sexta-feira, 13 de março de 2020

Crônicas do cotidiano VII – O sétimo dia

Meu avô me chamava de "Biel". Ele pedia pra eu pegar coisas pra ele. Infelizmente meu contato com ele foi muito curto. Mas eu gostava tanto de ouvi-lo falar.

Quando havia convidados, ele sentava na porta da sala, bem próximo à entrada da casa. Ele tinha uma cadeira de balanço que o acompanhava. Engraçado que o cantinho da casa que ele mais gostava, também era o meu favorito. 

Se tinha outra cadeira de balanço por ali, eu sentava próximo e a gente ficava num silêncio estranho, como dois desconhecidos. Mas tudo durava pouco. Meu avô me olhava com os olhinhos dele e começava a me contar histórias.

Foi só tarde que eu parei pra ouvi-las com mais atenção. Cheguei a gravar nossa última conversa. Jamais imaginei que a despedida naquela ocasião seria derradeira. E o pior, foi há tempo demais. Sequer falei com ele recentemente. Sequer pude comparecer ao enterro. Acho que ainda me dói muito a dívida de não estar presente. 

Mas sei que não adianta se martirizar pelo "e se". Fazer isso é duvidar da soberania de Deus. E lembrar disso faz com que eu possa chorar e me entristecer, mas não ser dominado por este sentimento.

Acho que foram poucas as vezes que meu avô me viu e não puxou conversa. Havia algo em mim que o convidava? Talvez não. Talvez eu só estivesse mais perto. Consigo ouvir sua voz na última vez que falamos. Ela já estava embargada por conta do infarto, mas ele falava, era lúcido. Era um índio forte, com o melhor do sangue amazônida. 

Eu devo ainda um relato da vida do meu avô. Afinal, eu sou um escritor. Poucas vezes a responsabilidade da arte foi tão evidente. Deus me ajude a cumprir com tudo que é requerido de mim, para o louvor da Sua glória. Sim, para o louvor da Sua glória.

Sete dias que meu avô partiu. E esta semana passou tão rápido. Acho que, afinal de contas, a vida segue. Segue como ondas. Há momentos que posso aproveitar a baixa da maré e lembrar que as coisas continuam; mas tem vezes (como agora) que não dá pra escapar das ondas. Elas vêm mesmo. Podem vir. Porque para enfrentar esta maré, tenho as palavras que meu primo Laerto tão bem lembrou:
– A bênção, vô.
– Deus lhe dê saúde e inteligência, meu filho.
No seu leito de morte – que, aliás, ele já sentia ser o seu leito de morte – minha mãe foi uma das pessoas que esteve ao seu lado. Aliás, foi ela que presenciou o derradeiro momento. Ela lia para ele o Salmo 97. E, apesar de toda a tristeza, havia esperança na voz dela quando liguei para conversar no fatídico dia. Esperança da vida eterna, pois naquela semana meu avô havia recebido Jesus como seu Senhor e Salvador. 

Ah, amigos. Eu não sei o futuro. Eu não sei nem do presente direito e tenho dificuldades de entender o passado. Mas, graças a Deus, a minha finitude não é empecilho nenhum para o Deus Todo-Poderoso, que um dia vai nos levar de maneira definitiva para a sua presença. E lá, livre das amarras do pecado, eu poderei louvar ao Senhor bem do lado do meu avô. O meu Senhor vive. E nele eu posso ter esperança. 
"Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá;" (Jo. 11:25)

terça-feira, 3 de março de 2020

Resenha - The shining (uma resenha bilíngue)

KING, Stephen. The shining. New York: Anchor Books, 2012.


CA-RAM-BA!


Now in English:
HO-LY CRAP!

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Resenha - Saga

VERÍSSIMO, Érico. Saga. São Paulo: Globo, 1995.


Eita, e aqui estamos nós com mais uma obra do grande Érico Veríssimo. Até o dia que eu completar a leitura de todas as obras dele, podem esperar vê-lo por aqui. O livro vem pra finalizar a primeira grande fase do escritor, que retorna a personagens trabalhados nos seus primeiros livros como Clarissa, Vasco, Eugênio, D. Eudóxia e por aí vai. Achei interessante esta capa, porque é uma das poucas desta edição da Globo que não tem uma característica totalmente abstrata.

Já no começo há um deslocamento em relação às outras obras: a primeira parte se passa na Europa, mais especificamente no contexto da II Guerra, quando brasileiros voluntários (e gente de outras nacionalidades, claro) se alistam para compor a Brigada Internacional, na Guerra Civil Espanhola.

Outro destaque que vem logo no começo do livro é a narração em primeira pessoa. Aliás, acho que é a primeira vez que o Vasco fala com a gente na primeira pessoa. É ele quem apresenta a arena onde as coisas acontecerão (a Europa e o pelotão do qual Vasco faz parte) outros personagens. Vejo como os personagens latino-americanos são sempre mais amigáveis e me pergunto se isto não alimenta um favoritismo de Veríssimo por nosso povo (coisa que ele já deu a entender outras vezes).

Veríssimo sempre teve uma seria aversão às guerras e à própria violência de maneira geral. Isto é muito evidente e fato consolidado entre seus analistas: ainda que não fosse um pacifista militante, sua ojeriza à guerra é evidente:
"Estan locos, locos! Sim, estamos todos loucos. O mundo inteiro é um vasto hospício. O bom-senso desapareceu da terra. Os homens se estraçalham. É a guerra." (p. 6)
E aqui já começa o profundo questionamento do autor quanto à própria condição humana. O paradoxo da busca eterna pela paz, porém utilizando meios violentos para isso. Ele reconhece nos seus próximos um desejo ardente e quase uma necessidade física pela guerra:
"Conheço um florentino esguio e rijo como um punhal que condena a guerra com o espírito ao mesmo tempo que a ama desesperadamente com o corpo. [...] A paz para eles seria dolorosa e a vida se lhes tornaria insuportável." (p. 40)
Justamente por conta destes contrastes, Veríssimo tem a oportunidade de explorar insights fantásticos quanto à condição humana:
"Qual é a verdade sobre Ettore Sarto? Como única resposta a meus pensamentos, encolho os ombros. Que posso eu saber da alma desses homens que conheci ontem, quando a minha própria alma ainda tem recantos desconhecidos para mim?" (p. 55-56)
"— Na escola em Estocolmo nos contavam muitas sagas... Belas lendas de heróis, conquistadores, príncipes perfeitos e homens do mar. — Sua mão muito grande e clara pousa no meu ombro, numa pressão amiga. — Mas como em todas as outras escolas do mundo eles se esqueceram de nos preparar para a vida, a mais estranha das sagas..." (p. 60)
Sim! Esta é a grande frase do livro. Frase que ele gostou tanto que não tem medo ou vergonha de repetir em outros momentos. E é interessante como o uso da palavra "saga" na história é utilizada de modo a esconder um sentido profundo, mas também explícito, numa quase síndrome de vira-lata: 
"— Sabes? — diz depois o chileno a Axel em tom mais calmo. — A melhor das tuas sagas não vale um capítulo de Cervantes. O maior dos teus heróis não tem a metade da estatura moral de Dom Quixote." (p. 12)
Como é absolutamente característico do autor, mais uma vez a poderosa descrição de Veríssimo nos imerge na cena. Esta habilidade tremenda por um lado é ótima, mas, por outro, há um preço a pagar por ela. O preço é ver-se tão imerso na cena e ter que imaginar na mente imagens como essa:
"Tomamos de nossas ferramentas e pomo-nos a trabalhar. Uma massa feita de terra, sangue, pedras, sacos de areia e pedaços de corpos humanos nos barra a saída. Estamos gotejando suor mas não cessamos de trabalhar." (p. 88)
Novamente, como é a próprio ao estilo de Veríssimo, história caminha pra frente de um jeito diferente: não tem grandes acontecimentos, há vários capítulos que descreve apenas o cotidiano (cotidiano!!) dos homens na Brigada Internacional e os diferentes tipos com os quais se encontra Vasco nas trombadas do dia a dia. Mas é incrivelmente fascinante.

E surgem as questões: mas como? Se não tem ação, não tem grandes acontecimentos? Ora, talvez seja o vislumbre que todos ansiamos de conhecer mais o outro e a nós mesmos. Assim como ocorreu com Veríssimo, talvez, no fundo, o que nos interessa é a verdadeira humanidade das histórias, na perfeita expressão da fantasia do cotidiano.

E já que estamos falando do método de escrita dele, fico em dúvida se aprovo ou não o uso que Veríssimo faz dos advérbios de modo. Mais de um autor já me alertou quanto à quase inutilidade deles na escrita e eu mesmo já cheguei a constatar isso: grande parte das vezes, os advérbios de modo só traduzem de maneira mais direta aquilo que você foi incapaz de fazer por meio da própria estrutura do texto. Olhem só o caso abaixo:
"À tarde os aviões inimigos nos atacam encarniçadamente." (p. 91)
Vejam só como permanece a dúvida. Porque não consigo entender direito a escolha que ele fez aí em cima. Que diabos de palavra é essa? Ao mesmo tempo: fica clara a ideia de chacina que a palavra traz, ou não? Bom, permanece a questão: não sei se aprovo ou não o uso.

Seguindo e reforçando o que já comentei, talvez a citação mais importante de todo o livro seja esta abaixo, 100% relacionada com o despropósito da guerra:
"Os homens complicaram muito a vida. Veja... Rádio, jornais sensacionalistas, televisão, aviões. Press, muita pressa. Vive-se depressa, morre-se depressa, come-se depressa, ama-se depressa. É como se quiséssemos chegar o quanto antes a um ponto determinado. No fim veremos que não há nenhum objetivo sério. E os homens, cansados e gastos, vítimas das máquinas e dos mitos que eles mesmos criaram, chegarão à certeza de que é preciso procurar outra coisa..." (p. 125)
Senti calafrios na cena final com Juana. Aliás, não tem como a gente ler Veríssimo e não ficar com as emoções à flor da pele: a gente torce pro final feliz! Mas eu te conheço, Érico. És um cretino! Um safado, ordinário! Tu vais levar eles pra um final ruim não é, seu cachorro? Se soubesse o ódio que eu estou agora do que talvez tu venhas a fazer. E, o pior, tenho raiva de mim mesmo por conta da tolice de ficar com raiva de uma história de um livro, de um cara que já até morreu. Miserável. Morreu, mas ainda vive.

Encontro fantasmas, suspiros de ideias, que apontam para um caminho que Veríssimo explorou com maestria em "O tempo e o vento" (obra que iniciaria poucos anos depois), referente à própria história do Rio Grande do Sul e a formação do caráter de seu povo. Também há literalmente uma citação que fala sobre "Olhai os lírios do campo", livro que veio antes de Saga.

E é muito bonito ver como Veríssimo relaciona seus personagens de outros livros. Embora não façam  sempre parte da mesma aventura, vemos ali menções ou até mesmo participações de gente que conhecemos em outras histórias, tudo num grande cosmos. Isso aumenta a coesão e nos dá uma sensação de familiaridade de quem diz: "Ah, o Eugênio? Sim, claro que conheço. Sei da história dele todinha!"

Mas aí, falando dos personagens, ou Vasco (que é o narrador) encontra sempre personagens dotados de alta capacidade filosófica e reflexiva, ou muitos diálogos da segunda parte não são verossímeis. Sério, gente, quem é que vocês conhecem que são capazes de analisar sua condição ou dos outros de maneira tão profunda? Este é o mesmo problema que eu via na série House, em que o médico sempre tinha pacientes muito intelectuais ou muito conscientes da sua condição.

Enquanto na primeira parte do livro estamos acompanhando a saga de Vasco na Espanha e na guerra; na segunda parte o herói volta para Porto Alegre e Érico explora a "fauna" local sem pressa, colocando Vasco num outro tipo de batalha, com inimigos não menos piores. A história anda a passos lentos, quase como a modorra do cotidiano, mas sem o tédio.

Acho que tive sorte de ler Saga depois de já ter lido os grandes clássicos dele como o tempo e o vento, além claro de "Um lugar ao sol", porque consigo ver as sementes de algo que germinaria no futuro ao mesmo tempo que desfruto de uma quase infantil curiosidade de Veríssimo pelas coisas simples, que sei que vão maturar nos próximos livros.

Interessante notar que em quase todos os livros do Érico tem um ponto que a gente lê com uma volúpia tal que não dá pra absorver todos os detalhes. é um festival tão grande de humanidade, da saga do dia a dia, que ficamos num misto de curiosidade e reconhecimento nesta fantasia do cotidiano.

A grande conclusão que Vasco chega no final do livro é aprender a conquistar e desfrutar das coisas simples da vida. Num final que me surpreendeu (não por conta de grandes reviravoltas, mas por conta do conhecimento que tenho do estilo do autor), vejo o herói terminar quase como num final feliz: 
"[...] não basta viver intensamente e fazer coisas – é necessário também pensar em calma nas coisas feitas, ruminar as emoções experimentadas para melhor apreciá-las e compreendê-las. O ócio inteligente enriquece a alma." (p. 332)
No fim das contas, aqui Érico Veríssimo chega no nível de maturidade que o permitiria iniciar e conquistar seu espaço de uma vez por todas na literatura brasileira quando fosse escrever "O tempo e o vento". Esta, meus amigos, é uma saga e tanto. Mas eu garanto: a vida, ah, ela sim... a vida é a mais interessante das sagas.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Resenha - O peregrino

BUNYAN, Jhon. The Pilgrim's Progress. Nashville: B&H Publishing Group, 2017.


Se você é cristão e ainda não leu nem ouviu falar deste livro, está na hora de se atualizar. Este é um maravilhoso clássico da literatura cristã! Não é à toa que esta bela alegoria da vida cristã feita por John Bunyan, num livro escrito em 1678, permanece vivo até hoje.

E quando se fala em alegoria, estamos pensando em muuuitos significados escondidos em cada página do livro. Temos personagens como Cristão (nosso herói principal), Fiel, Esperançoso, mas também lugares terríveis como o Pântano do Desânimo, a Feira das Vaidades, o Castelo da Dúvida, demônios terríveis e viajantes enganadores, cujo único propósito é desviar Cristão da sua jornada.

A verdade é que o livro é muito profundo, não dá pra absorver a alegoria toda de imediato. É preciso degustar com calma e ainda assim ter a certeza que não dá pra compreender tudo. Bunyan fez isto de modo proposital, para que cada linha tivesse alguma parte da alegoria.

Eu já havia lido na adolescência e, pra se bem sincero, na minha cabeça ele tinha mais ação. Porém há diversos momentos da jornada em que ela não vai para frente: os personagens apenas conversam entre si. Tudo bem que na conversa tem muitas verdades teológicas explicadas de maneira alegórica; mas fica cansativo. A gente quer ver a coisa seguindo adiante. Nestes momentos o livro se torna efetivamente de teologia e aí já não curti mesmo, porque muda de foco.

Não tenho dúvidas que a parte mais bonita do livro é quando Cristão e seu amigo Esperançoso estão aprisionados no Castelo da Dúvida, onde toda toda noite um gigante chamado Desespero vem espancá-los. O bonito da coisa não é a prisão ou as surras, mas o dia em que Cristão lembra da Chave da Promessa a qual, cego que fora, esteve guardada com ele o tempo todo.

Há uma evolução no personagem de Cristão. Ele começa a jornada com muitas dúvidas, medos e caindo em diversas armadilhas. Mais pra frente é evidente seu amadurecimento, ao ponto de se tornar conselheiro e agir como verdadeiro mestre para Esperançoso. E a gente também vê a evolução de Esperançoso, saindo de fiel escudeiro para um conselheiro primoroso nos momentos de maior angústia.

Esta é uma resenha simples, para um livro tão profundo. Todo bom cristão deveria, pelo menos por uma vez, acompanhar a jornada de Cristão e ver como nossa vida está espelhada em diversos momentos da aventura. Como já disse, Bunyan tinha plena consciência do trabalho que estava fazendo. Tanto é que termina o livro com um desafio para o leitor. E com ele também encerro essa resenha:
Now, Reder, I have told my Dream to thee;
See if you can'st interpret it to me,

[...]
Put by the Curtains, look within the Vail;
Turn up my Metaphors, and do not fail
There, if you seekest them, such things to find
As will be helpful to an honest mind.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Resenha - Príncipe dos drogados

CORREA, Kinho. Príncipe dos Drogados. Boa Vista: Gráfisa, 2019.


Meus amigos, devo iniciar confessando meu pecado: eu julguei o livro pela capa. Se for pra ser bem honesto mesmo, iniciei a leitura com baixas expectativas. Ao folhear o livro, de cara já me chamaram a atenção a formatação de baixa qualidade do texto, páginas que não estão bem cortadas, um livro não uniforme. A qualidade do papel não é de quinta, embora não seja de primeira. O pior de tudo isso é que, além de julgar o livro pela capa, o autor é também roraimense e (a coisa só vai afundando cada vez mais) eu estive no lançamento deste livro -- meu exemplar é até autografado. 

Mas são coisas que servem de lição. O livro foi uma BAITA surpresa. O conteúdo é de excelente qualidade, coisas que eu jamais imaginaria. Quero fazer aqui uma resenha honesta e portanto vou apresentar tanto as qualidades como os defeitos que encontrei. Vamos seguir.

O que fica evidente pra quem folheia o livro, como já disse, são os problemas com formatação. O exemplo mais nítido é usar hífen (-) para falas. Poxa, podia ser pelo menos o meia-risca, né? (–) Ou, o que seria melhor, o travessão (—). Ou, se optasse pelo hífen mesmo (o que já é feio pra caramba), que pelo menos mantivesse a uniformidade. Mas nem isso! Tem horas que é hífen, tem horas que é dois hífens juntos (--) tem horas que é meia-risca. Um caos. Infelizmente a revisão deixou muito, muito, muito a desejar. Não apenas na parte gráfica ou textual, mas na própria verossimilhança de algumas falas.

Quanto à distribuição dos textos no livro, eu alteraria a ordem. Tem 3 textos que são relatos pessoais de Kinho. Deixaria o primeiro no começo mesmo, pegaria o Mad Max e colocaria logo depois de Marinalva; depois pegaria o Luta por uma causa e terminaria o livro com ele. Assim o livro fica equilibrado: texto do Kinho, 2 relatos, texto do Kinho, mais 2 relatos e outro texto do Kinho pra finalizar. Uma humilde sugestão pra uma próxima edição.

Agora, olha, acreditem se quiser, por piores que estes problemas sejam, eles ficam eclipsados quando nos deparamos com o conteúdo do livro. A proposta é diferente e ousada. Pra começar que não é ficção (não mesmo!) Na ficha catalográfica está "testemunhos". Grande verdade. Há uma excelente contextualização do tema no começo. O que o autor faz é mostrar por meio de relatos o mundo das drogas em Roraima a partir da sua própria experiência e de outras pessoas.

É muito interessante ver este mundo escondido dos olhos do grande público, ainda mais em Roraima, onde há tão pouco material escrito sobre o tema. O livro é honesto. Nossa! E como é honesto! Como nunca pretendeu ser ficção, o autor é livre para compor seus ensaios de maneira clara. O texto é bem escrito e impactante por ser tão direto em alguns momentos: "Na época eu era um dos traficantes mais conhecidos na cidade de Boa Vista/RR [...]" (p. 29)

Temos nos escritos alguns belos testemunhos de conversão. E pense num livro extremamento imersivo. A gente fica vidrado nas histórias da vida real. Talvez justamente porque elas são isso: da vida real! Tem histórias no livro que, pra ser bem sincero, eu preferiria que fossem ficção. 
Eles não brigavam por controle de vendas de drogas ou qualquer outro tipo de tráfico, as violências eram pra mostrar quem tinha mais força. (p. 44)
Há um pouco de auto exaltação que achei desnecessária. Este tipo de informação deve surgir na mente do leitor e não ser forçada goela abaixo. Mas eu mesmo reconheço que Kinho é de extrema coragem. Retratou de maneira bem clara o drama pessoal de algumas famílias que tem dependentes químicos. É uma situação terrível. Eu não sei se teria coragem de contar do jeito que ele contou.

Essa resenha é curta e simples porque eu não tenho coragem de falar aqui dos pormenores dos conteúdos das histórias. Entendam, não há nada explícito. Mas pensar que aqueles são relatos reais, sobre pessoas que ainda existem (e outras que já partiram)... olha... é um livro que precisa ser lido. Realmente abre os olhos para uma realidade. Imagino quantas outras histórias não há para serem contadas.

Conte-as, Kinho.
Eu não vou desistir desse trabalho. Eu sei que eu sofro muitas represálias, sou muito criticado por causa disso, algumas pessoas até acham talvez que eu queira me aproveitar. mas não é isso. Eu quero é ver minha cidade, seus filhos e netos com paz. (p. 88)

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Resenha - Classic tales of horror

POE, Edgar Allan. Classic tales of horror. London: Arcturus, 2017.


Valei-me! Já faz quanto tempo que não escrevo uma resenha, né? Em minha defesa o fim de ano e começo deste foi terrivelmente conturbado no trabalho. Mas eis-me aqui! E logo com quem, né? Simplesmente um dos maiores escritores americanos de todos os tempos e um marco na literatura do século XIX. Temos aqui alguns contos selecionados, dentre os vários. Sigamos adiante.

Bom, já começo tecendo comentários gerais. Primeiro que é evidente o forte teor intelectual dos contos de Poe. No começo eu achei um pouco demasiado, mas depois entendi que isto era parte do seu estilo e também uma marca de seu tempo. Por exemplo, hoje eu acho um desrespeito com o leitor colocar uma frase em outro idioma no meio do texto; mas, naquela época, isto era natural e muito bem quisto -- lembro, por exemplo, que Conan Doyle costumava fazer isso também.

Poe é a essência de um bom contista. Ele escreve parágrafos longos e profundos que a gente vê que são construídos com cuidado. Não há praticamente nada que dê pra tirar do conto, tudo que está ali e necessário. Isto é um absurdo de fantástico e transparece em todas as histórias. Até o que parece encheção de linguiça tem um propósito pra história.

Achei o começo do livro chato. Mas percebi que foi uma jogada do editor, colocando os contos em ordem "crescente", demonstrando a evolução do próprio estilo de Poe. Não canso de repetir: os contos são muito, muito bem construídos. Embora não deem medo, é um deleite lê-los. (Sim, isto precisa ficar claro: os contos podem ser de terror, mas não dão medo).

Se a gente pensar agora nos personagens dos contos, de maneira geral, praticamente em todos eles as pessoas são ou estão doentes de alguma forma. Penso que isso diminui o impacto em alguns casos, porque a gente vê o doente como vítima também (pelo menos de certa forma e, é claro, com um olhar contemporâneo, né?)

Uma coisa que me incomodou também: a vasta maioria são personagens ricos, com poucos ou nenhum problema cotidiano. Evidente que isto era uma das marcas dos leitores da época. Não adiantaria escrever para um público que não se interessava com o cotidiano e tenho plena consciência de que isto é uma idiossincrasia particular minha.

Uma coisa que entendi depois que li o livro foi que para realmente ler Poe, não basta só ler os contos ou poemas. Se você não é bem treinado ou aprofundado no universo da literatura ou psicanálise, dificilmente você vai conseguir entender a complexidade dos contos com perfeição. Há sempre foco muito grande na psique dia personagens e isto se traduz não apenas no comportamento delas, mas na própria estrutura do conto e muito, muito simbolismo.

Agora, se passarmos aos contos propriamente ditos, teríamos muito a dizer. Fiz uma seleção geral de coisas que me chamaram a atenção. Organizei aqui o que considerei uma ordem ascendente em qualidade dos contos (no meu humilde ponto de vista, é claro)
  1. The tell-tale heart é muito bom para imergir na mente de um maluco.
  2. Man of the crowd deixa a gente curioso e ao mesmo tempo absorto. Pena que o final foi  deixado aberto demais.
  3. The black cat é um conto que talvez as pessoas esperassem que eu colocasse em um ponto mais alto da lista. Nele é evidente a unidade de ação em comparação com a unidade temática de Morella. Olha, o conto é muito bom, mas infelizmente foi mal colocado no livro porque o conto anterior tinha praticamente o mesmo final. Então logo que a situação se mostrou similar, eu fiz a associação e deduzi os acontecimentos, o que estragou bastante o clímax.
  4. Cask of the Amontillado é muito bom em revelar um personagem extremamente maquiavélico.
  5. The masque of the Red Death foi um absurdo de bem construído.
  6. The pit and the pendulum foi um exagero de capacidade de imersão. A gente se sente na pele do personagem, vidrado em cada passo, cada sensação.
  7. Neste ponto fica difícil escolher um de fato, porque estes dois ficaram empatados. Premature burial é um conto de excelente qualidade. Foi o conto com o qual mais pude me relacionar, onde o protagonista pareceu mais do que nunca uma pessoa normal (ainda que doente) e não um "outro" distante.
  8. Mas vou dar o prêmio maior para Morella, que tem uma exímia construção e manutenção da atmosfera, do tônus, desde o começo até o final. Com um enredo simples, simples, Poe deixa a gente absorto num misto de poesia e prosa que eu nunca vi igual. 
E aqui precisamos trazer algumas citações. Eu não posso deixar de iniciar com o primeiro parágrafo de Berenice. Deveras o conto sequer entrou pra minha lista de melhores, mas não teve nenhum trecho deste livro todo que se comparasse a este parágrafo no que se refere à maestria do domínio do idioma. Vejam por si mesmos:
Misery is manifold. The wretchedness of earth is multiform. Overreaching the wide horizon like the rainbow, its hues are as various as the hues of that arch, as distinct too, yet as intimately blended. Overreaching the wide horizon like the rainbow! How is it that from Beauty I have derived a type of unloveliness? — from the covenant of Peace a simile of sorrow? But thus is it. (p. 33)
Nossa! Só de reler agora já fiquei maravilhado de novo. É o tipo de coisa que vale a pena registrar e lembrar. Agora recordo que ao ler este trecho, fiquei tomado de tamanho arroubo que sequer pude continuar a leitura. Só me restou voltar as linhas e me inebriar novamente com as palavras.

Bom, há algo relativo aos contos, pelo menos os últimos do livro (os quais, imagino eu, referem-se a um outro período das fases de Poe, uma vez que se percebe uma temática ou estilo em comum -- embora isto também possa ser apenas um capricho do editor), que merecem também ser citados.

Refiro-me, é claro, ao pecado (ou o que Poe chama de "perverseness" -- perversidade). O autor vê uma maldade inata ao ser humano, ou, pior, uma maldade que se manifesta apenas pelo desejo da própria maldade. O homem às vezes pratica o mal só pelo prazer de fazer o mal. Olhe só este trecho:
Yet I am not more sure that my soul lives, than I am that perverseness is one of the primitive impulses of the human heart — one of the indivisible primary faculties, or sentiments, which gives direction to the character of Man. Who has not, a hundred times, found himself committing a vile or a silly action for no other reason than because he knows he should not? (p. 176)
Tamanho é o fascínio ou curiosidade do autor com este tema, que há um conto dedicado praticamente a isso, chamado "The imp of the perverse"; embora seja mais voltado para serial killers. Poe não pode deixar de reconhecer o mal que habita no coração humano e que naturalmente guia seus próprios atos. Ele traz um alerta, porém: estes demônios internos não podem ser alimentados, devem ser colocados para dormir, ou nos devorarão:
Alas! The grim legion of sepulchral terrors cannot be regarded as altogether fanciful — but, like the Demons in whose company Afrasiab made his voyage down the Oxus, they must sleep, or they will devour us — they must be suffered to slumber, or we perish. (p. 199)
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Ora, depois de tudo isso, não me resta alternativa senão recomendar o livro e garantir que Poe nunca saia da minha estante. Embora não cause medo (que seria o propósito de contos de terror), está aqui uma verdadeira aula sobre o que é escrever um bom conto. Talvez eu nunca chegue lá, mas vou me esforçar ao máximo para aprender a lição.

sábado, 11 de janeiro de 2020

Resenha - A sombra do pai

DOBRACZYŃSKI, Jan. A sombra do Pai: história de José de Nazaré. São Paulo: Cultor de Livros, 2017.


Pessoal, entramos o ano lendo este livro de ficção cristã, publicado pela minha amada editora Cultor de Livros! Obra escrita pelo padre polonês Jan Dobraczynski em 1977, ganhou nova edição no Brasil em 2017 com o verdeiro resgate que o Cultor tem feito com obras clássicas. Aqui já cabe uma primeira ressalva: naturalmente, por ser obra de um padre, haverá várias discordâncias doutrinárias e opções na história com as quais eu não concordo. Não obstante, o livro é bem interessante e realmente faz a gente imergir na história de José, o pai de Jesus Cristo. Sigamos.

Vamos começar falando logo do personagem principal da história. No começo do livro, achei um pouco exagerada a pintura de José. Parece que faltou, sei lá, humanidade nele... parece muito certinho. Além disso, acho que por conta do modo como eu mesmo pintei José na minha cabeça, houve momentos em que a verossimilhança não me convenceu.

Refiro-me, por exemplo, ao fato de que José tinha que ter desconfiado de Maria. Não tem como escapar de um sentimento tão humano, simplesmente não dá. José não poderia ter sentido apenas tristeza, sem raiva. Essa mistificação de José acaba comprometendo o texto. Embora, do meio para o fim do livro, as dúvidas e humanidades de José venham à tona. mas nisso de José se ver como "sombra", a autoestima e valor próprio dele foram decaindo o livro todo. O final mostra um homem praticamente prostrado. Me recuso a pensar que José foi alguém assim.

Um problema que me parece sério é que José é pintado como um homem dominado pela esposa. Isto não faz sentido com a ordenança bíblica. O autor aponta praticamente Maria como a tomadora de decisões e José como seu subalterno. Embora o autor queira defender a condição da mulher (que eu super apoio e concordo), não dá pra diminuir José dessa forma. No livro ele é praticamente um banana que obedece Maria.

E abordando essa questão da relação com Maria, tem algumas coisas que me incomodaram também. Refiro-me em primeiro à cena em que Maria diz que se pode "sugerir" a Deus o que Ele deve fazer. O autor desemboca como se ela tivesse sido escolhida como mãe de Jesus porque pediu a Deus e o "convenceu".

Também discordo que tenha sido sugestão de Maria ir com José. Mas, pelo contrário, insistência DELE, pra que ela não ficasse desamparada e, principalmente, que não fosse vítima de nenhuma perseguição. Além disso, há um erro que acontece muito na literatura ocidental sobre a hospedagem para Maria e José. Eu teria que explicar bastante sobre a cultura oriental, mas por enquanto vou apenas recomendar o livro "Jesus pela ótica do Oriente Médio" de Kenneth E. Bailey. Outra hora falo sobre ele.

O autor demonstra respeito por Jesus, sempre o chamando de Menino ou falando da Sua graça com letras maiúsculas. Mas dar a entender que o recém-nascido já entendia tudo e dava conselhos de modo indireto foi um pouco demasiado. Jesus foi um ser humano igual a todos nós, a Sua humanidade não pode ser diminuída.

No caso da história dos Reis Magos há um sincretismo muito perigoso. Eu mesmo não saberia opinar teologicamente de maneira categórica; mas tem um universalismo escondido aí, como se "todas as religiões" apontassem para Deus de alguma forma. E não é bem assim. Aliás, o livro tem um bocado de misticismo disfarçado.

Toda a parte que fala de Herodes é muito confusa. A gente não sabe quem são os personagens, eles não são apresentados de maneira didática, e por isso a gente se perde na leitura. Não dá pra lembrar com facilidade quem é filho de quem ou marido/esposa. Acabamos lendo "no rumo".

Quanto ao estilo dele me trouxe a tona uma coisa e acho que isso é um erro e uma tentação para todos que escrevem ficção histórica. Eu mesmo sei que caí nisso mais de uma vez. A gente fica na ânsia de explicar e mostrar um conhecimento interessante que temos sobre aquela época.

É difícil resistir ao impulso; mas é importante lembrar que nem tudo precisa estar na história, a não ser que contribua diretamente para ela. Ah, e apesar do glossário, tem muitos termos em aramaico/hebraico que atrapalham a fluidez da leitura.

Essa questão de descrições é sempre um problema, ainda mais em ficção histórica. No próprio livro tem várias que poderiam ser tiradas. Além disso, não entendo por que o autor insiste em começar cada capítulo com uma descrição geográfica do local. Isso acaba influenciando bastante na estrutura do livro.

De modo geral, o ritmo do livro é lento, de mas no meio fica mais lento ainda. Este é um perigo natural de um romance, que pode ter começo e fim arrebatadores, mas um meio que é extenuante e cansativo. No último 1/4, o livro dá uma guinada brusca para o realismo quase noir, mostrando a pobreza e humilhação

Eu sei que falei bastante coisa da qual discordo, mas o livro tem muitos pontos positivos. A história do livro é realmente emocionante (aliás, que enredo bíblico envolvendo Jesus não é?), fiquei com lágrimas nos olhos ou arrepios mais de uma vez. As orações que o autor põe na boca dos personagens são muito bonitas, é inegável.

Uma coisa interessante é que o autor denuncia abertamente a condição da mulher naqueles tempos. E ele está completamente certo. Naquela época sim havia um machismo muito forte. Havia ditados que comparavam mulheres a cães, vendo-as como impuras ou meros objetos/moeda de troca. O autor fez uma excelente defesa sem cair em ideologias nocivas. Coisa rara hoje em dia.

Além disso, a capacidade de imersão do livro é muito boa. A gente realmente se imagina lá na Terra Santa, vendo as coisas acontecerem. Claro, não por causa das descrições, mas pelas interações entre os personagens. Aliás, os personagens em si, apesar do que eu citei acima, são bem construídos pensando numa lógica narrativa.

Muito interessante mostrar que José e Maria SABIAM que quem nasceria não era uma pessoa qualquer, era o Messias prometido de Deus! Isto não era um fato leviano e eles com certeza tinham muitas dúvidas. De certo tratavam a questão com uma peculiaridade única. Também achei lindo imaginar que Jesus se tornou amigo de Lázaro, Marta e Maria ainda quando pré adolescente.

Agora o ponto mais alto do livro é o dilema de José. Este trecho abaixo representa bem suas dúvidas:
"O amor da mãe por seu filho nasce do amor do pai. E Ele não será meu Filho! Terá o Seu verdadeiro Pai, que estenderá sobre Ele e sobre Sua mãe o manto de Sua proteção. Eu serei sempre uma sombra. As sombras desaparecem quando surge o sol..." (p. 148)
Essa reflexão de José em sentir-se uma sombra por não ser o pai verdadeiro de Jesus reflete algo em nós. Quando Jesus veio e consumou sua obra na Terra, as coisas passadas se tornaram sombras daquilo. Mas, ainda hoje, há coisas que são apenas sombras, porque aguardamos o Seu retorno.

A entrega de José em saber que havia ali alguém maior que ele e que, necessariamente, brilharia com esplendor muito maior que o seu, é uma lição que podemos carregar deste livro e aplicar nas nossas vidas. O Filho dado a José para cuidar não era um menino qualquer. Esta humildade vale a pena cultivar em nossas vidas: 
"Não fui eu, pensou José, foi Ele..." (p. 269)