quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Crônicas do Cotidiano - I

A vida é uma viagem mesmo, né? Cheguei na rodoviária meio esbaforido. Verdade seja dita não gosto de viajar no aperreio. Gosto das coisas com calma, planejadas, estudadas. Mas dá pra ser assim sempre? Nem nas viagens nem na vida.

A rodoviária estava menor do que eu lembrava, pegamos os bilhetes da passagem e caminhamos pelo saguão quente. Acho que era o calor humano. Olhares cansados em meio a rostos sorridentes, abraços apertados e corpos em movimento. Os sorrisos mudam muita coisa.

Meu pai nos deu carona e nos acompanhou até a hora que entramos no ônibus. Lembrei da infância quando fazíamos o mesmo quando ele ou minha mãe iam em viagem. Que coragem deles em encarar essa estrada maluca quase todo ano.

A fila pra entrar no ônibus estava grande. Gente se empanturrando pra colocar as malas no bagageiro e eu só querendo subir pro meu assento. O motorista que coletava os bilhetes tinha a fronte suada. Conferia os bilhetes, nomes e rostos.

Mas um sorriso muda muita coisa. Quando minha esposa sorriu para ele e desejou um "Boa noite!", há realmente poucas pessoas que permaneceriam incólumes. A vida é uma viagem mesmo.

Ao subir, que grata surpresa ao ver que nossos assentos eram os primeiros, bem na frente, de cara para a estrada, separados apenas por um vidro. Do meu ponto de vista, um tremendo privilégio. Não tenho outro assento na frente para se reclinar sobre mim e ainda ganho o presente da bela vista.

E da viagem ou da vida, o que mais levamos senão as paisagens? Mas que paisagens há numa viagem a noite? Há senão a escuridão e o farol que ilumina, que desbrava as trevas e revela o caminho a seguir. Nem a chuva o impede.

E a noite se revela viva, cheia de cores e nuances. Há as marcas que mostram o caminho que devemos seguir e, bem interessante, também as que não devemos seguir.

Enquanto os faróis do ônibus revelam o que há fora, os faróis e luzes de outros carros ou casas revelam o meu próprio transporte. Encarando a noite pelo vidro à frente do meu assento, quando sou confrontado com o farol dos outros é que são reveladas as gotas da chuva escorrendo, correndo e fugindo para adiante de mim, como para liberar a vista ("Vai desculpando, doutor, só estou de passagem"); revela as sujeiras que eu não via, e as que eu ignorava. A vida é mesmo uma grande viagem.

As pernas, folgadas, descansam sobre o batente à frente, indiferentes ao perigo, privilegiam o conforto. Que conforto há quando é permeado pela insegurança? E minha mente se remete à minha casa e meus bens e fico com medo de perdê-los. Por quê? Não sempre tive tudo que preciso e muito mais? Nas duas vezes que minha casa foi assaltada, naquela que estávamos eu e minha esposa dentro dela, não foi o mais precioso poupado? Tanto, tanto, tanto, e o coração insiste em focar em coisas de segunda categoria. Ecos de uma quase ingratidão.

E a noite segue, assim como segue a vida, e a viagem. Há outro ônibus à nossa frente e não é seguro ultrapassá-lo, a chuva ainda fustiga o vidro, a estrada, o lavrado. A princípio o companheiro de estrada nos impede de correr mais rápido. Mas, por outro lado, não é muito melhor ir aos lugares quando se tem alguém com quem compartilhar?

E agora que a vejo dormindo ao meu lado também não consigo evitar perceber o quanto mudou minha percepção de viajar. Sozinho é bom, é livre, é novo. Mas não chega nem perto de viajar compartilhando tudo isso. Nem perto.

Dancem luzes, dancem, corram as gotas, derramem-se letras em lirismo, pulse coração ouvindo a música que vai para a cabeça pelos fones, descansem os olhos e a mente, porque ainda tem chão pela frente e isso leva tempo. A vida é uma viagem mesmo, não é?


Crônicas do cotidiano. Gabriel Alencar. Publicado originalmente no Facebook em 28/12/2018.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Os guardiões

“O feitiço está pronto. Há um anfiteatro por trás do terminal novo, a Praça da Cultura. Lá há três seres poderosos. Ah! Se soubessem os segredos que eles guardam. Segredos que eu sempre conheci. Essa terra que chamam de Boa Vista já foi outras coisas em tempos imemoriais. Antes dos karaiwa. Antes dos Macuxi. Antes, muito antes. Eu sou desse tempo. De um tempo em que se lutava contra o mal com todas as forças. Algo antigo retornou eu acordei, chamei o Mensageiro. Minha missão é impedir o mal. A cidade ainda carregava as marcas daquele tempo. E eu sou um dos guardiões.” 

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Seu Silva deu os últimos retoques na câmera. O cliente se posicionou. Pronto. Foto 3x4 feita, cliente satisfeito. O rapazote saiu da pequena loja e Silva contemplou a si mesmo na foto em preto e branco na parede. “Também já fui jovem”, pensou. E sorriu satisfeito. Já estava na hora de fechar. Desligou tudo e saiu. Depois que trancou a lojinha olhou para o lado e viu a Samaúma, a árvore que carregava a sabedoria dos tempos passados, que o escolheu para proteger aquela terra. O Centro Cívico lotado de carros. 

Silva estava nervoso. Ainda ontem a Samaúma dissera pra ele se preparar, o mal havia retornado e era hora de chamar o Guardião. Silva sabia o que isso significava. Mas sabia também da necessidade de proteger aquela terra. O sol já estava quase se pondo. Ele foi pra casa. Viu as fotos da família sobre a mesa. Que saudade daquele povo que partiu cedo demais. Seu cachorro tinha um olhar cansado. “Já quer ir também, né, amigo?”, pensou.

Acordou bem cedo, antes do sol raiar e saiu para a praça. Contemplava a alvorada uma última vez sobre aquela cidade. Chegou na praça do Centro Cívico. Olhou para ele. Subiu a pequena rampa e disse:

– É hora de acordar, amigo. – com uma folha da Samaúma na mão encostou na estátua do Garimpeiro. Solene e sublime bem no centro de Boa Vista. E Francisco já não era mais. O Guardião havia acordado. Levantou-se e ergueu a peneira. Estava de volta.


Conto premiado no 1º lugar da categoria "conto" do III Concurso Literário Internacional Palavradeiros, originalmente publicado na Antologia do referido concurso em 27/12/2018 (disponível aqui)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

2018: o resumo da ópera

Como esse blog no fundo é mais um diário de leitura do que qualquer coisa, este post é pra eu ter uma ideia de como foi minha carga de leitura esse ano e no que consistiu minha produção literária (se é que podemos dizer que há uma efetivamente). Vou iniciar com as resenhas e depois passar aos concursos literários que participei (tanto os que ganhei como não) e um resumo das produções. Não sei nem porque estou explicando isso, acho que é o apego ao método científico.


1. Livros resenhados
Tentei fazer uma tabela mas deu muito trabalho, não sei mexer com HTML e já estou velho pra aprender (ou talvez seja preguiça mesmo), ela está meio zoada mesmo, é a vida. Ficou assim: li em 2018 a marca desprezível de 27 livros. Penso que daria pra ter feito melhor, mas dá uma média de pouco mais de 2 livros por mês, o que penso ser razoável, considerando mestrado e trabalho como ladrões de tempo.

Fev 1) Judgment of Paris; 2) Ragnarok; 3) Kamigawa
Mar 4) Fantoches e outros contos
Abr/Mai  -- (zero)
Jun 5) Solar; 6) Biofobia
Jul 7) A garota de Cassidy
Ago 8) Sobre a Escrita; 9) Como contar um conto
Set 10) A arte de escrever; 11) Galeria Fosca; 12) Mil Tsurus; 13) Um piano para cavalos altos; 14) A jornada do escritor
Out 15, 16, 17) Lovecraft ; 18) Ciência Maluca; 19) O vampiro de Curitiba; 20) Grito de alerta
Nov 21, 22, 23 e 24) Crestomanci; 25) O homem de Barlovento; 26) Contos fantásticos (Maupassant); 27) Maravilhas do Conto Fantástico

Um gráfico disso (esse eu sei fazer no pacote office -- mas também só sei porque é só clicar umas duas vezes), ficaria assim:


Dos livros lidos, 7 são de autores nacionais (isso se contar o 27 nessa categoria), acho que falo mal dos outros e acabo fazendo o mesmo, né? (risos). Houve um salto na minha leitura, principalmente, por causa de Stephen King em "Sobre a Escrita". O conselho do tio Steve sobre a leitura como fonte primordial do escritor mexeu comigo, especialmente porque sei que ele está certo.

Acho importante que nessa lista constem tantos livros que considerei bons como aqueles que odiei e nunca mais pretendo ler nada do autor. Isto é um bom patamar pra que eu não fique bitolado em um único estilo ou tipo de escrita. Falando em gêneros, eu claramente deixei a poesia de fora, mas dentro da prosa teve ficção, terror, drama e sobre a própria escrita. Estão faltando aí: amor (romântico) e comédia. Anotar: pegar livros desses pra ler. Prometo que vou tentar ler mais autores nacionais, mas o pessoal tem que fazer por onde e merecer também.


2. Concursos literários e produções

Encontrar os concursos dos quais participei e não ganhei nada necessitou de uma busca no e-mail, e ainda assim acho que não peguei todos. Afinal a gente guarda as recordações boas, né? Mas é preciso registrar essas coisas pra aprender onde e o que se está fazendo. Na tabela abaixo enumero os concursos em que fui aprovado (Sim), os que não fui (Não) e os que ainda estou aguardando resultado (Talvez).

Sim
A Máquina Consciencial (Outubro, classificado); Inquietação (novembro, classificado); 5º Concurso de Textos Anônimos (novembro, 7º lugar) Palavradeiros (dezembro, 1º lugar)
Não
Concurso Literário Internacional ‘Natureza – 2017-2018’; Concurso Internacional Poesias em Árvores (CIPA) 2018; Sarau Brasil 2018; 8º Concurso Microcontos de Humor de Piracicaba; Projeto "Poética sobre as águas"; 9º Concurso Literário Cascavel; 26º Concurso da Academia de Letras de São João da Boa Vista; 4ª edição da Revista Aspas Duplas; 
TalvezXVII “Prêmio Jorge Andrade” da Academia Barretense de Cultura; próxima edição da Leitor Cabuloso; próxima edição da LiteraLivre; próxima edição da Bang; próxima edição da CapaA; VI Concurso Literário Icoense; Antologia Delírios II (editora Converge)

Foram ao todo enviados 18 contos e poemas para diferentes concursos, todos eles no Brasil à exceção da Revista Bang que é de Portugal. Ah, sim, são revistas literárias a Leitor Cabuloso, LiteraLivre, Bang e CapA. Sobre os "nãos" que recebi, apenas para um deles tenho justificativa: a Revista Bang encerrou suas atividades, daí não posso ser culpado, hehehe. Olha aí o resumo da tabela.


Eu tinha planos de mandar um conto pra Revista Trasgo, já havia até escrito, revisado e tudo o mais, só que aí vem a revista e diz que estava encerrada a chamada em fluxo contínuo de contos, que seria reaberta (talvez!) em janeiro de 2019. O gráfico deixa bem claro que recebi muito mais "nãos" do que "sins" e tem vários "talvezes" aí que são potenciais "nãos". O segredo é continuar tentando.

Além de tudo isso, tive três poemas publicados no blog Cultura de Roraima (link aqui) e também publiquei dois microcontos ao acaso no Facebook, só por diversão mesmo. Além disso, não posso dar spoiler, mas para fins de registro destaco que esse foi o ano que produzi um livro em co-autoria, a sair, talvez (e muito talvez) apenas em 2019, por motivos de tempo e dinheiro (especialmente o último).


#O resumo da ópera
  • Livros lidos: 27
  • Textos escritos: vários, esqueci de fazer esse índice, fica pro próximo.
  • Textos enviados pra concursos literários: 18
  • Textos aprovados: 4
E é isso aí. Ano que vem vamos ver o comparativo e ter uma noção se estou crescendo ou não. Afinal, nem sei direito o que vou fazer com toda essa história de escritor. Ai ai, mais uma coisa pra lista de coisas. Sou mesmo um escritor ao acaso.

Resenha - Maravilhas do Conto Fantástico

SILVA, Fernando Correia da. Maravilhas do Conto Fantástico. São Paulo: Cultrix, 1960.


Desculpem a foto (risos), mas não consegui encontrar mais informações dessa edição na internet. E tendo conseguido de graça num bazar, tampouco o livro me dá mais dicas, senão o bilhete que encontrei dentro dele com os dizeres: "Azul escuro / cortar Ney / Maria do Carmo" e um carimbo na segunda página "Ney Rego Barros" com anotação em caneta "Nº 660" e "5/10/79".

Este começo enigmático casa perfeitamente com o propósito do livro. O título "Maravilhas do Conto Fantástico" deveria ser "Maravilhas do Conto de Terror". Todos os contos têm essa temática, numa seleção feita por Fernando da Silva Correa que, pra ser sincero, nunca ouvi falar e uma pesquisa rápida no Google não revelou muita coisa.

Percebo que há uma valorização de autores estrangeiros em detrimento dos nacionais no livro. Digo isto porque dos 26 contos que compõem essa antologia maravilhosa, apenas 3 são de brasileiros (Aluízio Azevedo, Álvares de Azevedo e Carlos Drummond de Andrade). Mas, não obstante, o organizador faz um trabalho interessante de reunir clássicos do gênero e buscar mostrar um estado da arte do terror clássico (ou pelo menos aqueles comuns no final do século XIX e começo do XX). Compõem essa antologia nomes como Edgar Allan Poe (que não poderia faltar), com o conto "Silêncio", que é no mínimo inusitado; Hoffman, Nelson Bond e vários outros que nunca tinha ouvido falar.

Mas o que tenho pra dizer mesmo sobre esse livro são os destaques: Jacques Casembroot traz o conto "Do Outro Lado", uma história quase terna, confesso que não esperava me emocionar com um conto de terror, mas o autor descreve de maneira tão singela os acontecimentos que não pude evitar; E. F. Benson com "A Coisa no Hall" traz uma narrativa bem envolvente; e a sacada de Nelson Bond em "A Livraria das Obras Inéditas" foi muito boa.

Agora, sem sombra de dúvida, os melhores contos, em ordem crescente, foram: 3) "Flor, Telefone, Moça", de Carlos Drummond de Andrade. Esse tenho certeza que muitos já leram em tempos da escola, que é quando uma moça retira uma flor de um túmulo, passeando a esmo, e quando chega em casa o telefone toca: 'Cadê a flor que você arrancou da minha sepultura?'. Muito bom e excelente escolha para fechar a antologia.

2) "O Homem que se Enterrou" de Miguel de Unamuno. Sim, ele compõe a antologia. O conto dele é sensacional, principalmente, por estar à frente do seu próprio tempo. Ali há uma forte desconstrução da lógica e desafios à natureza das coisas que só viriam a cristalizar-se fora do mundo artístico lá pelos anos 80, praticamente 50 anos após a morte do autor. Muito envolvente a história e o encadeamento de acontecimentos faz a gente ficar atemorizado, não tanto pelo medo da história, mas pelos pressupostos que ela traz e as consequências destes. 

E em primeiríssimo lugar: "Demônios" de Aluísio Azevedo. Sim, o brasileiro ganhou de tudo que é estrangeiro na seleção! O autor de "Casa de Pensão" e "O Cortiço" deu um show no melhor do terror fantástico mesmo. Sua imaginação extrapola os limites da realidade que nem Lovecraft conseguiu fazer, no meu ponto de vista. Enquanto Lovecraft muito falava do desconhecido e, sem explicar, criava o medo em torno dele, Aluísio Azevedo vai além e se atreve a descrever o inimaginável, trazendo resultados assombrosos para o leitor. De longe o melhor conto do livro. Sensacional.

Com isso encerro minhas leituras de 2018 (excelente forma de fechar o ano, aliás!). Próximo ano talvez eu poste mais coisas que eu mesmo escrevi, mas as resenhas continuarão a ser parte do meu combustível intelectual (para lembrar do mestre Stephen King) ao mesmo tempo que funcionam como meu diário de leitura. Farei ainda mais um post com um resumo de tudo que li nesse ano. Hasta la vista, ó dois ou três leitores.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Resenha - Contos fantásticos: o Horla & outras histórias

MAUPASSANT, Guy de. Contos fantásticos: o Horla & outras histórias. Porto Alegre: LP&M, 1997.


Livros de contos sempre são legais. Via de regra porque nos trazem uma leitura que não é tão cansativa e bem variada. Eu não conhecia Guy de Maupassant, tampouco esperava que ele fosse autor de contos de terror. Não sei se ele sofreu em comparação com Lovecraft ou simplesmente já estou cansado de ler. A verdade é que à exceção do Horla e Carta de um Louco, os outros contos foram "É, é um conto bom".

Maupassant escreve à moda antiga. Mas também, pudera, o cara é do final do século XIX. Vejo muito nele aquele espírito do tempo, de misturar as descobertas científicas com a ideia do medo, por exemplo. Na verdade nem tanto pelas descobertas, mas por conta das incertezas que elas traziam. Há um apego nele por essas ideias de magnetismo, outros planetas e tudo mais, que (imagino eu) era patente ao homem educado daquela época. Ah, ele também tem um apreço por espelhos e sua capacidade de refletir, talvez, aquilo que não queremos ver: nós mesmos. 

Os contos são bons, um ou outro achei meio simplório e há em alguns um caráter enciclopédico que abomino. Abomino, mas compreendo quando deixo de olhar com olhos contemporâneos: Maupassant estava numa época em que nem todos tinham acesso à informação como temos hoje e criar os pressupostos da história seriam necessários para que ela tivesse a eficácia desejada.

Maupassant trabalha muito bem com o medo do oculto, do não-revelado, o não-dito. Penso que nisso ele se assemelha a Lovecraft e explora bem essa psicologia; embora Lovecraft explore mais o "cósmico", Maupassant faz com as coisas corriqueiras do dia, da cidade, de um quarto ou um livro, e isso achei admirável. 

Em "O Horla", por exemplo, encontramos justamente a expressão disso. O conto é realmente muito bem escrito e a gente fica a todo tempo com a incerteza permeando nossa leitura. Embora a construção seja muito boa e seja ainda o marco da literatura de Maupassant, acho que houve um lapso do editor em colocar as duas versões deste conto uma em seguida da outra. Explico.

O próprio autor gerou duas versões deste conto. Em uma é como se fosse um relato médico de um possível paciente louco, no outro são anotações de diários do próprio paciente, contando as coisas conforme elas se desenrolam. Os dois têm seu charme, mas o segundo é bem mais interessante que o primeiro, porque permite desenvolver a trama com parcimônia e a partir do ponto de vista do personagem principal. 

Dessa forma, quando lemos a primeira versão e logo depois a segunda (tal como está disposto no livro) somos roubados um pouco do suspense, uma vez que já sabemos o que vai acontecer. Talvez omitir a primeira versão tivesse sido ainda mais eficaz, porém compreendo a intenção do editor de apresentar ao leitor as duas versões do Horla. Porém, mais uma vez, logo em seguida, a primeira leitura spoila demais a segunda. E a segunda, repito, é bem melhor.

Não obstante, é uma leitura muito interessante, ainda que, como disse, não tenha achado nada excepcional, à parte destes que citei diretamente. É uma leitura mais do que recomendada e bem fácil de ler. Contos curtos, simples e eficazes, a essência da boa escrita literária.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Resenha - O homem de Barlovento

B. C. GARMATZ. O homem de Barlovento. Curitiba: Artes & Textos, 2013.


Mais uma vez é necessária a distinção entre o autor e sua obra. Se critico, e sei que a crítica é vital para arte, é tão somente a obra. E, olha, dessa vez não dá pra amenizar. Que obrazinha ruim. Há várias coisas que assustam na leitura, algumas tantas que o leitor mal consegue se recuperar, dá vontade de lançar o livro longe e parar de ler. Aliás, sabia que isso é algo que Stephen King recomenda? Não é pra ler coisas medianas, é pra ler coisas boas! Mas vamos lá. 

O primeiro problema, que me salta aos olhos, é o problema da grafia. Cara, há coisas e coisas. Eu que não sou da área de Letras entendo muito bem que a linguagem tem uma função primordial de comunicação. Ora, se temos um idioma escrito que permite essa comunicação, ele então que será usado. Há casos, porém, em que o texto escrito com palavras apenas não é suficiente, nesse caso usamos outros mecanismos. Aí temos a linguagem corporal, por exemplo, entonação, por aí vai. 

Na internet muito se usam os emojis ou outros sinais visíveis para expressar algumas emoções de maneira mais eficaz, especialmente num suporte em que a agilidade é o principal. Daí nós usarmos expressões do tipo: "Como assim???" ou ainda "Não acreditoooooo". Isso ocorre dessa forma porque estamos num meio que imita a fala e a letra precisa ser lida com velocidade para transmitir bem o sentido da comunicação proposta. Ok. Mas num livro, não dá pra aceitar isso sem um contexto.

Ah, se isso acontecesse num contexto de internet, seria tão bom. Se isso ocorresse apenas uma vez no texto, seria maravilhoso. Mas nada disso. Isso apenas demonstra uma incapacidade do escritor em transmitir aquilo que deveras gostaria. Primeiro que o uso excessivo desses sinais de exclamação só faz diminuir ainda o mais a utilidade dele! Paradoxal, porém verdadeiro. É como repetir uma palavra diversas vezes sem cessar até ela não fazer mais sentido nenhum e virar apenas sons. Fora isso tem erros de digitação e de soletração que simplesmente não consigo perdoar. Como assim ninguém viu essas coisas, gente? Sem esquecer das quebras de parágrafo mais estranhas e incongruentes que já vi.

Por outro lado, o excesso de descrições prolixas é exasperante. Há muito "show" (mas muito mesmo) e pouco "tell". Em diversos momentos as coisas poderiam ser mais diretas, construídas de maneiras mais interessantes. O que vejo, porém, é ainda a mesma técnica de "relato" por trás de tudo, assim como vi nos outros textos desse autor. A história de amor no livro, por exemplo, não é construída, mas simplesmente relatada ao leitor. 

Ah, e os diálogos, oh boy. Não consigo ouvir duas pessoas conversando do jeito que está escrito. Há em muitos momentos um formalismo exacerbado que se usa mal com seu chefe, em outros há diálogos fúteis, sem contribuição para o enredo da história. Isso somado ao caráter enciclopédico (wikipédico?) de alguns parágrafos é de dar ganas de parar de ler. E o que dizer dos relatos de viagem mal contados? Quanta riqueza narrativa perdida em páginas, podendo descrever e recriar o cenário venezuelano que eu mesmo já visitei tantas vezes.

Isso sem falar no pior do livro (pois é, tem mais): nada acontece. Quer dizer, até acontece, né? Mas demora pelo menos 85 páginas, e ainda assim se resume a uns dois parágrafos. E continua acontecendo mas meio de canto de olho sabe?, como se fosse algo pra ficar em segundo plano. Sinceramente, o livro de história de Ensino Médio retratado entre as páginas 100-107, 111-113 foi um insulto ao leitor. É só na página 147 que o livro dá uma próxima guinada e revela seu verdadeiro âmago: incitar sobre a filosofia espírita. 

Entre tantas coisas eu pergunto: por que alternar entre espanhol e português na mesma fala? Porque não se opta por um ou outro, ou apenas permeia com pequenas expressões? Só aumenta a sensação de bagunça do livro. Saca só essa impressão fenomenal na página 236 do livro, veja se identifica alguma coisa na imagem ao lado.

Olha, não é que não tem nada no livro que se aproveite. É só que ainda precisava tirar muita gordura pra deixar só o filé. E ainda teria que dar um trato nesse filé. O que o livro traz é deveras uma sensação de nostalgia para todos aqueles que já viajaram Venezuela adentro, mas isso é tudo que ele é: um relato de viagem. E bem chato ainda.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Resenha - Os Mundos de Crestomanci

JONES, Diana Wynne. Vida Encantada: Os Mundos de Crestomanci. São Paulo: Geração Editorial, 2001. 
_______. As vidas de Cristopher Chant: Os Mundos de Crestomanci. São Paulo: Geração Editorial, 2001.
_______. Os magos de Caprona: Os Mundos de Crestomanci. São Paulo: Geração Editorial, 2001.
_______. A semana dos bruxos: Os Mundos de Crestomanci. São Paulo: Geração Editoral, 2003.


"Os Mundos de Crestomanci" é uma série fantástica de livros da escritora inglesa Diana Wynne Jones. Essa mulher inspirou autoras como a própria J. K. Rowling e é a mãe do filme "O Castelo Animado" (dirigido por Hayao Miyazaki). Basta dizer que é uma autora de fantasia que conseguiu inspirar muita gente e deixou um legado magnífico. Li seus livros a primeira vez quando ainda era criança e resolvi redescobri-los por esses tempos. No Brasil nem todos os da série Mundos de Crestomanci estão publicados em português e eu mesmo só tive acesso aos quatro primeiros, sobre os quais vou falar. 

Pra começar, basta dizer que Crestomanci é o título do mais importante mago de um mundo. Este mundo está interligado a outros, geralmente numa série de 9 Mundos. A viagem entre os mundos é um dos feitos mais poderosos de Crestomanci, mas outras pessoas também o fazem (especialmente para fins ilícitos). Não obstante, Crestomanci é um mago que trabalha para o governo inglês e tem como função regular a magia dos mundos que encontra. 

Tendo essa pequena introdução em mente. Em "Vida Encantada", somos apresentados ao jovem Gato Chant, que, com a sua irmã malvada Gwendolen, veem-se no Castelo Crestomanci como aprendizes do famoso mago. Mas as coisas não são tão simples, uma vez que Gwendolen tem planos malignos e Gato não tem ideia da dimensão do seu poder. No fim, tudo era uma grande conspiração e Gato ajuda Crestomanci a manter as coisas em dia. 

Neste livros nos fascinamos com a introdução a todo esse universo de possibilidades. Onde a magia é algo comum e há diferença entre bruxos, magos, necromantes, feiticeiros e toda sorte de seres mágicos. Pra uma criança como eu, na época, foi absolutamente hipnotizador e não pude evitar a alegria em reler um livro que com certeza ajudou também a me inspirar no universo da fantasia literária. 

No livro seguinte, "As vidas de Cristopher Chant", somos apresentados à história do atual Crestomanci. Todos os fatos se dão pelo menos 25 anos antes de "Vida Encantada". Esse livro é deveras eletrizante. Somos desde o começo apresentados à habilidade de Cristopher em viajar entre os diferentes mundos com uma facilidade tamanha que ele também mal tem noção das encrencas e possibilidades que isso pode lhe dar. 

Cristopher (assim como Gato no primeiro livro), não tinha ideia da dimensão de seus poderes e quando menos espera, vê-se no centro de uma grande armadilha e tem que usar de toda sua sagacidade para conseguir escapar e impedir que o mal domine. De maneira também hipnotizadora, a autora consegue criar situações que não nos deixam em paz enquanto não descobrimos o que vai acontecer em seguida. 

"Magos de Caprona", a princípio, foi uma grande decepção para mim quando criança. Ora, pensem comigo. Nos dois primeiros livros eu sou apresentado à figura de Crestomanci, do Castelo, dos seus poderes e as possibilidades que o cercam. Só que neste livro, a autora deixa Crestomanci lá na Inglaterra e vai retratar uma história que se passa em Caprona, na Itália. Poxa! Lembro que, quando criança, não gostei desse livro.

Mas agora relendo-o com novos olhares, percebo que também é uma obra muito bem escrita e digna da série de Crestomanci. Nesta história o grande mago tem um papel apenas secundário, eu diria. Lendo hoje, eu percebo como isso foi uma sacada genial da escritora: os livros não ficam resumidos a Crestomanci. Ele certamente aparece e tem sua relevância, mas há muitas outras histórias que podem se desenrolar à parte dele. Isso é muito importante para dar consistência ao universo de possibilidades dentro da veia literária que ela criou.

Por fim, confesso que não sabia o que esperar de "A Semana dos Bruxos". Certamente eu o lera quando criança, mas, verdade seja dita, eu não lembrava de nada da história. Isso foi bom porque me deu uma impressão verdadeira da leitura, ainda que com uns resquícios de déjà vu. Algo bem interessante dessa história: ela não se passa no mesmo mundo de Crestomanci! Ela se dá em um mundo onde a magia não apenas não é comum, mas também é ilegal. 

Tudo se desenrola dentro de um internato para crianças, onde aos poucos alguns bruxos se revelam e ao final Crestomanci tem que aparecer para resolver a situação inteira. O que achei mais interessante desse livro: há uma personagem chamada Dulcinea Wilkes, descendente de uma poderosa arquibruxa. Essa menina é tímida, não se encaixa bem na escola, tem dificuldade de fazer amigos. No final do livro (pequeno spoiler alert aqui) ela vai deixar de ser bruxa, mas não tem problema, porque ela descobre que gosta muito de escrever sobre diversas coisas, sobre magia, sobre mundos... Quando tudo acaba ela se descobre num mundo sem magia, mas ainda com uma capacidade inata de escrever sobre ela. Dulcinea Wilkes... Diana Wynne... 


Esta é a capa do livro que ainda não li, mas que ainda vou arranjar para ler. Diana Wynne Jones é realmente um marco para toda essa literatura que gira em torno de feitiços, bruxos e tudo o mais. Os livros da série Crestomanci são absolutamente obrigatórios para os apreciadores desta linha de publicação. 

Por outro lado, ouso fazer pelo menos duas críticas: no terceiro livro em peso e um pouco no quarto livro há um excesso da expressão "de um modo ou de outro". Não, pera aí. Esse termo é uma falta de descrição sem tamanho, que não cabe pra uma escritora como Jones. É quase uma preguiça ou incapacidade de explicar as coisas direito (espero que não tenha sido culpa do tradutor também, mas acho que não). Esse aí foi um pecado difícil de deixar passar (risos). 

Outra coisa que menciono, que nem é tanto crítica, é a presença do esoterismo como explicação para tudo. Os bruxos, magos, feiticeiros trabalham com cristais, encantamentos, tintas mágicas, criaturas misteriosas, ingredientes para poções, etc. Esse foco no esoterismo cria uma aura (por falta de expressão melhor) em torno de todos os livros que não me agradou tanto. 

Por fim, é muito bom que em todos os livros os personagens principais são crianças, na transição entre pré e a adolescência. Em quase todos os casos, elas não têm noção de seus poderes e são atraídas por armadilhas ou conspirações e se metem em enrascadas. Ah! Também é notório o fascínio da escritora por gatos. À exceção do quarto livro, em todos os outros os bichanos aparecem e não são tão acessórios à história quanto alguém poderia imaginar. 

Por fim, Os Mundos de Crestomanci é uma leitura mais do que recomendada. Se nos três primeiros livros não pude deixar de ser tomado pela adrenalina das coisas acontecendo e a curiosidade do desenrolar delas, no quarto livro não pude evitar emocionar-me com o final dele, apontando para uma realidade tão próxima a qualquer um de nós. Que beleza de livros! Jones já se foi, mas deixou um excelente legado para várias gerações de leitores e escritores ao acaso que ainda virão.