo livro depois de Great Expectations ia necessariamente sofrer comparações. Se por um lado é inegável a fluidez da narrativa de Turguêniev, por outro já acho que às vezes ele é direto demais, falando em vez de mostrar. Mas vamos com calma.

Falando da edição, nossa, como é bom não precisar ler naquelas letrinhas miúdas. Este livro é parte de uma coletânea da Abril Cultural e fiquei bem contente em ver que ele é da primeira edição, de 1971 (faz alguma diferença? Não faz, mas eu acho legal). A capa dura, o contraste do vermelho com o dourado, as margens agradáveis. Tudo que um livro precisa pra ser chamado de boa edição.

Uma salva de palmas para o tradutor. Que os autores possam citar trechos em outros idiomas nos seus textos é elementar, agora me faz muito bem saber que o tradutor se importa com seus leitores de outra época, inserindo uma nota de rodapé quando há uma citação em francês ou alemão, por exemplo. A literatura tem que ser assim, tem que estar próxima das pessoas. É por isso que nunca gostei da erudição exagerada de Machado de Assis nas suas obras. Mas isso é outro papo, prossigamos. 

Definitivamente o grande tema do livro está no conflito de gerações. Novas ideias versus antigos costumes. Há uma verdadeira guerra e eu estou em dúvida sobre quem deveria vencer. Bem curioso assistir à argumentação niilista dos jovens. Assumidamente niilista. Um grande privilégio ler algo que mostra como essa corrente filosófica veio e afetou toda a Rússia daquela época.

Na verdade, segundo me ensinou a Wikipédia, foi esta obra de Turguêniev que popularizou o uso do termo "niilismo" por toda a Europa. Esta obra na verdade foi citada por vários outros grandes autores da época e foi uma referência, sendo um dos primeiros romances russos da nova geração. 

Claro que se estamos falando de romancistas russos, Dostoiévski tem que aparecer. Na verdade, pra mim, Turguêniev acabou ofuscado por Dostoiévski, que também usou o niilismo em todas as suas obras (ainda que não de modo direto, como o fez o primeiro). Enquanto Turguêniev usa o niilismo como marca de um futuro decadente, Dostoiévski o usa como ferramenta pra mostrar a decadência da sociedade presente.

Mas, voltando ao conteúdo, se o tema é o conflito de gerações, o grande cerne deste conflito está mesmo no niilismo. Esta filosofia cujo propósito é a destruição pela destruição vem com força na figura do jovem Bazárov, que contrasta com quase todos os outros personagens. 

Interessante notar a contradição presente neste, o maior niilista, que condena a autoridade mas ainda exerce autoridade para com os que considera "inferiores" (e vemos em determinado momento do livros que os "inferiores" na verdade é que o consideravam um mero falastrão); e mais, não somente exerce autoridade como é rude e cruel desnecessariamente.

O seu orgulho é tamanho que a cena do encontro de Bazárov com os pais é terrível. Voltado para si e vivendo para si (um bom niilista), ele demonstra extrema ingratidão para com os pais. Este, para mim, foi o momento mais triste do livro: em que ele expressa com todas as letras seu desprezo e indiferença por aqueles que só queriam o seu bem. 

No que concerne ao estilo e narrativa, não dá pra negar que o livro é bem fluido e até bem humorado. Não deixa de ser interessante notar as semelhanças entre russos e brasileiros em tantos momentos (já destaquei isso mais de uma vez em resenhas de Dostoiévski — como é que pode, é afinal, sermos tão parecidos?)
"A cidade que foram visitar os nossos niilistas era administrada por um governador môço, progressista e déspota, como acontece quase sempre na Rússia." (p. 74)
Não só trechos como esse nos revelam um pouco da sociedade, como é interessante e até engraçado ver como as percepções mudam com o tempo. Em determinado momento do livro somos apresentados à Senhora Odintsova (de nome Ana Serguêievna) e o autor nos conta que ela casou com um homem mais velho, só pra depois dar o golpe do baú. Atenção, o "homem velho" tinha 46 anos. E morreu com 52.

O livro fala do niilismo, mas tem seu romantismo. Não mais aquele ultra que tanto dominou o século XIX, mas diria quase um romantismo equilibrado — se bem que tem o trágico da morte, a felicidade do que é comum e bom, ora... será que é romântico mesmo no fim? Talvez, mas com certeza inaugura uma fase de narrativas mais sóbrias.
"Assim se expressava Ana Serguêievna e assim falava Bazárov. Ambos pensavam que diziam a verdade. Havia realmente verdade nas suas palavras? Nem êles mesmos o sabiam." (p. 207)
No fim das contas, não é um grande espetáculo da literatura, mas é uma obra boa de se ler. Talvez a obra até seja um grande espetáculo mesmo e sofra apenas pela comparação (como me desculpei no começo). De qualquer forma, uma leitura com certeza boa e, quem sabe, útil para um leitor intermediário que queira conhecer um pouco mais da literatura russa.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Resenha – Great Expectations

DICKENS, Charles. Great Expectations. Hentfordshire: Wordsworth, 1992.


A impressão que eu tenho é que meu pai literário, Aldenor Pimentel, estava só querendo se livrar de algumas obras em inglês que findaram parando nas mãos dele. Quando menos esperei me vi com esse livro nas mãos. Eu já conhecia o autor e também já tinha ouvido falar da obra. Ah... mas eu não esperava pelo que li. À resenha.

Depois de ler, percebi que a edição que tenho nas mãos não faz jus a um livro tão bom. É uma edição paperback, provavelmente vendida bem barato (que é a função dos paperback mesmo). Mas isso resultou em letras um pouco pequenas demais pro meu gosto, condensadas em 400 páginas. Não obstante, as margens são agradáveis e a Wordsworth publica clássicos há décadas não é à toa.

Comecei a ler este livro no Natal, dia 25, porque a história começa nesse dia. Já no começo somos apresentados ao que há de mais Dickenziano possível: um órfão, criado por uma irmã amarga e violenta, mas amparado por um padrasto bondoso, um ferreiro numa cidade simples. Narrado em primeira pessoa, o personagem Pip logo no começo se apresenta dizendo que:
"I was always treated as if I had insisted on being born, in a position to the dictates of reason, religion, and morality, and against the dissuading arguments of my best friends." (p. 31)
Pip é uma criança atazanada por todos ao seu redor. Este livro tem aqueles personagens que fazem a gente ficar com raiva pela injustiça que o outro sofre. O autor consegue sempre nos deixar tensos, com o menino sempre correndo algum risco, mesmo por situações que ele não pode controlar.

Então nós acompanhamos toda sua jornada até a vida adulta. Criado principalmente por seu padrasto Joe Gargery, no meio do caminho, ele conhece a ricaça Miss Havisham, que lhe apresenta a bela Estella, sua eterna paixão. Aos poucos, o rapaz vai deixando a vida simples que tinha em busca de "grandes expectativas" em Londres, depois que um patrono secreto lhe dá uma grande fortuna. O grande tema do livro é esta jornada de "ascensão", mostrando que não é a posição social que faz uma pessoa (além de vários outros temas).

Não vou analisar a obra, não tenho cacife literário ou acadêmico pra isso. Basta colocar no Google que dá pra ver que há muito, muito, muito o que se dizer sobre a trama, sobre o trabalho feito com os personagens. Quero deixar aqui só as minhas impressões do que li.

Uma coisa que não se pode negar, é que os personagens são densos. O autor é capaz de nos fazer odiar um personagem pra depois, em um único capítulo, nos fazer sentir pena dele. Quando vemos o que está por baixo da superfície de alguém, torna-se inevitável ter alguma empatia pela dor do outro. 

Como o livro é em primeira pessoa, há muitos monólogos. Isto torna a narrativa cansativa algumas vezes, com trechos que me parecem mais o estilo de Dickens pra "enrolar" do que a necessidade da trama. Ok, a palavra "enrolar" não é justa. Dickens é um mestre do "mostre, não conte". Em vez de dizer que o rapaz estava aos poucos se afastando de Joe Gargery, seu padrasto que tanto o amava, o autor passa literalmente 20 capítulos fazendo o personagem mencionar cada vez menos ou se referir com cada vez menor frequência ao nome de Joe. Talvez, talvez, pudesse ter encurtado um pouquinhozinho só. Talvez. 

Os diálogos, por sua vez, bem como algumas descrições, são muito bem trabalhadas. Talvez, novamente, trabalhadas até demais. Nos diálogos, o autor optou por transcrever alguns estilos de fala nos personagens (tipo um personagem analfabeto falando "Nós fumo lá i dipôi cansemo"). Conquanto seja uma técnica válida e até imersiva, pra quem não está acostumado pode ser um problema. (Esta questão fala um bocado sobre a perpetuidade do livro.)

E o livro tem lições, ô se tem! Quando na vida simples, Pip encontrou em Joe a figura de alguém que cuidou dele e se preocupava com ele. Em Londres, é o amigo Herbert que vai cumprir esta função. No começo, Pip acaba sendo como uma má influência para o amigo, mas depois que resolve ajudá-lo, é que o herói começa, aos poucos, a entender que o bom da vida não vem queremos apenas o nosso próprio bem:
"[...] I did really cry in good earnest when I went to bed, to think that my expectations had done some good to somebody." (p. 259)
Conforme o livro vai chegando mais próximo do fim, o herói vai começando a perceber que gente boa existe em qualquer camada da sociedade, assim como gente ruim. Pip também começa a olhar mais para os outros, em vez de só para si mesmo e começa a entender, por causa dos outros, que ele mesmo tem muito a aprender:
"[...] I often wondered how I have conceived that old idea of his [Herbert] inaptitude, until I was one day enlightened by the reflection, that perhaps the inaptitude had never been in him at all, but had been in me." (p. 409)
É uma grande pena que eu não tenha trazido nenhuma citação do meu personagem favorito do livro. Porque o que esse cara falou, em mais de uma ocasião, devem ter sido as maiores lições que o livro pode trazer. Eu não me refiro ao muito inteligente advogado Mr. Jaggers, nem ao amável e leal Mr. Wemmick, não. As maiores lições foram trazidas pelo ferreiro sem modos e formação escolar: Joe Gargery. 

Ah, Joe. Suas palavras me fizeram chorar mais de uma vez. Seu amor fez meu coração ficar apertadinho mais de uma vez. No final, achei injusto o Pip querer voltar pra você, depois de tudo que ele fez (ou deixou de fazer). Mas o que você me mostrou é que você não se importa com o que eu penso, você não se importa com o que ninguém pensa. Você só queria seu garotinho de volta, e ele voltou pra você. 

Joe, ninguém neste livro te merece. 

Existem livros que para mim erraram de herói. Quando li "O Conde de Monte Cristo" de Dumas, não foi Dantes quem mais me impressionou. Aquele rapaz não era ninguém e teria continuado assim se não fosse o Abade Faria. O homem mais inteligente que havia e, que por passar seu conhecimento à frente, tornou-se o mais bondoso de todo o livro. 

Assim é Joe Gargery em "Great Expectations". Ah, Pip. Você às vezes é um personagem muito passivo, talvez culpa do seu criador, e por isso parece que tudo acontece ao seu redor e você não faz nada, apenas vê o mundo passar. Mas não é assim com Joe, que, apesar de ter crescido no meio da violência e ter entendido esta como uma fonte de amor (tal complicada era sua visão de mundo), não optou pela violência, vivendo como um baluarte da luz no meio da sociedade decadente de Dickens. 

Em conclusão, tem no meio o "romance" de Pip com Estella (romance este que não existe de fato); tem a perseguição, tem a surpresa quando é revelado quem é o verdadeira patrono de Pip e todo o papel que este vai desempenhar na última parte do livro; tem as provas de lealdade e amizade dadas por Herbert e Wemmick; tem a soberba, a pobreza, o dinheiro, a amargura. 

Ah, gente. Mas daqui a uns anos, quando eu não lembrar mais dessa história (do mesmo jeito que hoje acontece comigo quando penso no "Conde de Monte Cristo"), eu ainda vou carregar no coração a certeza de que Joe Gargery foi o grande aprendizado que tive com Great Expectations.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

2021: o resumo da ópera

Eu gosto de tradições, por mais que não as tenha muitas. Por isso fico muito contente quando chega o fim do ano e tenho esse espaço aqui para ponderar sobre o que aconteceu ou deixou de acontecer literariamente comigo no ano que passou. Por isso, sem delongas, vamos ao resumo.



1. Livros resenhados
    É, meus caros, a vida é feita de altos e baixos. Algumas vezes os altos são tão altos que a gente nem acredita – e isso serve pra fazer parecer que os baixos que se seguem são muito baixos, quando, na verdade, talvez eles nem sejam isso tudo (parabéns se você conseguiu entender o que eu quis dizer).

    2018: 27 livros
    2019: 37 livros
    2020: 40 livros
    2021: 21 livros

    Jan1) O ladrão honesto e outros contos; 2) Amor de perdição; 3) Feliz ano velho
    Fev4) Dillinger 5) A garota do lago
    Mar6) Cães de guerra
    Abr7) O trílio negro; 8) O trílio de sangue; 9) A análise da cadela procriadora; 10) A mãe
    Mai11) O trílio celeste
    Jun12) O idiota; 13) É todo um processo; 14) O livro dos seres imaginários; 15) A senhora do trílio; 16) Um deus passeando... 
    Jul17) Borderliners
    Ago18) Ana Karenina; 19) As conspirações para matar Hitler
    Set--
    Out--
    Nov20) Veríssimo antológico
    Dez21) O Silmarillion

    Foi o meu pior número nos últimos quatro anos? Foi. Teve vários momentos que eu estava com pura e simples preguiça de ler? Teve. Mas, sinceramente, eu olho pra trás e fico pesaroso? Não. 

    Não porque, como argumentei no ano anterior, a leitura ainda é pra mim um dos poucos hábitos que conseguem sobreviver sem que sejam feitos por obrigações. Prefiro ler 21 livros num ano com gosto, do que tentar repetir a dose dos 40 com desgosto. Neste ponto, portanto, me dou por satisfeito.

    A pior leitura de 2021 foi fácil "A garota do lago", que representou decepção atrás de decepção e aquela sensação de perda de tempo (embora, pra ser honesto, ela tenha competido pau a pau com a série do "Trílio", que foi também uma baita perda de tempo). 

    E apesar do ano ter terminado com Tolkien e eu realmente ter curtido bastante o Silmarillion, a melhor leitura do ano vai para o mestre Tolstói com "Ana Karenina", uma obra fantástica, densa, cheia de personagens interessantes e relações que refletem em muito a condição humana. Realmente curti.


    2. Concursos literários e produções

    Diferente dos outros anos, resolvi inovar. Resolvi adotar a estratégia do "vou atirar pra tudo que é canto na tentativa de acertar qualquer coisa". Por um lado, devo confessar que ela funciona quando olhamos para os números proporcionalmente (isso ficará mais nítido no gráfico). Por outro lado, é ainda mais desgastante você receber repetidos "nãos" ou sequer recebê-los. 

    Ainda no espírito da inovação, este ano vai uma tabela completa de todos os textos que enviei, com o título e o concurso para qual enviei. A tabela fala por si.



    Foram ao todo 35 contos enviados (quase o dobro dos 18 que foram enviados no passado). E disto resultou 6 seleções para publicação, que elevou também minha marca de 5 para 6 publicações num ano – o que não é grande coisa e fica ainda menos quando olhamos para o total de envios.

    Não tenho certeza se vou adotar essa mesma estratégia no ano que vem, porque sinceramente me dá mais tristeza do que satisfação em ver a tabela desse jeito e o gráfico a seguir também. Talvez seja melhor mirar no que é mais certo do que simplesmente sair atirando pra tudo que é canto. A frustração é grande depois.

    Conta a meu favor que lancei DOIS LIVROS em 2021: "É a vida: microcontos de risadas, amor e morte" em março e "Outros personagens não bíblicos e suas histórias" em dezembro. 

    Até agora não sei se isso foi bom ou ruim. Quem é da área diz que quantos mais livros lançarem é melhor, mas não sei se estou preparado pra essa vida de escrever, publicar e depois não conseguir vender o que tanto lutou pra fazer dar certo. 

    "É a vida" até que saiu bem pro contexto em que ele estava: tudo fechado ainda, não teve lançamento físico, não teve tanta divulgação, etc. Agora, "Outros PNB" tem sido uma grande tristeza. Saiu muito, muito, muito menos do que eu esperava – e olha que eu nem esperava tanto. Isto tem feito eu me questionar seriamente se ainda quero escrever livros. 

    Não quero ver acontecer comigo na Literatura o mesmo que aconteceu na Música: escrever composições apenas para as ver engavetadas sem nunca ter quem as execute e ficar pra sempre na expectativa do que pode ser, sem nunca saber o que será. Se for pra ficar assim, eu prefiro parar de escrever. Decepções já me bastam numa arte, não preciso de outra pra reforçar.


    #O resumo da ópera
    • Livros lidos: 21
    • Textos escritos: nunca que eu mantenho esse controle
    • Textos enviados pra concursos literários: 35
    • Textos aprovados: 6
    Ai, ai. Gostaria de terminar esse ano um pouco mais contente na Literatura. Mas pra ser honesto eu nem quero mais ter esperanças. O que será, será. No meio tempo, acho que vou voltar a me focar na Música, no trabalho, quem sabe nos estudos. E, claro, continuar tentando vender "Outros personagens não bíblicos e suas histórias".

    Acho que o que mais me entristece é que o livro é bom, ele realmente é! Estive relendo alguns contos dele um dia desses e me peguei surpreso com o que eu mesmo escrevi. Poxa, quem diria, a gente aprende com o tempo mesmo, né? Mas de que me adianta escrever a melhor das histórias quando não consigo fazê-la voar para alcançar o seu leitor? Como eu disse: ai, ai. 

    Mas não temam, o blog vai continuar com as resenhas, crônicas e registro de contos publicados (não que isso seja lá muita coisa), mas o Instagram vai morrer, pelo menos durante boa parte de 2022 – não pretendo voltar com ele até 2023. Resolvi ativar meu canal no Youtube, com apenas um vídeo por mês, variando entre dicas de literatura e microcontos narrados.

    No meio tempo, vejo-os por aí.