quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Dois microcontos ao acaso

I

Reunião da Diretoria do Inep. Tensão na sala. O Diretor inicia:

– É o seguinte, pessoal, temos que pensar em alguma coisa pra esse ano. Os memes estão ficando batidos, as pessoas perdendo o interesse. A gente tem que bolar um jeito de tornar o Enem ainda mais propício a memes!
– Mas, chefe! Será que dá pra fazer isso? 

O silêncio na sala. Uma representação não audível da dúvida que perpassava a todos: como tornar um evento já tão memético ainda mais? Será que isso era possível?
No fundo da sala, a estagiária ajeita os óculos e levanta a mão:

– É... eu... eu acho que tive uma ideia.

No dia seguinte vem a notícia.


Microconto publicado no Facebook em 30/09/2018
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II

Foi uma experiência inovadora. Um amigo nos convidou para visitarmos seu castelo mental. O George também achou estranho, mas topamos o convite.

Em pouco tempo estávamos na sala de compartilhamento mental. Encontramos o Bruno lá e ele disse:
– E ae! É por aqui.

Eu e o George nos entreolhamos, mas o seguimos, em direção a um precipício. Ele pulou e pulamos logo em seguida. Caímos numa poça d'água, como se tivéssemos descido apenas um pequeno degrau. E lá estava o Palácio mental dele.

Um conjunto de pedras irregulares compunham a parede do palácio, que muito se assemelhava a um monastério, mas entulhado de geringonças tecnológicas, piscando e emitindo ruídos estranhos. Eu e o George pensamos: como diabos passaríamos por ali até chegar ao Palácio?

Bruno pareceu ler nossa mente:
– É fácil! Só pular aqui, escalar esse scarabuncho, dar um salto mortal pra chegar na antena, executar um golpe de jiujitsu nessa barra de metal, que aí ela cede, vira uma ponte, aí a gente se joga por aqui, pra não cair no lago de lava e... pronto! Chegamos.

Enquanto ele falava executou tudo que disse e estava na porta do Palácio mental. Eu e o George tentamos repetir os feitos pra chegar lá. Digamos que se não estivéssemos no universo mental, teríamos um braço a menos, olhos, orelhas e pernas inutilizáveis, mas chegamos.

Ao abrir a porta do castelo (duas grandes asas de borboleta que fizeram eu e o George nos entreolharmos e levantar as sobrancelhas), entramos num pequeno quarto, com uma escrivaninha, cama e criado mudo. Tudo estava limpo e impecável. Eu e o George olhamos ao redor e balançamos as cabeças em aprovação. Então o Bruno disse:
– Que droga! Olha essa bagunça! Não consigo encontrar nada! Espera que vou resolver isso.

Num movimento rápido do corpo, Bruno tomou forma de um ciclone. As gavetas da escrivaninha se abriram, revelando papéis, nuvens de chuva, alguns personagens de quadrinhos vivos que começaram a gritar. De baixo da cama surge um policial rabugento ("Me deixa dormir, seu peste!"), os lençóis da cama vão parar no ventilador no teto, debaixo do travesseiro vê-se um enorme baú cheio de cartas de Magic. 

Bruno volta à sua forma normal e diz, satisfeito:
– Ah! Agora sim! – ele dá uma pausa. Olha para os lados, coça a cabeça. – Pessoal... o que é que eu ia mostrar pra vocês mesmo?

Eu e o George nos entreolhamos.


Microconto publicado no Facebook em 03/10/2018

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