quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

2025: O resumo da ópera

Bueno, novamente isso aqui. A princípio começou como uma retrospectiva bacana sobre o ano literário; mas, agora, sinto que estou ficando meio cansado de tudo. Que pena a vida ser assim às vezes. Ainda gosto muito de ler, mas a escrita tem me trazido frustrações. Talvez no futuro eu fale apenas das leituras. Enfim, bora lá.



1. Livros resenhados

Esse ano acho que até li bem. Na verdade, acho que o que me ajudou bastante foi que não li apenas ficção. Foi revigorante ler outro tipo de literatura. Além disso, me dei o direito de não terminar leituras ou de simplesmente não escrever longas resenhas. Talvez parte do meu problema seja esse: estou perdendo o gosto de fazer só por fazer. Quem sabe o segredo não esteja justamente na simplicidade das coisas e eu que estou complicando tudo?

Jan1) Shibumi; 2) Max and the multiverse; 3) Mountain of lies
Fev4) The War of the Worlds
Mar——
Abr5, 6 e 7) Trilogia Mistborn; 8) O cortiço; x¹) Agent Zero (não concluída); 9) Contos amargos; x²) Little Women (não concluída)
Mai10) Mind Machines; 11) O clube de xadrez da morte
Jun——
Jul12) Os demônios; 13) O vale dos mortos; 14) (In)fungível
Ago15) Nem sinal de asas; 16) Corredor do tempo; 17) O último adeus de Sherlock Holmes; 18) Se o medo tivesse um som; 19) Entre lembrar e esquecer; 20) Breakers
Set21-26) Leituras de não-ficção; além dessas posso incluir 27-32) Leituras sobre aconselhamento bíblico
Out-33) Meltdown; 34) Livro sem nome
Nov35) Alice no País das Maravilhas; 36) Knifepoint
Dez37) A vida breve dos cães; 38) Filhos de Vênus

Olha, agora que parei pra ver... rapaz... nada mal, né?! Trinta e oito livros num ano! Parece até que sou jovem e não tenho nada pra fazer da vida. Mas antes fosse! Olhando pra trás (é pra isso que retrospectivas servem, não é?) percebo que as leituras de não-ficção fizeram uma diferença bem grande. Meu cérebro estava cansado e eu nem sabia.

Tanto é que vou eleger uma obra de não-ficção como a melhor do ano. Tem várias aí na lista que merecem no mínimo uma menção honrosa, como a trilogia Mistborn, a triologia Breakers e as obras de literatura brasileira contemporânea como Nem sinal de asas e Entre lembrar e esquecer. Aliás! Esse foi o ano em que mais li literatura brasileira contemporânea! Para a minha surpresa e alívio, existe muita coisa boa por aí — e muita coisa ruim.

A melhor leitura desse ano foi sem dúvidas Aconselhamento cristão de Gary R. Collins (nem está resenhado no blog, só fiz um fichamento pessoal de estudo dele). A minha vida com certeza vai ter um antes e depois por causa dessa obra. Traz ferramentas incríveis para ajudar outras pessoas e, algo que eu nem esperava: ajudar a mim mesmo.

A pior do ano também tem vários concorrentes, dessa vez vou deixar empatadas as obras que claramente eram apenas "literatura de entretenimento". Me refiro àquelas em que o autor só segue uma fórmula de roteiro e escreve qualquer coisa. Pense numas leituras ruins: Max and the multiverse, Agent Zero, Mind machines e Livro sem nome (esse último é o contrário: tenta ser inteligentão e não faz 

Finalizando com a quantidade de livros, meio que já comentei sobre isso. Olha lá, meu povo. Nem eu esperava tanto desse ano. Vai ver, é esse o segredo, aprender a gerenciar as expectativas. 240 livros nos últimos 8 anos. Acho que seria legal ter a meta de 300 livros lidos em 10 anos, mas como ano que vem vou viajar, melhor não contar com isso.
2018: 27 livros
2019: 37 livros
2020: 40 livros
2021: 21 livros
2022: 35 livros
2023: 20 livros
2024: 23 livros
2025: 38 livros
 
2. Concursos literários e produções

Toda vez é a mesma coisa: eu decido que não vou enviar nenhum texto para concursos literários esse ano... aí vou lá e envio. Em minha defesa, a maioria dos contos foi submetida ano passado. Esse ano mesmo eu só submeti dois, e isso porque a jornalista Vanessa Brandão (uma das produtoras da Mostra Picuá de Cinema e Literatura) me enviou o edital no WhatsApp e me convidou a participar. 

Engraçado como é a vida, né? O único conto que submeti esse ano ficou em primeiro lugar na Mostra Picuá. Essa mostra só teve duas edições até agora. Nas duas fiquei em primeiro, com um conto que escrevi sem pretensão nenhuma, só pra brincar. A foto que está no começo desse post mostra os dois troféus.


Meus textos em inglês que foram publicados esse ano estão disponíveis aqui. E os textos selecionados na Mostra Picuá estão disponíveis aqui.

Bom, do meu ponto de vista, meu aproveitamento esse ano foi de 100%, porque, de fato, só escrevi mesmo um conto e um poema e eles foram selecionados e publicados. Os outros são a rebarba do ano passado. Me impressiona como os números falam por si:
2018: 18 textos enviados, 4 aprovados → 22% de aproveitamento
2019: 17 textos enviados, 4 aprovados → 23% de aproveitamento
2020: 18 textos enviados, 6 aprovados → 33% de aproveitamento
2021: 35 textos enviados, 6 aprovados → 17% de aproveitamento
2022: 46 textos enviados, 7 aprovados → 15% de aproveitamento
2023: 10 textos enviados, 4 aprovados → 40% de aproveitamento
2024: 25 textos enviados, 1 aprovado → 4% de aproveitamento
2025: 8 textos enviados, 4 aprovados → 50% de aproveitamento
Olha quem diria, hein? O melhor aproveitamento de toda a série histórica dessas retrospectivas. E ainda ganhei um considerável valor em dinheiro por ter escrito um texto de uma página e meia. Caramba... nada mal mesmo. Olha aí o gráfico mais besta de todos os tempos: 



3. "Carreira" literária

Olhando pra trás, eu já sei o que me matou esse ano. É que no começo do ano eu resolvi que ia escrever um outro livro. E dessa vez eu fiz o caminho das pedras que todos os autores dizem ser necessário: planejar o roteiro. Meus amigos, se tem uma coisa que eu fiz foi planejar o roteiro, viu? Cada cena, cada variação, cada possível simbolismo, desenvolvimento de personagens, encadeamento de trama... o que vocês imaginarem, eu fiz. Ficou esse monstro aí:

Mas na hora de escrever, foi um desastre! O texto ficou totalmente rígido, não senti familiaridade com a personagem, tudo me pareceu um grande desperdício de energia e tempo. Em determinado momento, até achei interessante a experiência de planejar o livro; mas na hora de escrever, senti que estava escrevendo uma história chata e forçada, muito diferente do que eu gosto de fazer.

Isso daí terminou de destruir a minha esperança. Eu já vinha cansado do ano anterior, então o fracasso desse planejamento terminou de jogar um balde de água fria onde só tinha uns poucos carvões. Mas isso aconteceu no começo do ano. Hoje confesso que estou um pouquinho mais animado pra voltar a escrever.

Momento terapia:
É que acho que descobri qual foi meu grande problema. É que estou achando que meus textos valem alguma coisa. É que estou achando que meus textos são tão bons, tão valiosos para serem lidos, que não quero escrever qualquer coisa e também não quero escrever para não vê-los publicados, alcançando o grande público. Parte do erro é também achar que uma vez que eu tenha uma ideia interessante, essa ideia precisa ser explorada, trabalhada e zelada. Acho que há um pressuposto, um medo embutido, de que se eu descartar uma boa ideia, nunca mais terei outra igual. 

Então qual o plano pro próximo ano? Tentar escrever, é isso. Enquanto em 2025 eu simplesmente desisti, em 2026 preciso me dar o direito de errar, de escrever algo ruim, de aprender qual o meu processo. E isso só se consegue tentando. 

2026 tem ainda mais um ponto a se considerar: minha esposa e eu vamos passar esse próximo ano viajando pelo Brasil! Vamos tentar escolher um novo lugar para morar, numa aventura bem louca que estamos planejando desde o fim de 2024. Caso alguém tenha interesse, estou registrando a viagem nesse blog aqui: Peregrinos da terra.


#O resumo da ópera
  • Livros lidos: 38
  • Textos escritos: 2
  • Textos enviados pra concursos literários: 8
  • Textos aprovados: 4
No fim do ano passado, tudo que eu queria era ter escrito um bom livro em 2025. Não foi o que aconteceu. Aliás, nem o livro que foi aceito pra publicar pela UFRR saiu (a editora até me contatou, mas só porque eu passei o ano inteiro insistindo — e contataram só pra dizer que não vai sair esse ano, quem sabe no começo do próximo). 

Para esse próximo ano, acho que tenho que aprender a gerenciar minhas expectativas e, principalmente, parar de achar que o que eu escrevo é tão valioso que não possa se perder. O erro é achar que algo é meu, quando, na verdade, tudo vem de Deus. Talvez se eu tivesse aprendido essa lição de humildade no começo do ano, não teria sofrido tanto. Que Deus me ajude a crescer, não a retroceder!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Resenha — Filhos de Vênus

PIMENTEL, Aldenor. Filhos de Vênus. Boa Vista: Wei, 2024.


Existe uma felicidade secreta que só os esquecidos têm. As pessoas de boa memória não conseguem entender e talvez até achem um absurdo dizer isso: mas é que esquecer pode ser bem divertido. Não esquecer em si, mas a chance que a memória ruim nos dá de redescobrir

O autor do livro, Aldenor Pimentel, me contatou para que eu fosse um dos leitores beta dessa obra. Lembro de ter lido e enviado comentários. Mas agora, mais de um ano depois, eu não lembrava de quase nada da história. Ler este livro e me surpreender com os fatos, ter a chance de arregalar os olhos com as reviravoltas, são as coisas boas que os esquecidos têm. 
Pra alguns, o tempo é um furacão, que nos arrasta sem pressa. (p. 15)
A história do livro é bem interessante. Estamos numa sociedade onde as pessoas são feitas de barro ou de mármore. Os Filhos da Terra, como Eva, são frágeis, quebradiços; seu barro não pode ficar molhado por muito tempo; a única coisa que têm a seu favor é que eles têm os dois braços. Os Filhos de Vênus, por outro lado, são de mármore. São rígidos, fortes, bonitos de se ver, como Cláudio, o filho da rainha. O único porém é que eles nasceram sem braços e precisam escravizar os Filhos da Terra para viver.

O primeiro capítulo é um arraso! A narração é muito bem executada. Dá vontade de continuar lendo, de entender a razão das coisas, de ver o que vai acontecer com a escrava que vai trabalhar no palácio real e se apaixonar pelo príncipe, de como a sociedade estratificada foi criada e organizada. 

As descrições também são na medida, o autor faz um excelente uso da falta de descrições em vários momentos justamente para forçar o leitor a montar a cena na cabeça. Esse tipo de respeito à inteligência do leitor tem sido cada vez mais raro e por isso eu a apreciei bastante.

Pensando nos três pilares da escrita, tal como expostos por Stephen King (narração, descrição e diálogo), creio que a única falha mesmo são os diálogos. A maioria dos personagens são caricatos e os diálogos rasos, as reações são exageradas. Mas confesso que é possível superar essas dificuldades, porque realmente a narração é exímia.

Gosto bastante da informalidade com a qual o livro conta a história. Parece que de fato estamos ouvindo alguém falar com a gente, nos relacionamos com o texto que está cheio de trocadilhos (inclusive, até me pergunto se eles funcionariam em outro idioma — tendo a crer que não) e também cheio de brasilidades. Ainda que em alguns momentos me pareça que o autor forçou a mão para fazer caber algumas expressões, essa característica do texto é bem presente e torna a leitura fluida.

A princípio achei os capítulos curtos demais, porém creio que eles servem ao seu propósito e funcionam bem: falam o que têm que falar e fazem a história rodar. Por outro lado, alguns capítulos me parecem um pouco corridos demais. Não é que eles não funcionem como são, mas é que eu não me importaria em ter visto algumas cenas se desenrolarem com um pouco mais de calma, talvez com mais detalhes, com trejeitos que revelassem mais o personagem.

Porém, creio que a grande força do livro está na temática. A alegoria do livro é muito clara. A famosa luta de classes é bem evidente desde o começo e muito bem explorada no decorrer do livro por meio de símbolos. O livro explica seu mundo pelo simples fato de que alguém foi lá e fez, e isso criou um sistema ao qual todos se submetem. 

Nesse sentido, o livro é uma clara distopia: um sistema maior que obriga as partes a se comportarem de determinada forma e até molda suas expectativas sobre o que deveria ser ou não. Creio que o autor apresenta o marxismo de uma forma bem original que não tinha visto ainda.

Além dos diálogos, meu único porém é que acho que no epílogo o autor se explicou demais. O texto já tinha deixado tudo bem claro e algumas explicações finais soaram meio gratuitas. Também preferia que o autor não tivesse adicionado os posfácios, já que redundam no mesmo problema do epílogo.
Em outras terras, Vênus será uma deusa admirada pelos quatro cantos do mundo. A ela será destinado aposento digno de sua importância. O mundo inteiro vai admirar sua beleza. E quem olhar sua cara não exagerará seu coração de pedra. (p. 99)
Não obstante, esse livro é muito interessante. É um livro que nos prende, que, no mínimo, nos faz pensar sobre a condição humana ou a condição da sociedade. E como nos últimos tempos tenho lido bastante literatura brasileira contemporânea (vide as últimas resenhas postadas aqui), creio que tenho algum cacife pra dizer que estamos diante de uma admirável obra de literatura brasileira — coisa que não tem sido tão comum nos últimos tempos.

Ah, e por fim, só pra se ter ideia de como eu realmente havia esquecido do livro. Comecei a leitura pelo prefácio. Achei as primeiras frases bem interessantes, argutas de um jeito que me deu curiosidade de ler. Logo pensei: "Quem será que escreveu? Porque sei que o Aldenor gosta de convidar autores locais. Vou já ver quem é, fiquei curioso pra ler outras coisas escritas por esse autor."

Quem escreveu o prefácio fui eu.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Resenha — A vida breve dos cães

FREDERICK, Elton. A vida breve dos cães. Goiânia: Mondru, 2023.


Tomei um susto agora quando fui procurar a imagem da capa do livro no Google. É que não sabia que esse livro foi finalista do Prêmio Jabuti de 2024. Gente do céu, se esse livro é o finalista, não sei o que esperar da literatura brasileira. Ou, sendo mais brando, não sei o que esperar do Jabuti, talvez. Enfim, a resenha.

O livro conta a história de Isaque, Cecília e Isabel, nessa ordem e de forma alternada. Eles vivem numa sociedade onde foi passada a Solução 79, onde sacrificam mulheres de 79 anos e usam seu sangue como cura para crianças que sofrem de alguma doença não especificada. O livro narra o dia em que Isaque tem que levar Isabel para a eutanásia forçada e o dilema sofrido por ele e Cecília. 

A premissa é interessante, mas, pelo amor de Deus, o livro é muito chato de ler. É um vai e volta desnecessário, a narrativa não é linear e além disso ainda muda de personagem com frequência. Tenho que gastar mais tempo tentando identificar o quem e quando do que me concentrando no quê da história (que foi o que eu realmente me propus a ler). 

Só depois que fica claro quem é quem, mas até lá já começamos a olhar o livro com o canto dos olhos. Até porque, embora a narrativa fique um pouco mais organizada, nem por isso se torna menos chata. Os personagens então nem se fala. É triste de ler. É que eles simplesmente não têm progressão: é a feminista sempre revoltada, o introvertido banana e a idosa fundamentalista. São pintados dessa forma e temos que aturar isso até o fim. 

Não bastasse isso, o que mata mesmo é a narrativa chata. Cheia de detalhes e causos que contribuem muito pouco pra história. O autor não cumpre sua parte no acordo e fica levando a gente pra caminhos obscuros sem propósito. Me parece que o autor quer criar uma atmosfera, um ethos próprio. É o tipo de livro que está mais interessado em filosofar e criar ambientes de impressão do que de fato fazer o que um bom livro deve fazer: contar uma história

Esse é o tipo de livro que dá raiva de ler, porque a gente sente que só perdeu tempo. Pronto, taí. É o tipo de livro que professores obrigam alunos a ler e depois eles pensam: "Se leitura é isso, nunca mais eu quero ler na minha vida".

Pra se ter uma ideia, a história começa a ficar interessante na página 239, quando já se passou mais de 80% do livro — e se parar pra pensar, é exatamente nesse ponto que a história finalmente avança. Mas ainda assim esse ímpeto dura pouco tempo, porque logo o livro cai no marasmo de novo. Imagine aguentar 239 páginas de setup pra depois ainda não ser recompensado. 

Eu entendo o que o autor quis fazer, não é uma ideia errada; mas é que a execução foi péssima. Pra fazer bom uso da narrativa alternada, o autor precisa avançar a trama ao mesmo tempo em que usa as narrativas em tempos diferentes pra complementar o que acontece no presente. Tudo precisa contribuir para a história diretamente, não dá pra só ficar contando causos e pensar que isso preenche bem o espaço.

Pra não dizer que o livro não acertou em nada, acho que a temática, na medida do possível, foi bem representada. O livro tem um forte apelo à exaustão que muitas mulheres sofrem na sociedade atual. E ele é muito certeiro em mostrar a causa disso: a passividade masculina. Quando o homem não é o cabeça, a mulher perde a cabeça.

Mas é isso. Esse é o tipo de livro que me faz querer desistir de literatura contemporânea. Ainda bem que li outros esse ano que salvaram. É a vida.

domingo, 30 de novembro de 2025

Resenha — Knifepoint

ROBERTSON, Edward W. Kinfepoint. Kindle Edition. 2013.


O terceiro livro da série Breakers (primeiro livro aqui, segundo livro aqui) que consegui de graça na Amazon USA. O primeiro livro me pegou de jeito, o segundo achei ok. Nesse aqui, acho que o autor conseguiu recuperar o que tinha deixado de lado no segundo. À resenha.
"You are a very hard girl, Raina. Don't think that makes you the strongest." (p. 1104)
O livro narra o retorno de um personagem do primeiro livro, Walt, em sua jornada desde o México até o retorno à Califórnia, onde ele vai tentar eliminar o que restou dos aliens, a convite de um grupo de sobreviventes. Paralelo a ele, temos a história de Raina, uma garota que sobreviveu ao vírus sozinha e teve que ver seus pais adotivos levados por um grupo de sobreviventes com tendências imperialistas.

Como sempre, as duas narrativas se encontram no final (embora nesse aqui de modo mais discreto) e é bem satisfatório ver que o autor amarra as pontas soltas tanto quanto possível. Tem algumas forçadas na trama, mas não há dúvidas: o miserável é um excelente escritor. Talvez não seja uma literatura que vai mudar vidas, mas é uma leitura satisfatória, bem escrita, e que nos diverte.
It was marvelous, in its way, that it was easier to fight the aliens than to try to understand another human. (p. 1114)
Não tenho muito a dizer porque, em grande parte, o livro se assemelha aos outros dois da série, e imagino que os próximos também irão (a série tem oito livros!). Talvez valha mencionar que foi a primeira vez que o autor abordou alguma questão espiritual como parte do tema do livro (basta dizer que a Raina tinha seu próprio modo espiritual de ver o mundo). No mais, é sobrevivência, ver que os seres humanos são piores que os aliens, argumentos de que o ser humano está destruindo a Terra, etc, etc.

Infelizmente o defeito do livro permanece o mesmo. É que ainda neste livro percebemos a dificuldade do autor de fazer boas descrições no fim do livro. Acaba ficando latente demais. Tudo vira uma confusão, nunca dá pra entender direito o que está acontecendo, parece que o autor se perde nos labirintos que ele mesmo cria. 

Não obstante, o livro se paga. É bom de ler, meio cansativo em alguns momentos, mas ainda assim ficamos satisfeitos quando vemos a história se desenrolar. Gosto de livros que dão vontade de ler. Certeza que ainda vou ler esse autor no futuro. Até lá.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Pergunta honesta: tem alguém aqui mesmo?


Esse será um post bem diferente.

Tenho esse blog há 7 anos e nunca me propus a nada demais com ele. Surgiu simplesmente porque eu queria ter um lugar centralizado onde guardaria todos os meus textos publicados (já faz um tempo que esqueci de fazer isso), mas que acabou se tornando um diário de leitura pra todos os efeitos.

Aqui eu simplesmente anoto o que achei dos livros que li. Não é uma leitura profissional, não é uma leitura especializada. É tão somente uma leitura honesta. Escrevo para mim, pro Gabriel do futuro vir aqui e lembrar "Ah, foi isso mesmo! Foi isso que achei desse livro". Se posto o link das publicações no Facebook e nos status do WhatsApp, é só porque se tornou padrão compartilhar as coisas que escrevo.

Tendo dito isso, desconfio que o Google está me enganando, e por isso fiz esse post. É que, por curiosidade, depois de muito tempo sem fazer isso, resolvi clicar na aba "Estatísticas" do blog. E os números que apareceram simplesmente não fazem o menor sentido pra mim. Veja você mesmo (favor clicar na imagem, coloquei o maior que pude):


Esse é o registro da quantidade de visitas que o blog teve. 
0 seguidores: faz todo o sentido pra mim.
306 postagens: ok, eu escrevo um bocado de coisa. Em média uns 40 posts por ano.
43 comentários: ok, volta e meia aparece alguém. 
Agora... 47k visitas nesse tempo todo?? 533 esse mês? 2017 (Duas mil e dezessete) no último mês?! 

Não, calma lá. Aí não pode ser. A única explicação é que o Google tá me enganando. Mas o lance é que os outros gráficos parecem concordar com essa estatística. Olha esse, por exemplo:


Tá certo que visitas ao blog não são o mesmo que abrir um post, muito menos o mesmo que ler um post. Eu entendo isso. Mas, ainda assim... como é que mais de DUAS MIL pessoas passaram por aqui no último mês? É o tipo de coisa que não faz sentido pra mim. Esse blog não é nada, eu não sou ninguém. Mês passado eu só fiz dois posts, e ambos de livros que nem são conhecidos! Essa estatística só pode estar errada. 

Bom, fiquei claramente encucado com isso e resolvi fazer esse post pra tentar averiguar o que está acontecendo. Pensei em pedir pras pessoas comentarem, mas a verdade é que é meio chato de comentar no Blogger. Pensei em pedir para me mandarem mensagem no privado, mas isso também é muito trabalho na sociedade moderna e apressada de hoje. Então resolvi fazer o seguinte:

Por favor, clique no botão que está no fim desse post. Não é nada mais que um contador, é só pra eu ter uma noção real do que está acontecendo. E, sim, entendo que isso não será um teste real, porque talvez alguém tenha chegado no meu blog pra ver outro post, não esse que eu coloquei aqui. Mas isso foi a melhor solução que encontrei. Eu só fiquei curioso, é isso.

A pergunta é, de fato, bem honesta: tem alguém aqui mesmo?

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Resenha — Alice no País das Maravilhas

CARROLL, Lewis. Alice no País das Maravilhas. Arara Azul. Ebook. 2002.


Resolvi retornar aos clássicos e ler essa obra que é tão conhecida. Eu só não esperava descobrir que esse livro é uma absoluta loucura! Acho que nunca tinha lido um livro tão nonsense na minha vida — e olha que já li e sou fã de Guia do Mochileiro das Galáxias. À resenha.

A história já é bem conhecida. Trata-se de uma garotinha inglesa que, num dia a passear no campo com sua irmã, vê um estranho Coelho Branco correndo e entrando numa toca. Ela o segue e se vê num lugar totalmente misterioso, onde as leis da física não fazem sentido, e onde as pessoas fazem menos sentido ainda. Lá ela encontra o Gato, a Lagarta, o Chapeleiro Maluco, o Rei e a Rainha de Copas, a Falsa Tartaruga, o Grifo, Bill (o Lagarto) e vários outros personagens doidos.

Acho que nunca vi um texto que representasse tão bem o ponto de vista de uma criança. Embora tenha chamado isso de nonsense (o que, de fato é), talvez pudesse chamar de fantasia pura, onde as coisas não fazem sentido mas seguem uma estranha lógica interna, coisa que só criança tem.

Só pra dar um exemplo: em uma cena, Alice entra numa casa onde encontra a Duquesa. Esta tem um bebê nos seus braços, enquanto sua cozinheira está virando o zezeu na cozinha pra dar conta de tudo. Alice vê aquela bagunça e contempla a Duquesa cantando uma música para o bebê no braço. Mas então a Duquesa se cansa e arremessa o bebê no colo de Alice, se retirando da cena. Quando ela se retira, a cozinheira joga uma frigideira com óleo fervente na direção dela, mas erra. Alice então segura o bebê, mas percebe que ele virou um porco. Então ela solta o porco na floresta. 

O livro é cheio de loucura. Não tem outra explicação. Tudo é muito absurdo e maluco, as coisas que parecem fazer sentido, simplesmente não fazem. E isso fica ainda mais claro nos diálogos, que são um primor! O diálogo com o Chapeleiro Maluco é interessante, mas nem se compara aos diálogos com a Lagarta e o Gato. 
Ela esticou-se na ponta dos dedos e olho sobre a margem do cogumelo, seus olhos imediatamente avistaram uma enorme lagarta azul, sentada no topo da planta, com os braços cruzados calmamente fumando um narguilé, não dando bola nem para ela nem para mais nada. (p. 40)
É inevitável que façamos comparações com o filme da Disney que carrega o mesmo nome. Enquanto o filme omite algumas partes, é ao mesmo tempo surpreendentemente fiel. Na verdade, fiquei surpreso que a Disney conseguiu fazer um filme razoavelmente coerente a partir desse livro! A história é loucura total! Realmente o autor conta as coisas do ponto de vista de uma criança de um modo que não tinha visto ainda.

Já perto do fim do livro, Alice presencia um julgamento em que o Valete é acusado pela Rainha de Copas e o Rei preside o tribunal. O júri está todo reunido, e começam a chamar as testemunhas. Alice sugere que se chame a Duquesa, porém ela estava presa. Alice ficou curiosa para saber o que havia acontecido. O Coelho Branco explicou:
"Ela deu um murro nos ouvidos da Rainha...", o Coelho começou a contar. Alice disparou -a rir. "Oh, psiu!", o Coelho murmurou em um tom assustado. [...]" (p. 78-79)
De pontos negativos, ressalto que o livro tem muita música no meio (pequenas poesias infantis). Me pergunto se isso era característica de livro da época, porque lembro de ter visto isso na Sociedade do Anel e detestei (Tom Bombadil chato pra caramba), assim como detestei agora porque quebra todo o ritmo da narrativa. Tudo bem, entendo que é de outra época e escrito pra leitores de outro contexto — mas ainda assim me incomoda.

Além disso, é interessante ver como muitos dos personagens são orgulhosos. Estão sempre prontos a mostrar como são inteligentes ou espertos e como os outros são burros ou merecedores de chacota. Acho preocupante isso, mas entendo que é da natureza humana. Crianças também podem ser egoístas e más.

Enfim, o livro é sensacional. Adorei a leitura e valeu a pena. Como disse, parece que estava lendo um Guia do Mochileiro das Galáxias, mas do século XIX. Aliás, as aventuras de Alice conseguem ser ainda mais nonsense do que as de Arthur Dent. Acho que quem melhor resumiu tudo foi o Gato, e finalizo com as palavras dele:
"Mas eu não quero ficar entre gente maluca", Alice retrucou.
"Oh, você não tem saída", disse o Gato, "nós somos todos malucos aqui. Eu sou louco. Você é louca." (p. 59-60)

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Crônicas do cotidiano — XX

AEROPORTOS - III

Dessa vez não é tanto sobre aeroportos, mas sobre as coisas que as viagens em aeroporto nos proporcionam. É que pousei em Chicago e tive a oportunidade de ver a cidade pela janela. Uma reflexão se formou na minha cabeça.


Tenho um fascínio por pessoas e relações humanas. Acho muito interessante pensar na complexidade da vida e como cada vida é uma miríade de possibilidades, sonhos, vontades. 

Lembro que foi no começo da adolescência, quando pegava ônibus para visitar a Biblioteca pública de Roraima. Eu estava cansado, tive que andar bastante, estava quente, mas pelo menos eu estava indo pra um lugar com ar-condicionado. E de repente eu olhei para o ônibus lotado e tive a súbita realização de que todos ali tinham uma vida tão complexa quanto a minha. A senhora gorda do meu lado estaria indo pra onde? Aquele jovem com a bola, vai jogar em que praça? Aquele homem olhando pela janela com ar cansado, no que estaria pensando?

Desde então, não tive escolha senão contemplar as pessoas como muito mais que simples seres humanos, mas como verdadeiras vidas. Engraçado que foi justamente nessa época que se intensificou minha paixão por Érico Veríssimo, o autor que melhor capturou a essência da vida brasileira nos seus livros.

Tudo isso pra dizer que foi ali, olhando pela janela avião e contemplando a imensidão da cidade de Chicago, que tive novamente a mesma realização. Olha o tamanho desse assentamento humano. Centenas, milhares de pessoas. Quando na história teria se pensado em metrópoles tão grandes e complexas?

Via os carrinhos pequenos nas ruas, as casinhas que pareciam até de brinquedo, e não consegui evitar o pensamento, a curiosidade de conhecer as vidas que estavam dentro daquelas casas. Que dramas não se desenvolveriam naqueles espaços? Sorrisos e choros. Orgulhos e decepções. Naquela casa mora um idoso doente e solitário? Uma família com pais e filhos? O homem naquele carro está indo pra casa, pro banco? 

Tantas possibilidades e, ao mesmo tempo, todas elas reais. Pessoas que vivem, que enfrentam problemas, dúvidas,  pequenas e grandes alegrias. E pensar que era um país diferente, com pessoas diferentes, vidas diferentes. Mas, ainda assim, iguais. 

Quando penso nisso consigo entender um pouco por que Cristo morreu por e escolheu salvar pessoas. Trabalhar com gente é ruim, tem gente que a gente nem suporta. Mas, ao mesmo tempo, é bom. Seria isso um reflexo, ainda que deformado, do Deus relacional?

Acho que o problema de hoje em dia é a vontade ferrenha de apontar para as diferenças, quando na verdade somos muito mais parecidos do que somos diferentes. Precisamos todos da mesma coisa, tanto faz o lugar, o idioma, a condição financeira. 

Enfim.


terça-feira, 4 de novembro de 2025

Crônicas do cotidiano — XIX

PALAVRAS

Recentemente descobri uma nova expressão que caiu no meu gosto. Sou desses, me enamoro de expressões, canso delas, e logo as troco por outras que trazem de volta a novidade do primeiro amor, só pra depois me ver cansado delas e buscar novas. Um péssimo exemplo.

Gosto da versatilidade de "piriri". É um jeito fácil de falar sobre algo ruim, mas sem dar todo aquele peso. "Vish, ela vai já ter um piriri" é o tipo de coisa que a gente ouve, fica de olho na dita cuja, mas sabe que não vai ser aquele Deus-nos-acuda. Ou ainda "Isso vai dar um piriri depois" é como quem avisa que algo ruim pode acontecer, mas dá a opção da pessoa tentar e lidar com as próprias escolhas depois.

Mas "piriri" está saindo para dar lugar à maravilhosa "pipipi, popopo" (a última parte lê-se "pó-pó-pó").

Ouvi a expressão quando uma colega no grupo de escritores de Roraima disse que foi a um lugar tentar convencer as pessoas no comando a autorizar autores locais a venderem seus livros por lá. "Aí, vocês sabem como é, né? Falei com ela sobre a importância da literatura local, pipipi popopo, e deu certo."

Quando li aquilo fui tomado de um fascínio que não soube explicar. A expressão não é uma onomatopeia, ela não representa um som em si -- mas, ao mesmo tempo, sim. Trata-se da lenga-lenga tradicional do que já se sabe que vai ser dito e da reação que vai causar em quem ouviu. Sabe, pipipi popopo.

A expressão tem um carinho inerente a ela ao mesmo tempo que não cumpre função nenhuma na prática. Ela só preenche um espaço com um gesto linguístico cuja nuance é tão suave que só o português brasileiro pra ter uma coisa dessas. Se tirar da frase, o sentido continua totalmente o mesmo, mas quando acrescenta, traz um sabor totalmente diferente. Uma expressão que tem cara de Brasil.

Quando era mais novo adorava a palavra "maracutaia". Usava em qualquer ocasião. Supresa? "Gente, que maracutaia!". Dúvida? "Que maracutaia é essa?". Alegria? "E aí? Só na maracutaia?". Era outra palavra bem própria do brasileiro. 

Na minha época de representante discente na universidade, fazia questão de falar essa e outras expressões nas reuniões, ainda mais quando os professores mais sisudos compareciam. Eventualmente utilizava a variação "marmota", só pra variar um pouco.

Mas maracutaia caiu no meu desuso, passou-se o tempo dela. Deu piriri. Mas, sabe como é, né? Trata-se de um ciclo, da ânsia da novidade e do tédio de tê-la. Uma hora ou outra vou querer outra expressão, porque me canso dessas que já conheço. É aquilo, né? A gente nunca tá satisfeito com o que tem, pipipi popopo.



domingo, 2 de novembro de 2025

Crônicas do cotidiano — XVIII

AEROPORTOS - II

O aeroporto de Chicago me surpreendeu negativamente nessa visita. Mas, honestamente, não foi culpa dele, mas da United Airlines.

Esses aeroportos mais ao norte, pelo menos na minha experiência têm os melhores Port of Entry para os EUA. Digo isso porque os aeroportos mais próximos do Brasil (Orlando, Fort Lauderdale) ou mais conhecidos (Los Angeles, Nova York) geralmente têm um trânsito de estrangeiros muito intenso. Já chegamos a gastar uma hora inteira na fila da segurança em Orlando. 

Mas Chicago ou Minneapolis, por exemplo, raramente são destinos turísticos mais procurados. Como resultado, as filas são bem menores e os agentes de imigração são mais solícitos (pelo menos na maioria, quando está tudo lotado não dá pra contar com isso), o ambiente de modo geral é mais leve e agradável. 

Sem falar que tanto Chicago quanto Minneapolis têm aeroportos fantásticos e completos. Chicago tem metrô que passa dentro do aeroporto, é só pegar e dá pra visitar a cidade quando a escala for longa. Minneapolis é muito bonito e equipado, um verdadeiro shopping. Acho que Minneapolis ganha de Chicago só porque este último me parece ter um trânsito maior de aeronaves. Como resultado, é comum o avião pousar mas ainda ficar uns 15-20min taxiando antes de conseguir de fato desembarcar os passageiros.

Já escrevi sobre Chicago e Minneapolis antes e minhas impressões sobre as cidades (nesse post aqui), então vou só lembrar que tenho uma quedinha por Chicago porque ela é meio bagunçada. Ou seja, me lembra o Brasil.

Meu único desagrado nessa viagem foi que a United primeiro me colocou no portão B-12. Caminhei até ele, me estabeleci por perto e... vish... mudaram para o E-14. Ok, 15 minutos de caminhada, vamos para ele. Cheguei, estabeleci-me... acho que não tinha dado 20min que eu havia chegado... vai pro C-30, 20min de caminhada. Olha, foi de lascar. Pra quem á viajando desde a 1 da manhã, a última coisa que eu queria era fazer cardio em aeroporto.

Só vou perdoar porque cada caminhada dessa foi um passeio. Teve dinossauro, enfeites bonitos no teto, e até um corredor comprido meio psicodélico. Apesar da chateação, a peste do aeroporto é tão bonito que acabei passando pano. 

Enfim, finalmente estou no portão certo, a tia está anunciando que vai começar o embarque. Graças a Deus.




sábado, 1 de novembro de 2025

Crônicas do cotidiano — XVII

AEROPORTOS - I

Depois de uma noite de sono muito mal dormida, mas estando estranhamente descansado e disposto, resolvi que seria interessante registrar algumas impressões das muitas viagens em que me meto. Aeroportos me são cansativos, então por que não falar deles.

Primeiro, é que muito me causa espécie (velho Ministro Barroso) como um embarque internacional pode ser tão ruim num aeroporto. Naturalmente me refiro a Manaus. 

É um espanto da natureza que na segurança haja apenas UM guichê para receber todos os 300 passageiros que vão embarcar. É evidente que vai se formar uma fila monstra e as pessoas vão ficar impacientes (ainda tem o lance também de que o brasileiro de modo geral não conhece as regras de viagens internacionais -- o que atrasa ainda mais o meio de de campo). 

Além disso, queria entender por que se faz tanto concurso público pra Polícia Federal e quando chego lá só tem UM guichê na imigração aberto. Verdade seja dita, havia cinco guichês, mas só um funcionando. Faz uns três anos que passo por esse embarque internacional umas duas a três vezes por ano e nunca tem mais que um guichê. Novamente, é evidente que vai se formar uma fila monstra e atrasar o embarque de todo mundo. 

Fico me questionando se isso é um reflexo de Manaus ou do Brasil de modo geral. O descaso assusta um pouco, especialmente quando percebemos que o povo se acostuma com ele. É meio absurdo, mas o que para uns é um espanto da natureza, para outros é só mais um dia no aeroporto.

Em suma, cheguei no Aeroporto à uma da manhã e quando fui embarcar já estava na última chamada — às 3h da manhã. Eu hein, meu povo. Já não bastasse esse horário maldito de voo, ainda se tem que lidar com a incompetência generalizada. 

É triste, é triste.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Resenha — Livro sem nome

PASSOS, Paulo Henrique. Livro sem nome. São Paulo: Patuá, 2023.


Da categoria "livros que decepcionam" e "Meu Deus, por que eu gastei dinheiro com isso", somado a "Poxa, o começo foi até bom" e "Engraçado que colocaram só o começo como amostra grátis". Enfim, a resenha. 

O livro conta a história de Layla, se é que podemos dizer que conta a história. Primeiro preciso reconhecer que o autor faz um excelente uso da técnica de revelar o personagem sem precisar sequer usá-lo. No começo, somos apresentados à Layla sem nunca ouvi-la falar ou agir, simplesmente vemos como as pessoas ao seu redor falam ou reagem a ela. Isso foi muito bem feito e foi o que capturou minha atenção. Porém, logo a gente vê que tem algo errado. 

No afã pós-modernista, onde não se conta uma história, mas insere-se o leitor numa "experiência", o livro vai perdendo a mão. Layla resolve parar de falar (porque sim), depois de ouvir, de ver, até ficar incomunicável e no fim do livro resolver falar. Tudo isso porque sim. Não tem nenhuma explicação maior, não tem mal uma exploração bem feita.

São vários os problemas do livro. Primeiro que vai ficando cada vez mais místico e sem sentido. De repente já não tem mais narrativa, é puro lirismo em prosa sem nem fingir. No fim tenta consertar, mas já é muito tarde.

Assim, eu até entendo que a ideia do autor era usar a estrutura do livro e fazer a história perder cada vez mais a sanidade porque é uma meta representação da personagem apresentada na primeira parte. O problema é que isso é uma quebra de contrato com o leitor. Não há transição, não dá nem tempo da gente se importar direito com a personagem, mal somos apresentados a ela. No fim, quando o livro volta ao contrato inicial, já nos sentimos traídos e que perdemos nosso tempo.

Justamente por causa dessa falta de trabalho com a personagem, o livro sofre com coerência também (coesão? Ou verossimilhança? Não sei ao certo a palavra). É que a personagem Layla, a muda por escolha, é tratada como se fosse uma espécie de grande guru no fim das contas. Como se o seu silêncio voluntário por toda a vida tivesse trazido a ela uma iluminação especial ("ela ouve o silêncio", coisa do tipo) e depois que ela resolveu falar, tudo que dizia era ouro.

Se o autor pelo menos nos convencesse de que há algo espetacular no que ela fala, algo no mínimo curioso, quem sabe poderíamos dar o braço a torcer e ignorar a loucura momentânea que o livro nos jogou. Mas nem isso. Somos forçados a acreditar que os personagens estavam maravilhados com o que Layla dizia, que jornalistas e milhares de pessoas ficaram atentas para ouvi-la falar.

No fim das contas, pareceu que eu tava lendo um livro escrito pelo Menino do Acre. E mal escrito ainda.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Resenha — Meltdown

ROBERTSON, Edward W. Meltdown. Kindle Edition. 2013.


Achei que começou muito bem, mas depois ficou cansativo. Essa é uma continuação da série "Breakers" que já resenhei antes, então não vou explicar a premissa, mas vou direto ao ponto do que achei.

Como falei, o começo foi ótimo. O autor entendeu uma coisa muito valiosa: não é preciso reinventar a roda quando se vai escrever uma sequência. Se a primeira fórmula funcionou e é sólida, não há problema algum em usá-la de novo. Dito e feito, a estrutura imita o primeiro livro e dá gosto de ler igualzinho o outro.

Creio que na primeira parte do livro o autor trata a morte de um certo ente querido de modo muito superficial. A vida dos personagens continua como se nada tivesse acontecido. Vejo isso como uma falha grave de verossimilhança. Se tem uma coisa que pode mudar as pessoas, é a morte. Em outro ponto, o autor traz no personagem principal um defeito difícil de narrar: inércia. Ele tem dificuldade de agir, medo, preguiça. Em tese, esse problema é grande demais para usar em uma narrativa, porque impede a história de ir adiante. Mas devo dizer que o autor fez muito bem, forçando o personagem a agir, indo contra sua própria natureza

Ressalto que, mais uma vez, o autor acerta na transição da normalidade para o caos. Em muitas histórias de fim do mundo, tudo é muito abrupto, quase forçado; mas aqui soa muito natural (o que é ainda mais assustador). 

Quanto ao enredo, a princípio não estava muito animado em ver que a história vai só contar o mesmo do primeiro livro, mas sob outra ótica. Gosto de ter novos personagens, mas preferiria vê-los em novos eventos. Mas conforme fui lendo, mudei de ideia. A narrativa do cara é simplesmente boa demais. E o fato de que eu já sei o que vai acontecer (em certa medida), na verdade me traz uma nova camada narrativa: é que eu estou um passo à frente dos personagens, e fico curioso pra saber o que eles vão fazer frente aos acontecimentos.

A princípio, o autor mantém os acertos, mas também os erros do primeiro livro. Narração e diálogos excelentes, mas descrição complicada e confusa em alguns momentos (e momentos que julgo serem mais cruciais ainda por cima).

E pra mim foi no enredo que surgiram os problemas, porque eu acho que o autor mudou as regras do jogo do meio pro fim do livro. Se ele ia contar a mesma história do primeiro livro, beleza, eu compro a parada. Mas de repente ele continua a história sem considerar bem os eventos do primeiro livro, aí me perdeu.

Me perdeu porque mudou todo o teor da história. De repente não são mais humanos vs aliens, mas humanos vs humanos. Aquela velha ladainha de que os humanos são tão ruins que além do perigo externo, precisam lutar entre si. A premissa é ainda interessantezinha até, mas me perdeu. Não queria ler uma história de sobrevivência dessas, quando o próprio autor me propõe uma coisa diferente no começo.

Enfim, dei graças a Deus quando terminou. Deixaram um gancho no epílogo, trazendo de volta um personagem do primeiro livro, mas, honestamente, por enquanto não quero nem saber. Quem sabe no futuro eu termine essa trilogia. Por enquanto, fica lá na estante do Kindle mesmo e olhe lá.


Leituras concluídas — não-ficção

Não vou fazer resenha, só deixar marcados aqui uns livros que li nas últimas semanas, pela ordem.


TRIPP, Paul. Vocação perigosa. São Paulo: Cultura Cristã, 2014.


LOPES, Augustus Nicodemus; LOPES, Minka Schalkwijk. A Bíblia e sua família. São Paulo: Cultura Cristã, 2011.


ELLEN, Nicolas. Autoestima, autoimagem, amor-próprio: como substituir biblicamente a autoadoração pela autoavaliação. São Paulo: NUTRA Publicações, 2013.


WILSON, Douglas. Alegria no limite das forças: a inescrutável sabedoria de Eclesiastes. Brasília: Monergismo, 2015.


POWLISON, David. Vencendo a ansiedade: alívio para pessoas preocupadas. São José dos Campos: Fiel, 2021.


________________. Falando a verdade em amor. São Paulo: Cultura Cristã, 2011.


Breve comentário:
  • Bom: "Vocação Perigosa" do Paul Tripp
  • Ok/conteúdo básico se já tem alguma leitura:o do Nicodemus, os dois do Powlison e o sobre autoestima (este último quase bom)
  • Ruim: o do Wilson sobre Eclesiastes

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Crônicas que eu não deveria publicar — 5

AMIGOS SE VÃO E AMIZADES DESAPARECEM — EU NÃO SABIA

Eu tinha um grupo de amigos que cultivei desde o Ensino Fundamental, gente com quem eu me encontrava todo dia, com quem eu compartilhava uma boa parte da minha vida. A escola passou, mas seguimos com nossa amizade. Tínhamos um grupo de WhatsApp onde nos falávamos todos os dias, compartilhávamos memes, discutíamos assuntos do dia a dia. Devagar isso acabou, e eu percebi só quando já era bem tarde.

Todo mundo diz que isso acontece, que as pessoas mudam, e que eu mudo também. Mas a verdade é que eu não vi isso acontecer. De repente era só eu mandando mensagem no grupo, de repente era só eu puxando os mesmos assuntos, enviando os mesmos memes... e ninguém respondia.

Nas raras vezes que nos encontrávamos presencialmente, percebia que os outros amigos não estavam tão distantes quanto eu. É que eles ainda se encontravam, ainda trocavam mensagens, desenvolveram outros círculos onde ainda estavam juntos, ou simplesmente conversavam entre si. Estranho pensar assim, mas a verdade é que fui devagar sendo deixado de lado. Não de propósito, claro. É que eles mudaram, mas mudaram juntos — e eu continuei o mesmo.

Nas fotos das redes sociais, eles aparecem juntos. Acho que minha presença talvez nunca tenha feito muita diferença na vida deles, acho que eu precisava deles mais do que eles precisavam de mim. E talvez tenha sido um erro meu dedicar tanto tempo e energia a essas amizades (embora parte de mim não acredite nisso, não creio que eu tenha feito nada de errado). 

De repente ficou muito evidente que eu estava a todo custo tentando manter vivo um círculo de amizades que já tinha seguido em frente. Eu fiquei pra trás, vendo-os no espelho retrovisor do carro à frente. Fiquei correndo atrás do carro de um jeito que ficou até feio, tentando forçar encontros onde ninguém aparecia, puxar conversa com quem não responde, enviar memes aos quais ninguém reage. Eles não fazem questão de mim, não posso querer que eles façam.

Acho que não tenho direito de culpar meus amigos por terem seguido em frente. Acho que não é com eles que estou chateado, mas comigo mesmo em não perceber, em acreditar cegamente que amizade é algo que você luta pra manter, que você cultiva. A intensidade é característica das Altas Habilidades, não posso exigir que os outros façam o que eu faço ou sejam como eu sou. Talvez, para alguns, o destino seja realmente ficar só. 

Bom, mas agora é seguir em frente, eu penso. Em vez de dar murro em ponta de faca, vou precisar cultivar novas amizades, encontrar outras pessoas com quem eu possa compartilhar minha vida. É triste ver amizades de 15 anos sumirem? Sim, é. Mas aparentemente amigos se vão e amizades desaparecem — eu só não sabia.



sábado, 6 de setembro de 2025

Crônicas que eu não deveria publicar — 4

DA VEZ QUE FIZ TESTE PARA AUTISMO, MAS O RESULTADO DEU OUTRA COISA

Tudo começou porque minha esposa adora ver as blogueiras do Instagram. E aí vem o algoritmo e o céu é o limite. Moda, dicas de culinária fitness, móveis, pintura, saúde mental. Neste último tópico, aparece de tudo um pouco também: ansiedade, depressão, TDAH, outros transtornos neurodivergentes como autismo... 


"Ei, espera aí..." ela pensa, enquanto assiste a um reel no Insta sobre autismo. "Meu marido tem várias dessas características! Ele não tem um bom trato social, anda na ponta dos pés em casa, tem uns comportamentos meio estranhos..."

Pronto. Depois disso, ela se convenceu de que eu era autista. Bastava eu fazer alguma coisa estranha em casa, ou falar alguma das minhas maluquices, lá vinha ela: "Autista!" ou então "Se bem que tu tem autismo, né?". Ela não falava para ofender, era só uma brincadeira. Mas eu estava convencido de que ela estava errada. "Eu não tenho autismo!", dizia. "Ah, tá", ela respondia, irônica.

Isso durou até o dia em que eu enchi o saco e me toquei que eu pago plano de saúde (e caro!). Pesquisei o que precisava e descobri uma excelente clínica aqui que se especializou em diagnósticos do espectro autista. Consegui um encaminhamento médico e fui bater lá na porta da neuropsicóloga. Agora a gente vai ver.


#Das consultas

Cheguei lá e já fui dizendo: "Doutora, eu estou aqui porque minha esposa acha que eu sou autista, e eu quero provar pra ela que eu não sou!". Ela sorriu e me fez várias perguntas. Sobre minha infância, se eu tinha dificuldades na escola, nas amizades, no trabalho... E a tudo eu respondia: "Pelo contrário". Sempre tive facilidade na escola, creio que faço amigos com facilidade, e de modo geral julgo ser eficiente no que me proponho a fazer, especialmente em relação às artes.

— Hum... interessante — ela diz, enquanto escreve algo na prancheta. — Gabriel, você já ouviu falar de Altas Habilidades ou Superdotação? 
— Ah... já... 
— Tudo bem. Nas próximas consultas vamos iniciar uns testes pra ver o que está acontecendo.

Durante o próximo mês e um pouco, voltei ao consultório várias vezes e fiz uma bateria de testes. Tinha de tudo um pouco. Tinha um que eram uns cubinhos e tinha que montar, outro era uma sequência de letras e números que tinha que decorar e repetir separadamente, e ainda alguns testes de personalidade. Uma desgraça. Eu chegava às 17h no consultório, depois de um dia inteiro de trabalho (em inglês!) e ainda tinha que fazer testes e testes.

Eis alguns dos testes que fiz: A) WASI - Escala Wechsler Abreviada de Inteligência para Adultos; B) WAIS-III - Escala de Inteligência Wechsler para Adultos; C) FDT - Teste dos cinco Dígitos; D) BDA- Bateria Diferencial de Atenção; E) SRS-2 – Escala de Responsividade Social adulto (autorrelato e heterorrelato); F) Teste Quociente Autism-Spectrum (AQ) Adultos; G) Escala de Avaliação de Ansiedade de Hamilton; H) Escala de Hamilton para Avaliação de Depressão; I) BFP – Bateria Fatorial da Personalidade; J) Inventário de Altas Habilidades e Superdotação para Adultos (Iahsa). Lista retirada direto do laudo que recebi.  



#Do resultado

Deu que eu sou retardado, mas ao contrário.

Primeiro que não deu autismo. Tive o privilégio de ser atendido por uma excelente profissional. Nas palavras dela "um único sintoma não é suficiente pra fechar um diagnóstico". Sei que é óbvio, mas hoje vivemos uma febre de laudos, de profissionais que nem se dão ao trabalho de fazer uma investigação adequada. Dr. Gabrielle Brito foi bem enfática em dizer isso — até porque, o resultado não é só pela observação, mas corroborado por todos os testes que fiz.

Autistas têm dificuldade em ler situações sociais de modo geral. Embora meu filtro social possa ser um pouco falho, não é suficiente pra explicar, especialmente porque tenho facilidade com relações sociais de modo geral. Mas se não é autismo, como explicar as características no mínimo peculiares que apresento?

É que, sim, sou neurodivergente. Meu cérebro interpreta a realidade de uma forma específica. Uma dessas formas é a hipersensibilidade. Eu ando na ponta dos pés porque o contato com o chão gelado me incomoda. Eu uso os dentes pra puxar a comida do garfo porque não gosto do toque do talher nos meus lábios. Costumo fazer e sentir coisas com intensidade, porque é assim que meu cérebro é.

Como já dei a entender, o resultado deu que tenho Altas Habilidades/Superdotação (o termo técnico é esse mesmo AH/SD). No caso, são Altas Habilidades Cognitivas e Criativas, Motivação e Determinação, bem como Habilidades Sociais e de Liderança. Cada pessoa com Altas Habilidades tem sua combinação de áreas, nem todo mundo é igual nesse sentido.

Não chego a ser um gênio. Detesto números que nos definem, mas um gênio tem um QI de 160 pra cima. O meu QI geral é de 127, enquanto meu QI verbal é de 138. A escala de QI engana um pouco, porque ela não é linear como intuitivamente se pensaria. Por exemplo, a média da população geral é de 100, então um QI de 127 ou 138 não parece muito distante da média. 

Mas aí quando você descobre que um chimpanzé tem um QI de 70, a coisa ganha outra proporção. A distância de um QI de 70 pra 100 é um abismo! Na hora eu não tive noção dessa diferença, por isso não acreditei quando a médica disse que um QI de 138 é maior que 99% da população na minha idade. Eu jurava que ela estava exagerando, mas aparentemente, neste quesito, esse QI é "extraordinário".


Aparentemente, minha velocidade de processamento, atenção geral, leitura e contagem também estão nessa categoria de 90 a 99% acima das pessoas na mesma faixa etária, bem como memória operacional e semântica. A única categoria em que estou na média geral da população é habilidade visuoconstrutiva (ou seja, sou ruim em coisas visuais, mas isso não é segredo pra ninguém).


#Tá, mas e daí?

Naturalmente, esta é a pergunta que se segue. Meus anos de formação já se foram. Eu já sou quem eu sou. Que diferença pode fazer esse diagnóstico?

A primeira coisa é que me ajuda a abraçar quem eu sou. Sim, eu sou meio louco, porque 99% das pessoas pensam diferente de mim. Isso não é um problema, como sempre pensei, é simplesmente quem eu fui feito para ser. Se minha força reside na criatividade, nas habilidades cognitivas relacionadas à linguagem, então é hora de fazer uso disso com toda a minha força. Esse é quem Deus me fez para ser.

Segundo, preciso entender minhas limitações e trabalhar nelas. Porque a velocidade de raciocínio é mais rápida que a maioria das pessoas, tendo a tratá-las com impaciência, como se elas tivessem a obrigação de ter chegado à mesma conclusão que eu, na mesma hora que eu. Acontece que sou neurodivergente, meu cérebro processa a realidade de modo diferente. Preciso aprender a respeitar o tempo dos outros, lembrando que o valor de um ser humano não está ligado à inteligência ou à velocidade cognitiva dele. O ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus, e merece respeito como tal. 

Terceiro, preciso estar ciente de todas as defesas psicológicas erradas que construí durante a vida. Como sempre fui diferente, passei a depender menos dos outros e cada vez mais de mim mesmo, criando a ilusão de que eu era autossuficiente. Acontece que ninguém é, e não fomos criados para ser. Além disso, minha busca por "iguais" ou "pares" sempre me deixou frustrado. Eu nunca encontrei ninguém igual a mim. Isso é pedir muito? Aparentemente, é sim. Tem 1% de chance de eu conseguir isso. Em vez de me render à solidão, tenho que aprender a amar e viver bem com as pessoas que estão ao meu redor, mesmo se elas forem muito diferentes de mim, começar a entender que as coisas não são só "sobre mim". 

Por fim, penso que o diagnóstico me abre os olhos para que eu possa ajudar outros. Quem sabe quantos outros com Altas Habilidades estão escondidos por aí? São de 3-5% da população, mas estão aí. Mesmo eu não tendo esse diagnóstico nos anos de formação, consigo ver que Deus ainda me permitiu fazer muita coisa. O diagnóstico não define, mas ajuda. Imagine o potencial que uma criança com Altas Habilidades pode ter. 


Categorizei esse texto como uma "crônica que eu não deveria publicar" porque entendo que a linha entre a arrogância e a autoconfiança é muito tênue. Não quero flertar com essa linha. Consigo ver que na minha infância e adolescência eu era extremamente arrogante e soberbo. Sob essa perspectiva, não foram tempos bons, e eu não quero voltar a eles. Esse diagnóstico é para me ajudar a ser uma bênção e ajudar outras pessoas, é isso. Que não passe disso. 

Deus, me ajuda a ser quem o Senhor me criou para ser: imagem de Cristo para brilhar a tua luz na vida de outras pessoas por meio de quem eu sou. Da criatividade, da loucura, da beleza da Tua glória refletida em mim. Soli Deo Gloria.