quinta-feira, 23 de abril de 2026

Resenha — O homem não foi feito para ser feliz

MENDES, Maurício. O homem não foi feito para ser feliz. Goiânia: Mondru, 2025. Ebook.


Tá, vamos lá. Decidi voltar ao mergulho na literatura brasileira contemporânea, na tentativa de encontrar algumas pérolas no meio desse mar de possibilidades. Não seria a primeira vez que aconteceu, já tive a oportunidade de ler algumas coisas bem boas. Mas não foi o caso aqui.

O livro conta a história de Germano, um médico negro que mora em Fortaleza, tem uma vida regrada a prostitutas, descontentamento com tudo e mania de perseguição. Germano não é um personagem carismático, e só continuamos a leitura pela curiosidade, não porque nos importemos com ele. Na verdade, nenhum personagem é muito bem escrito aqui.

Mas, antes, vale dizer que a narração do livro é bem feita. O autor tem no mínimo um bom grau de conhecimento da técnica ou uma boa intuição do que quer contar. O problema é essa moda hoje na literatura brasileira em que a narrativa é vista como secundária. Em vez de contar uma história, o personagem principal se resume a ficar em devaneios e flashbacks, entremeados por um fio narrativo mínimo.

Por isso, a trama sofre muito. Praticamente não tem história. A descrição bem feita é quase inexistente, ela via de regra não acrescenta nada ou muito pouco à cena; mas o pior mesmo são os diálogos horríveis. Personagens que não conversam, parece que representam uma peça de teatro, com uma ou outra exceção. Me parece que o autor está mais preocupado em colocar frases de efeito na boca dos seus fantoches do que em de fato deixar eles viverem.

Como falei, o personagem principal é chato. É um daqueles que está sempre reclamando, não tem quem aguente ficar perto. Na verdade, é triste. O personagem vive descontente com a vida, vive em função dos outros e da sociedade, critica tanto a família tradicional, mas sofre muito justamente por não tê-la, enquanto racionaliza sua escolha de todas as formas que consegue.

Quanto aos temas que o livro aborda, creio que o melhor trabalhado seja o menosprezo à mulher. O personagem trata as mulheres como objetos sexuais, ignorando aspectos humanos, mesmo quando eles são evidentes. Me lembra um pouco o Vampiro de Curitiba, de Trevisan (e não, isso não é um elogio). Digo que esse é o melhor trabalhado, porque esse pelo menos é contado pela história (até certo ponto) e não pelo próprio narador. 

Não tenho problema com livros que defendem ideologias ou questões sociais (basta ver minha resenha de Filhos de Vênus), mas tem que saber trabalhar o tema.  Aqui o autor se propõe à temática do racismo, mas é muito "tell" e pouco "show". Parece que ele quer obrigar a gente a concordar, em vez de contar uma história e ressaltar a questão racial por meio da narrativa. Se você quer trabalhar um tema na sua história, por favor, deixe que a história o faça.

Tendo dito tudo isso, o pior ficou pro final, quando o livro acabou e eu fiquei: "Não é possível que acabou. Sério que é isso mesmo?". Nem se dar ao trabalho de carregar a narrativa até o final o livro se deu. Entendo que talvez tenha sido uma escolha criativa... mas, do meu ponto de vista, não necessariamente uma boa escolha criativa.

Enfim, comprei numa promoção da Amazon e forcei a leitura pra acabar o quanto antes. Infelizmente não recomendo.

sábado, 18 de abril de 2026

Resenha — O Conde de Monte Cristo

DUMAS, Alexandre. O Conde de Monte Cristo. Montecristo Editora, 2023. Ebook.


Bom, a verdade é que nem sei por onde começar. Li esse livro no começo da vida adulta, há uns bons 15 anos. Eu já sabia o que me esperava, eu já sabia que ele não era bom, não, mas que era muito bom. Depois de mais de 1900 páginas, aqui estou eu. Vamos à resenha.
A alegria causa um efeito estranho, oprime como a dor. (p. 65)
É preciso iniciar dizendo que esse livro é um absurdo de bom, por muitos motivos. Vamos começar falando da genialidade dos autores. Sim, no plural! Acontece que Alexandre Dumas não escreveu esse livro sozinho, mas trabalhou em parceria com Auguste Maquet, que foi quem fez todo o roteiro do livro! Coube a Dumas adicionar os diálogos e descrições que ele faz tão bem.

Pra mim, honestamente, foi Maquet o grande gênio aqui. Porque é um absurdo que se consiga manter o leitor vidrado na leitura por quase duas mil páginas! Imagina o esforço colossal que é manter um leitor engajado com o texto num livro simples de 200 páginas, avalie num que é dez vezes maior que isso! Imagine ainda isso em 1844-1846, sem computador, sem inteligência artificial!

A trama do livro é muito interessante. Acompanhamos a história de Edmond Dantès, um jovem francês honesto e honrado, que tem a sua vida destruída por pura inveja e injustiça. Dantès é preso, mas depois retorna a Paris como o Conde de Monte Cristo, revelando sua identidade aos poucos, conforme exerce sua vingança sobre todos os que o injustiçaram

O livro segue uma estrutura muito clara em quatro partes, com uma quebra temporal no meio. Temos a vida inicial de Dantès; seu tempo na prisão; depois uma quebra temporal onde toda a preparação dele acontece fora de cena; então ele retorna como Conde para executar sua vingança aos poucos; e no fim do livro executa de maneira tremenda tudo o que planejou. O esquema seria algo assim:
Traição → Esperança || Preparação || Execução → Vingança
Desnecessário repetir que é muito bem escrito. A trama é cheia de reviravoltas inesperadas, de revelações antecipadas e cada capítulo contribui com a história de modo geral. Aliás, achei notável que, apesar da história ser sobre Dantès, os personagens secundários dão vida e cor ao livro também. Diria até que, sem eles, a história não seria a mesma. 

Aliás, esse livro tem um dos meus personagens favoritos: o Abade Faria. O homem que Dantès encontrou na prisão, mas que transformou a vida dele por completo. O homem que abdicou e deu toda sua vida, seu conhecimento, sua riqueza, tudo de si a Dantès. Um dos personagens que mais me fez chorar. 
Este tesouro lhe pertence, meu amigo — declarou Dantès. — Pertence-lhe só a si, e eu não tenho nenhum direito a ele. Não sou parente.

— Você é meu filho, Dantès! — gritou o velho. — Você é o filho do meu cativeiro, pois o meu estado condena-me ao celibato. Deus o enviou para confortar ao mesmo tempo o homem que não podia ser pai e o prisioneiro que não podia ser livre.

E Faria estendeu o braço que lhe restava ao rapaz, que se lhe agarrou ao pescoço chorando. (p. 280)
Um último ponto quanto ao texto em si, é sobre a edição. Por favor, não comprem nada da Editora Montecristo. Edição cheia de erros de ortografia, pontuação, e até palavras que parecem não existir. A impressão muito forte que me passou é que foi uma tradução feita por inteligência artificial, sem nenhuma verificação humana. Repito: não comprem nada da Editora Montecristo.

Por fim, evidente que o grande tema do livro é vingança. Tudo é sobre a injustiça que Dantès sofreu, e a devida reparação que ele fará. O Conde é como uma força da natureza. Move-se devagar, sem pressa, mas é inevitável. A mudança do personagem principal é lenta, mas contada com cuidado. Não nos cansa, mas aumenta nossa antecipação.

Dantès se enxerga como uma força da Providência divina, como se ele fosse uma espécie de escolhido de Deus para fazer justiça na terra, mas é só uma desculpa. Embora seja impossível negar que foi muita coincidência ele conseguir tudo que conseguiu, vê-se claramente que o seu desejo é vingança.

Achei interessante que a vingança contamina o leitor a tal ponto, que ficamos desapontados quando ela não é tão feroz quanto prevíamos, ou, pior, quanto gostaríamos. Do meu ponto de vista, teve uns dois personagens ali que acho que mereciam pior do que o que o Conde lhes proporcionou. Acho que o livro serve até pra mostrar a maldade do meu próprio coração.
Vivam, pois, e sejam felizes, filhos queridos do meu coração, e nunca esqueçam que até ao dia em que Deus se dignar desvendar o futuro ao homem, toda a sabedoria humana residirá nestas palavras:

Esperar e ter esperança!

Seu amigo, 
Edmond Dantès
Conde de Monte Cristo.
(p. 1909)
Enfim, essa é uma obra sensacional, deveras atemporal. Li-a no começo da vida adulta, li de novo agora e tenho certeza de que lerei de novo no futuro. Não tem como, é uma história fantástica. Recomendo demais a todos que leiam também — se possível, numa boa edição.