sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Vaga devagar

Ele caminhava pelas ruas. O clima estava festivo. Vagava. Devagar caminhava pela extensão negra do asfalto, devagar. Olhava para as pessoas caminhando, vem e vai, mais e mais. A noite estava quente, ninguém olhava para ele. Até que o vento chegou.

Foi quando seu cheiro espalhou-se e alguns olharam para ele, finalmente. Porém os olhares o deixavam ainda mais aflito. Melhor teria sido deixado de lado mesmo. Esquecido. O vento novamente, passa pelos seus cabelos, ele gosta da sensação. Lembrou-se de Bianca.

Bianca.
Sim. Lembrou de sua casa.
Casa.

Palavras que há muito ele não recordava. Cada vez que as mencionava, sua mente sucumbia um pouco mais, perdendo a esperança, vagando devagar na sua própria esquizofrenia. Mas naquele momento, deixou que as lembranças o conduzissem.
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– Acorda, Eustáquio – disse a moça de olhos sorridentes – tá tarde, amor. 
– Tá não, linda – ele disse com voz arrastada, mas feliz – Deixa eu dormir um só mais um pouquinho, bobinha.
– Eustáquio, tu vais chegar atrasado no trabalho de novo e... ai! Hahaha!

Ele a puxou para junto de si na cama, abraçou aquele corpo macio, friozinho. Era muito bom estar ali, não queria sair nunca mais. Ela ria, boba, linda. Não precisava de mais nada, era curioso, era simples, era perfeito. Passava a mão em seus cabelos.

Foi para o trabalho e ela pra faculdade; estudava Administração. Saiu do trabalho e foi pegá-la. Saudades. Conduzia seu carro pela avenida que levava ao seu bairro, várias pessoas voltando para suas casas também, dia cansativo, noite agradável, bem que podia sair pra comer. Foi tudo tão rápido.

Era um cruzamento. Na esquina tinha uma pizzaria. Um carro grande tapava a visão de Eustáquio. Ele estava na principal, o cara cruzou de uma vez. Não dava tempo. Ele estava dentro do limite de velocidade, mas não tinha o que fazer. Bianca estava de cinto, mas sentada de mau jeito, o impacto fez com que seu esterno fraturasse. Uma lasca entrou no coração. 

A pior parte foi que ela ainda estava consciente. E suas lembranças vagavam em direções agora extremamente perigosas, porque foi ali que sua mente começou a ficar cada vez mais devagar. Foram para o hospital. A ambulância demorou pra chegar. O outro motorista era um jovem, não estava bêbado, só fora imprudente. Sabia que estava errado. Na hora não quis dar o braço a torcer, mas depois propôs um acordo. E cumpriu.

Eustáquio lembrou-se de estar com o dinheiro em mãos na concessionária pra comprar as peças. E começou a pensar do que adiantava. Bianca não estaria mais no carro com ele. Quando voltava pra casa, ela não estava lá. O batom deixado no banheiro. No espelho um bilhetinho, ela fazia isso pra se lembrar dos compromissos.

Como foi que sua vida mudou? Sua mente fizera questão de apagar os detalhes. Aliás, sua mente. Sim. Quanto mais ela vagava, mais ele deixava. Devagar ela o foi levando para longe. E longe era justamente onde ele queria estar. Era melhor fugir da própria mente.

E devagar ele foi deixando os amigos, foi deixando o trabalho de lado. Chegava atrasado, vivia de atestado. No psicólogo não conseguia falar nada. Foi afastado. Vendeu o carro. O dinheiro caiu na conta no mesmo dia. Não fazia diferença, deixou lá mesmo. 

Um dia estava em casa. Era de noite. O vento devagar fazia sua mente vagar mais longe. Ele foi seguindo o vento. Aquela noite não estava quente. Caminhou, caminhou. Então era dia. Ele não sabia mais voltar, não queria mais voltar. Tinha dinheiro no bolso. Foi pra rodoviária e pegou um ônibus pra Curitiba. Vagando, vagando.

E devagar ele deixou sua mente vagar cada vez mais longe. 


Conto selecionado para o blog literário Enchendo Estantes, em 2017.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Do ímpeto criativo

E a vontade louca de fazer tudo?
De escrever o que nunca foi escrito
De romper a barreira do conhecido.
E ainda assim permanecer, contudo.

Ei-la! Louca!
Impulsiona-me!
Carrega-me
Até que eu não seja mais.

Não me resta mais a mim
Sou fruto da coisa escrita
E, ao mesmo tempo, seu autor.

Que singular agonia da arte!
Em que a ordem é parte
Do meu interior maluco.


Poema selecionado para a 2ª Edição da Revista LiteraLivre, p. 29.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Resenha - The Judgement of Paris

VIDAL, Gore. The Judgement of Paris. St. Albans: Panther Books, 1976. 317p. Paperback.


Há livros com tamanha erudição que é preciso todo um contexto intelectual para se encontrar nele. Não gosto desses livros. Essa aguçada intelectualidade expressa no uso de diferentes idiomas, referências aos gregos clássicos e diversas paráfrases de grandes filósofos ou autores clássicos não faz meu estilo. Nem como leitor, nem como escritor.

Gore Vidal, por um lado, é sensacional. "The Judgment of Paris" é tipo um "Keep up with the Kardashians" dos anos 1950: não fala nada, não tem nada, não acontece nada, mas você fica preso nele sem nenhum motivo aparente e se deixa levar pela narrativa.

Na primeira parte do livro somos apresentados ao jovem Philip Warren, um americano de 20 anos que deixa os EUA por 1 ano para passear pela Europa, numa tentativa de se redescobrir e desfrutar dos prazeres mundanos. Hedonismo na sua essência, mas disfarçado com a busca constante pelo "algo maior", que ele sempre procura nos lugares errados. Começa em Roma, passa pelo Egito e termina na França, sempre se deparando com gente muito intelectual, ou rica, ou poderosa: a socialite do pós-Segunda Guerra, com todos seus benefícios e seus podres escondidos.

Envolvendo-se com uma ou outra, e sendo convidado por um ou outro para diferentes aventuras, depois de um ano inteiro passeando, a gente fica que nem Warren no final do livro: tanto tempo gasto e ainda não sabemos onde chegamos. Essa foi minha maior sensação, mesmo que no último capítulo Vidal ainda finalize as pontas soltas e dá um último detalhe a cada uma das principais personagens.

No fundo, não é meu tipo de literatura, sinceramente se eu quisesse ler um livro de filosofia, simplesmente o faria. A narrativa prende o leitor nem tanto pela descrição ou pelas falas, mas pelo encadeamento das ideias nas frases. Ao fim, porém, lia movido apenas pelo misto da esperança de um final que valesse a pena e da necessidade de dizer que terminei-o.

Eu não conhecia Vidal e alguns dirão que há outros exemplos melhores dele, mas pra mim já deu pra ter uma noção da tônica. Há quem goste, só não é o meu caso.

Segunda-feira

A rua estava lotada. Era gente demais. Mas também pudera, né? Oito horas da manhã, todo mundo querendo chegar no trabalho e todos atrasados. Ponto de ônibus lotado. Ele olhou para aquela situação com uma coragem danada... Mas era o jeito, segunda-feira é o dia.

Depois de meia hora em pé na fila, após o menino ter espirrado no seu sapato mocassim, a mulher atrás dele ter tossido umas três vezes no seu cangote e ainda o jovem com aquela música de celular nas alturas, conseguiu finalmente entrar no ônibus. Não conseguiu lugar pra sentar, é claro, mas eis que seu telefone toca. “Ai, ai. Não consigo uma folga.”, pensou.

Olhou para a tela: “Número desconhecido”. Ficou intrigado. Resolveu que não atenderia, não gostava dessas coisas. O ônibus estava tranquilo no engarrafamento, não movera quase nada. O calor humano começava a aumentar, sua camisa de mangas compridas não auxiliava em nada sua refrigeração corporal.

O celular tocou de novo. “Número desconhecido”. Não atendeu, não estava tão seguro de atender o celular bem no meio daquela multidão, mesmo por questões de segurança. Mas agora o danado do celular não dava descanso. O jeito foi atender:

– Alô?
– Aristovaldo? É você?
– O quê? Como você sabe meu nome?
– Ari, seu bobo, aqui é a Joélia!

Ari pensou, num milésimo de segundo: “Quem?”

– Ah... sim... – disfarçou Ari – Como você conseguiu meu número?
– Ué, a Fê me passou depois da balada, lembra? Mas deixa eu te perguntar, vamos sair de novo, né?

O ônibus começou a se mexer, Aristovaldo precisou se segurar rapidamente, enquanto raciocinava furiosamente para tentar entender o que estava acontecendo, respondeu por reflexo:

– Claro, vamos sim, é que agora não dá pra conversar, mais tarde te ligo.
– Tá bom! Té mais.
– Até.

Desligou o celular. Olhou para o relógio. Nove e uns quebrados. Quem liga pra outra pessoa antes das onze? E ainda mais pra falar de sair? Aristovaldo não teve dúvida: a mulher era louca e ele tinha era que dar um jeito de não sair com ela. Com alguns rápidos deslizes do indicador, bloqueou o número dela no celular. Por mais que tentasse, não conseguia lembrar em que balada conhecera a tal “Joélia”. 

O ônibus parou, ele desceu. Mal começou a andar e um carro passou sobre uma poça de lama próxima, respingando água na sua calça social preta. Segunda-feira era o dia. Era um carro escuro, vidro fumê, freou rapidamente, alguns metros à frente de onde estava Aristovaldo.

Este andou um pouco mais, quando passava ao lado do carro, uma porta se abriu, era um Fusion, de lá dois braços musculosos agarraram o homem e puxaram-no para dentro do carro, rapidamente o encapuzaram e amordaçaram. Pronto. Segunda-feira era o dia. 

Sentiu o carro sacolejar durante um bom tempo. Ele sem o celular não tinha a menor ideia de tempo, se bobear não saberia dizer nem que dia do mês era. Quando finalmente conseguiu enxergar de novo, estava numa cadeira de ferro, algemado por trás e com os pés firmemente amarrados à cadeira.

– Preste bem atenção – disse um homem vestido de terno, mãos enormes e olhos pequenos, bem à sua frente – Eu vou lhe perguntar só uma vez. O que você sabe sobre esta pessoa?

Na mesa à sua frente (só agora Aristovaldo reparou que havia uma mesa ali), o homem depositou uma foto que ele reconheceu ser a tal Joélia. A forte luz branca (a única iluminação do ambiente escuro) fazia reflexo na foto e no metal da mesa. Aristovaldo não conseguiu raciocinar direito. Babuciou nada e alguma coisa. 

POW! O homem desceu a pesada mão fechada na mesa. 

– TU ACHA QUE EU TOU BRINCANDO AQUI, MANO VELHO?
– De-de-desculpe! Eu só saí com ela numa balada e…
– Como é que é? Balada?
– Pois é, nem conheço essa Joélia direito!
– “Joélia?” Do que você tá falando? Tu num tem medo de morrer não é? Tá começando a me irritar de novo, camarada.
– Pela mor de Deus! Não faça nada comigo! Eu nem conheço ela direito, ela me ligou hoje de manhã, foi só isso.

O homem afastou-se da mesa para confabular com duas outras pessoas na penumbra. Uma mulher aproximou-se da mesa, tinha uma cara linda de morrer, só não combinava com a voz de homem que saía da boca:

– Olha, parceiro, qual é teu nome?
– A-a-ristovaldo.
– Hum… Tu trabalha com o quê?
– Sou técnico de TI, trabalho no centro.
– Pois é, rapaz, houve um engano aqui ó. – parou um instante para pensar e continuou – Vamo fazer o seguinte. A rapaziada vai te deixar lá nesse teu trabalho e tu vai ficar pianinho sobre isso aqui, tá ligado?
– Claro, claro!

Encapuzado mais uma vez, Aristovaldo sentiu o sacolejar do carro diminuir conforme ele parava. Tiraram o capuz, desceu do carro que logo partiu em disparada. Estava na porta do trabalho. 

Subiu as escadas sem pressa, pensando no que falaria pro chefe pra justificar estar chegando tão atrasado. Bem podia culpar o trânsito, mas sabia que não ia dar muito certo; a justificativa podia ser boa como fosse, Seu Francisco não ligava, só queria saber de serviço feito. Segunda-feira é o dia. 

– Eita, Aristovaldo, bonito hein?
– Olha, Seu Francisco, deixa eu explicar…
– Olha, nem vem, não quero saber. Conserte a impressora do financeiro, aproveita e já vê com a Fernanda quem é essa tal de Dalila que passou aqui perguntando por ti.

Aristovaldo caminha para a sala desconfiado. Fernanda o vê:

– Oi Ari! Mas que cara é essa?
– Hunf! Você nem imagina.
– Ah, deixa eu te apresentar. Essa aqui é a Dalila, gêmea da Joélia.


Uma das 5 menções honrosas no IV Concurso Literário Icoense (CLIC) Poeta José de Oliveira Neto (2017). O resultado ficou salvo aqui.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Obtusa obra

Podia pôr por perto
Para poder pegar,
Permanecia parado
Pestanejava,
Parou, postulou.

"Quero quitar
Quando qualquer questão,
Qualificável,
Quiser queixar."

Rapaz raquítico
Rojando rabugices
Raciocínio risível
Refluxo, retina ressecada.

Saiu soturno,
Sereno
Sem saber
Se seria saciado.

Trabalhou tenazmente,
Tentou tocar. Terminou.
"Típico."
Triste, tremulou.

Urdia-lhe uma úlcera,
Usualmente.
Ulteriormente,
Um ultimato.

Viveu vazio,
Vanglórias verbais,
Vontade volúvel,
Valiosa vida virulenta.
Voando... vai vento...


Poema classificado no 6º Concurso Literário de Itaporanga, porém nunca publicado.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Inferno

Morreu.
Olhou para o lado.
“Não!”, pensou, aterrorizado.
Sua sogra o esperava,
Sorrindo.


Microconto premiado na categoria "Humor", no III Concurso Cultural de Microcontos da Biblioteca do IFSP - Câmpus Araraquara (2016), dá pra ver o post deles aqui.

P.S.: é só pela piada, viu? Minha sogra é excelente! (Não, não é psicologia reversa).

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Conversas

Há dez anos ele vem para o mesmo bar na esperança de encontrá-la de novo. Todo dia vinte e cinco do mês, lá está ele. Tinha que ser nesse dia, porque era aniversário dela. Só que ele esquecera o mês. Não importava, ele poderia esperar.

– Boa noite, Dr. Haroldo. O de sempre?
– Hoje um duplo, por favor.

Chamavam-no “doutor”, não sabia o porquê. Não era advogado, não era médico, não tinha doutorado, nem se vestia tão bem assim. Mas sempre fora conhecido por “doutor”. Verdade seja dita: ele gostava, era bom o reconhecimento – mesmo que não merecido. 

Olhou ansioso para a entrada do bar, entrou uma senhora quase idosa, acompanhada de outra. Ficou desconfiado. Detestava que gente velha o abordasse, pensava que isto poderia denegrir sua imagem. Aliás! Agora sim, este é âmago da questão: sua imagem, não havia nada mais valioso. Pense só você, conheci o homem durante tanto tempo e só agora começo a compreendê-lo.

O barman trouxe a bebida. Haroldo pegou o copo com as mãos mas apenas ficou balançando o líquido amarronzado, sem levá-lo à boca. A senhora que entrou falava alto, também não gostava de gente que falava alto. Ela e amiga conversavam, sentadas numa mesa próxima ao balcão:

– Então, Cassandra, como foi sua viagem?
– Você nem acreditaria! Encontrei com o Fernando.
– Nossa! E como vai ele?
– Ah, parecia bem, não quis falar muita coisa. Mas aí encontrei com a esposa dele depois, ela me disse que ele está com depressão.
– Hum... mas isso não é nada demais, né? É só uma fase.
– Pois é, também acho.

Haroldo ouviu a conversa por alto. "Depressão". Ele sabia que não era só uma fase. Enfrenta este problema há muitos anos já, tem dias que são mais fáceis. Outros nem tanto. Já tentou o suicídio duas vezes, numa delas quase conseguiu. Mas ninguém desconfiava. 

Ele era o “doutor” na empresa, todos lhe tratavam com respeito. Era contador, mas trabalhava na gerência há muito tempo, o chefe não confiava em mais ninguém. Haroldo gostava do respeito, tornava-lhe mais vaidoso. Em casa, morava sozinho. Bonito apartamento, tudo novo – ele detestava coisa velha. 

Em outubro de 72 ele perdeu a mãezinha. Pobre criatura. Analfabeta, casou por obrigação com um homem que entendia que ela deveria ser sua empregada e ainda lhe satisfazer os caprichos. Para a sorte (ou não) da moça, o homem não viveu muito tempo, saiu numa viagem de serviço e não voltou mais. Morreu, diz-se. Diz-se. 

Hoje, com 45 anos, Haroldo pensa que foi lá que tudo começou. Era-lhe mais confortável deixar os sentimentos guardados. Satisfazia sua necessidade por mulher com o dinheiro e a de amigos com o rádio, depois com a televisão, e por fim com a internet. Muito eventualmente um livro, mas nunca terminava. 

Balançou o copo, não bebeu nada. Algumas pessoas chegavam no bar, nada dela. As senhoras ao lado continuavam sua conversa. O barman ligou a televisão, jogo do Barça. “Nada demais”, pensou Haroldo. Detestava os estrangeiros, e mais ainda os brasileiros que denegriam o Brasil. Amava a pátria, mas tinha sérias dúvidas se a recíproca era verdadeira. 

Talvez a pátria se sentisse traída, na verdade, porque contava com um admirador tão ferrenho, mas tinha dúvidas quanto a sua lealdade. Isto porque o homem se dizia tão patriótico, mas seu celular era de Taiwan, a camisa era importada da Itália (ele fazia questão), o jeans sabe-se lá de onde, os óculos de grife brasileiros é que não eram. Talvez a pátria também o amasse, mas não sabia se a recíproca era verdadeira. 

– Mas tu não sabes que a Gertrudes foi traída?
– Mas também pudera né, a pobre se chama “Gertrudes”!
– Ô Cassandra, mas ela é gente boa.
– Pois é, mulher, mas homem não pensa assim né?

Haroldo captava trechos da conversa das duas senhoras. Fingindo-se ensimesmado, na verdade não encontrava nada dentro de si. Fugia de seus vazios internos, deslocava-se ao máximo para o exterior, temendo e tremendo com o que encontraria em seu interior quando finalmente tivesse que lidar com ele.

Porque essa hora sempre chegava. 

Ele saía cedo de casa, chegava cedo na empresa. Trabalhava bem. Almoçava num restaurante próximo. De noite era que se dava ao luxo de fazer alguma coisa diferente. Não gostava de cinema, não gostava de teatro. Gostava de tomar uma de vez em quando. Mas nem sempre. Desconfiava que era uma necessidade interior de buscar contato social, só desconfiava. Foi numa dessas que conheceu ela. 

Devia ter seus quase trinta anos, não tinha corpo escultural nem formosura que a destacasse. Mas aqueles olhos. Eles olharam para Haroldo e pareciam encontrar o que estava dentro. Haroldo lembra como ficou arisco, tentando ao máximo desviar-se da mirada que insistia em encontrá-lo. Como ímã, ele mesmo não conseguia evitar. 

Ela entrou naquele mesmo bar e sentou-se numa mesa. Pediu apenas um copo d'água pra beber e ficava olhando pro relógio. “Esperando alguém, na certa”, pensou Haroldo naquele dia, decepcionado, mas, ao mesmo tempo, satisfeito em saber que ali não haveria futuro – um prazer misterioso que ele cultivava secretamente.

Porém ninguém chegou. Ele a olhava de canto, esperando para ver o que aconteceria. “Como era direta”, lembrou-se. Foi ela mesma quem tomou a iniciativa: após um tempo esperando, levantou-se da mesa e sentou-se ao lado de Haroldo, no bar. Haroldo nervoso, apenas fez um meneio com a cabeça.

Ele não tem a menor ideia como foi que começaram a conversar. Não lembra quem falou o quê, mal lembra do assunto. Porém recorda claramente de algo: era seu aniversário, e ela ficou de encontrar uma amiga ali para comemorarem juntas. Morava sozinha, natural de Minas Gerais, estava ali procurando emprego. 

O que tinha ela de diferente, que conseguira arrancar tanta coisa dele naquele dia? Ele mesmo não sabia dizer. Talvez tivessem sido aqueles olhos. Conversaram amenidades, ele falou tanto que ficou surpreso ser capaz de tal coisa. Em determinado momento, ciente de sua tagarelice, emborcou um copo e ficou calado, envergonhado. Ela, ao contrário, o incentivava.

Mas ela foi embora. Trocaram números de telefone, mas ele perdeu o dela, deve ter caído do bolso quando tirou as chaves em algum lugar; não seria primeira vez que ele perderia coisas assim. Chateado consigo mesmo, passou os próximos dias, irritado, tomando um pouco mais do que deveria. 

Foi numa dessas que tentou a primeira vez o suicídio. Olhou para um cinto, amarrou-o em volta do pescoço, mas não teve coragem. Passada a crise, resolveu que voltaria àquele mesmo bar e esperaria que ela aparecesse de novo. Mas nada.

O tempo foi passando. Ir para o bar se tornara um hábito e, desconfiava ele (só desconfiava) era o que ainda lhe mantinha preso ao fio da mente sã. A esperança de reencontrá-la e ao mesmo tempo a decepção de nunca ver isso cumprido nutria nele o sentimento misterioso de alegria em falhar. 

– Cassandra, mas vamos falar sério.
– Diga.
– Tu chegou a falar com o Francisco sobre aquele assunto?
– Hum... Olha... falei...
– Que cara é essa, Cassandra?
– Vou te falar logo: ele não quer fazer negócio.
– Ah, não acredito! Mas por quê?
– Ele disse que tem outras propostas e...

“Conversas fúteis”, pensava Haroldo. Gostava dessa palavra “fúteis” e sempre que podia fazia uso dela. Pena que não tinha pra quem falar. Era sozinho mesmo. Olhou para o relógio: já iam dar onze horas. Olhou para a entrada do bar novamente, com ainda um fiozinho de esperança para romper. 

Nada dela. “É, hoje não foi o dia”. Jogou uma nota de cinquenta no bar, o barman agradeceu e viu o “doutor” se levantar pesadamente do banco pequeno demais para aquele corpanzil flácido. Ele trabalhava naquele bar há um bom tempo, foi seu primeiro emprego aos dezoito anos e foi ficando. No começo não ligava muito para os clientes, gostava de ganhar dinheiro, mas depois que viu que esta não seria sua realidade, satisfazia-se em ler as histórias das pessoas em suas faces.

Foi numa dessas que viu Haroldo entrar de vez em quando no bar, pedia sempre uma cervejinha, ia ficando por ali. Lançava olhares lânguidos para a televisão, não falava com ninguém, não parecia esperar por ninguém. A princípio não ligou muito pra isso. Chamou-o “doutor” uma vez apenas por acidente e o homem gostou, dava-lhe uma gorjeta generosa. Foi deixando acontecer. 

Hoje ele acha que fez mal em apiedar-se do homem, melhor teria sido mesmo se tivesse só feito seu trabalho. Mas tinha coração mole, ô diacho! Teve uma ideia: contratou uma atriz pra conversar com ele um dia, só pra ver o que  aconteceria. Era uma amiga sua de faculdade, já tinham dormido juntos algumas vezes e ela estava precisando descolar uma graninha. Resolveu a questão.

Agora lavando o copo que Haroldo deixou no balcão, ele pensava que jamais poderia imaginar que dez anos depois o mesmo homem ainda estaria lá. Pensou mais de uma vez em dar-lhe o telefone mesmo da moça, só para que ele pudesse seguir em frente. Mas era cinquentinha toda vez que ele vinha... 

Haroldo pegou o metrô, dentro de pouco estava em casa. Abriu a porta, acendeu a lâmpada, jogou a chave na cestinha junto com outras. O silêncio. Este era o pior. Às vezes pensava que se morasse num lugar mais “popular” talvez fosse melhor, daria pra ouvir o barulho dos vizinhos, teria com quem reclamar. Mas queria vida boa, os vizinhos eram tranquilos, cumprimentos no corredor, e só.

Talvez se tivesse alguém pra conversar as coisas tivessem sido diferentes. Ele sempre gostou de ter aquele sentimento corroendo-lhe por dentro, alimentava-se dele. Mal sabia que na verdade, neste caso, a recíproca era verdadeira. Aquele sentimento mau se alimentava dele, até que não havia mais nada para consumir.

Neste nada, Haroldo percebeu que podia fazer o que deveria ser feito. O inimigo sorrateiro venceu; na verdade, Haroldo nem sabia se estava lutando, ou se algum dia lutou, mas, no fundo, tinha certeza que mesmo que quisesse, não conseguiria lutar sozinho. Talvez se tivesse alguém para conversar.

Foi no apartamento mesmo, no silêncio.


Publicado originalmente na 12ª edição da Revista Avessa, 2016, p. 58-62.