sábado, 3 de outubro de 2020

Resenha - Guerra Fria (conto)

ARANTES, Márcia. Guerra Fria (conto). Goiânia: Building Dreams, 2020.


Olha, eu não costumo resenhar contos. Mas este será um caso diferente. Eu conheço a autora? Conheço. Ela sugeriu a leitura? Sugeriu. Mas ela já me conhece e sabe como são minhas resenhas? Conhece e sabe. Então não tem por que eu não fazer esta resenha, já que eu gostei da história. O lance é que, se um livro já sofre porque eu analiso as minúcias dele, avalie um conto. 

A história é bem simples: um casal decide que a única forma de eles aguentarem conviver um com o outro é redigir um contrato entre os dois que rege a vida doméstica. Quem quebrar as regras do contrato tem o direito de matar o outro. É isso.

Já no primeiro parágrafo eu encontro algumas coisas que me chamam atenção. Primeiro é que ele não está justificado (um erro de diagramação que dá pra deixar passar -- só me saltou aos olhos porque está no primeiro mesmo). Segundo, é que achei confuso. Eu já comentei isso por aqui antes. Para mim, um texto bem escrito deve e pode ser desfrutado tanto por um doutor quanto pelo tio da quitanda. Em mais de um lugar achei que o uso de palavras mais complexas foi desnecessário.

No segundo parágrafo (relaxem, não vou falar parágrafo a parágrafo, só estou ressaltando algo aqui que se repete em outros momentos) tem outra coisa: muitos advérbios de modo e adjetivos. Os advérbios de modo até que são discretos no texto, dá pra ignorar; mas os adjetivos são meio desnecessários, vários deles que só reforçam uma atmosfera tensa ou pesada que já havia ficado clara (tornando redundante a repetição de um "maldito", por exemplo). 

Parece que o narrador é que está com raiva e não o personagem. Enquanto entendo que este fluxo de consciência pode ser útil para criar um tônus interessante à trama, do meu ponto de vista ele só deixa o leitor cansado e já com uma impressão pesada bem no começo do conto. 

A impressão que eu tenho é que a pessoa que escreveu, escreveu isso com raiva e o sentimento dominou o texto. E aqui já não me refiro apenas ao segundo parágrafo, mas aos seguintes também -- essa impressão só vai se desfazer da metade do conto para o fim.

Aliás, da metade pro fim o conto ganha outro ar, quase outro estilo. E aí a gente não consegue evitar: somos enredados por ele. A partir desse ponto nossa experiência tem um up e a qualidade do conto nos dá ânimo pra continuar até o fim.

Em outro ponto, a autora tem a seu favor que um dos personagens principais se chama Gabriel (risos).

Na parte que há um flashback, penso que deveria ter pelo menos uma quebra de parágrafo. Quando li fiquei meio perdido nas cenas. E aqui foi o único ponto que eu achei que houve um erro na estrutura do conto. A premissa da história é boa demais pra ser dada de mão beijada aqui! Aliás, a premissa é boa demais pra ser colocada na descrição do conto na Amazon! 
"O casamento e a comunhão universal de bens uniram Tatiana, Gabriel e uma fortuna. Para evitar o divórcio e a consequente partilha, os dois entraram num acordo inusitado: é proibido reclamar. As consequências para quem quebrar o acordo são muito piores que divisão dos bens; [...]" (Sinopse na Amazon)
Essa informação deveria ser revelada só lá no final, final! Seria muito bom deixar o leitor sempre com uma pulga atrás da orelha: "Mas do que se trata esse acordo deles? Será que é um contrato? Por que diabos eles levaram isso num cartório?". Essa informação escondida do leitor, somada ao desenvolvimento da trama, traria uma excelente carga de tensão para que tudo fosse resolvido só no final.

(Aliás, não entendi por que a palavra "cartório" ficou em negrito e itálico no meio do texto. Achei até que fosse algum hiperlink. Isso aconteceu na posição 39.)

Ah, o título é super adequado. O final, quando inserido como metáfora do contexto geopolítico, reflete com perfeição a Guerra Fria (sem spoiler). O que eu me refiro aqui é a um não-conflito que, mesmo não sendo direto, resulta em muito dano para quem está ao redor.

A verdade é que não sei se gostei do conto. À parte das questões de linguagem, o final me pareceu absurdo demais. Só que aí eu penso: "Ora, mas os contos não servem também para lidar com o absurdo?". E eu tenho que concordar que sim. Resultado: fico em cima do muro. 

sábado, 19 de setembro de 2020

Resenha - Pandemias (antologia)

CARVALHO, Fábio Almeida de; MIBIELLI, Roberto; BORGES, Edgar (orgs). Pandemias: cuidados, prevenção, efeitos e consequências sobre a vida humana: dimensões múltiplas de uma temerária e inquietante experiência coletiva. Vols. 1 e 2. Boa Vista: Editora da UFRR, 2020.

       

Fala, meu povo! Estamos de volta aí para mais uma resenha. Desta vez a resenha da antologia "Literatura de Circunstâncias", da editora da minha Universidade Federal de Roraima. Com a temática "Pandemias", ela foi dividida em dois volumes porque engloba quatro tipos diferentes de texto: poesias, minicontos, crônicas e contos (estes exclusivos no volume 2). 

Tá, geralmente eu começo falando dos livros em si antes de falar do conteúdo; mas dessa vez vou inverter, porque o que eu realmente tenho a falar está nessa segunda parte – e infelizmente não é coisa boa, porque me atrapalhou demais demais.

Começando pelo volume I, nele encontro poesias, minicontos (um meu aí nesse meio!) e crônicas. Eu particularmente não me julgo apto para analisar ou sequer opinar de modo mais objetivo sobre poesias (inclusive questiono-me se alguém o é). Então vou dar uma opinião geral: não teve uma que realmente me cativou, simples assim. Não sei se estava num dia ruim pra poesia, mas são todas longínquas demais pro meu gosto.

Quanto aos minicontos, olha, devo dizer que tive uma surpresa feliz. Sinceramente, o único defeito desta seção é que ela é curta demais! Poderia facilmente incluir mais coisas. Eu fiquei surpreso em ver tanta coisa boa junta. Tem um miniconto meu aí nesse meio, mas os que mais gostei foram "À espera" de Alex Alexandre da Rosa (Jundiaí/SP) e "Proteção" de Thaís Helena Barros Carneiro Aguiar (Recife/PE). Este último achei tão bom, mas tão bom, que faço questão de reproduzi-lo aqui na íntegra:
"Chegou em casa, tirou uma máscara, caíram todas." (p. 71)
Quanto às crônicas, em geral, elas são muito bem escritas; mas acho que elas funcionarão melhor como registro histórico para o futuro do que como expressão do presente. Digo isso porque, gente, ninguém aguenta mais falar sobre pandemia – ou melhor: ouvir sobre ela. Chega, chega. É cansativo demais falar só sobre o mesmo tema. Já está nos jornais, na internet, na nossa vida desde a hora que acordamos. Como falei, não é que o material seja ruim, só que acho que ele será melhor para o futuro do que para o presente 

Evidente que existe aí toda uma carga de subjetividade pessoal. Mas, gente, resenha é isso. É a minha humilde opinião. E digo mais: acho que, enquanto não podemos fechar os olhos para este problema, está na hora de lidar com ele sem que ele domine praticamente todos os aspectos da nossa vida. A vida precisa continuar!

Por isso, as crônicas que fogem de modo mais direto ao niilismo pandêmico são, de longe, as mais bonitas. Falo de "O pão de jacaré" de Tássia Hallais Veríssimo (Rio de Janeiro/RJ) e "Beijos virtuais" do grande Aldenor da Silva Pimentel (Boa Vista/RR), por exemplo. "Entre máscaras" (também de Tássia Veríssimo) acho que é uma exceção à regra. 

Bom, eu falho em compreender como o texto "23h59min" é uma crônica – achei confuso demais para minha simples mente de leitor. Aliás, alguns textos navegam entre crônica e conto. Eu, com minha parca bagagem literária, questiono-me se haveria uma possível categoria para "conto-crônica" (contrônica?). 

E, se tal categoria existe, eu não tenho a menor ideia de como diferenciá-los ou classificá-los. Daí este meu simplório comentário que – agora percebo –, uma vez que não tem conteúdo próprio ou se propõe a uma análise mais profunda, não serviu de nada. 

Por fim, não consegui deixar de notar que duas das crônicas que mais gostei são de uma pessoa com sobrenome Veríssimo. Juro que não foi de propósito. Não tenho ideia quem seja essa cidadã, tampouco se tem alguma relação direta com o mestre Érico. Mas que é digno de nota, isto é. 

Passando agora para o segundo volume, onde estão os contos dessa antologia, posso dizer de cara o que achei: nem cheguei a ler. Não consegui. E isto se deu pelo motivo que compõe a segunda parte desta resenha, que vou chamar, por falta de opção, de desastre diagramático

O que eu tenho, então, são seríssimas críticas à diagramação do livro, mesmo motivo pelo qual odeio várias edições da Martin Claret. Só que enquanto eu condenava esta última por imprimir o número bem em cima do texto, chego ao limite da exasperação com o que fizeram nessa edição. Deixo que a imagem fale por si, tentando responder à pergunta: como diabos vocês esperam que eu leia isso?!


A parte das crônicas não conseguiu reproduzir o fiasco diagramático que foi a parte das poesias (foto que vocês veem acima), por isso fiz um esforço pra ler. Infelizmente a seção de contos também ficou extremamente prejudicada pela falha na diagramação, tornando impossível a boa leitura, novamente com uma imagem que cobre mais ou menos 1/3 da página. 

Gente, sério, eu tentei ler. Não aguentei. Meus olhos doíam com o esforço de tentar focalizar em diferentes gradações de cinza. Acho isso realmente uma grande pena, porque era a seção que eu estava mais ansioso por ler. Tem um conto meu nela, mas acho que a leitura só será possível pra quem baixar o e-book. 

Aliás, falando em e-book, resolvi conferir como estava a página no livro digital. Uma vez que a distribuição é gratuita, vislumbrei uma fagulha de esperança. Mas não, também nela encontrei o mesmo problema. Sinceramente não sei como foi que algo assim passou. Não teve um leitor beta que opinasse a esse respeito? Bom, tirem suas próprias conclusões: dá pra encontrar o Volume I aqui e o Volume II aqui.

Bom, o resumo é que: é um livro bonito, tenho certeza que a revisão foi bem trabalhada (embora tenha encontrado ainda alguns erros de digitação e uma falta de padronização no uso do travessão); mas a falha da diagramação é grave demais, porque comprometeu a boa leitura do texto – o que, afinal, é o grande propósito do livro: ser lido.

Mas nem tudo na vida são espinhos. Tem uma parte que não está contaminada pelas manchas das imagens. Pena que são apenas sete páginas: mas que sete páginas, meus amigos! Refiro-me à dedicatória "Devair Fiorotti", escrita só pela Sony Ferseck, sua esposa. 

Eu já falei do professor Devair aqui. Um marco, um ícone para a arte roraimense. E a editora da UFRR acertou na mosca em fazer esta edição em sua homenagem. Conheço poucos que merecessem tanto. Ficamos com saudade, mas ninguém conseguiria expressar isso tão bem quanto sua viúva, que tem um domínio ímpar das palavras. Ela escreve prosa, eu leio poesia. E olha que eu sou bem ruim de ler poesia. 

Por isso, apesar de todos os defeitos que vi nestes volumes, não quero terminar a resenha com um tom negativo, porque não era isso que o Devair gostaria. Ele era um cara que, apesar de todo o mal que estava ao seu redor, fazia questão de propagar e ser o bem. Mais do que o legado artístico e acadêmico, deixou um legado pessoal, que marca todos que o conheceram. Como disse a Sony:
"A faca ceifa o manjericão, mas não sem que sua lâmina saia perfumada. Assim sejamos perfume e flor. Como ele também foi." (p. 21)

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Resenha - Good Omens

GAIMAN, Neil; PRATCHETT, Terry. Good omens: belas maldições. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2020.


Tá, cometi um pecado literário. Assisti a série na Amazon antes de ler o livro. Pra ser bem honesto (o confessionário só piora) eu nem sabia que era um livro, pensei que era só uma série muito bem escrita. Vamos à resenha, mas já adianto que vou finalizar esse texto com uma heresia maior do que vocês imaginam.

Pra começo de conversa, não tenho ideia como é que se escreve um livro em dupla e ainda assim ele mantém uma super unidade de estilo. Os caras eram realmente muito amigos ou muito bons em saber produzir o que é melhor para o material, afastando-se o suficiente do texto para que ela tenha uma homogeneidade própria.

Dentre os livros que leio, muitos deles são traduzidos, mas vocês pouco me ouvem falar de tradução. Isso geralmente ocorre porque ela cumpriu seu papel. São poucas as vezes que destaco algo dela (e, quando faço, é pra destacar algo ruim.) Mas aqui temos um caso especial..

O tradutor deu um show ao apropriar culturalmente várias expressões que traduzem com perfeição a essência dos personagens. Logo na primeira ou foi na segunda página ele me solta um "cabreiro". Mano, perfeito. E isso não aconteceu só no começo não, ele fez uso de várias expressões e regionalismos brasileiros que traduziram de um jeito incrível o significado e o estilo do livro.

A história é a história do mundo. Depois da Queda do homem (no jardim do Éden mesmo), já somos apresentados ao anjo Aziraphale e ao demônio Crowley, que estarão presentes em toda a história da humanidade até o fim do mundo. Este fim, na história, acontecerá em poucos dias. 

E os autores se debruçam sobre essa trama, incluindo aí o Anticristo (um menino de 11 anos), os Cavaleiros do Apocalipse (Guerra, Fome, Morte e Poluição – que assumiu o lugar da "Peste" quando essa se aposentou), a bruxa Agnes Nutter, sua descendente Anathema Device e o caçador de Bruxas Newt Pulsifer. Impressiona como todos estes personagens, todos!, e até alguns que não citei são muito essenciais para a trama como um todo. Um show de estrutura de livro.

O New York Times classificou essa obra como descendente direto do Guia do Mochileiro das Galáxias. Putz grila! Essa definição está perfeita! O estilo do livro traduz com perfeição o limite entre o absurdo e o verossímil e não ter medo de realmente mergulhar nesse caso para de lá extrair uma aventura fantástica.

Na verdade, ouso até dizer que Good Omens deu um passo além na direção da complexidade. Enquanto o Guia tinha uma narrativa mais linear, acompanhando Arthur Dent, aqui há uma narrativa complexa que não está focada só em um núcleo. É incrível a estrutura criada por estes micronúcleos de loucura (Anticristo, cavaleiros do apocalipse, caçadores de bruxa, o anjo e o demônio) que são na verdade nódulos com identidade própria!  

Conquanto não desafie a realidade como faz o Guia (até por que a temática era outra), é inegável que sua relação com o absurdo é muito bem construída e até, por que não?, plausível! E a gente percebe que Good Omens só não desafia mais a realidade pelo bem da unidade da trama. Porque, se quisesse, poderia facilmente e não seria inverossímil.

A divisão do livro não é em capítulos, mas em blocos de tempo. Cada parte, portanto, abriga toda a série de acontecimentos que ocorreram naquele dia, ou naquele bloco (como no primeiro "Onze anos atrás). E próximo do final, os blocos representam os últimos dias antes do fim do mundo ("Quinta-feira", "Sexta-feira", etc.).

Os autores não têm pena de usar advérbios de modo. Como o tom do livro é super informal e beirando o cômico-irônico com frequência, dá pra passar batido na maior parte. Só que tem vezes que não custava os autores terem dado uma freada e o excesso irrita. Por outro lado, esse estilo definitivamente rende boas risadas, temperadas com absurdo e espanto. O que, claro, as tornam ainda mais deliciosas.

Novamente preciso dizer que a trama é muito bem construída. No segundo terço do livro a narrativa desloca-se do eixo Aziraphale–Crowley para o Grupo de Crianças–Caçador–Bruxa com uma maestria estonteante. Você nem percebe a transição, de tão suave que ela é. Um uso magnífico das ferramentas literárias como poucas vezes eu vi.

O livro é uma espiral de acontecimentos que vai ficando cada vez mais intensa conforme se aproxima do fim. Excelente uso do "ticking clock" pra levar a história para frente e manter o leitor antenado. Eu já quase acho uma pena ter assistido a série antes e ler o livro.

Além de ter uma história que realmente captura o leitor, personagens super divertidos de conhecer e se relacionar, um ambiente construído com uma abordagem jovial e despojada, o livro também consegue abordar temas diferentes e bem interessantes. Começo com essa citação:
"Pode ser que ajude na compreensão das questões humanas ter uma noção clara de que a maioria dos grandes triunfos e tragédias da história é provocada não por pessoas sendo fundamentalmente boas ou más, mas por pessoas sendo fundamentalmente pessoas." (p. 34)
O livro aborda com precisão assustadora a questão da maldade humana. Tem gente – e muitos deles cristãos -- que acha que a maldade humana tem fonte em demônios ou no diabo. Enquanto parte disso pode até ser verdade, enganam-se ao subestimar a própria capacidade humana pa,ra fazer o que é mal. 

Meu amigo, não precisa de demônio pra ensinar o ser humano a fazer coisas terríveis contra o próprio ser humano. E, como falei, o livro é de uma precisão que até assusta. Em determinado momento do livro, este é o autor falando de Crowley, o demônio:
"[...] nada que ele pudesse bolar era metade tão maligno quanto o que eles bolavam por conta própria. [...] cada vez mais difícil encontrar algo de demoníaco a fazer que se destacasse no cenário atual de maldade generalizada." (p. 40-41)
Como vocês bem sabem, eu sou cristão, calvinista reformado, e posso dizer que o livro encontra-se no limite da heresia exagerada. Porque tem heresia, é claro, mas dá pra ler e aplicar o que diz em 1ª Tessalonicenses 5:21: "Julgai todas as coisas, retende o que é bom".

Os autores erram em achar que a grande Guerra é do Céu contra o Inferno, falhando aí no eixo, uma vez que a guerra é entre o Inferno e a Terra. Também erram na questão do livre arbítrio, mas acertam (imagino que sem querer) na "inefabilidade" do plano de Deus – ainda que, inegavelmente, isto seja algo que eles tentam constantemente botar em cheque.

Não obstante, é o que falei. Dá tranquilo pra ler e reter o que é bom. Porque, meu amigo, olha o que tem de coisa boa não é brincadeira. É uma leitura recomendadíssima e de certeza um livro que (no que depender de mim, pelo menos) nunca mais vai deixar de vez a minha estante.

Ah! Lembra que falei que terminaria esta resenha com uma heresia? Pois então aqui está. É uma heresia daquelas que podem me fazer ser excomungado. Mas não da igreja ou da religião, serei excomungado dos círculos literários (a pior das seitas!). A minha heresia é a seguinte: a série foi melhor que o livro.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Resenha – Contos de amor, de loucura e de morte

QUIROGA, Horacio. Contos de amor, de loucura e de morte. São Paulo: Abril, 2010.


Gente do céu, pense numa leitura que me surpreendeu. Mas antes preciso confessar por que demorei tanto tempo pra tirar esse livro da minha estante. E o motivo é o mais fútil possível: eu não gostei do toque da capa. Eu falei que era fútil. Mas finalmente vencido esse preconceito bem fuleiro, tive o deleite de descobrir esse autor uruguaio-argentino. Uma pena que não tivesse encontrado-o antes.

O primeiro conto foi um baque de qualidade. Começa simples e, na simplicidade, termina de maneira elegante. É impressionante a capacidade do autor em nos fazer gostar e se importar com personagens que a gente conheceu há poucos parágrafos. 

Os contos estão embebidos de estratagemas político-sociais comuns na época por meio do casamento. Na verdade, tudo é muito bem ambientado não só no contexto social, mas cultural da América do Sul, nomeadamente, claro, na realidade do Uruguai e da Argentina:
"A mãe nos deixava sozinhos; e mesmo que soubesse o que acontecia, fecharia os olhos para não perder a mais vaga possibilidade de subir com sua filha a uma esfera social muito mais alta." (p. 46)
As tragédias que ele escreve são de uma beleza ímpar. Não dá pra negar a maestria de Quiroga, porque essa beleza é unida a uma elegância invejável, um estilo quase cirúrgico. Com seus parágrafos pequenos e frases verossímeis, todas as histórias são muito agradáveis de ler.

Contos como O barco suicida representam bem o estilo do autor e sua intenção: contos curtos com uma história bem amarrada e um final marcante. A questão do final é sempre um dilema nos contos, que podem ter algo arrebatador ou algo que nos deixe pensativos. No caso deste livro, eles se alternam, o que – ao meu ver – torna a leitura ainda mais agradável.

Ainda sobre essa história de contextualização, achei legal que ele tem contos do ponto de vista de animais, mas sem serem fábula. Há também bastante uso de nomes indígenas. Aliás, me pergunto o que de belo foi perdido na tradução, porque tem trechos que a gente sente que tinha algo a mais ali. De qualquer forma, fica evidente o uso de regionalismos bem colocados. 

O último conto, A meninginte e sua sombra, é super intrigante. Ele mistura o absurdo com o verossímil de modo magistral. É chocante (e eu sei que aqui me repito) como o autor faz a gente se apaixonar e torcer pelos personagens em tão poucos parágrafos. Como será que ele faz isso? 

Quiroga é também um realista ao seu estilo. Não se detém em descrições de cenários. O que importa é a trama, quase tudo fica na imaginação do leitor. E há traços nos seus contos que já deixam claro o modernismo de seu tempo, veja por exemplo este trecho:
"E mais longe ainda porque – e eis o mais engraçado desta nossa história – ela está aqui, ao meu lado, lendo com a cabeça sobre a lapiseira o que escrevo. [...] Neste momento Maria Elvira me interrompe para dizer-me que a última linha escrita não é verdade: minha narração não está boa, está muito boa." (p. 186).
Quiroga, no fim das contas, ainda foi um escritor que viveu sob a proteção da remuneração do Estado (não no ramo da literatura, mas em outras funções). Ele só não tinha vida abastada porque não queria, mas podia dar se ao luxo de realizar empreitadas malucas. 

E aí eu fico aqui me perguntando: quantos escritores não se perdem pela falta de mecenas, sejam estes públicos ou privados? Quantos Quirogas não há escondidos América Latina afora, pelo Brasil afora, pelo Norte afora, por Roraima afora?

Não sei. Mas quero fazer de tudo para encontrá-los, porque, putz grila, uma arte boa dessa não pode ficar escondida nem perdida. Que Deus nos conceda criatividade e coragem para produzir o que é verdadeiramente bom.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

O prisioneiro - VII (O grande cisma)

 
            — Cara, estou começando a achar que não tem jeito.
            — Sinceramente, eu também já estou perdendo a esperança.
            Nós passeamos pelo blog, por esse festival de resenhas que quase ninguém lê, contos perdidos e até alguns poemas soltos. Estávamos desalentados.
            — Talvez tenha coisas das quais simplesmente não dê pra escapar — ele falou.
            Então comecei a lembrar. Lembrei de quando eu era feliz dentro do meu conto, quando eu podia simplesmente escrever minhas histórias dentro das minhas histórias, quando a vida era simples e eu não tinha que me preocupar com essas maluquices literárias.
            — A culpa disso é toda sua! — eu sentenciei, irritado.
            — Minha? — meu eu do futuro estava atônito. — Você preferia viver preso pra sempre naquela ilusão? Viver perdido naquele microcontos inúteis? 
            — Ora! E o que me importa? Hein? Eu era feliz! Eu estava bem. Eu não pedi por tudo isso, você que me trouxe pra cá e me arrastou sem eu pedir!
            Ele olhou pra mim com olhos incrédulos, a boca entreaberta. 
            — Você só pode estar de brincadeira — ele balançou a cabeça e riu com ironia. — E aqui estava eu achando que você tinha maturidade pra lidar com a realidade, Gabriel. E aqui estava eu (feito um besta, diga-se de passagem) tentando te ajudar.
            — Que ridículo — eu respondi, a raiva me dominando. — Você queria se ajudar! Você que sempre quis escapar de tudo isso, você que nos levou até o Gamal, você que implorou pelos segredos da viagem interliterária. E para quê, hein? Ainda estamos presos, seu imbecil! Ainda estamos no texto! Saímos do Instagram e do Facebook, mas cá estamos! Preso nesse maldito blog esquecido no canto mais remoto da internet. Parabéns, Gabriel. Queria sair daqueles microcontos? Parabéns. Estamos agora num conto. 
            Silêncio. Nós dois imóveis, encarando um ao outro. O ar estava quieto, parecia que todas as resenhas, contos, poemas e crônicas se calaram pra ouvir a nossa conversa. Será que eles também começavam a criar consciência de onde estavam? Será que nosso diálogo podia inspirá-los? Ah... mas a troco do quê? Eles só se veriam perdidos no mesmo vórtice em que nos metemos.
                Depois de um tempo, meu eu do futuro começou a mexer num relógio que tinha no pulso. Foi a primeira vez que notei que ele usava esse objeto. O relógio era um daqueles smartwatches da Xiaomi, cheio de comandos diferentes na tela. Enquanto fazia isso, ele falou comigo:
                — O que eu nunca te contei, Gabriel — sua voz era calma, ele não olhava para mim —, é que eu não precisava de nada disso. O que você se engana, meu caro, é que eu vim aqui por outro motivo que não fosse ajudar você. Cara, eu fico abismado que você não entenda. Eu sou você. Tudo que eu queria era evitar que você (que sou eu também) ficasse perdido, preso, prostrado naquele mundo de mentiras. 
                Ele finalmente terminou de mexer no relógio. Tirou do bolso um pequeno retângulo metálico e jogou no chão. O objeto caiu com um tilintar e o Gabriel do futuro olhou para mim:
                — Mas já que você deixou bem clara sua posição, não me resta outra saída — ele apertou um botão na lateral do relógio. De repente ele começou a brilhar, sua luz iluminava as palavras das resenhas, eu via reflexo dele nos outros personagens, eu vi que ele estava em cada pequeno texto que eu já escrevi. Ele continuou:
               — Eu podia ter ido embora a qualquer momento, eu ainda posso voltar para a minha dimensão literária por causa desse relógio aqui. E já que você não precisa de mim, eu vou embora. Esse transmissor que eu joguei aí no chão é uma viagem só de ida para sua dimensão original. Divirta-se nos seus microcontos. A verdade é que, assim como você, eu também já cansei. Passar bem.
             Então ele sumiu.



sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Liberdade

                Era o ano setenta e dois da pandemia. Adelaide corria com o menino preso nos braços. Os cabelos pulavam com o vento da noite. O lavrado era um terrível vazio para seus perseguidores; mas para ela, que conhecia aquela terra, era a única salvação. O vento a açoitava e dificultava a fuga. Será que não haveria trégua?

Hoje não, Cruviana”, ela pensava, “por favor”.

Ela fugia. Para onde? Não importava. Onde ainda haveria esperança? Ela não sabia. Mas corria. Corria e a noite voava. O menino chorava e ela dizia:

É só o vento, meu filho. Vai ficar tudo bem.


______________


Vamos, seus incompetentes! Ela não pode estar longe daqui!

As lanternas nos fuzis varriam o horizonte na procura dela. Os homens estavam nervosos. Eles sabiam que ali o vírus não os encontraria, mas… quem sabe o que mais se escondia por ali? Cada passo era lento; cada pequeno som, um tormento.

Capitão, veja isso! — um soldado apontou para algo no chão.

O que é? — ele se aproximou e viu algo jogado no chão. — Essa mulher ficou doida! Ela deixou a máscara para trás?

Os homens o olharam com a mesma surpresa.

Já chega. Vamos voltar — ele fez um sinal para os outros. — Sem isso ela não vai durar nada. A gente coloca tudo no relatório e manda pro Comitê.

Sim, senhor!

Eles entraram no jipe e o motorista fez o caminho de volta para Boa Vista. A vicinal que cortava a terra indígena era de uma terra fina que o fazia tossir. Ele segurou a tosse, no temor que aquilo fosse entendido como indício de algo mais. A viagem de volta foi um sufoco. O farol iluminava a estrada, mas seus olhos estavam postos na lua que banhava o lavrado.

Pra onde diabos essa mulher foi?”, pensava.


_________


Os capacetes dourados patrulhavam as ruas. Na praça do Centro Cívico, um dos mecanoides abriu a cancela para que o capitão entrasse. Ele os mirou desconfiado. Imunes ao vírus mas… confiáveis? Não tinha quem o convencesse disso. Ele estava nervoso. Não seria tão fácil explicar a fuga da indígena.

Capitão Raimundo desceu do carro. Dos degraus do Palácio do Governo ele viu as ruínas da Assembleia Legislativa. Estremeceu. Esse governo provisório lhe dava arrepios. Mas algo dentro dele o lembrava: “Faça seu trabalho, não se preocupe com essas coisas”. E este motto permitia que ele dormisse à noite: “Faça seu trabalho”. Com o pensamento firme na cabeça, segurou a pasta com o relatório e se preparou para a audiência.

Ao entrar no Palácio, foi levado à sala de descontaminação. Depositou a maleta no chão e abriu os braços. Os jatos de ar e químicos subiram às narinas e queimaram por dentro. Ele fez uma careta, mas não reclamou. Era sua rotina desde que nasceu. Será que houve mesmo um tempo em que as coisas eram diferentes? Ele afugentou o pensamento e saiu da sala:

Destino? — perguntou o mecanoide na recepção.

Gabinete do sub-Presidente.

Nome?

Raimundo da Costa Filho.

Após alguns toques na tela, respondeu:

Espere ali, por favor — e apontou para algumas cadeiras.

Ele sentou-se e viu que a televisão mostrava aquela mesma reportagem de sempre. A mesma propaganda explicando como o estado de pandemia evoluiu. Quem no ano de 2020 imaginaria que o vírus ganharia tamanhas proporções? Se os governos e as pessoas tivessem agido corretamente… quem sabe o futuro não seria diferente?

A reportagem mostrava a centralização do poder nas mãos do Comitê de Preservação da Vida. Aos poucos, tudo foi ruindo. Criado como um gabinete de crise, ele foi tomando proporções maiores, até aquele fatídico vinte e sete de junho quando…

Sr. Raimundo! — a voz do mecanoide o tirou de seu devaneio. — Pode dirigir-se ao gabinete agora.

Obrigado — ele não sabia por que agradecia ao robô. Velhos hábitos.

Subiu as escadas e entrou no gabinete ornado. A secretária limitou-se a apontar para a porta da sala do sub-Presidente. Este fumava um cigarro em pé e sorriu ao vê-lo entrar:

Fala Raimundo! Oxente rapaz, que demora. Sente aí, sente aí.

Bom dia, sub-Presidente — ele disse ao sentar-se.

Ora, mas que cerimônia é essa? — ele dava passos lentos atrás da mesa, cinzas caíram do cigarro sem odores. — Desde quando não me chama mais de Chico?

Foi mal, Chico.

O que houve, rapaz? — ele percebeu que o capitão estava incomodado.

Olha… — a cadeira ficou desconfortável de repente. Ele não olhava para o outro, com a mão afrouxava a gravata. Ele suava e o ar escapava.

Fale de uma vez, homem. Que enrolação é essa?

A desgraça da mulher fugiu, cacete — ele estourou. — Foi isso que houve.

Raimundo, tu tá de brincadeira comigo, né?

Raimundo tirou uns papéis da pasta:

Coloquei tudo no relatório — tirou ainda um saco plástico com a máscara dentro. — Foi tudo que encontramos dela.

Os passos de Chico diminuíram, ele aproximou-se da mesa e apagou o cigarro no cinzeiro. Puxou a cadeira giratória devagar e sentou. Nem olhou para Raimundo quando pegou o relatório para ler. Quando terminou, disse:

Raimundo, isso aqui não tá certo.

Um silêncio desconfortável pairou na sala enquanto os dois homens se encaravam.

Tá, mas eu vou fazer o quê?

Chico olhou firme para Raimundo e disse:

Você vai me fazer outro relatório.

Ué — estranhou. — Como assim?

No outro relatório eu quero a informação de que ela foi encontrada morta.

Tá louco, Chico?

Chico é o caramba — ele sibilou. — O que é que eu vou reportar pro Presidente, hein? Que nosso experimento fugiu? Que a droga da cura do Covid-25 tá por aí no meio do mato? Tu tá ficando doido, Raimundo? Quer me ferrar?

Raimundo ficou teso na cadeira e suspirou. Após um momento de silêncio, disse:

E de que adianta fazer outro relatório?

Pô, Raimundo — ele afastou a cadeira da mesa e recostou-se, tirando um cigarro e um isqueiro do bolso. — Achei que você era mais inteligente.

O outro limitou-se a dirigir-lhe um olhar frio. Chico puxou algumas baforadas e continuou:

Se o experimento deu errado porque fugiu, eu vou precisar de mais recursos pra fazer outro, não acha? — ele suspirou. — Olha, eu sei que não é o ideal, mas é só fazer outro relatório, entende? Você é o chefe da segurança, coloca lá direitinho. Quantos homens foram contigo?

Três.

Pronto, olha aí! Pouca gente. Dá pra resolver isso fácil. Não precisa criar caso.

Eita, Chico…

Parente, tu se preocupa demais. Faz só o teu trabalho, faz.

A frase acendeu o interruptor dentro de Raimundo:

Pô, Chico… você tá certo. Amanhã te entrego o outro relatório, que se dane.

Isso aí! — ele abriu um sorriso de orelha a orelha. — As coisas às vezes são mais simples do que a gente imagina.

Pior que é, a gente que gosta de complicar.

Ambos sorriram. Chico levantou-se e parou em frente à grande janela do escritório. Contemplando a cidade, disse:

Aí fora, Raimundo, tem muita gente contando com nosso trabalho, sabe? — as baforadas nublavam a vista da janela. — Já pensou se tudo acaba hoje, o caos que não seria? Olha a loucura que seria. Diacho, parente, tu não lembra como era antes do Comitê? Tá louco, a gente vivia com medo, não podia fazer nada, tudo era motivo de pânico. Olha aí agora. A gente finalmente tem ordem e progresso nesse país.

Demorou só quase seiscentos anos — exagerou.

Os dois riram. A velha amizade de tantos anos florescendo de novo.

Só tem uma coisa, Raimundo… — Chico disse sem virar-se.

Diga lá.

Tu vai precisar fazer outra coisa.

E o que é? — ele ficou logo desconfiado.

Aquela mulher não vai poder ficar solta assim não — Raimundo ficou tenso. — Tu vai atrás dela e vai encontrar ela pra mim, tá me entendendo?

De costas para a sala, fumando, Chico era uma figura impassível. Raimundo porém sabia que o amigo não havia chegado ao cargo de sub-Presidente à toa. Não eram poucos os motivos para temer. Amizade era um artigo descartável para algumas pessoas que chegam no poder. Não era a primeira vez que Chico pedia alguns serviços fora do comum e Raimundo sabia que não seria a última. Por isso, limitou-se a dizer:

Sim, senhor.


_________


Com a extinção dos Yanomami em 2038 por conta do vírus, o Comitê adotou uma série de medidas protetivas para o isolamento das populações tradicionais. Se por um lado isso era um holofote para o Comitê, apontando para a preservação dos povos ribeirinhos e algumas tribos próximas às cidades, por outro era o subterfúgio perfeito para esconder os campos de concentração. Eis a razão principal de tantos protocolos para acesso às áreas indígenas.

Raimundo pensava nisso enquanto o carro percorria as vicinais naquele final de tarde. Com o mínimo de barulho possível, ele pretendia entrar por uma das rotas alternativas logo que a noite baixasse. Mas a pergunta que estava na cabeça de todos foi feita por um dos soldados:

Mas, chefe, a gente vai procurar onde? Será que ela foi pra aldeia? — questionou. — Mas lá todo mundo conhece ela.

Eu sei, Ferreira — respondeu Raimundo. — Mas é lá que a gente vai ter que começar.

No volante, Aelton ouvia os dois em silêncio. Desde que não lhe mandassem fazer nada além de sua função, ele não se importava. Era um motorista que queriam? Era um motorista que teriam. Agora que não venham inventar outro serviço pra ele. Ele buscava ao máximo ignorar a conversa do capitão e os outros soldados. “Foca no seu trabalho”, dizia para si.

Capitão, o seu contato ainda tá na aldeia? — perguntou Neemias, o outro soldado.

É justamente com ela que eu quero falar — ele fez um gesto com a mão. — Mas chega de papo furado. Aelton, acelera aí porque eu acho que vai chover.

As primeiras gotas já os tinham alcançado quando eles desceram do carro, na entrada da maloca. Como eram oficiais do Comitê, em nenhum momento questionaram suas credenciais. Foram recebidos pelo tuxaua:

Opa! Sejam bem-vindos.

Como está, seu Carlos? — o capitão respondeu, aproximando-se.

Aqui tá bom, tá bom — então foi direto ao assunto. — Vieram passear por aqui, foi? Até sem máscara vieram.

Estamos só de passagem. E aqui ninguém precisa de máscara, não tem doente.

Ah, é?

Pois é.

E vão pra onde?

Ah, isso aí que vamos ver…

Hum.

Seu Carlos.

Diga.

Por acaso a dona Severina tá por aí?

Ele olhou para os quatro com um olhar desconfiado.

Deve tá. Por quê?

A gente queria falar com ela.

Hum — o tuxaua fez um sinal positivo com a cabeça e pausou antes de continuar. — Mas aí eu não sei se de repente ela não tá indisposta, né?

Como é?

Ela já é bem velha… não pode receber visita assim.

Ah, é?

Pois é… De repente tivessem trazido uma coisinha pra ela.

Ah… — o capitão entendeu. Afinal, ambos falavam o mesmo idioma. — É que a gente veio com pressa. Mas veja se isso aqui não dá pra conseguir alguma coisa.

Ele tirou algumas notas do bolso e passou para as mãos do tuxaua.

Ô… vai ter que dar, a gente se vira por aqui — e segurou firme as cédulas na mão. — Podem vir por aqui.

A noite já havia caído e neste horário a maloca quase toda dormia. Há costumes que não se perdem nunca. Ainda bem. Os soldados passaram sob olhares curiosos de alguns, mas sua visita não causou grande comoção. Tivessem vindo durante o dia, a algazarra teria sido incontrolável.

Dona Severina estava deitada numa rede, balançando-se e entoando uma canção que só ela conhecia. Era a mulher mais idosa da maloca, guardava para si tradições que já se perderam de um idioma que ninguém mais queria aprender. Ela estava acordada, mordiscando lembranças para que elas não se perdessem. Quando se é mais experiente, o sono foge da gente. E ela fugia do sono, temendo que numa dessas não acordasse de novo.

Sa'pontîn, dona Severina — o tuxaua cumprimentou quando se aproximaram. Ela se remexeu na rede e viu os homens. Com a voz frágil, sua primeira reação foi dizer:

Kaikusi mîîkîrî narî o'ma.

O tuxaua sorriu. Já estava acostumado aos devaneios da velha. Mas os homens se entreolharam, desconfiados. Aelton perguntou:

O que foi que ela disse?

É coisa de velha doida — o tuxaua balançou a cabeça. — Ela disse “a onça é um animal muito perigoso”. Eita, dona Severina velha de guerra. A bicha tá cada dia mais doida. Mas taí, podem falar com ela. Depois vocês podem dormir perto de mim. Trouxeram rede?

Não viemos pra dormir — respondeu o capitão.

Como não? Vão sair à noite, é? — o tuxaua ficou novamente desconfiado.

Pois é. Tem serviço aí pra fazer.

É?

É.

Hum — apertou as notas na mão de novo. — Como quiserem. Até a próxima.

Obrigado, seu Carlos.

O tuxaua se afastou com passos rápidos. Seja lá o que for que esses kraiwa estivessem prestes a fazer, que fizessem logo e fossem embora o quanto antes. Não gostava deles. Homens como Raimundo ele sentia o cheiro de longe, era gente em que não se pode confiar. As cédulas na mão eram a única coisa que lhe permitiam suportar aqueles quatro.

Putz — disse Raimundo, ao lado da rede de dona Severina. — Pô, acho que esqueci meu celular lá no carro. Aelton, pega lá pra mim?

De boa. Onde tá?

Acho que deixei no porta-luvas.

certo.

Raimundo esperou Aelton se afastar um pouco mais e falou baixo:

Vocês trouxeram? — perguntou aos outros dois.

Tá aqui, chefe — disse Ferreira.

Mas será que ainda funciona? — perguntou Neemias.

A gente só vai saber se testar.

Ferreira tinha uma mochila às costas. Colocou-a no chão e dentro dela retirou uma caixinha de metal comprida. Dentro dela havia uma seringa e material para coleta de sangue. Depois tirou outro objeto: um cubo metálico com um botão em cima.

Vai logo, caramba — Raimundo estava visivelmente nervoso. — Antes do Aelton voltar.

Tá, eu sei — reclamou Ferreira. — Neemias, vai lá enrolar o Aelton, vai. Não gosto que fiquem me apressando.

E eu não gosto que fiquem me dando ordens — retrucou Neemias.

Deixa de drama, Neemias — falou Raimundo. — Só vai.

Ele se retirou a contragosto. Enquanto isso, Neemias pegou o braço de dona Severina e procurava nele a melhor entrada para a seringa. A mulher, sem forças para lutar, cedeu como em todas as outras vezes que eles fizeram isso. Reclamou quando a seringa penetrou sua pele, mas ninguém a ouviu. Com habilidade, Neemias retirou o sangue da mulher.

Raimundo pegou o cubo metálico e apertou o botão. O dispositivo abriu um compartimento na lateral e pôs para fora um vidro circular bem pequeno. Sobre ele, Neemias pingou uma gota de sangue. Raimundo apertou novamente o botão e o vidro recolheu-se para dentro do cubo, que emitiu uma luz esverdeada por alguns segundos.

Tá feito — disse Raimundo. — Ainda funciona.

Fechou — Neemias despejou o resto do sangue coletado num recipiente e guardou todo o material de volta na caixinha.

Então vamo embora. Aproveitar que de noite ela não tá esperando a gente.

Partiu, chefe.

Eles levantaram e deram às costas para dona Severina. Ela mexia-se pouco. O cansaço de anos caindo sobre cada músculo do seu corpo velho. O braço estendido doía, mas ela não falou nada. Não conseguia. E, quando falava, ninguém lhe entendia ou fazia questão de entender. E lá ficou ela, um resquício de um passado que já agora era apenas uma memória. Os homens caminhavam em direção ao carro e ela ficou.

A rede já não balançava mais.


_________


Pra direita! Pra direita! — gritava o capitão. — Cacete, Aelton. Não sabe mais a diferença de esquerda e direita é?

Foi mal, chefe. É que dirigir assim de noite é complicado, né?

Fala menos e dirige mais.

No lado do passageiro, o capitão segurava o cubo metálico. Uma pequena seta no topo dele guiava sua direção. Era seu compasso. O jipe já havia saído da vicinal há tempos, eles agora rumavam no meio do mato.

Capitão — disse Ferreira. — Com esse negócio dá pra ver se a gente tá perto?

Pergunta besta hein, Ferreira — retrucou. — Claro que dá.

Esse caminho aqui tá levando a gente na direção da serra.

Ninguém perguntou nada, Neemias — o capitão estava irritado. — Vocês não sabem calar a boca? Se aquietem aí que uma hora a gente chega. E Aelton, pé na tábua.

Os solavancos do terreno, porém, não permitiam acelerar demais. No horizonte, Raimundo procurava qualquer vestígio de presença humana. Para onde teria ido a mulher? Ele começou a lembrar de Adelaide no laboratório. Não interagiu com ela, mas seu nome foi repetido por vários cientistas. Resistente, boa estrutura corporal, DNA favorável, décadas de testes com sangue indígena, plasmas, vírus… imunidade. Finalmente chegaram no resultado. Um ser humano imune a todas as variações do Covid. Ora, quem diria? Os experimentos foram um sucesso!

Mas ela ainda não era compatível para produção da vacina em larga escala. Era preciso algo mais. Era preciso um ser humano que já tivesse nascido com essa capacidade, não um com uma imunidade produzida artificialmente. Um espécime com um novo DNA, uma nova estrutura, uma nova imunidade.

Será que o menino tinha nome? Não, melhor não. Ele sacudiu esse pensamento da cabeça. Não era um menino. Era um espécime. Há uma diferença entre uma pessoa e uma… coisa. Não era difícil. Afinal, o governo sabia muito bem o que fazia, ele tinha direito sobre a sua propriedade. Não é dele? Deixa fazer o que quiser.

Só tô fazendo meu trabalho — ele murmurou.

Como é, chefe? — perguntou Aelton. O capitão saiu do seu devaneio:

Nada não. Concentra aí — então a luz no topo do cubo metálico piscou com mais intensidade. — Agora sim a coisa vai ficar boa. Finalmente! Rapaziada, prepara aí, que estamos perto.


_________


A correria surda ocorria dentro da mata fechada. Os homens desviavam das raízes no chão, mas era quase impossível não fazer barulho. Avançavam devagar. Na mão do capitão, brilhava a bússola. Os rifles estavam preparados e cada um deles olhava ao redor com os óculos de visão noturna, na tentativa de encontrar a mulher.

Não havia ali perto nenhum traço de civilização. Teria ela ficado louca de vez? Embrenhou-se na mata para morrer? A floresta os observava também. Na copa das árvores os animais pareciam grandes sentinelas. Os homens tentavam fazer silêncio, porém a mata não tinha este compromisso. Os sons da noite se proliferavam. Porque havia invasores ali.

Pessoal, pessoal! — o capitão sussurrou. — Vocês estão ouvindo isso?

Eles pararam e tentaram ouvir a noite. Sim. Eles ouviam.

Capitão… será que é mesmo? — perguntou Ferreira.

Olha eu tô achando que é isso mesmo — respondeu Neemias. — É choro de criança.

Bora lá, bora lá! — ordenou o capitão.

Eles correram apressados, o volume do som aumentava, estavam na direção certa. O terreno irregular os atrapalhava, mas seguiam decididos. A essa altura já estavam no pé da serra. Conforme se aproximaram, ouviram:

Shh, shh… vai ficar tudo bem. Não chora, não chora — seguido de uma melodia simples, um acalanto. O capitão fez um sinal com a mão para estancarem o passo. Com outro comando, eles seguiram bem devagar na direção. Não havia mais dúvidas, era Adelaide. O choro havia cessado.

A gente vai fazer o seguinte — o capitão sussurrava o mais baixo possível. — Neemias pega o flanco da esquerda, Ferreira o da direita. Eu vou no centro. Alguém tem uma visão clara do local?

Chefe, acho que é uma caverna — disse Ferreira.

Ótimo. Melhor impossível. A gente já deve estar na serra mesmo. Todo mundo entendeu o que é pra fazer?

Positivo, capitão.

Copiado.

Eles pisavam firme, os rifles prontos. Assim que chegaram na porta da caverna ligaram as lanternas das armas e gritaram:

Parada aí!

Pro chão, pro chão!

Ah! — gritou a mulher, abraçando o filho.

A cena era deplorável. A terra na caverna estava úmida, a mulher tinha as roupas rasgadas. A criança mamava. Adelaide estava magra, os cabelos desgrenhados. Ela implorava:

Por favor! Eu não! Aqui não!

Os homens a olharam em silêncio. Não era costume falar com ninguém. Com os rifles erguidos, Ferreira e Neemias aguardavam as ordens do capitão. Este viu a situação que a mulher estava. Lembrou-se dela no laboratório, lembrou das promessas dos cientistas e lembrou também do sub-Presidente. O rifle na mão, o dedo coçava para apertar o gatilho. Mas que coisa! Por que ele hesitava? Os homens já estranhavam a demora.

Pra que diabos você foi fugir?! — ele gritou, vomitou as palavras. O som ecoou na caverna e a impressão que eles tiveram era que o mundo inteiro os ouvia. — Não dava pra ficar quieta no seu lugar?

Vão matar meu filho! — ela gemia e chorava. Sua fala era cortada, arrastada. Tinha um sotaque de quem não falava português direito.

E daí? Depois tu faz outro, imbecil — ele retrucou, o rifle empunhado, a luz no rosto da mulher. — Essa daí é a cura pra nossa doença! Vai deixar todo mundo morrer por causa de uma criança?

Que doença? — ela falou, confusa.

Como assim que doença, sua índia suja? — o capitão cuspia enquanto falava. — Não tá vendo o mundo inteiro morrendo por causa do Covid?

Pelo amor de Deus! — ela gritou. — E meu filho tem a ver com isso? Eu tenho ver com isso? Por que não deixa a gente em paz?

Vocês são a cura, sua idiota! Vocês são a cura! Vocês são imunes.

A expressão de Adelaide aos poucos tomou nova forma. Da confusão, passou para um súbito entendimento e devagar caiu numa risada. Ela ria baixinho, seus ombos balançavam. Então cresceu, cresceu, até se tornar um riso convulsivo que fez a criança soltar o seio e começar a berrar de novo. Isso só a fez rir mais alto.

Capitão, que merda é essa? — questionou Ferreira.

Raimundo limitou-se a levantar-lhe a palma da mão.

Vocês são é burro — ela disse após se recuperar da crise de risos. — Tá bom, tá bom. Pega. Leva meu filho de volta, leva. Ele não tem cura. Vai. Pode levar.

Agora ninguém precisa mais dele — disse Raimundo.

É claro que não precisa! — Adelaide ria. — Ninguém cura, kraiwa idiota.

Quem aquela porca achava que era pra falar com capitão Raimundo dessa forma? Que mentiras a cabeça desvairada dela ainda seria capaz de produzir? Raimundo começou a ver o ridículo da situação. A mulher estava acuada, sem chance de fuga. Era uma fugitiva e ladra, roubou propriedade do governo. E, pra piorar, estava louca. E ali estava ele, o chefe da segurança discutindo com uma mulher que ele viu algumas vezes na vida. Argh! E aquele moleque não parava de chorar!

Capitão! Qual o comando? — gritou Neemias, superando o choro da criança.

Vocês acabaram meu povo — gritava Adelaide. — E pra quê? Hein? Acham que eles querem melhorar? Até eu que “não sou gente”, sei. Porque eu sei.

Aquilo era um pandemônio. Os homens pediam ordens. A mulher gritava coisas sem sentido, o menino chorava. Estava um calor dos infernos, o suor escorria dentro da roupa, os mosquitos tentavam entrar por qualquer orifício no corpo.

Cala a boca! — gritou o capitão. — Pra mim já chega!

Um clarão, um som retumbante. Outro estampido e um rosto contorcido de dor. O sangue corria, a mulher ainda estrebuchava. Cacete. Pra quê essa algazarra toda? A mulher cuspia sangue. Outro tiro. E o silêncio ensurdecedor, que doía nos ouvidos deles. Agora que tudo acabou, Raimundo finalmente conseguia pensar direito.

Os dois homens olhavam para o chefe. Mudos ante a situação, entreolharam-se em seguida. Ninguém teve coragem de se mexer. Esperavam a direção do capitão. Era o que eles sabiam fazer melhor: seguir ordens. Abaixaram os rifles, a única luz sobre o corpo da mulher era a lanterna do capitão. Ela estava caída por cima da criança. O cheiro do sangue subia às narinas. O capitão tossia.

Se as palavras da mulher tiveram algum efeito em Raimundo não sabiam. Se ele a conhecia de outro lugar, tampouco. Eles mesmos estavam acostumados às mentiras daqueles que estão próximos à morte. Falam qualquer coisa, na vã expectativa da redenção. Não há redenção. Apenas o que sempre foi. No fundo, isso os tranquilizava, e a tensão dentro deles começava a esvanecer. Não era preciso ler demais a situação. Era apenas o seu trabalho. Não era um trabalho agradável, mas era necessário.

É por causa desse tipo de coisa, que nosso Brasil vai pra frente. E aquilo também tranquilizava Raimundo. O último sangue Macuxi fez um igarapé que tocava a bota do capitão. O rifle ainda empunhado. Os homens ainda estranhavam sua reação. Ele também estranhava. Que diabos? Eu, hein. Balançou a cabeça e saiu da caverna. Os homens o seguiram. De repente sentiu-se sufocado, a floresta era uma enorme prisão. Sem falar nada, correu. Cada passo aumentava sua ofegação, a floresta os queria prender, mas ele precisava fugir, estava cada vez mais difícil respirar. Precisava sair de uma vez por todas daquele emaranhado sem fim que o impedia de seguir em frente. A umidade do ar era terrível, ele precisava de ar, precisava respirar. Tosse dos infernos! Cada galho, cada raiz, cada folha era uma afronta. Que morressem todos!

Quando deu o primeiro passo fora da floresta, viu à distância Aelton fumando ao lado do jipe, na vicinal. Respirou aliviado. O vento do lavrado empurrava para longe os cheiros da escravidão da floresta. Bom mesmo era ser livre. Livre como o vento. Raimundo corria, precisava da liberdade, precisava voltar e dizer que havia cumprido sua missão, que seu trabalho estava feito, que não era mais preciso se preocupar. Ele fugia. Para onde? Não importava. Para onde ainda havia liberdade? Ele não sabia. Mas corria. Corria e a noite voava.

Conto publicado no Volume II da Coleção Literatura de Circunstâncias (Editora da UFRR, 2020), distribuição gratuita.